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Posts marcados com ‘Jair Silva’

ago
19

O Movimento Negro de Campina Grande – PB, que celebra neste ano 26 anos de resistência e luta, promove para toda sociedade campinense, movimentos sociais, ONGs, estudantes, educadores, gestores escolares, umbandistas, candomblecistas, capoeiristas e estudiosos(a) e pesquisadores(a) da história e cultura  afro-brasileira e indígena, o Projeto Agosto para Igualdade Racial que está acontecendo desde o dia 03 e vai até o dia 25 desse mês, no Mini-teatro Paulo Pontes do Teatro Municipal Severino Cabral, situado na Avenida Floriano Peixoto, no Centro de Campina Grande-PB.
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jun
29

Por jair Silva

OLODUM, O NEGRO E A HISTÓRIA

Particularmente, as letras e as canções da Banda Reggae Olodum sempre me fascinaram, sobretudo pela maneira simples e inteligente de combater o racismo, resgatando as múltiplas contribuições históricas e culturais dos agentes sociais excluídos pela historiografia eurocêntrica e oficial, do Brasil.

Na verdade, como diz uma das letras musicais do Movimento Negro Olodum- A Força dos Deuses: “Salve o Olodum, Historiador”. Partindo dessa perspectiva crítica ao afirmar ser conhecedor da história, evidentemente que o Olodum produz para o mundo uma história engajada, cujo objetivo é a recuperação da identidade do negro no Brasil, já que as referências históricas positivas da população negra e mestiça são sistematicamente excluídas da cultura histórica ocidental, pois apagar a memória do nosso povo negro sempre foi uma estratégia cruel e bem sucedida das elites intelectuais eurocentristas e isso acaba sendo, a nosso ver, uma forma ideológica e política de querer dominar a raça negra através de um modelo de educação brancocentrado. Por isso mesmo que o Olodum não aceita ser vítima e faz do sujeito negro protagonista de sua própria história ao se contrapor a certas narrativas alienantes e voltadas para destruir a autoestima do povo negro. Vejamos o que diz o vulcão africano do pelô:” Simplesmente ensinando consciente\ Abalando a estrutura mundial\ Núbia, Axum, Etiópia resistente\ União poderosa e cultural\ Olodum revela a comunidade\ História que o opressor sempre ocultou\ Menelique II venceu a batalha\ Travada em Adúa África negra\ Expulsando italianos de Axum\  Livrando-a do colonizador.”

Ora, é absolutamente fundamental que as comunidades negras saibam desse fato histórico. Saibam que a história não se faz apenas a partir do olhar etnocêntrico e racista do colonizador e seus apologistas na contemporaneidade, visto que os africanos mesmo lutando em condições adversas durante toda história da escravidão brasileira e mundial, na verdade, sempre praticaram diversas estratégias e variadas formas de lutas e revoltas políticas contra as classes dominantes internas e externas do Brasil. Nas canções do Olodum, também, podemos encontrar referências ao movimento de Canudos em que o negro Antônio  Conselheiro é chamado de Presidente.

Infelizmente, só recentemente para a História é que o Estado brasileiro vem assumindo publicamente que a escola brasileira é racista e que os livros didáticos contribuíram historicamente para criar uma noção conservadora e embranquecedora através de uma imagem racial na qual brancos bonzinhos se cruzavam com negros e índios, de acordo com o mito da Casa Grande e Senzala construído pelo sociólogo Gilberto Freire, mito este, que serviu como ideologia oficial durante toda a vigência da ditadura militar em nosso país para ocultar as relações de exclusão social, violência, pobreza e marginalização enfrentados até hoje pela nossa população negra. Lógico que aquela visão de paraíso e harmonia racial que ainda sobrevive é algo falso e sem fundamentos no discurso dos movimentos negros como nos mostra o Olodum ao cantar a resistência negra durante a chamada Revolta dos Alfaiates, visto que a comunidade negra do Maciel Pelourinho aprendeu que quatro negros tiveram que pagar com as suas próprias vidas em busca de liberdade, igualdade e justiça social. Portanto, a luta do Olodum para retirar do anonimato dos livros de História  e do esquecimento da memória nacional personagens dignos como João de Deus, Manuel Faustino, Luís Gonzaga das Virgens e Lucas Dantas para depois fazê-los heróis da Pátria triunfou para  felicidade de todos nós que lutamos contra o racismo no campo da produção do conhecimento histórico, uma vez que no ano passado depois de muita luta política do Abdias Nascimento e do Deputado Federal Luiz Alberto o Brasil foi obrigado a reconhecer a importância histórica desse episódio ainda pouco debatido na sociedade e pouco falado nas escolas.

Apesar de ter sido tão “castigante” como diz o Olodum para os quatro negros que foram enforcados no século XVIII em Salvador. Tenho plena certeza que esse exemplo de luta não foi em vão, tendo em vista que numa comunidade pobre e excluída das políticas públicas em muitos aspectos e que teve a sua face transformada pelo trabalho social e edificante desse “pujante e místico movimento negro em Salvador,” onde “negros conscientizados também tocam no pelô”. A comunidade negra do pelourinho orgulha-se do seu filho mais ilustre, justamente por saber que “para obter o reinado é preciso lutar\ Com esforço e dinamismo\ O Olodum vem mostrar \ Foi um ato marcante que aconteceu em Salvador\ Foi a Revolta dos Búzios”. Ora, esse passado aqui relatado é pura aula de consciência negra, além de ser  um grito político de alerta no presente para continuar a resistência negra em busca de uma vida melhor para todos (as) que ali moram. Ou que para ser um pleno cidadão em um bairro onde o Olodum conseguiu unir muitos de seus moradores (as) em laços de confraternidade é ter que conquistar os seus direitos na luta como os quatro negros enforcados da Revolta dos Búzios tentaram conquistar com muita ousadia, coragem e determinação em pleno regime escravista. Salvador tem o pior índice de desemprego entre negros no Brasil e nos shoppings muitos negros e negras só são recrutados para fazer serviços gerais e pra cozinhar.

Portanto, na minha visão de historiador, creio que toda escola era para utilizar esses símbolos de luta que o Olodum sabiamente revela de forma bem didática e objetiva nas suas belas canções. Logo, vejo que é imprescindível para nós educadores e educadoras a busca desse tipo de experiência musical, já que o resgate dessa  literatura crítica e transformadora só tem a contribuir para o desenvolvimento do senso crítico dos nossos alunos e professores, assim como  para positivar a identidade do negro(a) brasileiro. Não foi à toa que o grande e genial poeta, cantor, compositor, jornalista e multi-instrumentista Chico César, disse: “Quando mama sai de casa\  Seus filhos se olodunzam\  Rola maior jazz.”

Trazer o Olodum para a sala de aula, em síntese, pode ajudar e muito a nossa luta para tirar do papel a Lei 11.645\08 e, por conseguinte, colaborar para acabar com essa cultura racista impregnada nas nossas crianças e professores, obviamente repensando toda essa história eurocêntrica que se tornou hegemônica no currículo escolar, pois como diz o Olodum: “O mar  da história é agitado”.

