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imagem festivalO Blog do Tambores da Liberdade disponibiliza para os interessados a pesquisa sobre o tema do Ilê Aiyê para o carnaval 2016, intitulado “O Recôncavo Baiano é Afrodescendente – Cara Preta”. 

O RECÔNCAVO BAIANO É AFRODESCENDENTE.

CARA PRETA!

Introdução

A África é o berço da humanidade. Como  se sabe, 98% da história humana aconteceu na África. Somente 2% da história humana aconteceu fora da África. Os africanos saíram do continente africano e se espalharam pelo mundo, e aí se diversificaram. Então, a África é o berço da humanidade, no sentido mais amplo, não somente no sentido físico, mas no sentido da consciência do que é ser um ser humano.

Com o tema “Afrodescendentes: reconhecimento, justiça e desenvolvimento”, a ONU estabeleceu, em dezembro de 2013, que a década de 2015 a 2024 será toda em homenagem aos afrodescendentes. O principal objetivo da Década Internacional consiste em promover o respeito, a proteção e a realização de todos os direitos humanos e liberdades fundamentais de afrodescendentes, como reconhecidos na Declaração Universal dos Direitos Humanos. A Década é uma oportunidade para se reconhecer a contribuição significativa feita pelos afrodescendentes ao planeta, bem como propor medidas concretas para promover sua inclusão total e combater todas as formas de racismo, discriminação racial, xenofobia e qualquer tipo de intolerância relacionada.

Dando continuidade às comemorações dessa década, no carnaval de 2016 vamos contar e cantar as histórias de luta e resistência do nosso recôncavo baiano, uma região que abrange uma parte da Bahia que foi responsável por este estado ser o que é hoje.

O recôncavo baiano é formado atualmente por 20 cidades, 20 territórios de identidade. São eles: Cabaceiras do Paraguaçu, Cachoeira, Castro Alves, Conceição de Almeida, Cruz das Almas, Dom Macedo Costa, Governador Mangabeira, Maragojipe, Muniz Ferreira, Muritiba, Nazaré, Santo Amaro, Santo Antonio de Jesus, São Felix, São Felipe, São Francisco do Conde, São Sebastião do Passé, Sapeaçú, Saubara e Varzedo.

O Recôncavo Baiano

No Recôncavo encontramos uma grande diversidade de atividades religiosas, artesanais, artísticas e de sabedorias ancestrais, que embora sofrendo ameaças de “folclorizaçao”, são expressivas na pluralidade étnica dessa região. Percebem-se lá a marca dos mais variados aspectos culturais, presentes na arquitetura, língua, nas artes, destacando-se as danças africanas e a capoeira. Na culinária, as influências dos antepassados deixaram de herança deliciosos pratos, como o acarajé, vatapá, maniçoba, meninico de carneiro, beiju e outras comidas de senzala.

As festas que mais se destacam são o São João, realizado em vários municípios da região, e o Carnaval de Mascarados em Maragogipe e Cabaceiras do Paraguaçu, entre outros. O Samba de Roda é um exemplo da preservação da cultura africana, ligado ao culto dos orixás e caboclos, há também características da cultura portuguesa, que é encontrada nos instrumentos, no caso na viola, no pandeiro e na língua utilizada nas canções.

Ainda relacionado às danças do Recôncavo, podemos destacar o maculelê, que acontece todo dia 2 de fevereiro, e tem seu grande destaque em Santo Amaro da Purificação e Cachoeira.  Sua origem é contestada por vários estudiosos, alguns afirmam se tratar de uma dança indígena, outros de luta negra. Já o Grupo de Bonecos da Casa da Cultura Américo Simas é um representativo da cultura local e nacional. Além disso, é relevante mencionarmos o Bumba- meu-boi, Burrinha, Mandús etc.

