IRDEB - Instituto de Radiodifusão Educativa da Bahia
TV Rádio Notícias Interatividade

Posts marcados com ‘Jaime Sodré’

jul
1

Por Jaime Sodré

Jaime Sodré

Um Bando de Artimanhas

Cena 1 – A habilidade dramática negra vem de longe, embora os senhores de engenho duvidassem de qualquer qualidade talentosa, a realidade demonstrara o contrario. Pinturas rupestres africanas mostram-nos um mascarado, tatuado, em movimentos teatrais, sendo fácil perceber as mais diversas performances nas etnias africanas.

Cena 2 – Vislumbrando uma pintura da época colonial, de um canavial, veremos um grupo de negros, realizando oculto aos senhores, danças e expressões teatrais totêmicas, firmando na lembrança momentos da África distante.

Cena 3 – Veremos também a coreografia teatral do Bumba meu Boi, suportado por um texto mítico, oral. Teremos também encenações do Rei e Rainha do Congado, e ainda as interpretações de Chico Rei. No Recôncavo, maquiados de preto, vestidos de palha, temos no Nego Fugido a teatralizar desafios dos negros escravos, em busca da liberdade.

Cena 4 – Como não atribuir às expressões dos orixás, no Xirê do Candomblé, um exercício religioso, coreográfico e teatral.

Cena 5 – Em tempos carnavalescos, a Embaixada África e os Pândegos da África, esmeravam-se nos seus carros alegóricos, a representação teatral das cortes africanas.

Cena 6 – O TEN – Teatro Experimental do Negro, iniciativa do brilhante Abdias Nascimento, representava um gesto desafiante. A ideia surgiu do encontro com os poetas Efrain Bó, Godofredo Iommi, Raul Young e Napoleão Filho, após assistir a peça O Imperador Jones, de Eugene O’Neill, um ator branco, Hugo D’Evieri, atuava pintado de preto. Preso por protesto contra o racismo, no Presídio de Carandiru Abdias fundou com os presos o Teatro do Sentenciado. Ao deixar a prisão, criou uma companhia com operários e empregadas domesticas que foram alfabetizados para a leitura do texto teatral.

Cena 7 –  No dia 8 de maio de 1940 o TEN se apresentou no Teatro Municipal do Rio, com Agnaldo Camargo, negro, como ator principal. O objetivo era dar ao ator negro a possibilidade de levar ao palco personagens livres de estereótipos.

Epílogo – Dizendo ter orgulho da trajetória do Bando, a estimada diretora teatral Chica Carelli referia-se ao Bando de Teatro Olodum como um ato de coragem, estruturado para a formação de novos autores, atores e diretores. Relata que João Jorge, presidente do Olodum convidou o competente Márcio Meireles para esta empreitada vitoriosa, a meta era a criação de uma proposta teatral com uma linguagem baiana, elementos da cultura afro-brasileira e questões sociais, sem ser um ato folclórico depreciativo e panfletário.

A voz de Jorge Washington ecoa com uma fala do Grupo, manifesto parabéns, para ele “a sensação é de dever comprido”, com a contribuição de atores do Bando na cena nacional, Lázaro Ramos, Érico Braz e Fábio Santos, em Londres.

O Bando de Teatro Olodum, há 25 anos segue fazendo Arte e “Manhas” para vencer as adversidades.

Benção em nome de Mario Gusmão.

 

Jaime Sodré é historiador, escritor, doutorando em Educação e Contemporaneidade e Consultor do Programa Tambores da Liberdade.

jan
13

Por Jaime Sodré

Jaime SodréGovernador Ruy “Tomo da cuia de esmoler”

Motivado pelos efeitos positivos da missiva do escritor Jorge Amado, “Tomo da cuia de esmoler”, peça admirável, que resultou na restauração da sede da Irmandade da Boa Morte, descaradamente me faço plagiar aqui alguns trechos, pois a causa merece como verão. “Tomo da cuia de esmoler das mãos de Celina –Celina Maria Salla–, a infatigável, a heróica combatente. De cuia em punho, irei em frente, pedinte obstinado: a sede nova da Irmandade deve ficar pronta a 14 de agosto, dia em que a festa terá início, a procissão deste ano de 1995 deverá sair das casas reconstruídas. Para que assim seja recebo a cuia de esmoler, parto em missão.” O Instituto Cultural Steve Biko constitui-se um espaço sagrado do saber e da oportunidade, promovendo ações afirmativas para a comunidade negra, auxiliando-os para o ingresso principalmente em universidades publicas.  Ativa em seus propósitos de servir, esta Instituição, que tem como meta a inclusão, em  2008 comprometera  em seu planejamento estratégico, juntamente com o coletivo de colaboradores, a criação da Faculdade Steve Biko (FSB) que pretende ser um marco na qualidade da educação inclusiva, uma instituição que concilie: “competência técnica, compromisso político e social com o povo negro e todos os grupos excluídos”.