 

Jair Silva- Historiador, Coordenador do Movimento Negro de Campina Grande e aluno do Curso de Especialização em História e Cultura Afro-Brasileira da UEPB.

jun
14

 Por Jair Silva

UMA LIÇÃO QUILOMBISTA PARA AS TVS PARAIBANAS

Essa denúncia que fiz abaixo contra a TV Paraíba e que faz parte do Blog do FOPPIR continua mais atual do que nunca, pois no mês de março tivemos o Dia Internacional de Luta Contra o Racismo e a TV Paraíba não trouxe nada sobre as lutas do movimento negro para promover a igualdade racial na Paraíba, apesar dos meus constantes pedidos pra que essa emissora cumpra com sua função social, cultural e educativa como recomenda a Constituição Federal. Lamento e deixo aqui o meu repúdio contra esse tipo de jornalismo sem democracia e que tenta a todo custo invisibilizar as lutas dos quilombolas e dos diversos movimentos negros do estado da Paraíba. A TV Paraíba, na verdade, foi mais uma vez omissa e desrespeitosa com o Movimento Negro de Campina Grande e com várias entidades sindicais e acadêmicas que foram para o MP debater o que esta TV e outras emissoras de televisão preferiram ignorar: o racismo que humilha nossas crianças negras nas escolas.

Felizmente, os NEABIS, SINTAB, ADUEPB, UFCG e UFPB que estavam no MP para nos apoiar, uma vez que entenderam que o Brasil tem uma grande dívida histórica com o povo negro e que a educação eurocêntrica precisa mudar, valorizando o africano e afro-brasileiro ao lado dos indígenas que construíram este país, embora a TV Paraíba tenha negado ao  povo paraibano o direito de conhecer essas verdades que foram debatidas com muita seriedade e dignidade por todas as entidades que foram convocadas pelo Ministério Público da Paraíba. Entidades que, a nosso ver, entenderam que temos que somar forças para promover a igualdade racial e eliminar o racismo dos espaços da educação paraibana. Essa TV que não é da Paraíba dos meus sonhos palmarinos deveria aprender essa lição quilombista e ser mais compromissada socialmente com a educação do povo paraibano, tendo em vista que essa empresa para existir precisa de uma concessão estatal e cobrir uma Audiência Pública como essa organizada pelo MNCG e MP deveria ser um dever ético de qualquer canal de televisão que se propõe a servir a população. No mais, também devo estender as minhas críticas neste texto as TVs Correio, Borborema e Itararé.

            Por fim, quero dizer ainda que a Audiência Pública feita pelo Ministério Público da Paraíba para mostrar ao povo paraibano a pesquisa que constatou o alto grau de racismo enfrentado pelas crianças e adolescentes negros e o descumprimento da Lei Federal 11.645\08 nas escolas municipais, estaduais e particulares de Campina Grande, Lagoa Seca, Massaranduba e Boa Vista vai ser divulgada e que vamos fazer desse documento do Ministério Público da Paraíba uma grande bandeira de luta pela promoção da igualdade racial, pois Zumbi dos Palmares nos ensinou que somos fortes e não será uma TV com cara e alma de Domingos Jorge Velho que irá apagar a raça negra e suas gloriosas lutas antirracistas da memória do povo paraibano. E como diz o Afro Ilê Aiyê de Salvador: “eles pensam que pode apagar nossa memória. Não desisto, pois eu sou um negro quilombola.”

 

Jair Silva- Historiador, Coordenador do Movimento Negro de Campina Grande e aluno do Curso de Especialização em História e Cultura Afro-Brasileira da UEPB.

 

Quarta-feira, 1 de abril de 2009-BLOG DO FOPPIR.

Ativista do Movimento Negro de Campina Grande denuncia boicote midiático.

 

O ativista e estudante de História da UEPB Jair Silva divulgou recentemente um email enviado à redação da TV Paraíba (redacaocg@paraiba.tv.br), em Campina Grande, onde reclama do boicote que o movimento negro local sofre em relação às sugestões de pautas enfocando questões raciais. Todos sabemos do silenciamento que a mídia paraibana impõe às questões de raça e etnia. A carta de Jair é apenas mais uma comprovação deste fato. Vejam a íntegra do email de Jair Silva abaixo:

“O dia 21 de março foi uma data criada pela Organização das Nações Unidas, pois ela lembra o assassinato de 70 negros que lutavam contra as leis racistas do apartheid no ano de 1960. Por conta deste grande massacre racial, a ONU, em 1966, instituiu o Dia Internacional de Luta Contra o Racismo que não mereceu respeito e atenção de vocês, apesar do Movimento Negro ter feito diversas palestras nas escolas e de ter ligado várias vezes para pedir uma matéria sobre o racismo na sociedade campinense. Entretanto, o cachorro rabicó foi a grande manchete de vocês na semana internacional de luta contra o racismo. Além do mais, o povo paraibano aprendeu com o jornalismo “sério e compromissado com a verdade” da TV Paraíba a fazer um cuscuz paulista e como se fazer unhas bem feitas. Enquanto a TV Paraíba educava o povo para fazer unhas bem feitas, a raça negra e suas lutas contra o racismo na Paraíba não apareceu em nenhum telejornal desta competente empresa. Parece que a TV Paraíba não sabe dos dados que envergonham a “democracia racial” das elites racistas: de cada 10 brasileiros pobres, os negros são seis, sem esquecer que de cada 4 brasileiros que a polícia mata, três são afrodescendentes. Por outro lado, gostaria que o jornalismo da TV Paraíba mostrasse a vida do grande escritor negro Machado de Assis e que a Escola Politécnica da USP foi criada pelo etnólogo e geógrafo negro Teodoro Sampaio. Mas, acredito que esse tipo de assunto não interessa, pois o negro para as elites só podem aparecer se for nos noticiários policiais e sambando no carnaval. Portanto, coloco-me à disposição da TV Paraíba para debater o apartheid brasileiro e colaborar para que os meios de comunicação conheçam a história do dia 21 de março, pois a TV Paraíba vive num estado onde mais de 60% das pessoas são de origem africana e esta grande massa negra conta com militantes cultos e dignos que trabalham pra fazer do Brasil um país justo e igualitário como um dia Zumbi dos palmares queria para o nosso povo, apesar da TV Paraíba não ter nenhuma Wanda Chaise como apresentadora.Axé!”

 

Jair Silva- Historiador, Coordenador do Movimento Negro de Campina Grande e aluno do Curso de Especialização em História e Cultura Afro-Brasileira da UEPB.

mai
17

Encontro Para a Nova Consciência Racista

Lembro-me que foi através do professor e criador do Movimento Negro de Campina Grande Benedito Antonio Luciano que comecei a participar do “Encontro Para a Nova Consciência”. A primeira coisa que me chamou atenção nesse evento voltado para o debate sobre cultura de paz, diversidade religiosa e pluralidade cultural foi a forma como os intelectuais eurodescendentes  dominavam  e ainda dominam simbolicamente o encontro. Quem faz a abertura desse evento de cunho macroecumênico, na verdade, sempre foi alguém que representasse a  Igreja Católica  de  Campina Grande como faziam os Bispos Dom Jaime Vieira e o falecido Dom Luiz Gonzaga Fernandes. O povo de santo que historicamente vem sendo alvo da intolerância, perseguição e da discriminação das igrejas neopentecostais e até por parte de setores conservadores do catolicismo não tem o direito de abrir o encontro, tendo em vista que os organizadores “esquecem” e não “conhecem” a brilhante trajetória de uma Mãe Stella de Oxóssi. Uma mulher negra, escritora e verdadeira intelectual orgânica que escreve artigos no Jornal A Tarde do estado da Bahia e dona de dois títulos de Doutor Honoris Causa pela UNEB E UFBA, além de ter criado um museu para preservar a memória do candomblé no famoso terreiro Ilê Axé Opô  Afonjá. No livro Dicionário Escolar Afro-Brasilerio, vale ressaltar, que o intelectual, escritor e compositor   Nei Lopes registra o nome dessa grande sacerdotisa que por sua luta em defesa da identidade afro-brasileira  recebeu do Governo Federal, em 1999, a medalha da Ordem do Mérito Cultural. Quando os organizadores (as) do “Encontro Para a  Nova  Consciência”  irão permitir que uma mulher negra da dimensão histórica, religiosa e  intelectual de  Mãe  Stella de Oxóssi abra o encontro?

