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Jair Silva

Por Jair Nguni

No Dia Nacional da Consciência Negra brancos empresários são os grandes homenageados pelos Vereadores de Campina Grande

Semana da Consciência Negra é momento para se homenagear quem luta seriamente contra o racismo e de reconhecer o quanto os negros e negras dessa cidade tem feito para descolonizar mentes e corações de uma elite perversa e racista, a qual tenta de todas as formas barrar nossas conquistas em prol do empoderamento da raça negra em Campina Grande. Solicitei ao Vereador Napoleão Maracajá o título de cidadania campinense para o Tata Vicente Mariano, mas nunca fui atendido por ele. Depois dessa recusa fui solicitar esse título de cidadania para o Vereador Anderson Maia do PSB, mas também não fui atendido por esse parlamentar. O interessante é que o gabinete do Vereador Anderson Maia me pediu uma justificativa para conceder essa homenagem para o Tata Vicente Mariano. Aceitei o desafio do seu gabinete, o que me levou a escrever um texto de cunho histórico sobre o racismo enfrentado pelo povo de santo. No entanto, nada disso adiantou. Nem mesmo o documento feito pela Juventude de Terreiro de nossa cidade reforçando a minha luta para que este ano fizéssemos uma bonita homenagem para o candomblecista mais antigo da Paraíba, no dia 20 de novembro.

Esses dois parlamentares, na verdade, trataram com total descaso meu pedido para homenagear esse histórico e respeitado sacerdote do candomblé. Os dois Vereadores deveriam saber que na história de Vicente Mariano de Oxum esse respeitado candomblecista já ganhou diploma de honra ao mérito durante o Centenário de José Américo de Almeida (1887\ 1987), por sua atuação em prol do desenvolvimento cultural brasileiro. Esse diploma foi concedido pelo NELL- Núcleo de Estudos linguísticos e literários da UFPB como podemos encontrar num quadro pendurado no Terreiro desse Tata, localizado na rua Prudente de Morais na Estação Velha. Vicente Mariano foi iniciado aos 16 anos no candomblé de Tradição Nagô e teria nascido no dia 19 de novembro de 1929 no município de Macaparana, Estado de Pernambuco. Só este ano quatro sacerdotes da igreja católica ganharam o título de cidadania campinense numa única sessão, incluindo aí o Bispo de Campina Grande Dom Frei Manoel Delson Pedreira da Cruz. Por que não se faz  com essa mesma dimensão política, reconhecimento  social, religioso e valor simbólico uma  homenagem  para os  representantes do candomblé, umbanda e jurema de Campina Grande?

Enquanto no dia 19 de novembro Napoleão Maracajá criticava os líderes do Movimento Negro de Campina Grande na ausência desses mesmos líderes, dizendo que: “a responsabilidade da mobilização para esta sessão ficou a cargo de alguns representantes do movimento negro”. Infelizmente, parece-me que já virou regra a “Casa de Félix Araújo” fazer homenagens para brancos de classe média, sem que os Vereadores Anderson Maia e Napoleão Maracajá quebrem essa regra injusta, excludente e que reforça claramente o racismo no campo da política.  O parlamento mirim campinense já tinha feito essa injustiça contra a nossa população negra no ano de 2013 quando humilhou de forma pública o Movimento Negro de Campina Grande, cancelando uma sessão especial previamente marcada para debater o Dia Nacional da Consciência Negra. É só olharmos o site da Câmara de Vereadores para  todo mundo perceber que a homenageada foi  a senhora Maria da Penha no ano de 2013. É só olharmos agora para saber quem foi no último dia 20 de novembro o perfil eurodescendente dos homenageados, para percebermos que mais uma vez a elite branca dessa cidade representada por dois empresários brancos foram os grandes homenageados com o título de cidadão campinense.

Com relação a essa sessão especial feita pelos Vereadores para refletir o Dia Nacional da Consciência Negra, no dia 19 de novembro. O Vereador Napoleão Maracajá era para ter aproveitado o momento para dizer a  Secretária de Educação Iolanda Barbosa que o bairro da Liberdade não é um bairro de maioria negra e com altos índices de violência contra jovens negros. Portanto, levar o Parque da Liberdade e o Centro de Iniciação Esportiva para o quintal da classe média branca do bairro da Liberdade é cometer um crime contra a vida dessa mesma juventude negra que vive socialmente abandonada nas periferias de Campina Grande, visto que é nas periferias onde se mata todos os dias jovens negros justamente por falta de equipamentos culturais e esportivos como esses que serão construídos, diga-se de passagem, sem nenhum debate com o movimento negro em toda sua diversidade afro-brasileira e participação do próprio Conselho Municipal de Juventude.

O genocídio da juventude negra vai aumentar na nossa cidade com esse tipo de política pública concentrada em um território longe das periferias. Assim sendo, a Prefeitura com esse tipo de comportamento passa por cima das determinações  sociais do Plano Juventude Viva e isso precisa ser denunciado junto ao Ministério Público, Vereadores e para os movimentos sociais que representam os direitos da juventude de Campina Grande. É por isso que não se montou de forma democrática o Comitê Gestor do Plano Juventude Viva na nossa cidade,  tendo em vista que a Prefeitura no governo do PSDB quer implantar suas políticas sociais sem ouvir o movimento negro e toda sua diversidade afro-brasileira. Infelizmente, diante desse quadro, existe uma certa militância que vive das regalias e esmolas do grupo Cunha Lima e por ter sido aparelhada não pode bater de frente com essa oligarquia, visto que com seus cargos na Prefeitura não pode desagradar ao seu patrão que gasta milhões para fazer festa de São João, mas sem gastar nenhum real se quer para salvar as vidas de nossos jovens negros nas periferias. Essa mesma militância que se diz “séria e honesta” ainda se apropriou vergonhosamente do Plano Juventude Viva como se fosse sua galinha dos ovos de ouro e os debates sobre a juventude negra ficam concentrados entre quatro paredes na Secretaria de Esportes, Juventude e Lazer da Prefeitura Municipal de Campina Grande, negando claramente a participação de diversos outros atores e personagens sociais que lutam diariamente contra o genocídio da juventude negra de Campina Grande e que poderiam contribuir para democratizar esse debate. Entendemos, assim, que qualquer política pública direcionada para combater o genocídio da juventude negra empobrecida e geralmente moradora das periferias e centros urbanos, teriam que passar necessariamente pela aprovação de um Comitê Gestor do Plano Juventude Viva, com a participação plena e ampla da sociedade civil, fato esse que não está acontecendo pelas razões aqui já explicitadas. Cadê o Comitê Gestor do Plano Juventude Viva dessa cidade?

Essa sessão especial voltada para o debate sobre as profundas desigualdades raciais era o momento  ideal para o Vereador Napoleão  também cobrar da Secretária de Educação Iolanda Barbosa o motivo do Prefeito Romero Rodrigues não ter até o presente momento sancionado o projeto de cotas para negros no serviço público municipal. Ademais, ele poderia ter perguntado para a representante da oligarquia Cunha Lima quando é que o Prefeito Romero Rodrigues vai botar em prática as 14 propostas de combate ao racismo da II Marcha Nacional Contra o Genocídio do Povo Negro. Também poderia ter perguntado para a senhora Iolanda Barbosa quando é que a Prefeitura vai colocar em pratica as propostas que foram aprovadas na I Conferência Municipal de Promoção da Igualdade Racial, Conferência essa, que virou um grande estelionato político e histórico, servindo apenas para gerar emprego para uma certa militância cooptada por esse mesmo grupo político.  Gostaria, portanto, de deixar bem claro que nunca me coloquei como líder do movimento negro de nossa cidade, pois faço militância de forma independente e não coordeno nenhum movimento negro organizado. Por outro lado, gostaria de dizer para esse parlamentar que ele precisa dizer agora quem ficou responsável pela organização dessa sessão especial completamente esvaziada, uma sessão que entra para a história do ativismo negro campinense, uma vez que até onde eu sei esse fato triste nunca tinha acontecido nos 29 anos de luta contra o racismo do Movimento Negro de Campina Grande.

Essa sessão especial foi marcada ainda por uma fala da representante do Prefeito Romero Rodrigues como se as portas do poder executivo municipal  estivessem abertas para todos que fazem o movimento negro e sua diversidade afro-brasileira. Ora, o Seminário Agosto Para a Igualdade Racial não recebe nenhum apoio da Secretaria de Educação que tem na pessoa da Senhora Iolanda Barbosa sua atual gestora. Já tentamos esse apoio em outras pastas do governo do PSDB como na Secretaria de Cultura, mas não conseguimos nada de patrocínio do poder público municipal na gestão do Prefeito Romero Rodrigues.  A fala da Secretária Iolanda Barbosa contrasta com a realidade dos fatos no cotidiano de quem luta contra o racismo em Campina Grande. A biblioteca Comunitária do Tambor, por exemplo, sobrevive na garagem do pai do professor e ativista cultural Williams Lima Cabral, já que não tem apoio do poder público municipal para combater esse mesmo genocídio da juventude negra que  a  Prefeitura diz ter políticas públicas de enfretamento. Aqui só tem apoio mesmo o militante que vive de joelhos para o grupo Cunha Lima. Para esse tipo de militância, a Prefeitura tem emprego e ainda convida para fazer parte de todas as atividades pensadas pela Secretaria da Educação para celebrar o Dia Nacional da Consciência Negra.

O Vereador Napoleão Maracajá ainda esqueceu de lembrar que no ano passado fizemos uma sessão com  um público considerável e com ampla participação de grupos de capoeira e, ao mesmo tempo, com a presença de uma mulher negra da ONG CENTRAC representando  a luta da mulher afrodescendente  por igualdade racial.  Na sessão especial organizada este ano pelo seu gabinete percebemos que os diversos grupos e associações de capoeiras não estavam no plenário, muito menos como debatedores na tribuna da Câmara de Vereadores no último dia 19 de novembro quando foi debatido mais uma vez a realidade social da nossa população afro-brasileira sem a participação de nenhuma mulher negra, o que revela exclusão e falta de pluralidade política e social no encaminhamento desse evento. Sinceramente, lamento profundamente pela falta de honestidade intelectual e política do Vereador Napoleão Maracajá quando disse que o movimento negro era o responsável pela mobilização dessa sessão esvaziada, sem que ele disesse para o público que ali estava quem ficou responsável de mobilizar a sociedade.

Posso dizer que pelo que conheço da história do Movimento Negro de Campina Grande é fato que essa sessão foi completamente esvaziada pela forma como seu gabinete deve ter encaminhado, pois era pra ter tido uma reunião com todos os integrantes do movimento negro e sua diversidade afro-brasileira.  Digo isto pelo fato de ter que me defender de seus ataques injustos, visto que jamais fui chamado para organizar esse evento, assim como não fui convidado para ser um dos oradores. Desafio, diante desse contexto, o Vereador do PC do B Napoleão Maracajá a dizer quem ficou responsável pela mobilização e peço ao mesmo parlamentar que dê os nomes das pessoas que ficaram encarregadas de fazer essa função de levar público para a Câmara de Vereadores de Campina Grande.