O Instituto vem desenvolvendo ações preparatórias e estruturais junto ao corpo de colaboradores para o pleno êxito desta iniciativa. Como passo primordial, a Biko desenvolve a reforma da casa cedida pelo Governo Wagner, que necessitava de escoramento emergencial, limpeza, cadastramento do imóvel, e o projeto executivo da obra, contando com apoio técnico dos arquitetos Heron Cordeiro e Islândia Costa, que realizaram a primeira concepção da nova sede (plano de ideias), alem do apoio da Faculdade de Arquitetura da UFBA, a qual fará o projeto executivo definitivo, alem de contar com o apoio da empresa Junior de engenharia da Escola Politécnica da UFBA. A obra, nos informa o Biko, “tem o apoio financeiro da Fundação Coca-Cola” através de doação. O que pode parecer um mar de tranquilidade financeira, revela-se apenas um estágio inicial, se levarmos em conta os diversos aspectos para a conclusão, instalação e o efetivo funcionamento pleno e eficaz desta iniciativa louvável e coletiva. Assim no diz o Biko: “os nossos colaboradores nacionais e internacionais perceberam o potencial, a efetividade e o valor heurístico de nossos projetos sociais e educacionais para a construção de inovações metodológicas e epistemológicas”.

Em que pese a grandeza da ideia, este desafio necessita-se de colaboradores, por isso atrevi-me a imitar o Amado Jorge e também “tomo da cuia de esmoler” e dirijo-me ao nosso estimado Governador Ruy Costa, estendendo-o esta solicitação colaborativa e respeitoso, atrevo-me, sabendo que por certo encontrarei abrigo, pois conhecemos a solidariedade do Governador, “filho da Liberdade”, bairro da negritude. Assim como Jorge “Não terei vergonha de solicitar o óbolo, a esmola” até termos juntado a quantia necessária.

 Ainda seguindo o ilustre Escritor: “Desavergonhado, pedirei aos que são meus amigos e àqueles que mal conheço. Quem se atreveria a negar à Senhora da Boa Morte? na altura, dizia Jorge”. E para posteridade e júbilo, assim como pensou Jorge, Adenor Gondim fará a fotografia… dos benfeitores reunidos em frente à casa restaurada.(Sede da Faculdade Steve Biko). “FAÇA SUA AÇÃO AFIRMATIVA SEJA SÓCIO DA BIKO”.

mai
29

Por Jaime Sodré

Jaime SodréVozes D’África

A África clama por um novo olhar. “Mulheres Africanas – A Rede Invisível” é um filme de Carlos Nascimbeni, que aborda 5 mulheres marcantes na história deste continente: Luiza Diogo ressalta a presença feminina na definição da agenda nacional; Graça Machel ex-ministra da Educação de Moçambique, destaca que a presença feminina já atingiu a uma massa crítica, faltando visibilidade; Sara Masasi conta como saiu da invisibilidade na Tanzânia mulçumana como empresária de sucesso; Leymam Gbowee Prêmio Nobel, atuante pela paz na guerra civil da Libéria; Nadine Gordimer escritora, vencedora do Nobel, argumenta da impossibilidade de falar de uma cultura africana única.

Luiza Diogo primeira-ministra entre 2004 a 2010 diz que a mulher luta principalmente pela segurança alimentar, o trabalho da mulher africana na zona rural é extremamente duro, “imagine uma mulher de vários braços”, comenta. Para Luiza a mulher está a construir uma agenda do desenvolvimento do país, por isso investir nas mulheres é importante.

Graça Machel, ministra da Educação e Cultura entre 1975 a 1989 em Moçambique, chama a atenção para as transformações que as mulheres africanas têm revelado: “já há uma massa crítica no ambiente das mulheres africanas, em particular as jovens, altamente qualificadas, que exercem funções de grande responsabilidade, mas não tem havido um sistema que lhe permita ter visibilidade”.

Sara Masasi da Tanzânia, é líder empresarial, e diz: “quando se tem um negócio você precisa pensar, por que você não quer perder”; deve-se desfilar na avenida do sucesso que não se chega sem planejar. “Adoro trabalhar, os desafios me tornou a pessoa que sou”, era a única africana a frequentar  uma escola europeia. Atua no mercado de placas para automóveis.

Carmeliza Rosário é antropóloga de Moçambique e assim se manifesta: “Não creio que a humanidade tenha se desenvolvido sem a existência da mulher… são elas que ficam grávidas, geram os filhos”, mas chama a atenção de que todos são importantes de alguma maneira. Alega que é preciso ter respeito pela África, afinal “somos o berço da humanidade”.

Nadine Gordimer, da África do Sul, branca, com Prêmio Nobel de Literatura, ressalta que o continente africano é enorme, sendo impossível falar a respeito de uma cultura unificada, porém as mulheres desempenharam um papel subjetivo, até os dias de hoje há problemas de lidar com pessoas que vendem suas filhas de 14 ou 15 anos para homens mais velhos. A mulher negra tem que lutar contra isso, conclama.

Para Graça Machel nos últimos dez anos o continente africano fez progresso quanto ao acesso das “raparigas” à educação, muitas no primário, mas o desafio é a passagem do primário para o secundário e ainda maior deste para o “terciário”. Lembra que existe uma grave evasão da terceira para a quarta, quando a comunidade acredita que a menina está pronta para casar, ela afirma que as tradições não são estáticas e acredita em mudanças.