Outra constatação minha foi ter compreendido que a temática do racismo é posta em segundo plano pelos organizadores e isso fica evidente quando percebemos que os ativistas e intelectuais negros e negras da Paraíba  e do Brasil  não são  convidados  para compor as principais mesas de debates, aliás, posso dizer que já faz bastante tempo  que a militância negra de Campina Grande não tem sido convidada para  fazer parte desse evento, o que só reforça os nossos argumentos aqui mencionados contra os organizadores do “Encontro Para a Nova Consciência”. Quando o Movimento Negro de Campina Grande era convidado e digo isso com conhecimento de causa foi para fazer o nosso Encontro Afro-Brasileiro Campinense  numa salinha no CEDUC onde a imprensa e ninguém pudesse saber  que existem ativistas negros e debates sobre desigualdades raciais em nossa cidade. Ou quem sabe num horário com uma platéia  esvaziada para deleite dos organizadores desse encontro em que as estrelas são tradicionalmente os brancos (as) intelectuais  de classe média. Posso, inclusive, citar alguns nomes para mostrar a hegemônica participação de personagens brancos que fazem parte ou que já passaram por esse evento: Frei Leonardo Boff, Pedro Camargo, Nehemias Marien, Sandra Medeiros, Íris Boff, Mônica Buonfiglio, Rômulo Azevedo, Ricardo Kelmer, Waldemar  Falcão, Divaldo  Franco, Rose

Mari Muraro, Pierre Weil, Luis Pellegrini, Bráulio Tavares, Edmundo Gaudêncio, Paulo Coelho, Alberto Marsicano, etc.

 Os nomes acima citados  pesquisei na lista de palestrantes ilustres que pode ser vista no site da ONG “Nova Consciência”. O interessante é que nessa  mesma  lista não figurava  o do militante do Movimento  Negro de  Campina Grande  Moisés Alves  e  só encontrei   quatro ativistas negros, incluindo aí o meu nome que eu faço questão de pedir aos organizadores desse evento que retirem, pois não aceito  fazer parte da publicidade demagógica de uma  ONG que tem uma  dívida enorme com o Movimento Negro e  seus legítimos representantes, visto que  jamais vi uma palestra  de um  intelectual negro do porte de Abdias do Nascimento  nesse encontro, que também  exclui a intelectualidade negra de Sueli Carneiro, João Jorge do Olodum, Zulu Araújo, Jaime Sodré, Joel Zito Araújo, Hamilton  Borges, Muniz Sodré, Hélio Santos, Emanoel Araújo, Arany Santana, Cuti, Severino Lepê, Elisa Lucinda, Makota Valdina e Vilma Reis.

 Duvido que o grande Abdias do Nascimento, um ativista afrodescendente de projeção mundial na luta pelos direitos humanos  que morreu no ano passado e que foi Bacharel em Economia, Professor Emérito da Universidade de Nova York, ator, poeta, escritor, jornalista, artista plástico, teatrólogo, Senador e Deputado Federal tenha sido  convidado  para compor  uma  mesa- redonda  no  “Encontro  Para  a  Nova  Consciência”. Abdias do Nascimento também ganhou os títulos de Doutor Honoris Causa pelas Universidades da UNB, UNEB, UERJ, UFBA e Obafemi  Awolowo  da  Nigéria, além do Prêmio Unesco na categoria Direitos Humanos e Cultura de Paz. Será que os organizadores  do “Encontro Para a Nova Consciência” algum dia irão prestar uma homenagem a este grande militante negro, comparado  a  Angela Davis, Luther King, Nelson Mandela, Aimé Césaire e Malcon X ?

Infelizmente, os organizadores desse evento por não priorizarem a luta antirracista, bem como por não entenderem que o racismo é o principal vetor de produção e reprodução das desigualdades sociais e econômicas em nossa sociedade, obviamente que  acabam por reforçar  aquela  velha  tradição dos racistas no Brasil voltada para  invisibilizar  as lutas  e  projetos  do negro brasileiro. Quem for pesquisar com atenção as fotografias e vídeos nos espaços eletrônicos de divulgação dessa ONG que se diz “defensora dos direitos humanos”, irá perceber que os protagonistas e palestrantes  são  sempre os brancos de classe média como aqueles que estão representados no site dessa entidade que precisa urgentemente tomar um grande choque de consciência negra e africanidades, visto que  as imagens que foram produzidas para o site da ONG “Nova Consciência” , a rigor, são feitas para destacar, valorizar e aumentar o capital social e cultural dos artistas, intelectuais  e  religiosos  brancos. Nesse contexto, o negro raramente aparece em alguma foto ou vídeo como palestrante ou artista, o que não deixa de ser inaceitável, uma vez que somos maioria no Brasil e temos o direito de cobrar do encontro que se registre através de fotos e filmagem as nossas falas, presenças e contribuições filosóficas e culturais. Cadê as fotos e vídeo do ativista negro Henrique Cunha Júnior, um professor com Doutorado na França e Livre – Docência pela USP e considerado por muitos como um dos grandes intelectuais do Movimento Negro Brasileiro?

Com a palavra, os organizadores do  “Encontro Para a Nova Consciência”  que precisam  aprender  a  respeitar  o  Movimento Negro de Campina  Grande  que  tem  quase  26 anos  de  existência  e  que  já  trouxe  o  Olodum, Carlos Moore  e  Chico César  para  africanizar  uma  cidade  que  insiste  em  reproduzir  o  mundo  da  casa grande  e senzala.

 

Autor: Jair Silva- Historiador, Coordenador do Movimento Negro de Campina Grande e estudante do curso de Especialização em História e Cultura Afro-Brasileira da UEPB.

abr
9

Por Jair Silva

Campina Grande é Racista?

“Necessitamos para contratação imediata. Exigimos: Boa aparência, desenvoltura e experiência comprovada na função. Interessados enviarem currículum vitae para a portaria deste jornal sob o título Secretária Geral.” Essa é a maneira do brasileiro praticar o seu racismo e nesse ponto percebemos que as elites logotécnicas não tem tido a devida consciência democrática no que diz respeito ao seu discurso racial como se pode notar claramente na forma em que o trabalhador é chamado pelos classificados do Jornal da Paraíba, no dia 11 de maio de 1995.Em nossa sociedade, o mito da democracia racial brasileira convive entre o preconceito e a ideia falsa, bem como simplista da igualdade de todos perante a Lei, o que ideologicamente leva as consciências individuais e coletivas a fugirem da realidade, visto que esse mito foi criado para impedir os cidadãos campinenses e brasileiros de fazer uma ampla reflexão acerca das relações raciais existentes em nossa sociedade.