Finalmente, fica a lição para o Vereador Napoleão Maracajá e seu Gabinete excludente. Vocês não me convidaram para organizar e debater as desigualdades raciais em Campina Grande pelos seus interesses inconfessáveis. Também não convidaram Ana Lúcia Sales, integrante com Movimento Negro de Campina Grande com quase 15 anos de atuação em defesa da igualdade racial no nosso município. Portanto, repúdio essa tentativa de querer responsabilizar o esvaziamento aos líderes do Movimento Negro de Campina Grande como se o Jair Nguni tivesse algo a ver com toda essa história. O senhor deveria cobrar isso de quem foi chamado para fazer parte dessa sessão esvaziada, sobretudo de certos oradores que não pertenciam ao movimento negro. Pessoas que não tinham a menor tradição nesse debate por igualdade racial em Campina Grande. Talvez, resida aí a explicação do fracasso dessa sessão especial em matéria de público, já que botar pessoas estranhas as lutas diárias contra o racismo acaba dando nesse tipo de situação vexatória. No mais, saiba que jamais vou aceitar seu ataque injusto e quero ainda lhe dizer que no seu gabinete e no do Vereador Anderson Maia não coloco os meus pés enquanto tiver vida. Se a sua intenção, enfim, era encontrar um culpado pelo fracasso da sessão e, por tabela, ainda posar de democrata e agregador para seus pares e sociedade. Acredito que sua intenção fracassou com a verdade desses esclarecimentos aqui registrados para a posteridade.

 

 

Autor: Jair Nguni- historiador e militante do Movimento Negro de Campina Grande.

mai
5

Por Jair Nguni

Jair Silva

Vicente Mariano, Candomblé e Intolerância Religiosa.

Segundo dados do IBGE de 2010, a população campinense  possui 58% de pretos e pardos. Logo, entregar um título de cidadania  para o  senhor Vicente Mariano é contribuir para  dar visibilidade e autoestima  ao povo de santo, povo este, que historicamente  vem sendo marginalizado e discriminado em todos os setores da sociedade campinense. Temos, portanto, que reconhecer e perceber que o Tatalorixá Vicente Mariano, fundador do Terreiro Senhor do Bonfim Ilê Oxum Ajamim, é parte  integrante desse  processo de luta e história de resistência do povo negro contra a intolerância religiosa. E que pela sua atuação valorosa e corajosa em  mais de 63 anos de iniciação no candomblé de Nação Nagô ele merece, indubitavelmente, ser reconhecido pelo seu trabalho permanente em defesa das religiões de matriz africana.

O  Tatalorixá Vicente  Mariano foi iniciado no Candomblé de Nação Nagô  aos 16 anos de idade no estado de Pernambuco. Sua Mãe de Santo foi a Yalorixá Zefa Felino da Costa, filha do Babalorixá  Pai Adão e da Yalorixá Lídia Alves. Ao chegar  em  Campina Grande  ele funda na rua Prudente de Morais, localizada na Estação Velha, o Terreiro de  Umbanda  Senhor do Bonfim que foi inaugurado em 1967. Por esse breve histórico da biografia desse pernambucano, podemos considerar  este legítimo representante  das religiões de matriz africana  como  um dos pais fundadores da Umbanda na  Paraíba, fato que, por si só,  já seria o bastante para  lhe conceder qualquer homenagem por parte da Câmara de Vereadores de Campina Grande. Ora, nessa época de grande perseguição e racismo contra os juremeiros e umbandistas o povo de santo era acusado constantemente pelas autoridades policiais e jornalistas de prática ilegal da medicina e de curandeirismo, além de serem rotulados pejorativamente de catimbozeiros e feiticeiros. Vicente Mariano, diga-se a bem da verdade, sobreviveu com sua fé no candomblé a tudo isso e hoje é visto como símbolo de luta pelo respeito aos cultos de matriz africana e afro-ameríndia na Paraíba.

Portanto, num país onde  no passado muitos  Babalorixás e Yalorixás foram agredidos e humilhados, tendo seus terreiros invadidos pela polícia e objetos sagrados destruídos em muitas cidades do Brasil, visto que de acordo com uma psiquiatria racista  que  imperava na academia brasileira no final  do século XIX e início do século XX o candomblé era visto como uma verdadeira  anomalia e doença mental  de negros e negras. Não foi por acaso, que muitos dos seus praticantes foram presos pela polícia e depois enviados para manicômios no Brasil. O povo de santo, na verdade,  sempre foi alvo da mais dura e cruel perseguição religiosa no Brasil  e, infelizmente, percebemos que  essa   intolerância religiosa que perseguiu em outrora os candomblecistas e umbandistas ainda não acabou, em que pese a Constituição Federal garantir a igualdade de todos perante à lei e a liberdade de culto para todos os brasileiros.

É que no Brasil  nos últimos  9 anos, calcula-se que pelo menos 22 sacerdotes das  religiões de matriz africana foram assassinados. 15 deles só no estado do Amazonas, o que revela um profundo sentimento de intolerância que vem ceifando vidas de seres humanos, que não tem se quer o direito de cultuar os seus deuses e deusas trazidos da África. A Paraíba, lamentavelmente, faz parte desse contexto no qual o racismo que atinge de forma violenta o povo de santo pôde  ser visto na cidade sertaneja de Brejo dos Santos, cidade onde no ano de 2012  um terreiro foi invadido, profanado e destruído totalmente por um grupo de fundamentalistas evangélicos.

Esses dados sobre mortes e assassinatos  de  adeptos do candomblé, por si só, já são suficientes para  qualquer  agente público deixar sua ilha de conforto para notar que não podemos  mais ficar calados diante da intolerância religiosa. Sendo assim,  acreditamos que a concessão do título de cidadão campinense para o senhor Vicente Mariano é uma boa razão para começarmos a pensar em construir políticas públicas, voltadas para garantir o direito à vida  ao povo de santo que vem sendo vítima do racismo desumano e cruel. Pensar em políticas que possam saldar essa dívida social e histórica que o Estado brasileiro tem com segunda maior população negra do mundo, que vive no Brasil historicamente com uma cidadania de segunda classe. Sempre é bom lembrar que Vicente Mariano além de ser candomblecista, é negro. E quem carrega essa marca  na pele já enfrentou ou vai enfrentar algum dia os duros golpes do racismo.

À guisa de conclusão, Campina Grande conta com dezenas de terreiros de umbanda  e candomblé. Entretanto, como já afirmamos nesse texto, por conta do racismo os adeptos das religiões de matriz africana e afro-ameríndia como os juremeiros, vêm sofrendo com vários ataques e agressões, sendo também  constantemente  vítimas do preconceito e da intolerância por parte de outros segmentos religiosos fundamentalistas.  Portanto, reconhecer o trabalho religioso do pernambucano Vicente Mariano é, antes de mais nada, reconhecer sua luta contra essa realidade marcada pela perseguição ao povo de santo, uma vez que o senhor Vicente tem uma vida dedicada  à preservação da Tradição dos Orixás em nosso município, pois se  não fosse o   Tatalorixá Vicente Mariano temos absoluta certeza que  não existiriam outras casas de santo em Campina Grande  como o Ilê de Ogum  Jobioô do Babalorixá Ubirajara Alves lá no bairro do Belo Monte.  Não existiria o Ilê Airá  Bolomim  Lodé do Babalorixá  José Roberto no  bairro das Cidades. Como também não existiriam os Terreiros Ilê Axé Malabí do Pai Chico e Senhor do Bonfim Oyá Gandê da Yalorixá  Mãe Suênia.

Autor: Jair Nguni- historiador e ativista do Movimento Negro de Campina Grande.

nov
28

Por Jair Nguni

Jair SilvaCâmara de Vereadores de Campina Grande humilha movimento negro no Dia Nacional da Consciência Negra

 No último dia 8 de novembro o Movimento  Negro de Campina Grande completou 27 anos de luta contra o racismo. Como presente de aniversário, sofremos a maior humilhação da nossa história, tendo em vista que a sessão especial que estava marcada para acontecer no dia 20 de novembro foi cancelada e depois marcada para o dia 27, sem nenhuma justificativa plausível. Agindo como verdadeiros senhores de engenho, os Vereadores da “Casa de Félix Araújo” poderiam ter feito essa sessão logo após a entrega do título de cidadania campinense para a senhora Maria da Penha. Todavia, não foi isso que aconteceu como estava previsto e sendo divulgado no próprio Site e Twitter da Câmara de Vereadores de Campina Grande.

Para ser sincero, não é de hoje, que esse poder legislativo nos trata com desprezo e descaso, visto que já fizemos uma Audiência Pública com apenas dois Vereadores em plenário. Nessa audiência  compareceram o Vereador Tovar Correia Lima e o Ex–vereador Antonio Pereira. Num país em que a raça negra chega a ser mais de 51% da população brasileira era pra ser obrigação política e dever ético para qualquer representante do povo ouvir as reivindicações do movimento negro, até porque, somos nós que estamos sofrendo mais com o desemprego, analfabetismo, falta de moradias, violência policial, etc.

Essa sessão especial tinha sido uma reivindicação minha e lutei  muito para organizar esse momento tão importante na vida de quem luta pela promoção da igualdade racial. Na Câmara de Vereadores estavam presentes o Mestre de capoeira Sabiá, atual Presidente do Conselho de Mestres de Capoeira da Paraíba, os militantes do Movimento Negro de Campina Grande Moisés Alves e Ariosvalber de Sousa Oliveira, além de outras pessoas engajadas na luta pela valorização da cultura afro-brasileira como o Presidente da União dos Capoeiras do Planalto da Borborema Bega Pequeno e do Vice- presidente da UCPB Aldo Batista. Todos à espera de uma sessão especial que não aconteceu por desorganização, incompetência e má fé dos Vereadores.

Não há como negar a verdade dos fatos. O real objetivo de quem organizou a entrega do título de cidadão para Maria da Penha no Dia Nacional da Consciência Negra era desprestigiar e esvaziar a sessão especial, voltada para a valorização dos legítimos representantes dos ideais de Zumbi dos Palmares. Ademais, quando percebi que a Prefeitura de Campina Grande não tinha feito qualquer programação para refletir o Dia Nacional da Consciência Negra junto à população como fez a Prefeitura de João Pessoa em 15 bairros da capital, através de palestras, debates, oficinas e apresentações musicais e culturais com artistas e grupos da cultura afro-brasileira. Logo,  vi que o circo da hipocrisia eurodescendente por aqui estava muito bem armado para humilhar o movimento negro e impedir que a sociedade tomasse consciência das profundas desigualdades raciais no Dia Nacional da Consciência Negra- 20 de novembro.

A Prefeitura Municipal de Campina Grande, por meio de sua Coordenadoria Especial de Políticas Públicas para as Mulheres já tinha elaborado uma programação para homenagear na Câmara de Vereadores- a biofarmacêutica Maria da penha, o que considero politicamente correto e mais do que justo para uma cidadã como ela que vive num país onde a cada ano dois milhões de mulheres são vítimas da violência doméstica. O que é inaceitável, na minha visão, foi ter presenciado esse total descaso e desrespeito com uma sessão previamente aprovada pelos próprios Vereadores. Os convites foram feitos e distribuídos para várias escolas como o Colégio Estadual da Prata e Clementino Procópio. Foi assim que, várias entidades foram convocadas para a Câmara de Vereadores na expectativa de nos ouvir. A ASSORAC- Associação Raízes da Cultura foi uma delas.