Leymam Gbowee é uma personagem carismática, nascida na Libéria, Prêmio Nobel da Paz. A guerra civil na Libéria matou cerca de 200 mil pessoas, foram cometidas atrocidades por soldados de ambos os lados, milhares fugiram e Gbowee viveu em campos de refugiados  em Gana. De 1909 a 2003 foram os anos mais cruéis, grupos inteiros foram dizimados, mulheres estupradas e alguns soldados diziam que suas genitálias eram boas demais para violentar as mulheres, por isso usavam facões na genitália feminina.

Quando vieram as conversações de paz elas tiveram grande esperança, mas as discussões   giravam em torno de quem iria controlar as minas de diamantes,  em revolta Gbowee e suas amigas bloquearam a saída do prédio, o segurança quis prendê-la, mas ela ameaçou tirar a roupa e disse: “a minha nudez será em protesto contra a miséria”, duas semanas depois o acordo de paz foi assinado.

Luiza Diogo afirmou que “o substrato do funcionamento deste continente está nas mãos das mulheres, é aquele ditado que diz, a mulher sustenta metade do céu… mas se um dia ela largar, tudo rui”. Que continuem a sustentar!

 

Jaime Sodré é historiador, escritor, doutorando em História Social, PhD em História da Cultura Negra, professor da Universidade do Estado da Bahia (UNEB) e do Centro Federal de Educação Tecnológica da Bahia (CEFET/BA).

 

dez
5

Por Jaime Sodré

Jaime Sodré

Xô Baiana?

Dona Tidinha estava “retada”, quase me atropelava com sua raiva, deu férias ao seu colo generoso, de acolhimento a todos na qualidade de Mãe de Santo, e bradou nos meus ouvidos: “o que é que está acontecendo com as baianas, é perseguição?”, disse-lhe, “não sei, mas posso explicar-lhe D. Tidinha”, disse para acalmá-la, mera pretensão. Lembrei-lhe que a vida do ambulante, historicamente é heroica e sempre houve perseguição. Em tempos coloniais os escravos livres ou não, eram “inibidos” de comercializar, às vezes com violência, pois este aporte financeiro poderia ser fator principal para a compra de alforrias.

Há casos de registros históricos comprovando este ambiente desfavorável aos mercadores de frutas ou iguarias, entre outras mercadorias. A “guia” era apreendida e os produtos sumiam “misteriosamente”.

Na Bahia, em Salvador, encontrava-se a “kitanda”, expressão que designa na língua quimbundo feira, mercado, lugar de comércio. Personagens marcantes no período colonial e Império, as quituteiras ou vendedeiras ou até mesmo ganhadeiras, identificavam mulheres negras e laboriosas que vendiam suas mercadorias. Tanto lá em Portugal quanto aqui, a quitanda era o espaço onde as mulheres negras ganhavam o seu dinheiro para o sustento da sua família.

Em Lisboa e também deste lado do Atlântico, mulheres negras reorganizaram sociedades, articulavam resistência, negócios e, sempre que possível, trajavam suas vestes e adereços, a exemplo das baianas, lembrando as suas etnias: saias, batas, túnicas, contas, pano-da-costa, balangandãs. Um verdadeiro desfile de expressão estética, cujo objetivo era revelar sua procedência e autoestima.

As senhoras dos tabuleiros diferenciavam das escravizadas no sentido de uma autonomia, resultante de seus negócios, cuja renda, por vezes, era para si própria. Essas mulheres, apesar de experimentarem as vicissitudes do sistema escravocrata, conseguiam ao final de sua jornada ou semana de trabalho, nas ruas e feiras, pagar aos seus senhores os valores combinados, e ainda restavam-lhe capital para a sua sobrevivência.

Um viéis revolucionário caracterizava algumas destas mulheres. Quitandeira na Bahia, Luiza Mahim, no ano de 1835, juntamente com outras quitandeiras foram acusadas de corresponsáveis pela revolta dos Malês, fornecendo comida e conspirando, aliada às lideranças do movimento.

Há outros casos como da liberta africana Margarida Medeiros que recorrera ao governador da província baiana para aliviá-la das multas onerosas; Rita de Cássia Ramalho, denunciando a prisão indevida de objetos da sua cativa Senhorinha, que estava munida da respectiva licença.

A instalação dos “cantos”, redutos nos quais mulheres e homens negros se reuniam para fornecer seus serviços, estava sempre sobre vigilância. Alcancei o negro Chico, no Santo Antônio Além do Carmo, como remanescente do “Canto da Cruz”, próximo à feira de Água de Menino, ainda fazendo serviços de carregamento à cabeça, sem preço fixo, variando conforme a necessidade do dia e até mesmo para uma “pinga”. Levava sobre o peito uma placa, fundo azul e algarismo na cor branca, com seu número de licenciado pela Prefeitura. Sem previdência, com certeza morreu pobre.

Uma má recordação nos traz a figura do “rapa”, sistemático na apreensão dos produtos à venda pelos camelôs, num corre-corre regado a contumaz violência, mercadorias levadas sem retorno, muita dor e choro ao ver-se posto por terra a real possibilidade do “pão nosso de cada dia”, ou a compra de remédios, ou o material escolar para os filhos.