Diante desse contexto, cabe perguntar o que é boa aparência? Será que nos classificados do jornal citado a secretária teria de ser branca, de olhos azuis, cabelos lisos e loiros? Eu não quero ser ingênuo, uma vez que atitudes como essas não podem ser vistas como naturais, sem intenção ou por acaso, já que na minha concepção histórica o critério da boa aparência foi um dos mecanismos criados logo após o processo de abolição no sentido de discriminar e afastar todo o cidadão de pele negra dos cargos técnicos, especializados, políticos e burocráticos dessa nossa sociedade preconceituosa e racista. Além dessas constatações, fica bastante claro porque nós somos a maioria dos desempregados e subempregados da sociedade campinense, pois do ponto de vista das desigualdades raciais existentesem Campina Grandeo negro está sofrendo uma violência estrutural, mas o que escuto por aí é que isso é uma bobagem.

Na verdade, o que pode parecer “coisa boba e pequena” na visão dessa mesma elite branca que domina os postos de poder simbólicos, políticos,culturais e estratégicos como no caso da UEPB onde não há debates sobre cotas para negros no CONSUNI e CONSEPE. Logo, podemos afirmar com base em dados oficiais e nos relatos e arquivos do Movimento Negro de Campina Grande que a “sociedade branca” campinense não mostra indignação e preocupação com a nossa situação de exclusão e empobrecimento, já que o mitos do homem cordial e da igualdade racial asseguram dentro de uma rígida hierarquia racial vários privilégios para os brancos. Por isso que a CDL e Associação Comercial não aceitaram o convite do nosso movimento negro para debater o racismo praticado pelas lojas do centro comercial. Não aceitaram pelo fato de saberem que estão sendo coniventes com um grande crime: o total e flagrante desrespeito a Convecção 111 da OIT, que trata da plena efetivação da igualdade no mercado de trabalho e do combate a qualquer forma de discriminação. Por outro lado, o caso recente dos jogadores negros do Treze Futebol Clube que foram chamados de macacos por torcedores, por exemplo, apenas reforça nossos argumentos, pois vimos que os insultos racistas não virou caso de polícia,assim como não foi alvo de um grande debate público nos meus de comunicação, sociedade e Ministério Público na cidade.Sequer a Secretaria da Juventude, Esporte e Lazer do doutor Fábio Maia tratou esse caso como importante até agora, o que só demonstra o quanto o racismo vive naturalizado nas práticas sociais, bem como na consciência de quem acha que chamar um negro de macaco não é motivo para processar uma pessoa ou para fazer uma ampla campanha nos estádios de futebol da Paraíba contra essa chaga que humilha, inferioriza e desqualifica socialmente o negro brasileiro.

Parece-me, portanto, que a sociedade campinense quer viver bem longe desse debate e tranqüila como se no seu passado não tivesse escravizado os africanos. Como se esse crime de lesa humanidade não precisasse de uma reparação pelos danos morais, psicológicos e materiais que o escravismo trouxe para a nossa raça negra. Os dados do IBGE revelam queem Campina Grandemais de 51% da população tem origem africana, mas, por conta do racismo não podemos ter os cargos e títulos que os Agras possuemem Campina. Comotodo mundo sabe a escravidão deu a essa família poder, títulos acadêmicos e prestígio social. Já a nossa raça negra, que trabalhou e muito para os Agras, ganhou as favelas e os empregos mais subalternosem Campina Grande. Ora, quase 100% dos garis por aqui são negros e muitos afro-campinenses são pedreiros na construção civil. O racismo é justamente saber que os descendentes dos criminosos escravistas vêm historicamente se beneficiando do trabalho e riquezas geradas pela mão de obra do negro no passado e presente. Querer botar isso pra debaixo do tapete é fazer o jogo de quem não se incomoda com as altas taxas de homicídio de jovens negros na Paraíba, lugar onde morrem 20 negros para cada jovem branco de forma violenta. O que Campina Grande tem feito pela sua juventude negra?

Ao analisar o racismo campinense vejo que toda essa história me faz lembrar de uma excelente entrevista que foi dada por João Jorge na Revista VEJA. Segundo o Presidente do Olodum, o Brasil teria duas abordagens raciais: “uma, que lhe agrada, diz que o país é democrata, branco e pode dar certo. A outra, que não lhe agrada, irrompe todos os dias na imprensa. É o dos pobres, dos tiroteios na Zona Norte do Rio de janeiro, das favelas de São Paulo e Salvador. Seus protagonistas são mostrados como um bando de miseráveis que não têm condição de progredir. A sociedade quer acreditar no Brasil europeu, loiríssimo, que está nas propagandas de cigarro e de geladeira. Nessa perspectiva, lugar de negro é no noticiário policial, de esporte ou nos programas de música, mas nunca na sessão de economia ou política”. É óbvio que essa realidade racial também se aplica para Campina Grande. Quem já prestou atenção na televisão campinense, nas propagandas de roupas e eletrodomésticos? O negro simplesmente é excluído e raramente é chamado para apresentar algum programa como no caso do negro Evilásio Junqueira, que durante muito tempo apresentou a Hora do Povo na TV Borborema.

À guisa de conclusão, não há como negar que Campina Grande é uma das cidades mais racistas do Brasil e que precisamos de cotas nas Universidades locais para reverter o quadro de abandono social em que se encontra a maioria dos negros(as). A solução para sair do apartheid campinense pode ser aprendida com a luta que o Olodum e Ilê Aiyê fazem na Roma negra(Salvador), para que tenhamos educação, trabalho e cidadania plena, apesar de todas as adversidades que o racismo coloca a todo negro que ousa dizer que nós não nascemos para limpar os banheiros da elite supostamente branca de Campina Grande. E como diz o mais belo dos belos do Bairro do Curuzu:”Essa reparação já passou da hora. Não desisto, pois eu sou um negro quilombola”.     

 

Jair Silva – Coordenador do Movimento Negro de Campina Grande e aluno do Curso de Especialização em História e Cultura Afro-Brasileira da UEPB.

mar
28

Por Jair Silva

Mesmo depois da princesa Isabel ter decretado oficialmente o fim da escravidão em1888, a Marinha brasileira,  através da mentalidade racista de seus oficiais brancos, ainda continuava utilizando-se de práticas escravistas para punir os atos de indisciplina de seus marinheiros subalternos, na sua grande maioria negros e mulatos, com base no Decreto de nº 328 de 12 de abril de 1890. Esse código disciplinar era extremamente desumano e responsável pelos maus-tratos, bem como pelas condições de trabalho aviltantes a que eram submetidos os marujos de baixa patente. Assim sendo, por intermédio dele, recomendava-se para faltas leves o uso da palmatória, prisão a ferros, a pão e água na solitária e para faltas graves os marinheiros eram submetidos ao castigo de vinte e cinco chibatadas. Como se não bastasse todo esse sofrimento aplicado aos marujos, os praças que organizaram a Revolta da Chibata eram obrigados a conviverem com a baixa quantidade e a má qualidade de alimentos, além das temíveis chibatadas. Esse castigo, vale ressaltar, era o que mais provocava revolta e indignação, como no caso do marinheiro Marcelino Rodrigues Menezes, que pelo Código de Disciplina era para levar apenas 25 chibatadas, no entanto, o mesmo acabou levando 250 chibatadas e caiu desmaiado, mas o chibateiro do navio Minas Gerais continuou a bater, sem esquecer que antes da Revolta da Chibata eclodir, em 22 de novembro de 1910, alguns marinheiros receberam até 500 chibatadas num único dia!