Não podemos deixar de abordar aqui a importância do São João,  comemorado em toda região Nordeste. Considerada a festa que divide o ano, tem seus festejos realizados intensamente na Bahia e no Recôncavo. É uma grande manifestação cultural e ocorre em muitas cidades do estado, seus festejos recebem maior importância nas cidades de Cruz das Almas e Santo Antonio de Jesus, que lideram as comemorações, trazendo para esta celebração, turistas da Bahia e do Brasil. As cidades oferecem como atrativo vários dias de festa, shows de artistas famosos, quadrilhas, comidas típicas do período, queima de fogueira, e, em Cruz das Almas, acontece a famosa Guerra de Espadas, também conhecida em todo país, esse período atrai a mídia nacional para fazer a cobertura da brincadeira entre os visitantes e os moradores da cidade.

“As cidades do vapor de Cachoeira, da cana de açúcar, do fumo, da farinha de mandioca cantavam a região com múltiplas sonoridades. Charuteiras, irmãs da Boa Morte, povo de santo festejavam sambando na roda, ao lado de violeiros e carvoeiros da estrada de ferro de Nazaré”. (Prof. Dr. Charles D’Almeida Santana, em História e Culturas Populares do Recôncavo)

A importância do Recôncavo Baiano na luta pela Independência do Brasil na Bahia 

  • Santo Amaro

No dia 14 de junho de 1822, os santamarenses, por meio da Câmara, aclamaram D. Pedro como Alteza Real dirigente do poder executivo no Brasil, conclamando a autonomia política, militar e econômica frente a Portugal. Três dias depois, soldador portugueses invadiram as ruas da Vila de Santo Amaro e tomaram o porto de Xareu, mas não abriram a luta.

  • Cachoeira

Foi em Cachoeira, no dia 25 de junho de 1822, que os baianos retaliaram as pretensões do General Madeira e Melo de submeter a Bahia à autoridade portuguesa. A cidade foi atacada por uma barca portuguesa, que ameaçava fazer fogo contra os moradores caso não se submetessem à tropa lusitana. Em resposta, a Junta Conciliatória presidida pelo Capitão Freitas Barbosa, conclamou o povo a resistir aos ataques. Vitoriosa, a população impôs derrota a barca portuguesa, obrigando-a a render-se e aclamando D. Pedro Príncipe Regente e Perpétuo Defensor.

  • São Francisco do Conde

Nesta vila, o sentimento nacional era muito forte. Os chefes das tropas conclamavam a multidão a juntar-se aos brasileiros que em Cachoeira haviam reconhecido a autoridade de D. Pedro. No dia 29 de junho de 1822,  as autoridades e habitantes da Vila de São Francisco do Conde pronunciaram o juramento da regência do príncipe D. Pedro. Após a instalação do conselho interino de governo em Cachoeira e com o intuito de tomar a capital, partiu da Vila de São Francisco o alferes Francisco de Faria Dultra com um contingente que se instalou em Cabrito, próximo a Pirajá, onde em 8 de novembro de 1822 travou-se um das principais batalhas pela independência.

  • Nazaré

No dia 29 de julho de 1822, as tropas portuguesas tentaram invadir o povoado de Nazaré e avançaram pela Ilha de Itaparica até alcançarem o canal do Funil. Quando os portugueses se aproximaram, moradores da ilha se mobilizaram na luta. A vitoria do Funil garantiu a posse do rio Jaguaribe e o controle sob a povoação de Nazaré, que se tornou a principal fornecedora de alimentos às tropas brasileiras.