Todo mundo sabe por aqui que sempre fizemos sessões especiais bastante prestigiadas pelo público. Mas, a politicalha carcomida, covarde e racista dessa cidade, capitaneada pelo grupo político que atualmente domina e chama Campina Grande de “cidade da inovação”, são conhecedores do nosso poder de mobilização popular. Portanto, não tenho a menor dúvida de que o movimento negro foi vítima de um grande golpe baixo e sujo. É que a intenção dos Vereadores em um verdadeiro conluio com a Prefeitura era usar o nosso público para homenagear Maria da Penha e depois cancelar a sessão alusiva ao Dia da Consciência Negra. De fato, foi realmente isso que aconteceu, já que muitas pessoas acabaram indo embora pelo fato de terem percebido que não tinha nenhum debate sobre  movimento negro, racismo e consciência negra no plenário da Câmara de Vereadores. As alunas da Escola Normal foram embora, por exemplo, já que elas perceberam que ali estava acontecendo outra coisa bem diferente do convite que haviam recebido. Essa escola gastou 100 reais para alugar um ônibus para 50 estudantes. Já outros estudantes como os da Escola Estadual Dom Luiz Gonzaga tiveram que prestigiar a entrega do título para a senhora Maria da Penha, embora estivessem ali para prestigiar a sessão especial alusiva ao Dia Nacional da Consciência Negra.

Assim, diante desse quadro, o prejuízo educacional e ainda financeiro para os estudantes e professores dessas escolas aqui mencionadas merece um registro, visto que muitos não tiveram aulas nesse dia e tiveram que gastar dinheiro do próprio bolso para prestigiar uma sessão especial que não aconteceu. Será que algum dia os Vereadores vão pedir desculpas para essas escolas? Por que não botaram a sessão para acontecer antes da entrega do título de cidadão, para a senhora Maria da Penha?

Creio que nesses 27 anos de luta do movimento negro campinense fizemos aproximadamente cinco sessões especiais. Nunca tínhamos organizado uma sessão para ser cancelada e remarcada para outra data como os Vereadores fizeram sem nos consultar. Outro erro da Câmara de Vereadores  foi ter rejeitado o feriado municipal para o dia 20 de novembro, pois esse tipo de atitude reforça o racismo. Teve Vereador, inclusive, que alegou que o comércio não podia parar. Outros se posicionaram contra por entender que o Brasil já tem feriado demais. É, pelo que podemos notar, os Vereadores de Campina Grande são defensores de um centro comercial onde impera um violento racismo, visto que são pouquíssimos os negros e negras que conseguem emprego no comércio de nossa cidade.

Realmente, é muita hipocrisia e demagogia de um poder legislativo, tendo em vista que eles tinham  aprovado a criação da Semana da Consciência Negra e de Ação Antirracista este ano. Em síntese, os nobres Edis de Campina Grande desrespeitaram o que eles  aprovaram em debates no plenário da “Casa de Félix Araújo”, assim como fizeram de conta que não sabiam que já é feriado em mais 1047 cidades em todo Brasil. Assim sendo, caiu por completo a máscara da hipocrisia política dos Vereadores daqui, já que o comércio de grandes cidades como Rio de Janeiro, São Paulo e Curitiba podem parar, mas o de Campina Grande não pode na visão tacanha dos “representantes do povo”.

Nós do movimento negro temos percebido que várias homenagens são feitas na Câmara de Vereadores, geralmente para personalidades da classe média branca. Posso citar alguns nomes que receberam este ano homenagens recentemente deste poder legislativo.São eles: o Reitor do Mackenzie Benedito Guimarães, o Diretor do IFPB  Cícero Nicássio e o historiador Josué Silvestre,  sendo que este último ganhou uma medalha de honra ao mérito dos Vereadores e os outros dois professores títulos de cidadãos campinenses. O Babalorixá e pernambucano Vicente Mariano que tem mais de 58 anos de iniciação no candomblé jamais foi homenageado pelos Vereadores campinenses. O mesmo posso dizer da umbandista Ivonete do Keto e do conhecido Babalorixá pai Walter da Lagoa, ambos residentes no Bairro de José Pinheiro.  Já pedi para o Vereador Napoleão Maracajá para apresentar essa proposta de homenagear Vicente Mariano no próximo ano, com o titulo de cidadão campinense. Será que essa proposta vai ser aprovada pelos Vereadores algum dia?

Este Vereador do PC do B que é Presidente da Comissão de Direitos Humanos, tem pela frente esse verdadeiro desafio político no encaminhamento dessa minha proposta, proposta esta, que deveria ser prioridade no  mandato dos Vereadores, pois esses representantes do povo não tem feito nada para combater à intolerância religiosa em Campina Grande. Portanto, nada melhor do que começar esse debate dando um título de cidadão a quem de fato tem história para contar, visto que Vicente é negro e cultua os orixás num país racista como o nosso, onde babalorixás e yalorixás já foram presos, torturados, mortos e até enviados para manicômios apenas pelo fato de cultuar seus deuses trazidos da África. Espero que o Vereador Napoleão Maracajá tenha coragem para fazer tal debate, lutando pela aprovação desse título, já que isso seria verdadeiramente um marco na história do povo de santo tão oprimido, perseguido e marginalizado historicamente em nosso município.

Com a palavra, os Vereadores de Campina Grande responsáveis pela maior humilhação que o movimento negro já passou nos seus quase 30 anos de luta pela igualdade racial.

out
10

Por Jair Nguni

Jair SilvaUm guerreiro, um poeta, um maloqueiro!

Ele começou sua história de luta contra o racismo no MNU em Salvador, por volta de 1985. Entretanto, os PMs  que invadiram a casa de Hamilton Borges, no dia 30 de setembro, “esqueceram” de quase três décadas de luta desse combativo ativista do movimento negro baiano e resolveram passar por cima  do artigo quinto de nossa Constituição Federal, visto que a nossa Carta Magna garante para todo(a) cidadão brasileiro(a) o seguinte direito: “a casa é asilo inviolável do indivíduo, ninguém nela podendo penetrar sem consentimento, salvo em caso de flagrante delito ou desastre, ou para prestar socorro, ou, durante o dia, por determinação judicial.”

Sob a alegação de que receberam uma denúncia anônima. Policiais armados até os dentes com metralhadoras resolveram invadir a casa do militante do movimento negro de Salvador- o senhor Hamilton Borges. Num Estado democrático de direito, infelizmente, somos obrigados ainda a conviver com esse tipo de violação dos direitos da pessoa humana. Essa agressão policial contra o ativista do movimento negro Hamilton Borges não pode ficar na impunidade. O governo do estado da Bahia tem a obrigação política e o dever moral de vir a público e explicar essa ação policial anticonstitucional, típica dos tempos da ditadura militar quando se prendia, torturava e matava-se um preso sob a tutela do próprio Estado brasileiro. Esse caso que envolve o militante dos direitos humanos Hamilton Borges, na verdade, é apenas mais um dos inúmeros casos que acontecem cotidianamente no Brasil com a população negra, mas que a imprensa venal e racista nem sempre olha com atenção nas suas pautas, pois em se tratando de violações dos direitos fundamentais do(a) cidadão negro(a) a mídia controlada pelos brancos de classe média sempre faz questão de ignorar. Duvido que os meios de comunicação da Bahia estejam debatendo esse caso com a sociedade soteropolitana. Duvido que jornalistas estão nesse momento  procurando saber do Governador Jaques Wagner  qual será a punição para os policiais.

Vejo, portanto, com muita preocupação essa ação repugnante de alguns PMs da Bahia, invadindo literalmente a casa de um dos maiores militantes do Movimento Negro da Bahia, tendo em vista que esses PMs não tinham mandato judicial para adentrar na casa do senhor Hamilton Borges. Logo, podemos concluir que essa ação arbitraria configura-se como um verdadeiro abuso de poder e que merece por parte do Ministério Público uma investigação séria e rigorosa para que possamos ter a exata dimensão do quanto Hamilton Borges e sua família foram constrangidos e desrespeitados nos seus direitos constitucionais. Por outro lado, cabe ao governo do senhor Jaques Wagner do PT punir quem de fato foi o responsável por ter entrado na casa de um cidadão negro que tem uma vida política dedicada à luta pela igualdade racial, destacando-se  na sociedade soteropolitana e brasileira pela sua coragem na defesa e luta permanente pelos direitos da juventude negra, sobretudo da população negra encarcerada por esse capitalismo racista, cruel e desumano.

Pelo que acompanho da vida do ativista em tela. Acredito que a Campanha Reaja ou Será Morta, Reaja ou Será Morto deve está incomodando as forças conservadoras e o que Hamilton vem sofrendo faz parte do repertório racista do aparato repressivo do estado baiano, interessado em calar vozes guerreiras e altivas como a dele que não se dobra diante das retaliações. Recentemente, o ativista do Quilombo Xis- Ação Cultural Comunitária também foi um dos responsáveis pela Marcha Nacional Contra o Genocídio de Povo Negro, ocorrida no dia 22 de agosto deste ano, entre outras ações como denúncias de diversos casos de violência estatal contra negros e negras na Bahia, além de fazer parte de uma luta permanente em defesa dos quilombolas do Quilombo do Rio dos Macacos, uma comunidade quilombola que vem sofrendo sucessivos ataques, intimidações e agressões por parte da Marinha brasileira. Tudo isso faz parte da plataforma de atuação social e política desse grande militante do movimento negro de Salvador.

Coloco-me na situação de dor e sofrimentos psicológicos vividos pelo ativista baiano no momento da chegada dos policiais em sua residência, pois já fui 17 vezes parado pela Polícia  Militar em Campina Grande, inclusive, sofri agressões verbais e até um chute na perna numa das abordagens truculentas. Não é por acaso que, sempre vejo  o Estado brasileiro como o principal violador dos diretos humanos no Brasil. Assim sendo, o que aconteceu na casa de Hamilton Borges é um exemplo emblemático e negativo do que pode acontecer a todos nós que lutamos contra o genocídio da juventude negra, já que muitas vezes somos obrigados a mostrar que há policiais racistas dentro desse Estado brasileiro que faz parte de grupos de extermínio de nossa população negra afro-brasileira. Até o presente momento não vi o Coronel Castro, atual Comandante da PM Baiana pedir desculpas em público pelo erro dos seus comandados, assim como não vi até agora nenhum pronunciamento do Governador da Bahia Jaques Wagner sobre o assunto. Como sempre as palavras de solidariedade e de repúdio, tem sido feitas por entidades que lutam por uma justiça humana, livre do racismo e desse tipo de polícia com cara e alma da Gestapo de Hitler.