Ao ouvir este relato, Aristides da Silva Imaculada, esse era o seu pomposo nome, exclamou: “Yoyô me deixe. Mas a menina me disse que eu não posso vender na praia”, estrilava D. Tidinha. Sim, é verdade. “Mas como não?”, retrucou. “Não pode na areia, na areia? Mas a gente quando acaba limpa tudo, e lugar de baiana é na areia de Yemanjá, que é a minha santa, por isso não vejo razão para proibir”, e cantou: “O mar serenou quando ela pisou na areia, quem samba na beira do mar é sereia”. Estava mais calma.

 

out
31

Por Jaime Sodré

Jaime Sodré

O Dia da Mãe

No ano de 1974, em plena efervescência de afirmação do movimento negro, surge no bairro da Liberdade o ILÊ AIYÊ, um autentico bloco afro do carnaval de Salvador, empenhado na luta pela valorização e inclusão de afros descendentes, patrimônio da cultura baiana e inspirador de outros grupos, uma organização de militância política e cultural, que completará 40 anos.

Tratamos aqui da luta das mulheres negras, em sua trajetória frente à opressão, com estratégias de resistência, visão clara da sua importância, magnitude, força e feitos maravilhosos, qualidades estas que marca a figura de Mãe Hilda, uma das gestoras, junto ao seu filho Antonio Carlos VOVO e Apolônio de Jesus, entre outros, do grande fenômeno cultual, social, estético e político chamado ILÊ AIYE.

A historiografia, em particular em relação as mulheres negras, quando da abordagem dos seus feitos, por vezes  a destacam como coadjuvantes, onde na verdade foram principais protagonistas.

A historia vivida pelos personagens negros e negras, sua odisséia dolorosa e triunfante, começa em janeiro de 1454, através da ação do papa Nicolau V na bula Romanus Pontifex Regni Celestis Claviger que dava a posse dos territórios africanos “descobertos” pelo reino português, onde negros e negras deveriam ser submetidos à escravidão e convertidos a religião católica.

Lembranças familiares, étnicas, religiosas e culturais foram trazidas em mentes havidas de liberdade e afirmação cultural, cabendo as mulheres, em nosso caso Mãe Hilda, hoje distante daquele contexto, a tarefa da restauração, implantação da estima do povo negro, em especial no campo da religião, educação e do carnaval.

Toda a sorte de maus-tratos, dizimavam o povo negro a bordo dos “tumbeiros”, todos cativos, pouca água, e escassez de alimentação.

Mas não havia aceitação plena a estas condições, daí, os levantes e estratégias de inserção em uma sociedade opressora e a firmação do legado cultural, o “carnaval negro”, como forma de resistência e afirmação, revelados nos “mais belo dos belos”, o Ile Aiye, produto emancipador do povo afro-brasileiro, sob as graças e cuidados de Mãe Hilda.

A revelação do “belo” de homens e mulheres negras, assumindo a sua estética de base africana, predominante no espaço carnavalesco do Ile Aiye, sob a inspiração e o talento de Dete Lima, filha de Mãe Hilda e Ekedi do Terreiro Jitolu é de se vê.

No ambiente contemporâneo e em tempos de outrora, sabemos da necessidade da mulher negra em buscar no trabalho a possibilidade de uma vida melhor. Mas fora o trabalho, o agente do sustento de muitas famílias e Mãe Hilda, com a dignidade de mulher corajosa e afeita ao trabalho, se lança na labuta, para dar o que se tem de melhor aos filhos e filhos de santo, fé, educação e dignidade. Mãe Hilda, mas tarde, reconhecendo a carência educacional na comunidade pobre, em especial a negra, assume a educação como uma ferramenta essencial para a criançada, fundando a Escola Mãe Hilda, educação para homens e mulheres vitoriosos.

O acesso a educação era historicamente um dos maiores prejuízos enfrentado pelo povo negro, o decreto 1.331, de 1854 e o Aviso Imperial 144, de 1864 em relação ao acesso as escolas, proibia os portadores de doenças contagiosas, escravos e não vacinados ao saber, Mãe Hilda sensível a este déficit histórico, empreende a criação da Escola Mãe Hilda.

As manifestações através dos batuques, afoxés e blocos afros eram laços de solidariedade, e enfrentamento das batidas policias de outrora, porem eram um elemento importante na identidade afro-brasileira e o combate ao racismo. Este gesto se vincula as pioneiras “mães”, tia Ciata, tia Amália, tia Presciliana, as “tias baianas”, zeladoras de santo, quituteiras e sambistas no Rio. Esta perspectiva motivara Mãe Hilda a implementar a criação e apoiar a idéia de bloco Ile Aiye.

Este texto extrapola uma simples homenagem, para registrar a trajetória de uma mulher, vinculada a sua religião de matriz africana, visão de mundo e coerência entre a fé, a realização e a alegria, estimulando exemplos.

jul
3

Por Jaime Sodré

Jaime SodréCOM TIRANOS NÃO COMBINAM

Em tempos históricos de mobilização, com o povo nas ruas, muito vale o registro. Embora não seja este o nosso assunto de hoje, essas manifestações são merecedoras de análise e aprendizagem, e, por certo, terão de todos, profundas reflexões para uma efetiva mudança.