Principais manifestações culturais dessas cidades 

  • Bembé do Mercado, em Santo Amaro → Manifestação cultural e religiosa que acontece desde o final do século XIX quando um grupo de negros reuniu-se em praça pública da cidade de Santo Amaro da Purificação para comemorar a Abolição da Escravatura, em 13 de maio de 1888. É conhecida como Bembé do Mercado, Festa de Preto ou Candomblé da Liberdade. Desde 1889, o Bembé vem sendo realizado, com a participação de vários terreiros de candomblé da região, que durante três dias realizam uma grande cerimônia de candomblé em praça pública e tem seu ápice com a entrega de presente à Mãe d’Água. Segundo a história oral contada pelos santamarenses e reafirmada pelos participantes do evento, no dia 13 de maio de 1889, um africano de origem Malê, conhecido por João Obá, saiu às ruas juntamente com seus filhos de santo para comemorar a Abolição. Neste ano foi armado no Largo do Xaréu um grande caramanchão, coberto com palha e por três dias foi realizado um grande candomblé que culminou com a entrega de um presente à mãe d’água.
  • Irmandadeda Boa Morte/Festa da Boa Morte, em Cachoeira → o culto a Nossa Senhora foi difundida por todo o mundo ocidental, desde o século IX, através da expansão católica. Nos trópicos sofreu influência do catolicismo afro-brasileiro. Em Salvador, a devoção a Nossa Senhora da Boa Morte, exclusivamente feminina, é registrada desde o séc. XIX, na Igreja da Barroquinha. Uma devoção de mulheres negras. A oralidade tende a afirmar que a transferência dessa Irmandade para a cidade de Cachoeira se deu por volta de 1820. Lá, se instalou numa casa de nº 41, chamada de Casa Estrela, local ainda hoje reverenciado pelas irmãs durante o trajeto da procissão.  As irmãs revelam que a devoção surgiu vinculada a um pedido pelo fim da escravidão feito pelas africanas a Nossa Senhora da Boa Morte. A festividade se inicia no dia 13 de agosto, dia dedicado às irmãs falecidas. Nestes dias as irmãs vestem-se de branco, saem em procissão carregando a imagem postada sobre um andor rumo a Igreja Matriz de Nossa Senhora do Rosário. No dia 14, com a imagem de Nossa Senhora da Boa Morte, as irmãs saem da sede da Irmandade em procissão noturna, carregando velas, entoando cânticos proferidos durante o percurso fazendo menção à dormição de Nossa Senhora. O dia 15 de agosto é dedicado a Nossa Senhora da Glória. A procissão sai pela manhã da sede da Irmandade, seguida pelas filarmônicas locais. Levam flores, carregam o andor de Nossa Senhora da Glória até a Igreja Matriz, onde uma missa é celebrada, e quando acontece a transferência dos cargos, com posse da nova comissão de festa. A festa de prolonga até o dia 17, com muito samba de roda e uma farta ceia durante os cinco dias de festa. 
  • Festade São Domingos de Gusmão, em Saubara → Essa festa é do padroeiro de Saubara. Comemora-se no dia quatro de agosto. Seu culto, na forma de uma devoção popular, realiza-se numa rocha, na direção dos fundos da igreja, onde são depositados os “milagres” de madeira, cera e gesso. Esses “milagres”, esculpidos por mãos contemporâneas, confundem-se com velhos santos dos oratórios domésticos que são entregues à guarda de São Domingos, quando as pessoas, a quem pertenciam tais imagens, falecem. O local ganhou a denominação de “Milagres de São Dominguinhos”.  
  • Chegança de Saubara (Marujada) → Dança do século XVII. Desenvolve temas vinculados à vida do mar e às lutas entre cristãos e mouros. os principais grupos de chegança de Saubara são as seguintes: Chegança dos Marujos “Fragata Brasileira”, saindo da Rua Boca da Mata; Chegança dos Mouros “Barca Nova”, saindo da  Rua da Rocinha; Samba de Raparigas, quando os homens se trajam como “Senhores” de paletó e gravata, e as mulheres como mucamas.
  • Chegança de Sapeaçú → manifestação cultural expressiva, trazida pelo povo negro, uma das raízes negras na cidade. Dança só homens negros com equipes de seis homens de um lado e seis de outro, parecendo cordão de pescadores. 
  • Capabode, em São Francisco do Conde → A palavra Capabode surgiu durante a Era Colonial, a expressão vem do ato dos escravos de arrancar os testículos do bode. Os africanos escravizados também arrancavam a cabeça do animal e usavam para se disfarçar e conseguir fugir dos senhores de engenho. Mais tarde, os escravos descendentes de bantos (Angola) começaram a confeccionar máscaras horripilantes para assustar e saquear os estabelecimentos locais. Com o passar do tempo, a história e as máscaras dos capabodes foi incorporada ao carnaval de São Francisco do Conde, tornado-se um dos grupos mais animados da cidade. 