Diante desse contexto, antes de ter sido escolhido para liderar a Revolta da Chibata ao lado de Francisco Dias Martins, João Cândido já tinha tentado acabar com esses castigos violentos na Marinha, através de uma audiência com o Presidente da República, Nilo Peçanha. Mas não obteve êxito. Por que João Cândido, cognominado de ”o almirante negro”, lutou para humanizar as relações de trabalho na Marinha de Guerra? Em primeiro lugar, João Cândido aprendeu que o marinheiro merecia respeito e bom tratamento a partir de uma viagem que ele fez à Inglaterra, no ano de 1908, para acompanhar o término da construção do navio de guerra Minas Gerais. Vale frisar, que na Inglaterra entre os anos de 1903 e 1906, aconteceu um movimento de marinheiros ingleses para melhorar as condições de trabalho. Entre os praças que ameaçaram bombardear o Rio de Janeiro, em 1910, então capital administrativa do Brasil, alguns sabiam falar inglês, e, em conversas com os marinheiros ingleses toda essa história de luta dos soldados ingleses deve ter chegado aos ouvidos de João Cândido, já que ele viveu dois anos na Inglaterra e também sabia falar inglês. A revolta do Encouraçado Potenkim[2] na Rússia, também influenciou as idéias do “almirante negro”. Em segundo lugar, a luta do “almirante negro” como a imprensa da época o chamava, não foi somente uma revolta contra o uso da chibata na Marinha. Na verdade, a luta do “mestre–sala dos mares”[3] vai além da abolição dos aviltantes castigos corporais, pois João Cândido deve ser visto e reconhecido pela sociedade brasileira e pelas futuras gerações como um sujeito que lutou para preservar a saúde dos marinheiros subalternos, uma vez que ele e os demais companheiros de luta não tinham o direito de ter folgas. Por isso que João Cândido combateu a exploração da força de trabalho e os excessos de serviços que violentavam a dignidade e a integridade física dos marujos de baixa patente, chamando a atenção do governo de Hermes da Fonseca, Congresso Nacional e da imprensa nacional e internacional para os maus-tratos e condições de trabalho degradantes a que eram submetidos os marinheiros que organizaram a Revolta da Chibata. Para se ter uma idéia do quanto os praças eram marginalizados, explorados e desrespeitados na Marinha de Guerra da época, basta apenas dizer que os marujos chegaram a trabalhar em turnos de até 36 horas, o que era inaceitável para o “almirante negro” que teve a coragem de lutar para pôr fim a essas duras, desumanas e injustas relações de trabalho.

Além desses fatores que levaram João Cândido a lutar por melhores condições de trabalho, pode-se dizer que uma outra grande injustiça contribuiu de forma decisiva para a eclosão da Revolta da Chibata e envolvimento do” almirante negro”. É que com a chegada dos modernos navios de guerra da Inglaterra, as jornadas de trabalho aumentaram, provocando uma sobrecarga de trabalho que não veio acompanhada com a melhoria dos soldos. Enquanto que a oficialidade branca da Marinha comia bem e ganhava aumento com a modernização da frota de navios da Marinha de Guerra. João Cândido e os demais integrantes da Revolta da Chibata continuaram trabalhando muito, comendo comida estragada, sendo espancados e recebendo irrisória remuneração. Daí o imenso esforço humanizante de João Cândido para que o marinheiro subalterno tivesse uma política de remuneração digna.

Afora esses aspectos importantes que fazem parte da luta de João Cândido para humanizar a Marinha, pode-se dizer também que o “almirante negro” ao lutar para que os praças fossem educados pela Marinha onde oitenta por cento de seus soldados eram negros e mulatos. Logo, podemos dizer que ele estava lutando contra a discriminação racial e, ao mesmo tempo, pelo crescimento intelectual e ascensão da raça negra na carreira militar e de todos os seus companheiros de luta, visto que a Marinha recrutava os seus soldados subalternos nos extratos marginalizados da sociedade pós-abolicionista e não se preocupava com a formação educacional deles nem com o crescimento profissional. O próprio João Cândido que era filho de ex-escravos não pôde ser sinaleiro porque era semi-analfabeto.

Portanto, diante do exposto, João Cândido deve ser visto pela história como um grande marco da resistência negra e uma referência de luta pelos direitos humanos, pois ele foi um corajoso líder trabalhista que lutou para democratizar e humanizar as relações de trabalho em 1910, tendo em vista que os marinheiros subalternos eram tratados de maneira desumana nas relações de trabalho. Por que os marinheiros subalternos recebiam comida estragada e enfrentavam espancamentos constantes? O “almirante negro” não queria ver seus companheiros de profissão sendo tratados como escravos no exercício de seu trabalho e tinha plena consciência desse fato. Não foi à toa que em um dos manifestos enviados ao governo de Hermes da Fonseca, os marinheiros e João Cândido reivindicaram “uma armada de cidadãos e não uma fazenda de escravos que só têm dos seus senhores o direito de serem chicoteados”. Por isso que ele lutou para recuperar a condição humana perdida na Marinha onde vigorava horrendas práticas escravistas, assim como lutou para livrar os marinheiros dessas condições de trabalho humilhantes, pois o que o “almirante negro” desejava, em síntese, era ver o marinheiro subalterno com educação, cidadania e dignidade para exercer a sua profissão na Marinha de Guerra do Brasil. Por conta de todas essas suas ações para humanizar as relações de trabalho, João Cândido pagou muito caro pelo seu gesto de pura bravura e ousadia, já que ele foi injustamente preso na Ilha das Cobras, no Rio de Janeiro, onde conseguiu sobreviver à fome, à sede, ao calor e ao sufocamento numa cela subterrânea na condição de preso incomunicável. Depois ainda foi internado como louco indigente no Hospital Nacional de Alienados, em abril de 1911. Ao sair do hospital, João Cândido, volta para o prisão na Ilha das Cobras e acaba sendo excluído dos quadros da Marinha, apesar de ter sido inocentado no processo militar que a Marinha movia contra ele.

À guisa de conclusão, podemos afirmar que existe um trabalho inacabado deixado por João Cândido ao povo brasileiro, pois se o “almirante negro” através de sua luta conseguiu acabar com os violentos castigos físicos na Marinha de Guerra, cabe-nos, agora, lutarmos para destruir a mentalidade racista das elites que tentaram apagar da memória do povo brasileiro a história de um marinheiro que virou símbolo de luta pela dignidade humana. Cabe, outrossim , a todos nós fazer de João Cândido um herói da Pátria e, por conseguinte, um eterno referencial de luta pela preservação dos direitos inalienáveis da humanidade.

 


[1] Militante do Movimento Negro de Campina Grande.

[2] Movimento de marinheiros russos contra a má alimentação e os castigos físicos ocorrido em 1905.

[3] Mestre-sala dos Mares é o título de uma música de João Bosco e Aldir Blanc que foi censurada pelo regime militar.

mar
26

Por Jair Silva

Abdias Nascimento

ALMADA, Sandra. Abdias Nascimento. São Paulo: Selo Negro, 2009, 166p.