Também gostaria de parabenizar o Correio Nagô pela coragem em publicar matéria, dizendo: “militante negro é intimidado por polícia militar baiana em sua residência”. Gostaria de parabenizar, outrossim, as entidades Justiça Global e Coletivo das Lutas pela nota de repúdio contra essa ação policial, orquestrada para impor medo a todos nós que lutamos para pôr fim ao  genocídio da juventude negra, bem como  para conter essa brutal violência policial patrocinada pelo Estado contra a população negra empobrecida das periferias de São Paulo, Salvador, Recife, Rio de Janeiro, etc. É por isso que jamais vamos aceitar  esse modelo atual de Polícia Militar que foi criado no século XIX para caçar negros e destruir quilombos, como bem disse a socióloga Vilma Reis na CPI da violência urbana, tendo em vista que  esse modelo ainda permanece forte e enraizado nas mentes e práticas sociais de muitos policiais do Brasil. Sim, também não posso deixar de registrar o pronunciamento do Deputado Federal Valmir Assunção no Congresso Nacional, o qual manifestou críticas a esse tipo de ação militar ilegal e ainda cobrou providências e explicações do Comando da Polícia Militar e Secretaria de Segurança Pública do Estado da Bahia.

Quero, em resumo, manifestar a minha total e irrestrita solidariedade ao ativista do movimento negro baiano- Hamilton Borges e para sua família. E, dizer que continue na sua luta justa e diária em defesa de uma justiça que não seja violadora de direitos da nossa população negra. A sua luta contra a violência policial, racismo e desigualdades também é nossa. Assim sendo, creio que é dever de todo (a) militante do Movimento Negro Brasileiro se pronunciar em defesa de sua dignidade, pois esse ataque humilhante a sua honra e família também foi um ataque covarde a todos nós que lutamos por uma sociedade fraterna, solidária e igualitária. E Pensar que esse triste fato aconteceu mesmo na  semana de mais um aniversário de Mohandas Karamchand Gandhi, já que o Mahatma nasceu no dia 2 de outubro- Dia Internacional da Não- Violência. Realmente é de partir meu coração porque Hamilton Borges luta pelo direito à vida num estado como a Bahia onde o Mapa da violência de 2012 revelou que para cada pessoa branca assassinada, na capital, 15 negros são executados. Agora, temos que lutar para preservar a vida do ativista dos direitos humanos Hamilton Borges, pois como disse a professora Ana Célia da Silva no meu facebook:“se não agirmos rápido podemos perder o companheiro!”. De quem será a culpa?

 

Autor: Jair Nguni- historiador e militante do Movimento Negro de Campina Grande-PB

set
11

Jair SilvaA TV Paraíba não tem respeito pela população negra paraibana, especialmente pela comunidade negra de Campina Grande, cidade onde nasceu o poeta, compositor, teatrólogo e escritor da literatura afro-brasileira- Arnaldo França Xavier. Estou fazendo essa afirmação pelo fato de ter percebido que o nosso Projeto Agosto da Igualdade, infelizmente, não recebeu a devida atenção por parte dessa emissora de televisão, embora eu tenha mandado vários E-mails pedindo  para que essa empresa fizesse matérias sobre o nosso projeto, além de ter ligado para a redação  duas vezes para obter uma cobertura jornalística. Entretanto, não  fui  feliz nas minhas insistentes solicitações, uma vez que em todos os pedidos acabei sendo ignorado. Eis aí a cara de uma mídia autoritária, antidemocrática e  excludente na sua forma de tratar as demandas do movimento social afro-brasileiro.

Esse repertório de desrespeito e tentativas de invisibilizar as lutas do movimento negro vem acontecendo há bastante tempo. Posso, inclusive, fazer uma lista de eventos, ações e projetos  realizados pela militância negra para mostrar que esse canal de tv, a rigor, sempre excluiu de suas pautas jornalísticas nossas ações de combate ao racismo. Podemos começar, por exemplo, pelos vários encontros estaduais do Movimento Negro Paraibano e que não mereceu  atenção dessa referida emissora de televisão, visto que nesses encontros participei de quatro deles e não vi nenhuma equipe dessa empresa da área de comunicação entrevistar os militantes negros e negras e grupos da cultura afro-paraibana nesses encontros que aconteceram em Campina Grande, Sousa, Catolé do Rocha e João Pessoa.

O  triste exemplo acima mencionado é só a ponta do iceberg da forma como essa tv trata as lutas do Movimento Negro de Campina Grande. Lembro-me que no já extinto Centro de Educação da UEPB fui o responsável pela realização de duas  semanas da consciência negra. Todavia,  a TV Paraíba nunca procurou o Centro Acadêmico de História do qual fui Diretor de Cultura para fazer alguma matéria sobre nossos eventos acadêmicos. Também,  fizemos por 8 anos a consciência negra no Bairro do Pedregal e nessa comunidade de maioria negra e mestiça, considerada pela mídia racista e preconceituosa como um favela perigosa, jamais presenciei essa emissora de tv  num debate  sobre racismo, direitos humanos, cidadania e inclusão social nesses oito anos de luta contra as desigualdades raciais, no Bairro do Pedregal. Felizmente, não aconteceu roubos e mortes nas 8 consciência negra do Bairro do Pedregal, pois a TV Paraíba adoraria que isso tivesse acontecido para mostrar o lado negativo da comunidade. O lado bom e positivo do ponto de vista social e  cultural, pelo visto, não interessa muitas vezes para quem se acostumou a reforçar estigmas e preconceitos sobre um Bairro que já fez dois tributos a Bob Marley nas oito consciência negra. O Pedregal, diga-se de passagem, até hoje é o único bairro de Campina Grande a fazer isso de forma ousada e organizada, mas a emissora aqui citada desprezou a história de luta contra o racismo de uma comunidade, fruto de uma invasão popular ocorrida nos anos 70. Por que a TV Paraíba nunca quis mostrar  esse lado quilombista do Bairro do Pedregal?

Temos  ainda mais outro exemplo para mostrar e reafirmar o quanto essa emissora adora ignorar as lutas do Movimento negro de Campina Grande, que este ano completa 27 anos de luta contra o racismo em nossa sociedade. Refiro-me ao  Projeto de Lei do Vereador  Napoleão Maracajá do PC do B,  projeto este, que institui a Semana de Ação Antirracista e feriado municipal para o dia 20 de novembro- Dia Nacional da Consciência Negra, na cidade de Campina Grande. Já pedi uma matéria jornalística sobre o projeto para que a sociedade possa tomar conhecimento de sua relevância política, pois defendo a ideia de que um projeto como esse tem de ser alvo de um grande debate público, tendo em vista  que se for aprovado em plenário pelos Vereadores vai mexer com a vida social de toda população campinense, formada na sua grande maioria por negros e pardos. Simplesmente, a TV Paraíba prefere até hoje esconder da sociedade que existe um projeto como esse que já foi aprovado pela Comissão de Constituição e Justiça da Câmara de Vereadores de Campina Grande. Pasmem!

O que mais me incomoda nesse debate todo. É saber que antes de fazer o Projeto Agosto da Igualdade-215 Anos da Revolta dos Búzios-Homenagem ao Poeta Arnaldo Xavier. Estive, pessoalmente, na TV Paraíba para  cobrar  a matéria em relação ao projeto do Vereador Napoleão Maracajá. Aproveitei aquele momento, para entregar o livro O Negro na TV Pública e um ótimo material da FENAJ- Federação Nacional dos Jornalistas, material este, que serve como guia para  que jornalistas atuem criticamente no combate a qualquer forma de discriminação que envolva nossas relações de gênero, raça e etnia. Nesse guia, vale ressaltar, há uma nítida preocupação em fazer do jornalista um agente público que tenha compromisso com a equidade de gênero nas suas falas e, por conseguinte, na elaboração de pautas nas quais o fazer jornalístico não crie ou reforce preconceitos, estigmas e estereótipos sobre negros, índios, mulheres, etc. Vejamos o que diz o próprio guia que entreguei para a redação da TV Paraíba: “a mídia brasileira tem sido palco privilegiado para a reprodução de estereótipos de gênero, raça e etnia e invisibilização das populações historicamente discriminadas. Como resultado, atua como um dos principais agentes para a manutenção de crenças, valores, hábitos, comportamentos e atitudes sexistas, racistas e etnocêntricas, promotores de sofrimento e de profundas desigualdades na sociedade.”

Infelizmente, percebo que  o guia não não foi levado à sério pela redação dessa emissora  paraibana,  assim como a bela e categórica  lição quilombista que dei na TV Paraíba há dois anos e que foi publicada através de texto em vários sites e blogs de entidades negras do Brasil, a exemplo dos Tambores da Liberdade, Correio Nagô de Salvador e da ABPN-Associação Brasileira de Pesquisadores Negros. Essa lição, lamentavelmente,  não foi aprendida e assimilada pelos que trabalham na redação dessa emissora de televisão, pelo fato dela ter ignorado  uma  importante  Audiência Pública do Ministério Público da Paraíba em que tivemos as presenças de representantes da UEPB, UFCG, UFPB, SINTAB, ADUEPB  e de vários pesquisadores(as) e estudiosos(as) da história e cultura afro-brasileira preocupados em tirar do papel as Leis 10.639\03 e 11.645\08. Aliás, é bom que se diga que não foi só a TV Paraíba que desprezou esse debate no MP, já que outras emissoras de tv como a Correio, TV Itararé e Borborema  também  não foram fazer a cobertura jornalística dessa Audiência Pública,  cujo objetivo era debater o alto grau de racismo enfrentado pelas crianças negras e adolescentes nas escolas públicas e particulares dos municípios de Lagoa Seca, Boa Vista, Massaranduba e Campina Grande.

Portanto, como sou um militante combativo, sério e compromissado em restaurar em Campina Grande os ideais da Revolta dos Búzios. Não posso aceitar e ficar calado diante desse tratamento desrespeitoso que a TV Paraíba deu ao Projeto Agosto da Igualdade-215 Anos da Revolta dos Búzios- Homenagem ao Poeta Arnaldo Xavier. A população de Campina Grande tinha o direito de saber que aqui existiu um poeta campinense que dedicou sua vida à luta contra o racismo no campo da literatura. Tinha o direito de saber que Arnaldo fez parte do movimento cultural rebelde, por meio do Cine Clube Glauber Rocha e  Movimento Levante nos anos 60, em Campina Grande. Por que a TV Paraíba  ignorou toda essa história?

Com a palavra, a tv que não é da minha Paraíba, pois sonho com uma tv democrática, plural e que valorize com dignidade e respeito personagens da nossa história como merece ser reconhecido pela sociedade o brilhante poeta- Arnaldo França Xavier.

 

Autor: Jair Nguni- Historiador e militante do Movimento Negro de Campina Grande.

jul
3

Por Jair Nguni

Jair SilvaDa Lei 10.639\03 ao Genocídio da Juventude Negra na Paraíba. Por que tanto descaso e indiferença?

Como historiador, tenho o hábito de guardar determinadas fontes documentais, por entender que elas poderiam me servir no futuro para que um dia pudesse mostrar o quanto o discurso do atual Governador da Paraíba vive muito longe de sua prática política. Assim sendo, fazendo uma pequena digressão histórica vou justificar para o leitor o título deste texto, uma vez que precisarei reconstituir aqui certos fatos que marcaram a minha trajetória de luta contra o racismo em solo paraibano.