  • Mandu, em São Francisco do Conde → A palavra Mandu pode ser encontrada tanto no vocabulário dos índios quanto no dos africanos. Para os índios, significa uma espécie de fantasma e para os segundos é aquele que se dedica a um orixá, no caso Xangô, Ifã e Obatalá. Nas festas, as pessoas tocavam atabaques, berimbau e rucumbo, instrumentos que ficavam ocultos sob as vestes. Independente da origem, a tradição se iniciou no século XXI e se perpetuou no calendário folclórico da cidade de São Francisco do Conde. 
  • Meninos da Lama, em São Francisco do Conde → No carnaval de São Francisco do Conde, uma forte tradição são os Meninos da Lama. São garotos, filhos de marisqueiros da região, que saem às ruas durante o carnaval, com o corpo coberto de lama. O grupo meninos da lama na verdade é uma forma cultural de passar para a sociedade a realidade onde os meninos estão inseridos, pois são crianças que sobrevivem do trabalho que realizam como marisqueiros ou catadores de caranguejo junto com seus pais, de onde tiram o sustento de suas famílias. Eles mostram de onde vieram e em que local estão fixadas as suas raízes.
  • Lindroamor, em São Francisco do Conde → O grupo Lindroamor teve sua origem nas festas religiosas trazidas pelos portugueses, principalmente no culto a São Cosme e Damião. Durante os festejos dos nobres, restava aos escravos sair pelas ruas em grupos para tentar conseguir esmolas. Com o tempo, eles perceberam que introduzir imagens de santos em bandejas floridas e bandeiras e cantar e dançar com um gingado todo especial típico de Angola tornaria o grupo mais atrativo e traria mais dinheiro para eles. O Lidroamor Axé é o mais representativo dos gêneros no Brasil, foi reativado a mais de 10 anos e conta com mais de 80 integrantes da comunidade de São Francisco do Conde na Bahia. O grupo Lindroamor atravessou séculos e hoje é um dos grupos culturais mais importantes do Brasil. 
  • Rezas e Caruru de São Cosme e São Damião, em Sapeaçú → O principal evento que até hoje é preservado em Sapeaçú e que tem origem na cultura africana são as rezas e o caruru de São Cosme e São Damião. Um fato curioso em Sapeaçú é que as rezas e os carurus mais fartos e de grande porte são realizados por algumas mulheres brancas da cidade. Mesmo com a participação em massa das mulheres negras, algumas mulheres brancas se adaptaram a cultura dos negros e cultivavam a fé em Cosme e Damião.  
  • NegoFugido, em Santo Amaro → Ninguém sabe ao certo como e nem quando começou, sabe-se apenas que o grupo Nego Fugido, há mais de 100 anos, faz parte calendário festivo da comunidade Acupense, distrito de Santo Amaro. O grupo transforma as ruas num grande cenário, nas tardes de domingo no mês de julho. Durante a apresentação faz uma recriação da perseguição, captura e liberdade vivida pelos escravos e contada no cais do porto pelos mais velhos. 
  • Samba do Machucador, em Cruz das Almas → Contam que enquanto as negras africanas escravizadas no Brasil faziam os temperos das comidas nas casas grandes, aproveitavam o som do machucador de madeira na tigela de barro ou de madeira e cantavam as canções de saudade. Assim nasceu o samba do machucador que hoje segue cantando o refrão da Cultura Popular: “Minha mãe me deu machucador, eu não sou pimenta, minha mãe me machucou”. O grupo “Samba do machucador” faz releituras autênticas dos sambas cantados nas festas tradicionais da Zona Rural e é formado por qualquer pessoa do município de Cruz das Almas que deseja participar.  
  • Samba de Enxada, em Cruz das Almas → Para tornar a lida do campo mais amena os negros africanos cantavam canções, surgindo assim as canções de trabalho. Para tornar estas canções mais animadas, no caminho entre a roça e a senzala, elas ganhavam ritmos mais quentes. Hoje acompanhado de refrões e umbigadas segue o Samba de Enxada do Corta Jaca formado pelos senhores e senhoras que trabalham no campo do município de Cruz das Almas , mas não perdem a oportunidade de festejar. 