Estava agendado para este espaço outro assunto do campo do civismo local de destaque, a luta baiana pela nossa Independência, e assim farei, tendo como suporte acadêmico o recomendado livro do professor Dr. Luis Henrique Dias Tavares – História da Bahia. Faço minhas as palavras do professor Jorge Portugal quanto ao ensino da HISTÓRIA DA BAHIA nas nossas escolas, e não se alegue falta de material didático, pois o livro do professor Luis, como sempre digo por aí, recomendando-o, “é um santo remédio e luz”.

“Nasce o Sol a 2 de Julho, brilha mais que no primeiro […]”.

Visito a sua página 244. Em plena pugna o Exército se reorganizava com a criação de “nove batalhões e cinco companhias”, onde se destaca uma, de crioulos, arregimentada em Nazaré das Farinhas, e outra, formada por negros livres que recebera a denominação de “Companhia dos Libertos Imperiais”. O coronel Lima e Silva oferecera ao Exército português uma possibilidade aos oficiais e soldados de, após a deposição das armas, “terras para os cultivadores e garantia de retorno para Portugal”.

Uma outra novidade, ao que parece generosa, era a possibilidade para os portugueses que tivessem propriedades na província da Bahia, a garantia de permanecerem com a posse de seus bens.

O Exercito brasileiro totalizava 10.139 homens armados, o Exército português estava devidamente cercado por terra e por mar, com cerca de 4.520 homens e alimento escasso, apenas para trinta dias, o quadro era de fome e sofrimento.

Diante deste quadro, o coronel Lima e Silva acentuou: “Em pouco tempo, sem que seja mesmo preciso atacar-vos, estareis inteiramente aniquilados…vêde, lusitanos, a triste sorte que vos espera”. Sem resposta, a 3 de junho, o coronel ordenou o ataque às trincheiras lusitanas, sob o comando de Felisberto Caldeira. Em avanço, libertou as povoações de Brotas, da Pituba e do Rio Vermelho.

Informa-nos ainda o professor e pesquisador renomado Dr. Luis Henrique que, em avanço, o nosso aguerrido Batalhão dos Periquitos tomou a Cruz do Cosme sob o comando do sargento-mor José Antonio da Silva Castro; “essas vitórias e atos heróicos eram seguidos pela fome e nudez dos soldados brasileiros”. Em reclame ao Conselho Interino, o coronel Lima e Silva alertara que os soldados estavam assolados pela fome e hostilizados pelo frio, e indagava: “Como hei de levar ao fogo corpos carcomidos de fome? A situação da cidade do Salvador era lastimável.

Por outro lado, os lusitanos cercavam-se de instabilidade. “Certos da impossibilidade de manter a guerra, o brigadeiro Madeira de Melo autorizou negociações para o embarque do Exército Português e sua saída em paz pela baía de Todos os Santos”.

O embarque de retirada do Exército português se fez na madrugada de 2 de julho, e a cidade da Bahia amanhecera silenciosa e deserta.

Poético, o professor Luis Henrique dissera: “Cessaram as chuvas de junho e o sol brilhava”. Entraram triunfantes, descalços, com suas fardas rasgadas e sujas. “Os negros do batalhão dos Libertos Imperiais fecham a marcha”. Esta foi a parte do Exército que entrou na cidade do Salvador utilizando-se da Estrada das Boiadas.

Recepcionados pelas freiras da Soledade e por cidadãos diversos “dando vivas ao Imperador” ao pipocar dos foguetes. Tinham senhoras vestidas em verde e amarelo debruçadas na janela, e “odoríferas flores são lanças aos oficiais e soldados”.

O 2 de julho ficou na reverência patriótica dos baianos que, desde logo, estabeleceu o hábito de comemorá-lo, com seus heróis e heroínas, as figuras simbólicas do Caboclo e da Cabocla. Este ano completamos 190 anos desta destemida vitória. Parabéns ao Instituto Geográfico e Histórico, eficaz zelador desta nobre tradição.

No mais, ontem, hoje e sempre: “Com tiranos não combinam brasileiros corações”.

fev
21

Por Jaime Sodré

Jaime SodréOs Ossos do Ofício,

Doutora Teresa Cristina de Souza Mendonça agora é Doutor, explico.

Admirável a sua tese: “Nuances da Vida e da Morte no Cotidiano da Cidade de Salvador da Bahia Seiscentista: A Busca de Evidencias em um Estudo Paleobiológico”, Dissertação de Doutoramento para a obtenção do grau de Doutor em Antropologia, apresentada à Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra, sob a orientação da Dra. Eugenia Cunha. Aprovada. Desço a detalhes.

Na capa, uma foto reveladora de um material osteológico do Sítio da Antiga Igreja da Sé. Realizada por Luis Viva, adaptada do Relatório de Intervenção Arqueológica – Ano 1999, trata-se do esqueleto de um individuo, sepultado com correntes a sua perna, símbolo da terrível escravidão que não liberava nem o corpo morto do infeliz da propriedade do seu algoz. Esta proximidade com a realidade cruel e histórica comoveu-me. Nesta tarefa investigatória cabem louvores, entre outros, aos Drs. Carlos Caroso, Carlos Etchevarne e Carlos Costa.