Certa vez, fui convidado pela ONG CENTRAC para fazer parte de uma rodada de entrevistas com os candidatos para Governador da Paraíba, em 2010. Antes de começar a rodada de perguntas na Diocese da Igreja Católica de Campina Grande com integrantes de diversos movimentos sociais e o senhor Ricardo Coutinho, tive um encontro com um dos cabos eleitorais deste político que logo foi me entregando um material de campanha voltado para a juventude paraibana. Confesso que no momento da entrega desse material de campanha não me interessei em saber das propostas e preferi me concentrar na pergunta que teria de fazer ao candidato Ricardo Coutinho, atual Governador da Paraíba que não tem dado a mínima atenção para o enfrentamento do genocídio da juventude negra, o que não me surpreende, tendo em vista que quem conheceu sua atuação como Prefeito de João Pessoa sabe  que a nossa juventude afrodescendente nunca foi prioridade nos projetos e ações políticas desse agente público, diga-se a bem da verdade.

Pois bem! Perguntei ao Ricardo Coutinho quais as suas propostas para combater as desigualdades raciais no estado. Este senhor foi logo dizendo para o público presente que para ele o mais importante era a questão social e não racial. Ora, ao fazer esse tipo de afirmação ele deixou bem claro para os movimentos negros que não iria priorizar o debate sobre a vida de 63,3% da população paraibana, cuja origem como todos nós sabemos é africana de acordo com dados do IBGE. Sinceramente, gostaria de acreditar que o seu governo iria fazer o emponderamento da juventude negra empobrecida, garantindo-lhe o direito à vida, cidadania plena e inclusão social. Entretanto, quando vejo que o atual Governador gasta milhões para construir o Centro de Convenções  Ronaldo Cunha  Lima em João Pessoa e que ele deixou por quase um ano o Conselho Estadual de Promoção da Igualdade Racial sem estrutura para funcionar, evidentemente que as minhas esperanças param por aí. Não só por essas questões aqui levantadas, visto que as entidades negras do nosso estado têm feito vários eventos para debater o extermínio da juventude negra, mas o governo estadual não manda nenhum representante, apesar de ter uma Gerência Executiva de Equidade Racial totalmente inoperante, ineficaz e absolutamente desarticulada com os projetos e ações de combate ao racismo construídos pelos movimentos negros.

Como prova da omissão desse governo do PSB frente ao genocídio da juventude negra na Paraíba. Posso, inclusive, elencar uma série de eventos que o ativismo negro paraibano fez e que não contou com a presença de representantes do governo Ricardo Coutinho. A Malungos fez no IFPB, entre os dias 12 e 14 de abril de 2012, o 3º Fórum de Lideranças Negras para debater a realidade social da juventude negra. Nenhum representante do governo estadual apareceu para debater conosco o genocídio da juventude negra no estado. Já este ano o Movimento Negro de Campina Grande fez o Projeto Agosto Para Igualdade Racial e mais uma vez o governo estadual com sua Gerência Executiva de Equidade Racial, também não foi discutir a violência enfrentada por nossa juventude negra. Por fim, devo lembrar que este ano aconteceu na Universidade Federal da Paraíba, entre os dias 3 e 4 de maio,o Seminário Juventude Negra Cidadã organizado pelo Setor de Estudos e Assessoria a Movimentos Populares-SEAMPO, em parceria com o Núcleo de Estudantes Negros e Negras. E nada do CEPIR-PB e do governo estadual aparecerem para debater o genocídio da juventude negra paraibana.

Quando o Ministério da Justiça divulgou o Mapa da Violência, mostrando que no Brasil em 10 anos foram assassinados mais  de 225 mil negros vítimas da chamada violência urbana. Só na Paraíba para cada jovem branco que morre de forma violenta, entre 15 e 24 anos de idade, morrem 19 jovens negros no nosso estado. E que na capital de João Pessoa para cada jovem branco que morre de forma violenta, morrem 29 jovens negros. Portanto, houve um aumento gigantesco na taxa de homicídios de nossa juventude negra. O CEPIR- Conselho Estadual de Promoção da Igualdade Racial não debateu essa realidade vergonhosa, visto que  no seu plano de ação de 2012 voltado para a promoção da igualdade racial, plano este, que  ficou sob a responsabilidade da Secretaria de Estado da Mulher e da Diversidade Humana não mencionava absolutamente nada sobre o genocídio da juventude negra , aliás, os movimentos negros e nossas demandas, lutas e projetos antirracistas não tem a menor visibilidade dentro desta secretaria criada pelo senhor Ricardo Coutinho. É só percebermos o tratamento diferenciado que ocorre todos os anos no mês de março em relação ao Dia Internacional da Mulher e Dia Internacional de Luta Pela Eliminação da Discriminação Racial. O dia 8 de março recebe atenção do governo e sempre se faz peças publicitárias sobre a violência enfrentada pelas mulheres na Paraíba, mostrando para a sociedade políticas públicas de equidade de  gênero, o que considero justo diante da violência sofrida pelas mulheres no estado. Para o 21 de março, entretanto, não acontece nada nesse dia criado pela ONU para que a humanidade elimine o racismo do nosso convíveo social. Pasmem!

Portanto, diante desse quadro, moralmente insustentável, desafio o governo estadual a sair de sua inércia e aderir urgentemente ao Plano Juventude Viva do governo federal, uma vez que  essa iniciativa da SEPPIR prioriza o combate à violência contra a juventude afro-brasileira. O estado de Alagoas que ocupa  o primeiro  lugar nas estatísticas de mortes brutais contra a nossa juventude negra já aderiu a este plano, levando-o  para as cidades de Arapiraca, Marechal Deodoro, União dos Palmares e Maceió.Vale frisar que, essa omissão aqui denunciada não vem só de setores do governo estadual, visto que no ano passado enviei vários E-mails para o NEAB-Í da UEPB para que incluísse debates e palestrar sobre essa temática no seu Encontro Nacional de História e Cultura afro-brasileira, mas não fui atendido, o que demonstra que muitos acadêmicos no Brasil só querem saber do negro quando é para enriquecer o seu currículo lattes. Por que o NEAB-Í não apresenta um projeto de cotas raciais na UEPB, como forma de combater essa violência enfrentada pela juventude negra?

Deixando as omissões do NEAB-Í da UEPB de lado. O Governador Ricardo Coutinho ainda “esqueceu” e preferiu passar por cima das deliberações das Conferências Estaduais e Nacionais de Promoção da Igualdade Racial, já que sempre foi bandeira do Movimento Negro Brasileiro a criação de secretarias voltadas especificamente para combater o racismo. O CEPIR-PB também, estranhamente, desprezou e tratou com indiferença todos os eventos que aqui citei, já que não vimos a presença de representantes desse conselho que vem se mostrando bastante omisso e descompromissado com o genocídio enfrentado pela nossa juventude negra. Quando é que o CEPIR-PB vai debater o genocídio da juventude negra com a sociedade paraibana, como o Movimento Negro de Campina Grande fez e faz com muita competência e organização?

O CEPIR-PB, lamentavelmente, só entrou em funcionamento depois que fiz uma denúncia formal junto à ouvidoria da SEPPIR e depois que membros do FOPPIR protestaram na frente da Ministra Luiza Bairros quando ela esteve aqui no ano passado para proferir palestra no mês de março. Confesso aqui que ao renunciar o cargo de conselheiro titular deste órgão de controle social e combate ao racismo não me arrependo de nada, já que o tempo passou e a história acabou me dando total razão: o CEPIR-PB ainda não disse para o que veio.

Gostaria de justificar o motivo de não acreditar nessas propostas mentirosas e demagógicas para a juventude negra defendidas em campanha eleitoral pelo senhor Ricardo Coutinho. Ora, se não tiver pressão e  cobrança política permanente do CEPIR-PB, bem como das diversas entidades negras que não foram cooptadas pelo governo Ricardo Coutinho será muito difícil avançarmos na equidade racial. Não acredito, particularmente, por morar num bairro que já foi um lixão de Campina Grande e onde não se tem rede de esgotamento sanitário, muito menos políticas públicas na área de lazer, esporte, emprego, educação e cultura para nenhum  jovem negro morador do Bairro das Cidades. Nesse lugar periférico onde moro 70% de seus moradores são afrodescendentes. Cadê o Governador que não resolve a falta de saneamento básico do Bairro das Cidades?

Com relação ao encontro que tive com o cabo eleitoral do atual Governador Ricardo Coutinho. Percebi bem depois que o referido material de campanha continha várias propostas para a juventude  pobre e excluída  historicamente das políticas públicas, incluindo aí a juventude negra. Neste material intitulado juventude 40 em que Ricardo Coutinho apresenta os seus ”40 compromisso com a juventude” nós podemos encontrar aquele velho discurso que jamais saiu do papel e que revela o quanto seu governo vem tratando com descaso e indiferença o extermínio da juventude negra. Por exemplo, na proposta de número 12 há uma clara intenção de debater com a sociedade políticas afirmativas na área da educação. Se esse governo estadual, na verdade, quisesse propor políticas educacionais não racistas como Ricardo Coutinho prometeu nesse ponto voltado para juventude, em primeiro lugar, ele teria que convocar as entidades negras e NEABÍs que carregam uma larga experiência pedagógica para tirar do esquecimento as Leis 10.639\03 e 11.645\08, coisa que não fez. No ano de 2011 houve uma capacitação para 9 mil professores, capacitação esta, que foi realizada por professores e professoras da Universidade Estadual da Paraíba e fiquei sabendo que nessa formação não se tocou nas Leis 10.639\03 e 11.645\08, segundo um integrante do próprio Movimento Negro de Campina Grande  que leciona português numa escola da Rede Estadual.

Essa capacitação, a nosso ver, era o momento pedagógico ideal para a Secretaria de Educação do Estado inserir palestras e curso de formação com um dos maiores especialistas e guerreiros nessa luta pela introdução das africanidades no ensino básico- o professor Henrique Cunha Júnior. Poderia ter sido, também, um momento certo para que a Doutora em Filosofia da Educação Sueli Carneiro ensinar a filosofia dos povos africanos e o combate ao racismo no espaço escolar. Enfim, teria sido uma ocasião maravilhosa para que Nei Lopes, Vilma Reis, Jaime Sodré, João Jorge do Olodum, Severino Lepê, Nilma Lino Gomes, Éle Sémog, Carlos Moore, Kabengele Munanga, Joel Rufino dos Santos, Cuti, Eliane Cavalleiro, Narcimária Luz, Elisa Larkin Nascimento, Petronilha Beatriz, Maria de Lourdes Siqueira, MakotaValdina e Mãe Stella de Oxóssi   pudessem nos ajudar nessa luta para descolonizar esse currículo tão racista, sexista e eurocêntrico que se tornou hegemônico no dia a dia dos  professores e alunos da Paraíba.

Se o Governador quisesse cumprir com a Lei 10.639\03, ele poderia contratar as educadoras do Olodum como a Coordenadora Pedagógica Mara Felipe, pois como sabemos essa entidade do Movimento Negro Brasileiro criou a Escola Criativa Olodum, em 1984, uma escola que tem toda uma longa e bela tradição em ensinar com extrema organização e competência a História da África e Cultura Afro-brasileira para crianças e adolescentes do Maciel Pelourinho (vide a série da Coleção Olodum Griô publicada pela Editora Olodum). Poderia contratar educadoras do porte intelectual de uma Ana Célia da Silva e Arany Santana do Afro Ilê Aiyê de Salvador, uma vez que essas duas grandes educadoras negras são referências nacionais de luta contra o racismo no campo da educação, assim como na construção de uma pedagogia de valorização do nosso pertencimento étnico-racial na cidade de Salvador.