  • Samba de Roda Filhos do Varre – Estrada, em São Felix → Foi fundado em 13 de junho de 1972 por Eugênio Bispo Silva, conhecido como “Seu Geninho” atual presidente  do grupo. Durante algum tempo o grupo chamou-se Samba de Roda filhos de Ogum, mas em 2006 após decisão da própria diretora voltou ao seu nome original. Mesmo antes da data de fundação, o Samba de Roda já existia, tendo como líderes Tonho de Mirinha e Maria. 
  • Samba da Capela, em Conceição do Almeida → originário das tradicionais rezas que se faziam para os santos de devoção das comunidades negras da cidade de Conceição do Almeida. É um samba dramático que segue uma sequência coreográfica ensaiada e acompanhada com danças e cantigas tradicionais. Atualmente, o grupo está organizado como associação e desenvolve um trabalho sócio cultural com jovens e crianças da comunidade que tem assim a oportunidade de aprender as músicas e danças tradicionais. 
  • O Carnaval dos Mascarados, em Maragojipe → Essa festa tem um grande significado para os moradores locais, há quem diga que os mesmos esperam o ano todo para a realização da festividade. Certos grupos de mascarados levam tão a sério a festa que não dizem para os seus familiares qual será a fantasia utilizada no carnaval, tudo para não serem reconhecidos. A fantasia, desde sua escolha, confecção e uso é muito importante para o morador local. As ruas de Maragojipe mudam totalmente, os caretas (como são chamados os mascarados) tomam conta do perímetro urbano da cidade, o cenário é peculiar, os mascarados em conjunto com as edificações do século XVIII e XIX, fazem do carnaval da cidade uma festa atrativa. O ato de utilizar a máscara tem um significado muito importante para o morador local, o carnaval de Maragojipe sem os mascarados não existe, pois eles são a essência da festividade, eles dão a vida e a alegria do carnaval local e quem utiliza a máscara e a fantasia incorpora um novo personagem, o mascarado deixa de ser agente social para ser ator social. 
  • Lavagem de Nossa Senhora da Purificação, em Santo Amaro → A Lavagem da Purificação, que acontece sempre no último domingo de janeiro, e atrai milhares de turistas para a cidade e grandes atrações da música baiana e brasileira, com o desfile das baianas, elegantemente trajadas de branco, acompanhadas da tradicional Charanga, tendo como ponto de partida a porta da casa de D. Canô (Saudosa Matriarca dos Veloso como era carinhosamente tratada). Ao longo de todo o percurso, a Charanga procura dar ênfase, principalmente às músicas carnavalescas mais antigas, intercalando com músicas atuais. Em boa parte do circuito, são tocadas músicas que dizem respeito à tradição da festa, seguindo em direção a Igreja da Purificação, onde inicialmente ocorre a lavagem do adro da igreja com água perfumada. Em seguida, o Prefeito da cidade faz a abertura oficial da festa profana e, a partir daí, tem início o cortejo da Lavagem da Purificação, percorrendo as ruas da cidade. Para encerrar as Festas de Nossa Senhora da Purificação, o seu ponto alto é a parte religiosa, que culmina com a Procissão de 02 de fevereiro, dedicada a padroeira da cidade. No seu cortejo, a presença de várias imagens da região à frente, como se fossem verdadeiros batedores, na segurança e, ao mesmo tempo em sinal de reverência à Nossa Senhora da Purificação, ela, com toda a sua imponência, carregando o seu filho nos braços, abençoando a todas aquelas pessoas que a acompanham, e por que não dizer a toda Santo Amaro e região.
  • Samba de “Santa Mazorra”, em Saubara →Tipo de “samba de roda” encontrado em Saubara e em outras poucas cidades do Recôncavo. Tocando, bebendo e cantando os Sambadores saem pelas ruas de Saubara levando uma boneca enfeitada (caracterizada de “santa). A Santa Mazorra é representada por uma boneca, conhecida como a “Santa dos biriteiros”, porque ao sair pelas ruas passa nas casas dos moradores que estão preparados para recebê-la, com uma mesa farta de bebidas e comidas. Ao entrar nas casas, seus integrantes cantam a ladainha da Santa e músicas em agradecimento pelo dinheiro, que é pedido pelo refrão (Santa Mazorra quer dinheiro!), pela comida e bebida oferecida pelo morador. Durante o dia, o grupo junto com a “Santa”, percorre as ruas. Várias casas neste dia ficam de portas abertas esperando a hora em que o cortejo vai passar para serem agraciados, “abençoados” com a visita da Santa e seus seguidores que ao longo do percurso vai aumentando o número de integrantes.