Convidada pela Editora Selo Negro para contar em uma biografia a vida de um grande e conhecido militante negro que viveu por mais de 90 anos de idade, o que não deixa de ser um imenso e gigantesco desafio para qualquer escritor que se aventure a escrever sobre a trajetória de um ativista e humanista da dimensão histórica e grandeza moral, cultural e intelectual como carregavaAbdias do Nascimento em sua brilhante trajetória de luta contra o racismo no Brasil e no mundo.Para a nossa alegria e felicidade, Sandra Almada aceitou essa tarefa com muita maestria, sensibilidade e competência.  Uma professora universitária negra e pesquisadorapreocupada em reconstruir,valorizar e contar para o grande público a imagem e história dosafro-brasileirosno nosso Brasil, apesar de não ter na sua formação o ofício de historiadora em seu currículo acadêmico. Essa jornalista,também, já nos brindou com o livro Damas Negras-Sucesso,Lutas e Discriminações,uma obra que narra e conta a trajetória de atrizes negras como Léa Garcia, Chica Xavier, Zezé Mota e Ruth de Souza.

Com uma linguagem tipicamente didática e de fácil compreensão, como se quisesse atingir e conquistar o máximo de leitores nesse livro que contém 10 capítulos e 166 páginas. A jornalista Sandra Almada ao dizer que “diferentemente dos relatos historiográficos queapresentam de forma grandiosa os feitos monumentais de homens ligados às elites”(p.20), percebe-se claramente que de imediato ela quer colocar o leitor para conhecer a biografia de um negro oriundo das classes populares e que fez da sua trajetória social uma história de superação e luta contra as adversidades provocadas pelo racismo.É o que podemos perceber já no primeiro capítulo quando há uma transcriçãoda fala de Abdias Nascimento sobre o racismo que o mesmo enfrentou na vida escolar, mostrando que as professoras sempre encontravam formas ofensivas para falar com ele e a revelação triste de um racismo hostil que no ambiente educativo excluía o menino de fazer parte do teatro de fantoches, na escola.

Acreditamos que essa preocupação da escritora em detalhar os difíceis anos da infância e adolescência de Abdias no município de Franca, cidade onde o grande e respeitado ativista negro nasceu sob a condição de filho de uma doceira e cozinheiraque prestava serviços em fazendas da região. A autora revela que o menino Abdias tinha que trabalhar entregando leite e carne na casa de famílias abastadas, com apenas noveanos de idade. Ou trabalhando na condição de faxineiro num consultório de um médico onde teria começado os seus primeiros passos na literatura, entre os seus12 e 13 anos de idade, segundo a autora desta biografia.Na nossa concepção,ao discorrer sobre esse período da sociedade brasileira, mostrando como a população negra foi marginalizada num estado onde a imigração branca-europeia substituiu o negro no mercado de trabalho. Ao fazer esta analise tendo como base a vida familiar e social de Abdias Nascimento a autora revela para os leitores o alto grau de racismo impregnado no comportamento das elites da época,ao mesmo tempo em quenos mostra e faz entender toda uma conjuntura histórica e social naqual a raça negra foi jogada à própria sorte como diria Florestam Fernandes ao analisar a vida do negro na sociedade de classes, durante a chamada sociedade pós-abolicionista nas primeiras décadas do século XX.

Não temos dúvida que essa talvez tenha sido a principal intenção desta pesquisadora ao detalhar para o leitor determinados fatos e aspectos pouco conhecidos da vida de Abdias em Franca,cidade do interior do estado de São Paulo. Entretanto, esta escritora que há 20 anos acompanhava a militância de Abdias Nascimento não fica só no discurso da vitimização, já que a primeira lição de solidariedade racial que teve Abdias foi quando sua genitora impediu uma mulher branca de surrar uma pobre criança negra. Também gostei de ter lido notexto da jornalista Sandra Almada o gosto pelas letras e artes que marcou a adolescência dofuturo escritor e ativista negro. Vejo que esse tipo de informação faz com que o leitor entenda como um negro pobre e discriminado superou a ignorância imposta à população negra pela elite branca e racista da época, ao relatarrelações de amizade  construídas por  Abdias Nascimentoquando o mesmo foi chamado para tomar conta de um consultório de um dentista, onde ele teve a sorte de ter acesso a uma rica biblioteca a qual lhe possibilitou o convívio com leituras de obras clássicas de autores como os Sertões de Euclides da Cunha, A Carne de Júlio Ribeiro, O Ateneu de Raul Pompéia, além dos livros de Monteiro Lobato.

Já nos capítulos 2 e3, anossa autora convida o leitor a conhecer como Abdias teve contato com a cultura negra no Rio de Janeiro quando morava no morro da Mangueira e na cidade de Duque de Caxias e seu engajamento político com algumas entidades, a exemplo da Frente Negra Brasileiraem São Pauloe Ação Integralista Brasileira. Poderíamos debater e problematizar váriosaspectosrelevantes da vida deste ativista negro a partir das observações destapesquisadora. Poderíamos mostrar, por exemplo, as relações de amizadedo militante negro com o poeta, ator, escritor, teatrólogo e comunista Solano Trindade, assim como daria para descrever também que Abdias conviveu com nomes importantes da cultura negra brasileira como o maestro Abigail Moura, regente da Orquestra Afro-Brasileira e pioneiro na criação de música erudita influenciada por ritmos negros, e sua relação com a comunidade terreiro do babalorixáJoãozinho da Goméia. Mas,como fazer história é fazer escolhas, prefiro me ater a uma parte da história bastante polêmica narrada pela escritora ao entrevistar este pensador e pesquisador da História e culturas africanas e afro-brasileiras. Refiro-me a discussão que o livro traz para o leitor pensar sobre o que levou um negro progressista e libertário a entrar num movimento de inspiração facistae que foi criado por Plínio Salgado em 1932-a AIB.Para a jornalista Abdias foi sensibilizado pelo discurso anti-imperialista e nacionalista fortemente defendidos pelos integrantes da AIB e isto foi o que justificou a adesão do grande militante panafricanista a essa corrente política na época. Curiosamente, o livro na fala do engajamento nacionalista de Abdias na campanha O Petróleo é Nosso, o que não deixa de ser uma pequenafalha da nossa autora, por se tratar de um episódio tão importante da política nacional.

Ainda com base na visão desta escritora a adesão ao integralismo teria sido uma experiência positiva na vida do militante negro,visto que o nosso biografado passou a conviver com personalidades e intelectuais da cultura e política nacionais como Alceu Amoroso Lima, Roland Corbisier, Don Elder Câmara e Adonias filho, apesar de todo o racismo praticado contra a raça negra por membros que faziam parte da Ação Integralista Brasileira. É bom frisar que este preconceito racial o militante negro sentiu na pele, pois, segundo a autora mesmo ele sendo colaborador do jornal O Radical da AIB o secretário de redação não publicava fotos de Abdias ao lado dos entrevistados nas matérias.Entretanto,para este grande teatrólogo afro-brasileiro “o integralismo foi uma grande escola de vida”(p.53), tendo em vista que para um jovem pobre e sem muitas perspectivas de vida, à época, ao participar do movimento integralista ele passou a ter uma visão mais ampla sobre educação, cultura, literatura, artes, economia e sobre os grandes problemas da sociedade brasileira como disse o próprio Abdias do Nascimento ao explicar sua adesão a um movimento tão elitista, conservador e facista, como de fato foi a AIB. Felizmente, Sandra Almada mostra para o leitor que Abdias Nascimento conseguiu se redimir em atitudes e palavras ao relatar que em 1937 este ex-militante do movimento negro deixou a Ação Integralista Brasileira, passando a fazer declarações públicas de repúdio as ideias desse movimentocomo podemos constatar durante a Convenção Política do Negro Brasileiro, que foi presidida por eleem São Paulo, no ano de 1945.