A Escola do Ilê Aiyê Mãe Hilda criada em 1988, nesse contexto, serviria como um excelente modelo a ser copiado e seguido por todos nós que estamos percebendo que a tarefa de implantar essa Lei 10.639\03 não vem sendo levado a sério pela equipe técnica da Secretaria de Educação do Estado. A maior prova desse descaso e falta de cuidado pedagógico com a Lei 10.639\03 na Paraíba foi o curso on-line na área de educação das relações étnico-raciais oferecido pela Secretaria  de Educação do Estado. Ouvi de muitos educadores (as) que o tal curso não era de boa qualidade e que diversos educadores desistiram.

Lamentavelmente, como todo mundo sabe ainda há muitos gestores escolares e educadores(as) que desconhecem as Leis 10.639\03 e 11.645\08 na Rede Estadual de Ensino, bem como os conteúdos das Diretrizes Curriculares Nacionais Para a Educação das Relações Étnico-Raciais e Para o Ensino de História e Cultura Afro-brasileira e Africana. Além do mais, posso afirmar com conhecimento de causa que poucas escolas estaduais receberam livros de História da África e Cultura Afro-brasileira. E, digo isto com base na minha monografia de conclusão do Curso de Licenciatura Plena em História quando tive que passar um questionário  para vários educadores e por ter palestrado em diversas escolas do estado, o que me levou a descobrir o que empiricamente a militância negra já sabia há muito tempo, ou seja, acabei constatando o quanto a Lei 10.639\03 foi tratada com o mais puro descaso no primeiro governo do Cássio Cunha Lima e que essa realidade ainda continua no atual modelo de educação implantado pelo governo Ricardo Coutinho.

Para comprovar esse descaso histórico posso citar, por exemplo, o caso dos livros da Coleção A África está em nós que foram comprados no governo Cássio Cunha Lima e que caíram no esquecimento nas bibliotecas de várias escolas estaduais, tendo em vista que os educadores(as) não foram capacitados na gestão do seu ex- Secretário de Educação Neroaldo Pontes para compreenderem a importância desses conteúdos no combate ao racismo e, por conseguinte, no respeito às diferenças étnicas  e na desconstrução de estereótipos racistas que incidem com maior grau em cima da nossa juventude negra. O próprio relatório da II Conferência Estadual de Promoção da Igualdade Racial não foi levado em consideração na época, já que nesse documento havia a ideia de criação de um comitê gestor para fiscalizar e monitorar a aplicação da Lei 10.639\03 nas escolas da Paraíba. Lamentavelmente, a ideia nunca saiu do papel e isso só reforça o que venho defendendo nesse texto: o descaso ainda prevalece quando se trata de implantar políticas públicas para favorecer a raça negra.

Infelizmente, esse descaso supracitado se repete no governo do senhor Ricardo Coutinho para nós que lutamos arduamente pela igualdade racial no campo da educação. No site do governo estadual vi que estava previsto a distribuição de 300 kits do Projeto Cor da Cultura num universo de 806 escolas. Detalhe: como os kits do Projeto Cor da Cultura não chegaram em  todas as escolas estaduais vai ter escola que se precisar terá que pedir emprestado para outra escola, acredito eu. Também temos que lembrar que poucos foram os educadores que participaram das capacitações organizadas pela Gerência de Ensino em Campina Grande. Faço essa denúncia pelo fato de ter sido chamado de última hora pela Terceira Gerência de Ensino, o que me levou a não palestrar mesmo tendo ido ao local da palestra, pois entendi naquele momento que a minha história de luta contra o racismo e pela implantação da Lei 10.639\09 no estado da Paraíba estava sendo desrespeitada.

O governo do senhor Ricardo Coutinho “parece” não saber que já fiz palestras sobre a Lei 10.639\03  nos municípios de Cuité, Cabaceiras, Ingá, Esperança, Sumé, Puxinanã, Monteiro, Remígio, Juarez Távora, Conceição do Piancó e Alagoa Grande. Não sabe que  fiz palestras em Salvador e no estado de Alagoas e que  vários textos de minha autoria  tem sido publicados em sites de diversas entidades  de luta contra o racismo , tais como: Agência Afro Latina Euro Americana de Informação, CONEN-Ba, Associação Brasileira de Pesquisadores Negros, Geledès, Ceafro da UFBa, Correio Nagô, Tambores da Liberdade, etc. Não sabe do meu pioneirismo e protagonismo nessa luta pela introdução de conteúdos afro-brasileiros em sala de aula, uma vez que em 1991 comecei a minha militância fazendo palestras sobre consciência negra, racismo e abolição para alunos e professores do Colégio Estadual Elpídio de Almeida- o conhecido gigantão da Prata. E que idealizei os primeiros cursos de História da África e Cultura afro-brasileira nas escolas Virgínius da Gama e Melo e Padre Emídio Viana, levando para essas escolas estaduais sérios estudiosos (as) e pesquisadores (as) da africanidades no mundo acadêmico paraibano, a exemplo das professoras da UEPB Cristiane Nepomuceno, Idalina Santiago e dos professores José Pereira de Sousa Júnior e Luciano Mendonça de Lima. Também idealizei e coordenei o I Seminário Municipal de Combate ao Racismo na Educação, um evento feito em 2006 com a Prefeitura de Campina Grande e que contou coma presença de  estudiosos das africanidades da Paraiba: Luciano Mendonça de Lima, Josemir Camilo, Solange Rocha e Antonio Novaes.

Nesse ano de 2006 Ainda tive tempo para fazer parte da organização da I Jornada Pelo Cumprimento da Lei 10.639\03 ao lado de Luciano Medonça de Lima, Sizenando Leal e Virgínia Passsos do Grupo de Capoeira Luanda. Também fui um dos responsáveis pela organização do Dia Internacional da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha  quando no ano de 2006 lançamos a coleção de livros A África está em nós, em parceria com a Pastoral Negra e Prefeitura de Campina Grande. E para refrescar a fraca memória do Governo estadual organizei os primeiros eventos e debates em torno da consciência negra no já extinto Centro de Educação da UEPB, onde o senhor Ricardo Coutinho foi um dos palestrantes numa mesa redonda sobre cotas nas universidades, no ano de 2002.

Talvez, o governo estadual por não “saber” e não respeitar também a minha luta incansável pelo cumprimento das Leis 10.639\03 e 11.645\08, preferiu ignorar a audiência feita pelo Ministério Público da Paraíba no tocante ao descumprimento dessas Leis. Não compareceu nenhum técnico da Terceira Gerência de Ensino para prestar contas do que o governo vem fazendo para cumprir com essas leis aqui mencionadas, apesar do relatório do MP ter revelado o alto grau de racismo praticado contra nossas crianças e adolescentes afrodescendentes nas escolas estaduais, municipais e particulares de cidades como Lagoa Seca, Boa vista e Massaranduba.

Com relação ao Projeto Cor da Cultura a responsável por fazer a capacitação em história e cultura afro-brasileira para os professores da Rede Estadual de Ensino  em Campina Grande é a pedagoga Francisca Bento. Essa “educadora” chegou nesse cargo por apadrinhamento político e não por competência e mérito através de concurso público. Posso dizer que ela não tem o menor compromisso e competência para atender aos desafios pedagógicos exigidos pela Lei 10.639\09, tendo em vista que na UEPB  convivi com  ela quando estava cursando Especialização em História e Cultura Afro-brasileira e essa “educadora” sempre tratou com descaso e indiferença todos os eventos organizados pelo MNCG para a implantação das Leis 10.639\03 e 11.645\08 e, por outro lado, jamais quis mobilizar os(as) professores para participar de atividades com renomados estudiosos da História da África e cultura afro-brasileira, como o professor Carlos Moore e o Presidente do Olodum João Jorge. Ela ignorou, também, a I Jornada de Educação Afro-brasileira e Indígena feita em parceria com o SINTAB, assim como fez com o Projeto Agosto Para Igualdade Racial quando tivemos a presença de palestrantes da Bahia, Brasília, Pernambuco e de João Pessoa.

Enquanto prevalecer esse criminoso descaso com a implantação das Leis 10.639\03 e 11.645\08 na educação paraibana, temos mais é que cobrar as promessas de campanha de quem disse que iria propor políticas educacionais não racistas para a educação do povo paraibano. Quantos livros de História e Cultura Afro-brasileira e Indígena foram comprados pelo atual governo estadual? Quantos professores já foram capacitados para trabalhar com as Leis 10.639\03 e 11.645\08 em sala de aula? Por que o Dia Nacional da Consciência Negra continua sendo esquecido na maioria das escolas estaduais? Por que o Dia Estadual da Cultura Afro-paraibana ficou restrito à cidade de João Pessoa, na programação elaborada pelo governo estadual no Bairro de Mangabeira no ano passado? Por que a o governo estadual exclui Campina Grande da programação voltada para o Dia Nacional da Consciência Negra?

Na verdade, apenas o Governador Ricardo Coutinho que ignora o extermínio de nossos jovens afrodescendentes pode responder a essas indagações, pois na sua campanha eleitoral ele dizia na proposta de número 20 para a juventude, que iria enfrentar essa questão do genocídio de jovens negros estabelecendo políticas afirmativas para a juventude negra. Quando é que essa promessa vai sair do papel?

 

 

JAIR NGUNI – HISTORIADOR E MILITANTE DO MOVIMENTO NEGRO DE CAMPINA GRANDE HÁ 22 ANOS.

jul
3

Por Jair Nguni

Jair Silva

Campina Grande: vigésimo quarto município onde se mata mais jovens negros no Brasil.

Penso que reduzir a maioridade penal é legitimar a matança de jovens negros no Brasil. Entretanto, as nossas elites conservadoras vem se utilizando dos meios de comunicação para convencer a sociedade a apoiar essa ideia absurda de redução da maioridade penal como forma de coibir  os crimes praticados por adolescentes, na sua maioria negros e pardos, moradores das periferias  dos grandes centros urbanos do nosso país. Ora, o problema da violência entre jovens  pobres e negros não se pode avaliar por meio de medidas repressivas como se o encarceramento de jovens infratores em presídios desumanizados e sucateados fosse a panacéia para a solução de todos os problemas referentes a essa realidade.

A questão  maior é como nós vamos resolver o problema do desemprego, da falta de educação de qualidade e de oportunidades na vida dessa parcela da população brasileira, abandonada historicamente por esse capitalismo racista e responsável por esse vergonhoso genocídio silencioso, porém, bastante eficaz na sua forma de negar o direito à vida para nossos jovens afrodescendentes. Enquanto a elite branca faz esse debate com vistas a superlotar ainda mais os presídios e sepultar de vez o futuro dos jovens negros e pobres, caso essa proposta nazista venha a ser uma dia aprovada pelo Congresso Nacional. Desafio os defensores da redução da maioridade penal a tirar do papel o Estatuto da Igualdade Racial, já que o mesmo garante que o Estado brasileiro deve investir na cidadania da juventude negra. Desafio esses hipócritas de plantão a botarem em prática as mais de 700 propostas maravilhosas que foram construídas pelo Encontro Nacional da Juventude Negra – ENJUNE, ocorrido no ano de 2007, na cidade de Lauro de Freitas-BA. Com certeza, acredito que esse debate que aqui estou propondo a elite não quer nem saber, por entender que isso seria levar o Brasil para os rumos do quilombismo e isso não importa para quem se acostumou a morar em bairros blindados, explorando e assediando moralmente e sexualmente suas empregadas negras e pardas como na época da casa grande e senzala.