E por falar em ossos, Veríssimo disseca Ricardo III, cuja ossada fora descoberta em Londres, o pior vilão de Shakespeare, monstro que mata seus sobrinhos para herdar o trono. O exame dos ossos de Ricardo, entende, Veríssimo, nada revelará sobre a sua personalidade, mas a deformidade nas ossadas, revela que ele era corcunda, contribuindo à sua fama de monstro.

Para Dra. Teresa “os esqueletos e os dentes são fontes antropológicas que atuam como registro ou memória das circunstancias que afetaram o indivíduo durante a sua vida”. Estes dados permitem ilações sobre a existência e a morte, neste caso, os inumados no espaço cemiterial da Antiga Igreja da Sé, em Salvador-Bahia, tendo como base as características demográficas e patológicas.

Os enterramentos dos negros eram feitos no adro, e os da elite, no interior da igreja, as disposições dos corpos nestes espaços traduzem o status social dos indivíduos sepultados. A morte é a base do registro “do que foi a vida deste corpo”, que tem uma realidade social, cultural, física e religiosa associada a sua vivencia. O corpo constrói a sua história e “armazena a história que constrói”.

A pergunta norteadora da pesquisa foi: “Que tipo de evidencias sobre o estilo de vida consegue o antropólogo aceder através da leitura dos ossos sepultados na Sé”? Em resposta, a tese se estrutura com a contextualização do tema estudado; apresentação do sitio; perfil biológico dos indivíduos; introdução da paleopatologia e alterações esqueletais e por fim síntese e discussão.

Acompanhei o trabalho da nossa doutora em diálogos, quando o assunto era a presença africana, em especial o trabalho escravo e seus hábitos culturais. Estes sofriam uma alta taxa de mortalidade e baixa fertilidade, constata Dra. Teresa. A minha animação se elevou quando do aparecimento de “contas de colares associados ao universo religioso africano, encontradas juntos aos esqueletos” da Sé, louvores aos pesquisadores, permiti “pensar no peso simbólico que as contas deveriam ter para serem mantidas na hora dos rituais de morte” o sentimento de pertença étnica e religiosa afro manifestam-se, ainda que em um espaço católico. Colares, brincos, anel, cachimbos, crucifixos, fivelas, objetos lúdicos, de costura, de uso domestico, alem de fragmentos de adorno labial indígena e cerâmica tupi-guarani, todos da lavra do competente Dr. Etchevarne.

Nas análises realizadas nos esqueletos foram destacadas as modificações dentarias e o estudo da saúde dos escravos, registraram-se também dentes intencionalmente modificados. Magitot “sublinha o cuidado e a arte com que o negro praticava a mutilação dentaria”, esta mutilação fora identificada em trinta e um individuo o que remete as alterações praticadas pelos povos de Angola, Moçambique, África do Sul e Uganda.

Muito se tem de precioso na brilhante “Tese da Dra. Teresa”, as lesões traumáticas que revelam ou não violência acidental ou intencional, as “praticas cosméticas culturais ou terapêuticas”. A comunidade penhoradamente agradece e aguarda o livro.

ago
23

Por Jaime Sodré

Perfeitos Iconoclastas

Em síntese, cessado o “padroado” nasce outra noção de Estado, agora laico. Logo, não cabe a este, em detrimento de outras, adotar vinculações preferenciais a um determinado grupo sócio-religioso, nem mesmo como prática dos seus dirigentes, porém isso não inibe ações que garantam o exercício da cidadania no campo religioso, no sentido da preservação do patrimônio material significativo destes cultos, como veremos.

Permita-me seguir este texto em “feitio de oração” e agradecimentos ao antropólogo Gilberto Velho, seguindo os passos do seu artigo: Patrimônio, negociação e conflito, que chegou às minhas mãos pela generosidade da Professora Márcia Santana, no intuito de iluminar. Dele valho-me, pois examina a problemática do patrimônio cultural focalizando o tombamento do Terreiro da Casa Branca.

O Professor Velho era membro do Conselho do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, na ocasião relator do tombamento do Terreiro da Casa Branca em 1984, seria a primeira oportunidade para que a tradição afro-brasileira obtivesse o reconhecimento oficial do Estado Nacional. Para esse mister valeu o empenho do Dr. Marcos Vinicius Vilaça que presidia o Conselho da SPHAN. Era um Colegiado que estava dividido, alguns “consideravam desproposital e equivocado tombar um pedaço de terra desprovido de construções que justificassem tal iniciativa”, o estatuto do tombamento vinha sendo aplicado em edificações religiosas, militares e civis da tradição luso-brasileira.

O Terreiro da Casa Branca representava na oportunidade uma tradição de mais de 150 anos e desempenhava, como hoje, um papel importante na simbologia, no imaginário e na devoção do povo brasileiro e, em especial, aquele vinculado aos cultos de matriz africana.

O Professor Gilberto valorizara a importância da contribuição das tradições afro-brasileiras para o Brasil, incluindo as manifestações materiais e imateriais, expressas em crenças e valores, reconhecendo a importância dessas manifestações culturais oriundas das camadas populares, reconhecendo o Candomblé como “um sistema fundamental à constituição da identidade de significativa parcela da sociedade brasileira”. O Professor conclui recomendando o tombamento total da área, com suas edificações, árvores e principais objetos sagrados.