No4º capítulo,Sandra revela um lado aventureiro epouco discutido quando se fala da vida do grande militante que vivia no Rio de Janeiro dividido entre “porres homéricos” e “discussões apaixonadas sobre arte e cultura”(p.62). Ela também nos leva a conhecer a vida de um rapaz que não estava preocupado com interesses nacionalistas e com questões ligadas ao movimento negro. Aqui a obra revela ao leitorumoutro Abdias em sintonia com “aquela coisa de desprezar a lógica, renegar a ordem social e moral” (p.62). Foi pensando dessa forma que ele entrou para um grupo formado por artistas, poetas, jornalistas e escritores– o grupo cultural Santa Hermandad Orquídea,viajando para países como Bolívia, Colômbia, Peru e Argentina.

O mais interessante nessa parte do livro reside num fato que aconteceu na cidade de Lima. Conforme essa autora, foi na capital peruana que ao assistir a peça O Imperador Jones em que o papel principal era protagonizado por um ator branco, que Abdias passou a refletir sobre a exclusão da raça negra no teatro brasileiro. Para que o leitor compreenda o impacto que teve essa cena na cabeça do jovem poeta e ator, Sandra afirma que a peça escrita pelo dramaturgo EugeneO`Neill tinha como personagem central um negro de nome Brutus Jones e tudo isto, obviamente, faz com que possamos  compreender  de forma mais objetiva os motivos que levaram o ativista a criar mais tarde o Teatro Experimental do Negro.

Ao discorrer sobre o capítulo 5, parte mais densa e que mereceu mais atenção daautora, obviamente por se tratar dos grandes embates travados pelos integrantes do TEN, sobretudo pela atuação marcante de sua maior liderança e fundador dessa experiência teatral, cujo objetivo era o combate ao racismo e valorização da História e cultura afro-brasileira. Nesse contexto, percebemos quea sua narrativa nos remete, a nosso ver, as fases mais ricas e produtivas do ponto de vista político e intelectual de Abdias.Não foi por acaso,que essa jornalista dedicou 27 páginaspara relatar ações e lutas antirracistas organizadas pelo Teatro Experimental do Negro durante os anos 40,50 e 60,destacando para nós diversas experiências que surgiram nesse período, a exemplo do jornal Quilombo, umveiculo de comunicação que foi utilizado como uma verdadeira tribuna de luta contra as desigualdades raciais e que contava com a colaboração de escritores e intelectuais do nível de Nelson Rodrigues, Solano Trindade, Carlos Drummond de Andrade, Raquel de Queiroz, Gilberto Freire,etc.Osconcursos de beleza Boneca de Piche e Rainha das Mulatas, pioneiros na valorização da estética da mulher negra brasileira, também são exemplos realçados pela jornalista para que tenhamos uma visão mais ampla e plural do que foram as lutastravadas pelo Teatro Experimental do Negro.

Queremos deixar bem claro que não é pretensão nossa analisar em uma resenha todas as lutas e fatos que Sandra nos oferece em relação a esse teatro produzido por negros e para os negros. Mas, acreditamos que esta obra nos oferece elementos importantes para que possamos compreender o que foi realmente esse movimento cultural negro que marcou as relações raciais no nosso país. Nesse item, podemos afirmar que o livro representa uma boa contribuição no processo de reelaboração da memória do povo negro, tendo em vista que em todos os níveis da educação brasileira poucos são os livros de História que abordam a existência de nomes como do advogado e talentoso ator Aguinaldo Camargo, do pintor Wilson Tibério e do intelectual e crítico de arte Ironides Rodrigues. Particularmente,vejo como extremamente positiva a forma como esta pesquisadora traz para a cena histórica o trabalho de negros e negras marginalizados por essa historiografia racista e ocidentalizada que, a rigor, nos impedi de ver o quanto essa experiência teatral foi importante na compreensão do racismo e na construção do processo de conscientização, luta e organizaçãodos negros daquela época.

Ainda nesse capítulo,concordo com a autora quando mostra que o TEN não estava isolado na sua difícil luta pelo fim da discriminação racial enfrentada nesse tempo pelaraça negra. O livro relata queos membros dessa organização negra mantinham contato comos principais jornais dos afro-americanos, assim como traduziu e divulgou o texto Orfeu Negro de Sartre e ainda reproduziu artigos de um jornal, organizado pelo doutor em ciências sociais Du Bois e a ligação que nutria com o movimento da negritude através da revistaPrésenceAfricaine. Na verdade, o livro é bastante rico em informações sobre o TEN, mas tem uma que merece destaque da nossa parte por se tratar de um debate extremamenteoportuno na educação contemporânea. Falamos da declaração final do I Congresso do Negro Brasileiroque ocorreu em 1950 e que esta escritora discute com clareza no livro. Ora, se hoje as escolas públicas e particulares são obrigadas a ter no seu currículo aulas de História da África e Cultura Afro-Brasileira, não podemos negar que esta foi mais uma das contribuições do TEN para a posteridade e de seu criador Abdias Nascimento, uma vez que neste documento final do Congresso recomendava-se junto ao Estado brasileiro “o estímulo ao estudo das reminiscências africanas no país”(p.88).

Já nos capítulos 6 e 7, o livro traz uma discussão sobre o pan-africanismo, o exílio e como o ativista brasileiro viveu num país onde a segregação racial vigorava de forma ostensiva. A autora informa que Abdias mesmo correndo o risco de ser expulso dos Estados Unidos ele “não deixou de se posicionar a favor da luta dos negros americanos”(p.96). Na Pátria americana,o poeta e artista plástico conviveu com lideranças e organizações negras americanas, além de ter sido convidado para fazer parte de simpósios,palestras, conferências econgressos promovidos por galerias de arte e Universidades. Um dado importante e que merece ser mencionado foi a criação da cadeira de Estudos Africanos no Novo Mundo que esta obra não registra,embora tenha sido uma das conquistas do ativista brasileiro nos Estados Unidos quando ele exerceu a função de professor na Universidade de Nova York. Além desses assuntos, a nossa autora também revela o envolvimento do ator e teatrólogo como pensamento pan africanista em que “Abdias optaria pela vertente nacionalista, encabeçada por Patrice Lumumba, AiméCesaire, Cheikh Anta Diop e Steve Biko”(p.108) , pois não aceitava nem o capitalismo nem o socialismo como alternativas para solucionar a problemática do racismo no mundo, de acordo com os argumentos da jornalista Sandra Almada.