A forma  hipócrita como a elite dominante e racista encara esse debate, na verdade,  parece e muito com os discursos travados no Congresso logo após a abolição e pelos juristas influenciados pela antropologia criminal do italiano – Césare Lombroso, quando se dizia abertamente que o Brasil não deveria abrir escolas noturnas, pois isso iria atrair vagabundos  e marginais para as escolas.Também se defendia um Código Penal diferenciado para negros e brancos, mas a face mais cruel desse racismo veio com a criminalização da vagabundagem no Código Penal. Por esse Código que passou a vigorar um mês após a libertação dos 700 mil cativos o Estado brasileiro podia prender, torturar e jogar na cadeia quem fosse encontrado nas ruas sem ocupação e trabalho. Ora, quem estava jogado à própria sorte e sem trabalho era o povo negro no pós abolição, pois os trabalhadores brancos italianos e alemães tinham a preferência na ocupação do mercado de trabalho na visão racial dos patrões. Para nós historiadores, sabemos que a modernidade que a sociedade brasileira deveria  adotar  tinha de ser construída e moldada  pela “superioridade da civilização européia.” Era  dessa maneira que a classe política e seus intelectuais subservientes a esse projeto de embranquecimento e higienização social e étnica dos espaços urbanos pensava para garantir a paz, conforto e progresso econômico da elite branca. O Bairro de Higienópolis da cidade de São Paulo, provavelmente, deve ter surgido a partir desse contexto histórico, acredito eu como historiador.

Como podemos perceber, o que  estava claro nesse modelo de desenvolvimento de nação era a necessidade de tornar o país “brasiloiro” como diria o poeta campinense Arnaldo Xavier.Torná-lo rico e próspero apenas para uma pequena elite branca. Esse modelo, infelizmente, acabou se perpetuando nas práticas e discursos de muitos que dominam atualmente a nossa economia e política no Brasil.Também foi esse projeto de modernidade conservadora e de embranquecimento da população brasileira, portanto, que  fez com que a população negra fosse empurrada para a periferia, morros, palafitas e favelas onde não sem tem serviços públicos de saúde e educação de qualidade. Onde não se tem espaços de lazer para seus habitantes e  uma segurança que respeite os direitos humanos do povo negro. Esse debate não chega nas casa dos(as) brasileiros(as) e a elite manipula a realidade social e esconde do grande público as verdadeiras causas históricas, que levam nossos jovens afrodescendentes para uma cidadania de segunda classe nos grandes centros urbanos e periferias do Brasil.

Portanto, diante desse contexto, quando penso no sofrimento, violência policial, abandono social e desempregos enfrentados diariamente pela juventude negra. Sou obrigado a voltar para esse debate sobre a redução da maioridade penal e dizer que não aceito essa ideia jamais, visto que não podemos aceitar e admitir que uma elite que gasta bilhões com a Copa do Mundo. Seja a mesma elite brasileira que não tem respostas para os dados que envergonham nossa frágil democracia social e política: no Brasil de cada 10 brasileiros pobres, 6 são negros. Também sofremos mais com a violência policial quando escuto o maravilhoso DVD dos Racionais 1000 Trutas 1000 Tretas. Lá tem uma fala de Mano Brown em que o rapper diz  que de cada 4 brasileiros mortos pela polícia, 3 são negros. São essas questões sociais e raciais que me incomodam e que deveriam fazer parte da pauta de políticos e dos meios de comunicação. No entanto, o que escuto por aí é que não podemos mais aceitar que “menores não sejam presos e fiquem na impunidade.”Até quando vamos conviver com esse discurso hipócrita e racista das elites políticas e logotécnicas no Brasil?

A cidade de Campina Grande é um exemplo paradigmático do quanto as elites racistas são perversas com a juventude negra. Aqui poucos são os gerentes de lojas e farmácias que dão emprego para os afrodescendentes, justamente numa cidade onde nós somos 51% da população campinense de acordo com dados do IBGE. Para debater esse desemprego, o  Movimento Negro de Campina Grande fez uma mesa redonda sobre a Convenção 111 da OIT e o racismo enfrentado pela raça negra no mercado de trabalho no SINDILOJAS. Só compareceu o Presidente deste sindicato, à época, o senhor Geraldo Magela, visto que a CDL e a Associação Comercial de Campina Grande preferiram ignorar o convite do MNCG, mostrando o total descaso e indiferença com o profundo e violento racismo enfrentado pela raça negra no comércio da nossa cidade. Essa indiferença política das elites eurodescendentes com a nossa realidade racial é, na nossa concepção, a principal responsável por fazer de Campina Grande o vigésimo quarto município onde ocorrem mais crimes brutais contra jovens negros no Brasil, segundo o mapa da violência de 2012, divulgado pelo governo federal e que não recebeu a mínima atenção da classe política, dos empresários e dos meios de comunicação da “cidade da inovação,” diga-se a bem da verdade.

Por fim, acredito que um bom caminho para combater o racismo e melhorar a situação de vida dos jovens afrodescendentes por aqui. Seria os Vereadores de Campina Grande  aprovarem o projeto do Vereador Napoleão Maracajá, um projeto que estabelece a Semana da Consciência Negra e o feriado municipal para o dia 20 de novembro, visto que essa iniciativa poderia contribuir para dar visibilidade a todo esse debate que estamos discutindo sobre o genocídio da juventude negra. O projeto é uma política afirmativa e deve ser avaliado pelo lado histórico, uma vez que Campina Grande como o Brasil tem uma grande dívida histórica e social com a nossa população negra. Na nossa cidade 80% dos garis são negros e pardos e a maioria dos trabalhadores da construção civil também é de origem africana. O racismo tem exatamente essa característica desumana e injusta, ou seja, ele sempre tem empurrado o povo negro para os trabalhos mais pesados e de menor remuneração. Nesse sentido não podemos mais aceitar que a Câmara de Vereadores de Campina Grande permaneça indiferente diante desse quadro social e racial, marcado pelo genocídio silencioso e grande desemprego enfrentados pelos nossos jovens afrodescendentes moradores do Pedregal, Bairro das Cidades, Bairro da Glória, Catingueira, Bairro do Mutirão, Geremias, morro do urubu, Ramadinha e de outros bairros e territórios, chamados pelos intelectuais e agentes públicos de áreas de vulnerabilidade social.

Com a palavra, as elites racistas e sua classe política omissa diante desse verdadeiro genocídio praticado sob os olhos coniventes e complacentes da classe política campinense.

 

Autor: Jair Nguni – Historiador e militante do Movimento Negro de Campina Grande.

mai
28

Tendo como objetivo maior homenagear o grande poeta da literatura afro-brasileira Arnaldo Xavier, o Projeto Agosto da Igualdade também se propõe a debater com a sociedade, agentes públicos e ativistas do movimento negro o genocídio da juventude negra em Campina Grande.
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mar
11

Por Jair Nguni

Jair SilvaCâmara Municipal de Vereadores de Campina Grande mata Zumbi dos Palmares.

Se tem uma pessoa que conhece os erros, as omissões e falta de respeito desse poder legislativo com as reivindicações do movimento negro, acredito  que essa pessoa sou eu. A “Casa de Felix Araújo”, como é conhecida por aqui, carrega um histórico de descaso e desprezo em relação à qualquer iniciativa do MNCG, cujo objetivo seja combater o racismo em nossa sociedade campinense. Posso citar como prova desse descaso  o que aconteceu com o projeto do ex-Vereador Cícero Nascimento  e que não mereceu atenção  na sua execução por parte de nenhum Prefeito, no início dos anos noventa.

Esse projeto instituía, no Município de Campina Grande, a disciplina História do Negro e do Índio, na rede municipal de educação. Entretanto, por falta de fiscalização e cobranças dos Vereadores junto ao poder executivo, essa iniciativa caiu no esquecimento. A mesma coisa aconteceu com o projeto do atual Prefeito de Campina Grande – o senhor Romero Rodrigues, autor do  Projeto de Lei 3.565\07 voltado para a realização da Semana da Consciência Negra nas escolas mantidas pela Prefeitura. O ex-Prefeito Cássio Cunha Lima, na época, nunca quis botar em prática o que seu primo fez e essa  triste constatação me levou a lutar para que essa Lei  não virasse letra morta. Para tanto, chamei o Grupo Abadá Capoeira e o professor de literatura Toni Brito e juntos fizemos em três escolas o Projeto Dias de Consciência Negra, em 1999.

Ainda nesse debate para revelar as hipocrisias e demagogias de um poder conservador e reacionário. Posso registar mais outras três iniciativas voltadas para o reconhecimento do valor do povo  negro em Campina Grande que, a nosso ver, merece uma reflexão diante da rídicula contradição política. A primeira vem do Vereador Olímpio Oliveira, que queria através de um projeto acabar com a matança e sacrifícios de animais em terreiros de umbanda e candomblé, sob a  falsa alegação de querer defender a vida dos animas. Para barrar essa absurdo, foi preciso uma denúncia minha junto à Ouvidoria da SEPPIR e de uma bem sucedida união de esforços entre Moisés Alves do MNCG com o povo de santo para que a Câmara de Vereadores voltasse atrás e retirasse de pauta um projeto intolerante e que reforçava claramente a perseguição, bem como  o racismo contra as religiões de matriz africana.

Falei em contradição porque o referido edil também  é autor de um projeto que resgata a história de João Carga D`água, um importante líder negro  que fez parte da  Revolta dos Quebra Quilos e que dava nome a uma das ruas de Campina Grande na época do nazismo, algo que não agradou a um  morador alemão racista que  retirou a placa da rua, amassando-a com um martelo, segundo a justificativa do Projeto de Lei  4.790, aprovado pelos Vereadores em 2009 e sancionado pelo Prefeito Veneziano Vital do Rêgo.

Devo aqui analizar o comportamento contraditório do Vereador em reparar essa agressão  praticada por esse alemão racista contra a memória da nossa raça negra, pelo fato de não querer morar numa rua com o nome de um negro. Ora, o  erro desse projeto, na minha visão, é  justamente aceitar que se faça a homenagem em outra rua e não na atual Rua Major Belmiro lugar da agressão. No mais, também não aceito essa história de botar o nome dele numa rua escondida lá na periferia como fiquei sabendo, pois aqui em Campina Grande os escravistas tem seus nomes valorizados no centro da cidade. Por que não fazer o mesmo com o nosso povo negro ?