Entendia ainda, o competente antropólogo, que “a vida da cidade de Salvador não poderia ser compreendia sem essa percepção”. Não fora fácil a aprovação, na votação final registraram-se três votos a favor, outro pelo adiamento, duas abstenções e um voto contra.

Na opinião do eminente intelectual: “o tombamento da Casa Branca significava afirmação de uma visão da sociedade brasileira como multiétnica, constituída e caracterizada pelo pluralismo sociocultural”. Apesar de alguns conselheiros argumentarem que não se podia “tombar uma religião”, certamente, digo em acordo como Mestre, que estes entendiam que o tombamento de centenas de igrejas e monumentos católicos teria sido apenas por razões artístico-arquitetônicas.

Interesses outros, em função da localização privilegiada do terreno deve ter aguçado visões capitalistas. Finalmente “tombou-se” a Casa Branca.

Tombamentos desastrosos, no sentido literal, houvera em Salvador: a Igreja da Sé, local marcado pela excelente escultura de Mário Cravo e o Terreiro de Mãe Rosa no Imbui, o Oyá Unipó Neto, cuja destruição realizada pela Prefeitura, traumática e dolorosa, ocorreu justamente no momento em que a comunidade de terreiro reivindicava melhorias físicas. Ao que parece, em função da mobilização do povo-de-santo teria havido a reconstrução deste espaço, inviolável e sagrado. Estamos em período eleitoral, e queremos saber.

O Fórum de Entidades Negras realiza um debate com os candidatos a prefeito, cabe aqui uma questão para os ilustres pretendentes: Estimado Candidato. Levando em conta a importância do patrimônio sócio-histórico e cultural dos Terreiros de Candomblé, onde muitos necessitam de uma ação concreta em favor da conservação do seu patrimônio físico, qual a sua proposta para o enfrentamento deste problema?

Que o panteão afro-religioso o ilumine.

 

jul
17

Por Jaime Sodré

Manoel Soledade… Cadê você?

Ecos do 2 de Julho, lembro-me que era assim, pontificava na ladeira do Convento dos Perdões o garboso desfile, estávamos estrategicamente alocados, como tocaia, no melhor local e queríamos de tudo ver.  Chamava-me a atenção os retratos dos heróis em uma espécie de cartolina rígida, fixada no bastão, Maria Quitéria, General Labatut, e entre eles a dolorida imagem de Sóror Joana Angélica, que nos comovia as lágrimas, exagero, enquanto vítima sangrenta dos tiranos lusitanos.

Mas tarde em faze adulta, no mesmo local tradicional como cadeira cativa, verificamos um acréscimo importante, a inclusão da afro-descendente Maria Felipe heroína de Itaparica entre brados e sobrados. Esta valorosa lutadora negra exigia uma revisão das aulas de história da adolescência, e viria também a registrar este feito histórico, como o afinco da luta de muitos outros personagens. Mas outros viram?

Agora estamos no excelente programa Tambores da Liberdade do Ilê Aiye, na radio Educadora, a falar sobre o 2 de Julho e lancei um desafio a Sandro Teles, produtor do programa; diga-me jovem produtor… Qual o personagem das batalhas do 2 de julho, que remete a nome deste programa? Enquanto ele recorria, numa espécie de vicio moderno, ao computador, teria tempo para contar uma história.

Contemplava comovido, como sempre o faço, o quadro de temática histórica da batalha do 2 de Julho, idealizado por Antonio Parreira, localizado na Câmara de Vereadores de Salvador. Parreira retrata o episódio acontecido em Cachoeira, bombardeada por uma escuna canhoneira, após a proclamação do Príncipe Dom Pedro de Alcântara como “Defensor Perpétuo do Brasil”.

Em seu quadro “Primeiro Passo para a Independência do Brasil”, este pintor fluminense expõe a situação trágica sofrida por um soldado negro do Regimento de Milícias ferido e ensanguentado. Madeira de Melo mandara a escuna que deslizava nas águas do Paraguaçu, atacar Cachoeira e um tiro de canhão oriundo deste vaso, mata o tocador de tambor da tropa na atual Praça da Aclamação. Após este incidente o povo, em estado de revolta, toma a embarcação e aprisiona os portugueses.

A cena imaginada por Parreira no dia 25 de junho de 1822 é comovente, o soldado negro, moribundo, valente tocador de tambor tendo ao seu lado este instrumento estimulador da coragem, está sendo amparado, em sua angustia, por um outro soldado branco graduado.

O nome deste herói, há tempo para mim, permanecera no anonimato, quem seria? As aulas da escola na juventude sobre a 2 de Julho não registrara a figura e o incidente mortal que teria como personagem este soldado negro, tocador de tambor, levou a minha imaginação a extrapolar, desobediente, sugeria ser o músico-soldado, estando na Cidade Heróica reduto do povo gege-nagô, um soldado negro, que pagara com sangue a possibilidade de liberdade, fora por certo um exímio tocador dos tambores sagrados dos terreiros ocultos de Cachoeira?

Mas busquei seu nome, enquanto isso Sandro esmerava-se nas dádivas da internet em busca de um nome que eu já sabia.