Nocapítulo 8,concordamos mais uma vez com esta autora quando diz que ele foi “o primeiro parlamentar afro-brasileiro a dedicar seu mandato à luta contra o racismo” (p.120). Essa afirmação feita por essa jornalista descreve através das inúmeras lutas políticas que o grande militante negro travaria no Congresso Nacional na qualidade de Deputado Federal e mais tarde como Senador da Republica, para sensibilizar os demais parlamentares da importância de se combater o racismo institucional, objetivando o estabelecimento de políticas afirmativas que pudessem compensar a raça negra pelos séculos de escravidão. Também explicita algumas conquistas e realizações do intelectual depois de voltar do seu exílio dos Estados Unidos. Nesse ponto, podemos perceber que ela abre a discussão falando sobre a criação do Instituto de Pesquisa e Estudos Afro-Brasileiros e como Abdias teve dificuldades para organizar o 3 Congresso de Cultura Negras das Américas por conta das barreiras impostas pelo governo militar,na época.Constatamos nessa parte do livro que o teatrólogo participou da fundação do PDT ao lado de Leonel Brizola, assim como foi o grande responsável pela criação da Secretaria do Movimento Negro deste partido, primeira secretaria de combate ao racismo construída dentro de um partido político na história do Brasil, embora ao ter entrevistado Abdias para fazer esta obra a escritora não tenha observado esse fato histórico. Creio que seria importante, a nosso ver, ela ter registrado essenosso comentário, apenas como forma de reafirmar a relevância da militância do poeta e ativista na história do movimento negro brasileiro.

No capítulo 9, acreditamos que a narrativa do texto destaca aopressão enfrentada pelo candomblé desde os primórdios da colonização no Brasil ena opção religiosa adotada por esse filho de Oxum- o poeta Abdias do Nascimento. Sandra mostra com base em depoimentossuas relações de amizade com a importante sacerdotisa Mãe Senhora e o artista plástico Mestre Didi, ambos integrantes do terreiro  de matriz africana Ilê Axé Opô Afonjá.E, ainda, ressalta a escolha do candomblé na vida do ativista como parte de sua luta contra o racismo e que isto teria surgido em função da discriminação racial praticada historicamente por setores da Igreja Católica.

Finalmente, no capítulo 10, falando sobre as inúmeras homenagens que ele teria recebido em vida, a nossa autora não hesita em afirmar que temas como as políticas de cotas, bem como o próprio debate sobre a implementaçãoda Lei 10.639\03, uma Lei que estabelece o ensino da História e Cultura Afro-brasileira no sistema de ensino seriam mais umas das conquistas das lutaspela igualdade racial do ativista no Brasil, o que concordamos com seu ponto de vista. No mais, temos que reconhecer que esta obra pode e deve fazer parte de qualquer biblioteca,pois ela traz com riqueza de detalhes citações, falas e depoimentos de outros grandes militantes negros do porte de Carlos Moore,Sueli Carneiro, ÉleSemog e Elisa Larkin Nascimento,esposa e companheira de luta do singular e grande pensador das africanidades, comparado a personagens da História mundial como Luther King, Angela Davis eAiméCésaire, diga-se a bem da verdade.Portanto, em síntese, o livro traz uma belacontribuição historiográfica na medida em que esta obra nos oferece o conhecimento de boa parteda história do movimento negro no Brasil e no mundo,tendo como foco central avida do ativista e intelectual Abdias do Nascimento, o qual deve ser visto pelas futuras gerações como o maior ativista negro brasileiro e que contribui com sua luta antirracista para o progresso da humanidade. Logo,ao ler este livro recomendo como leitura obrigatória. É que esta obra faz com que tenhamos que enfrentar as nossaspróprias consciências neste mundo marcado por apatias políticas e por fortes doses de imobilismo em muitos representantes dos excluídos. Eperceber que o seu legado ainda está para ser avaliado em toda sua dimensão histórica e intelectual. Sinceramente, esperamos que outrosmilitantes negros(as), pesquisadores, jornalistas e historiadorestenham a ousadia e coragem de um dia fazer tal empreitada,sob pena de ficarmos eternamente perguntado como entender uma personalidade tão multifacetada e humanista, como foi de fato a de Abdias do Nascimento.

mar
15

“DEVE SER LEGAL SER NEGÃO NO SENEGAL”- CHICO CÉSAR

O dia 21 de março foi uma data instituída pela ONU em 1969 para defendemos a igualdade dos povos. Do ponto de vista histórico, a data surgiu logo depois do massacre ocorrido na cidade de Sharpeville na África do Sul quando a polícia do Apartheidmatou 69 negros e feriu 180, no dia 21 de março de 1960. Além disto, a data serve como alerta para aqueles que ingenuamente acreditam na superioridade de raças, pois é preciso que todos se conscientizem da importância de lutarmos pela fraternidade,harmonia entre os seres humanos e a ideia da unicidade biológica da espécie humana.

 No mundo moderno, o racismo é uma forma de escravizar o ser humano, admitindo conceitos que impedem a realização da dignidade humana. Nesse sentido esta data é uma forma da humanidade pensar no preconceito racial que impera no mercado de trabalho e nos lares de nossas casas através da televisão, sobretudo no cotidiano dos brasileiros que não assumem geralmente o seu racismo. Ainda hámuitosbrasileiros que preferem acreditar que a sociedade não tem racismo, dizendo que nós somos uma sociedade marcada pela igualdade das raças. Será que somos realmente o que Gilberto Freire escreveu no livro Casa Grande e Senzala?

No Brasil, o Movimento Negro vem lutando para afirmar a nossa cidadania desde os tempos dos navios negreiros. O desejo é um só: que brancos e negros vivam com dignidade e igualdade, apesar dos governantes conservadores dizerem por aí que todos somos iguais perante a lei,coisa que há muito tempo o movimento negro já desmentiu. A verdade é que o Brasil nunca foi cordial ou tratou algum dia com igualdade os seus habitantes de pele negra, tendo em vista que o nosso país é Campeão mundial de violação dos direitos humanos da nossa comunidade negra. No Brasil, por exemplo, de cada 4 pessoas que a polícia mata, 3 são negras. Só na Paraíba para cada jovem branco que é assassinado de forma violenta, morrem 20 jovens negros como foi divulgado em relatório pelo Ministério da Justiça.

Diante desse quadro, o racismo é o principal vetor responsável pelas péssimas condições humanas de nossa população afro-brasileira. Portanto, na minha concepção, a suposta democracia racial é um mito criado para esconder esta brutal desigualdade racial, mito este, que muitos políticos e empresários adoram divulgar para o conjunto de nossa população, uma vez que ele funciona como uma forma de anular as nossas críticas a esse injusto, desumano e racista sistema capitalista que historicamente vem atuando no sentido de impedir o povo brasileiro de enxergar suas profundas raízes africanas (o Brasil não é a malhação da Globo!).

Vamos acabar com todas as formas de discriminações contra os índios, judeus, cigano, etc. É preciso a luta de todas as etnias para que possamos enfrentar esse monstro chamado de racismo. A inspiração para pôr fim às desigualdades étnicas vem do Quilombo de Palmares ondeos palmarinos nos ensinaram a viver num país democrático e com justiça social para todos. Pena que a Revista Pais e Filhos ainda nãoaprendeu a lição, pois já faz um ano que ela não traz uma criança negra na capa, segundo o Correio Nagô da cidade de Salvador e isto só demonstra o quanto estamos longe de vivermos uma verdadeira democracia racial.

 

Jair Silva- Historiador, Coordenador do Movimento Negro de Campina Grande e aluno do Curso de Especialização em História e Cultura Afro-Brasileira da UEPB.

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