Outro projeto que nunca passa pelo crivo das entidades negras e que foi aprovado pelos Vereadores, no ano de 2009, denominava de Zumbi dos Palmares uma das novas ruas  de Campina Grande. A sua autoria é do ex-Vereador Antonio Pereira Barbosa. Gostaria que a Câmara de Vereadores  dissesse para a sociedade onde fica essa rua, visto que  a nossa comunidade negra e toda sociedade tem o direito de saber, por se tratar de um grande héroi da Pátria. Ao analisar essa ideia de querer botar nomes de personagens negros da nossa história em ruas de Campina Grande, percebe-se a pouca atenção e valorização  que esses dois políticos deram as reinvidicações mais contundentes do movimento negro, visto que esses projetos não tem  maiores consequências para a sociedade e, por conseguinte, não vai contribuir de forma substancial para mudar as profundas desiguadades raciais entre brancos e negros. Raramente, encontramos um trabalhador negro nas lojas e farmácias de Campina Grande onde impera um profundo e violento racismo.Também temos um índice muito alto de crimes contra jovens negros. Por que a “Casa de Felix Áraújo” não faz projetos para  acabar com essa realidade?

Faço essas afirmações e indagações pontuais com base nos embates  que o MNCG tem feito historicamente com esse poder controlado por uma elite contraria aos imteresses do movimento negro. Fazer projetos mais abrangentes e que possa realmente combater o racismo institucional, criando políticas afirmativas como forma de recompensar o negro pelos crimes e danos sociais e psicológicos  oriundos do escravismo, decididamente é algo que a Câmara de Vereadores não tem feito ao longo de sua existência.Tomara que a nova legislatura tenha a coragem e o dever ético de fazer, tendo em vista que nesse poder legislativo há vereadores que conhecem os projetos e  ações do MNCG em defesa da igualdade racial, a exemplo de Marinaldo Cardoso, Miguel Rodrigues e Napoleão Maracajá. Marinaldo Cardoso já participou da consciência negra  na comunidade do Pedregal. O segundo coordenou uma mesa redonda sobre o Dia Internacional de Luta Contra o Racismo no Colégio da Prata. Napoleão esteve presente na abertura do Projeto Agosto Para Igualdade Racial e ainda fez parte da Primeira Jornada de Educação Afro-brasileira e Indígena, evento que foi feito em parceria com o SINTAB.

Em 2009 quando o ex-Vereador João Dantas tentou fazer um projeto antirracista mais amplo e substancial do ponto de vista social e político, acabou sendo barrado pelo conservadorismo reacionário, hipócrita e racista que faz parte da agenda de setores da classe política campinense. Lembro-me que o MNCG fez uma pressão muito forte em cima da “Casa de Felix Araújo,” o que acabou resultando na construção do  Projeto de Lei 264\09, obrigando o poder executivo municipal a fazer a Semana da Consciência Negra enquanto política de  combate ao racismo e voltada para a adoção de políticas afirmativas. Entretanto, quando esse projeto chegou ao Palácio do Bispo foi vetado pelo Prefeito Veneziano Vital do Rêgo.

Na Câmara de Vereadores esse ex-Prefeito de Campina Grande tinha a maioria a seu favor e isso fez com que ele mantivesse o veto. Os chamados representantes do povo esqueceram que o MNCG já tinha feito aproximadamente cinco sessões especiais ao longo de seus quase 30 anos de luta por uma sociedade justa, igualitária e livre de qualquer forma de preconceito e opressão, além de tribunas livres e audiências públicas. Já fizemos sessão especial com a ex-Vereadora Cozete Barbosa, ex- Vereadores João Ricardo, Fernando Carvalho, Antonio Pereira e com o ex- Prefeito Veneziano que também foi Vereador em Campina Grande.

À guisa de conclusão, desafio a Câmara de Vereadores a reapresentar o  projeto do ex-Vereador João Dantas e a torná-lo real na vida da sociedade campinense, instituindo o 20 de novembro como feriado em nossa cidade como estava previsto num outro projeto que o ex-Vereador Antonio Pereira não teve coragem de colocar em pauta para o debate em plenário. Essa nossa luta pelo reconhecimento de Zumbi dos Palmares como heroi da Pátria já foi reconhecida pelo Congresso Nacional e pelo próprio Estado brasileiro. Hoje, o nome de Zumbi é reverenciado  e respeitado  através de feriado estadual como acontece  nos estados do Amazonas, Mato Grosso, Rio Grande do Sul, Amapá, Rio de Janeiro e Alagoas. Nesse sentido, vejo como um grande erro político a não aprovação do projeto do ex-Vereador João Dantas, um erro grave e que merece ser  reparado, questionado e debatido pelos meios de comunicação, movimentos negros e classe política.

Para um movimento social que tem quase 30 anos de luta contra o racismo e que tanto já debateu com os Vereadores as perversidades do racismo na vida da população negra, justamente num município onde nós negros e pardos somos 51% da sociedade campinense, mas que convivemos há décadas com uma cidadania de segunda classe. Ter conquistado apenas dois nomes de ruas que ninguém sabe onde fica é muita medíocridade e mesquinharia diante de tantas dores, sofrimentos e lutas que a raça negra enfrentou para construir a maior parte das riquezas materias e culturais do Brasil.  Por que a “Casa de Félix Araújo” matou  Zumbi dos Palmares da memória do povo campinense ?

 

Jair Nguni- Historiador e ativista do MNCG há 22 anos.

set
3

Por Jair Nguni

Boicote criminoso contra o Projeto Agosto Para Igualdade Racial

Não é de hoje que determinados órgãos de comunicação trata com desprezo as ações e projetos do Movimento Negro de Campina Grande. Lembro-me que no ano passado fui o responsável pela vinda do professor Carlos Moore a Campina Grande, mas a TV Itararé, através do Programa Diversidade, ao fazer a entrevista com o professor Moore não citou o meu nome e preferiu esconder esse fato pra sociedade paraibana.Vejam o vídeo com a entrevista feita pela jornalista Carla Batista para logo  perceber que esse boicote vem se transformando em algo sistemático .

Já este mês convidamos as TVs Borborema, Itararé e Correio para fazer a cobertura jornalística do Projeto Agosto Para Igualdade Racial e não obtivemos êxito. Somente a TV Paraíba mostrou realmente ter respeito com o povo paraibano, pois essa emissora fez uma bonita e digna cobertura jornalística do Projeto Agosto Para Igualdade Racial. Muitos acadêmicos, também,  simplesmente preferiram ignorar os debates sobre o genocídio da juventude negra. Já o  jornalismo de mercado, sujo e mentiroso  TENTA A TODO CUSTO apagar a minha digna história de luta por uma sociedade justa, igualitária e livre do racismo. Um  certo vídeo  postado na internet continua me ofendendo e essa ofensa moral faz parte das retaliações que venho sofrendo por ter mostrado que a Câmara de Vereadores de Campina Grande não fez nada para promover a igualdade racial. Teve, inclusive, um jornalista do Correio da Manhã, Moribe Macedo, que no dia 3 de Agosto aplaudiu  a  atitude coronelista do Vereador Pimentel e ainda pediu ao povo de Campina Grande para não ir ao Projeto Agosto Para Igualdade Racial. O povo não deu a mínima para este cidadão que não  foi assistir os Mestres e Doutores palestrarem para uma platéia lotada na abertura e no encerramento do nosso belo Projeto Agosto Para Igualdade Racial.

Com relação a esse   vídeo fabricado por esse jornalista campinense, Lenildo Ferreira, vejo apenas como uma armação sórdida e que revela o lado podre e cruel   de dois Vereadores  que foram escolhidos pelos seus pares para serem os defensores pontuais dos  novos senhores de engenho, na cidade de Campina Grande. Por outro lado, tenho que dizer que este vídeo inescrupuloso e criminoso sob o ponto de vista da ética jornalística foi feito exclusivamente para fazer linchamento contra a minha digna, ousada e corajosa história de luta contra o racismo. Foi feito a toque de caixa e   para mostrar o quanto Lenildo Ferreira   se incomoda com a minha militância quilombista, socialista e popular, uma vez que sempre estive ao lado dos excluídos  na Paraíba como todo mundo sabe. Fui execrado publicamente pelo Correio da Manhã na voz de dois jornalistas que prestaram um grande desserviço à sociedade, já que tentaram em vão esvaziar um projeto que foi  como toda a sociedade paraibana sabe maravilhoso, belo e bem organizado e que contou com a ampla participação de muitos(as) professores, educadores, estudantes e estudiosos da história e cultura afro-brasileira. Contou com o apoio do Olodum, Ilê Aiyê, CENTRAC, SINTAB, GAV, Poeta Silas Silva da Paraíba, ADUEPB, Escolas de Capoeira Afro Nagô e Mukanbu Angola Paraíba, Prefeitura Municipal, Governo do Estado e Federal.

A canalhice, portanto, não poderia vencer os herdeiros das lutas de Abdias Nascimento, Malcom X, Patrice Lumumba, de Gungunhana da etnia nguni, Felakuti, SamoraMachel, Josina Muthemba, Marcus Garvey, Nzinga, Lélia Gonzalez, Nkruma, Angela Davis, Steve Biko e Nelson Mandela. Não poderia vencer, obviamente, quem vive historicamente do lado dos ideais  dos negros que organizaram a Revolta dos Búzios em Salvador. Boicote, na verdade, deve ficar pra quem é pequeno espiritualmente  e mesquinho politicamente. Deve ficar  pra quem não pensou nos jovens negros que morrem todos os dias sob os olhos omissos do Governo estadual e da classe política paraibana, bem como de muitos acadêmicos de Campina Grande. Ou sob os olhos de quem me insultou na Câmara de Vereadores de Campina Grande.
Lamento, por  saber que existem jornalistas que perdem tanto tempo e energias com mentiras e que gostam de me atacar  de forma covarde e desrespeitosa como podemos perceber nas matérias que estão sendo divulgadas por Édson Pereira, Onias Xavier e pelo próprio Lenildo Ferreira, tendo em vista que  nos Blogs desses 3 jornalistas sou sempre exposto de maneira negativa e ainda sou chamado de “suposto ativista” do Movimento Negro de Campina Grande.

Finalmente, sempre é bom registrar para a posteridade que os Vereadores e uma Vereadora da “Casa de Felix Araújo” não foram PARTICIPAR do Projeto Agosto Para  Igualdade Racial e não fizeram nada para acabar com as desigualdades raciais durante os seus mandatos.Venho denunciando a omissão de um poder legislativo CONSERVADOR, AUTORITÁRIO E BURGUÊS  que adora me insultar e espalhar mentiras  para me desqualificar diante da sociedade paraibana. Mas, Luther King certa vez, disse: “a verdade oprimida na terra levantar-se-á novamente e nenhuma mentira poderá viver para sempre”. É justamente nos ensinamentos deste grande pacifista americano que eu acredito e que a sociedade paraibana também vai acreditar, pois  quem conhece a minha história quilombista sabe que venho há quase 22 anos lutando com muita seriedade, compromisso e dignidade para restaurar os ideais de Zumbi dos Palmares na nossa cidade, apesar de tantos insultos, calúnias e difamações que venho recebendo ao longo do tempo. O Projeto Agosto Para Igualdade Racial, felizmente, mostrou um pouco do que sou capaz, para dizer que a canalhice que tanto me persegue não  vai destruir o que o Afro Olodum me deu como grande lição de vida e cidadania: “Olodum do pelourinho sempre contra a opressão\ Busca paz e liberdade\ Quer o mundo em união.”
Mojubá!

Segue abaixo os vídeos citados no texto
http://youtu.be/0VlVYRo2G3s

http://youtu.be/zTITgaY1xsc

 

 

 

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