Lembrei também do corneteiro Lopes e a sua notória e divulgada façanha com o clarim, uma sonora melodia a serviço da vitória, no código de “AVANÇAR E DEGOLAR”, tão do conhecimento do inimigo e difundido nas minhas aulas. Faltava saber quem era o mestre dos ritmos, vitimado.

Temos nítido na obra de Parreira, a face da vítima e o seu socorrista, como temos na representação de Maria Quitéria, realizada por Domenico Failitti, que repousa no Museu Paulista, inspirador da estátua no Largo da Soledade.

Uma pista importante inspirou-me ao achado, o nome do mais novo herói afrodescendente teria como sobrenome SOLEDADE.

Sandro vibrava pela busca vitoriosa no computador e nós anunciávamos o nome, que já sabíamos, do herói que carregava o “Tambor da Liberdade”, vitimado. Era MANOEL SOLEDADE.

No próximo ano estarei no local de sempre, aguardando o seu retrato em cartolina a desfilar pela ladeira dos Perdões. Manoel Soledade, disse Sandro em resposta, como se estivesse contando uma novidade. Que rufem os tambores!!

abr
4

Por Jaime Sodré

Ônus e Bônus

Evidente que as alianças serão sempre bem vindas, pois é sabido que a solidariedade seria um fator característico da condição humana, é comovente observar gestos generosos daqueles que erguem o seu braço amigo e a sua voz, incorporando nas suas preocupações o problema do outro.

A situação de desigualdade experimentada pela população brasileira, em especial a afro descendente, fruto de fatores históricos de uma evidência inquestionável, experimentará recuo, pelos esforços deste segmento, aliado na superação do quadro deficitário de oportunidades e políticas públicas, se apoiados por amigos sinceros.

Um bom observador presencia manifestações no espaço cultural, em especial no campo da musica baiana, de pessoas não necessariamente negras, desfrutando do capital simbólico negro, identificando-se com o mesmo, aproximando-se de forma concreta e utilizando o potencial afro em suas ações artísticas.

Este desfrute, esta proximidade, gera significativo capital financeiro e prestigio, este último dividido com a comunidade inspiradora.

Assim é que, nesta bem vinda aliança, cabe retornos mais concretos para a comunidade inspiradora, o segmento afro descendente, em desvantagem sócio-econômica evidente. Não se trata de pedágio, é claro, mas de contrapartida real e experimentável, cujo uso fruto anseia os afros descendentes.

Artistas talentosos e solidários, nossos aliados, devem como sugestão, utilizar o seu prestigio para postar-se na linha de frente da nossa pauta de luta, para a superação das nossas demandas.

Logo, apresentamos aqui, de forma seletiva, uma listagem das nossas aspirações, que julgamos ser do conhecimento, mas aqui cabe como oportuna lembrança.

Além do natural posicionamento rígido contra o racismo, devem pronunciar-se claramente contra a intolerância religiosa que atinge o Candomblé, este fruto de inspiração, geradora de direitos autorais aos compositores que buscam nesta referência cultural a sua inspiração, alicerce do seu sucesso.

Exercer o seu prestigio e possibilidades junto aos órgãos de saúde para a concretude ou ampliação de programas para o tratamento das manifestações da anemia falciforme.

Posicionar-se claramente e sem subterfúgios, favoráveis a adoção de cotas para negros nas universidades, estimular os nossos jovens a freqüentar a escola, realizar campanhas que resultem na inibição do uso de drogas, estímulos e posicionamentos para oportunização de empregos para os jovens negros.

Uma solicitação especial me ocorre, seria uma intensa campanha para arrecadação de fundos ou efetivar doações, objetivando a instalação da sede da Steve Biko entidade que realiza cursos para a inclusão de negros na universidade, cujo imóvel, cedido pelo governo do estado, localizado em um trecho onde as atrações carnavalescas passam bem a sua porta, hoje com um painel grafitado no seu muro, que pela beleza desta arte não acreditamos que os nossos astros não tenham visto. Quem sabe um grande show, onde a arrecadação do mesmo seja destinada às obras naquele prédio.

Para aqueles sensíveis astros afro-descendentes ou não, seria oportuna uma campanha para a conclusão das obras que se arrasta na Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos, localizada no Pelourinho.

Na verdade não cabe aqui uma listagem extensa, pois acreditamos que os atores artísticos e sociais, se apurado a observação, poderá se incorporar às inúmeras iniciativas de ações que resultem em efetivo apoio.

Na condição de outra e importante sugestão, esta inquestionável, seria a observação das necessidades das nossas crianças, escolas, creches e adoções, devem ser prioridades neste gesto solidário de bem fazer. Apoio às ações sociais empreendidas pelas unidades populares de matriz africana que se preocupam na formação das crianças, através de doações de livros, equipamentos e alimentação.

Volto a TV, vejo uma atriz branca, rainha da bateria de uma escola de samba, agradecendo aos instrumentistas negros, que repercutem os tambores para o seu sucesso midiático. Que haja uma reciprocidade verdadeira.

Governo da Bahia               ©2020 | IRDEB - Instituto de Radiodifusão Educativa da Bahia. SECOM - Secretaria de Comunicação Social