Outras manifestações culturais de Recôncavo 

  • Santo Amaro – A Burrinha da Saudade, Lindroamor, Mandús, Bombachas do Acupe, Samba de Roda São Bráz e Samba de Roda e Maculelê de Nicinha – Raízes de Santo Amaro.
  • São Sebastião do Passé – Samba de Roda de Maracangalha.
  • Saubara – Chegança Feminina Barca Nova, Marujada Fragata Brasileira, Caretas do Mingau, Chegança Moura e Samba das Raparigas.
  • Maragojipe – Samba de Roda Maragogó e Samba de Roda Filhos dos Coqueiros.
  •  Muritiba – Samba de Roda Segura a Véia.
  • São Félix – Bumba Meu Boi, Samba de Roda Filhos de Nagô, Mandús e Cabeçorras.
  • Cruz das Almas – Samba de Roda e Samba da Capela.
  • Cachoeira – Mandús, Cabeçorras e Samba de Roda Suspiro do Iguape.
  • Governador Mangabeira – Tabuleiros de Pindoba.
  • São Francisco do Conde – Nega Maluca, Paparutas da Ilha do Paty, Reisado, Samba Chula Filhos de Pitangueiras e Samba de Roda Raízes do Angola. 

Samba de roda

Esse ritmo musical é nascido das cerimônias do Candomblé e está sempre presente nas festas populares, o ano todo. As cidades de Cipó e Candeias colocam em destaque o samba de roda nos festejos juninos e em Cachoeira, na festa de Nossa Senhora da Boa Morte. Em São Félix, Muritiba, Conceição do Almeida e Santo Amaro, o samba de roda é destaque. Um dos grupos símbolos artísticos e culturais dessa manifestação, é a percussionista Edith Oliveira Nogueira. Conhecida como Dona Edith do Prato, ela morreu em 2009, com falência múltipla dos órgãos e não gostava da ideia de ser vista como artista. Seu principal instrumento era um prato e um garfo que ao tocar, entoava um som que somente ela conseguia percutir com perfeição. Muito próxima da família Velloso, Dona Edith do Prato foi ama de leite de Caetano. Morreu aos 92 anos, em um hospital, na capital baiana. É importante salientar que está completando 10 anos que o Samba de Roda foi considerado Patrimônio Imaterial da Humanidade.

Calendário Festivo do Samba de Roda

Nossa Senhora da Boa Forte

Cidade: Cachoeira

Período: Agosto

 

Nossa Senhora da Purificação

Cidade: Santo Amaro da Purificação

Período: Fevereiro

 

São João

Cidade: Cipó e Candeias

Período: Junho

 

Dois de Julho

Cidade: São Francisco do Conde e Conceição do Almeida

Período: Julho 

Samba Chula

A chula é um tipo de Samba de roda, no qual as cantigas são de louvor à mulher, à beleza feminina. Nessa forma tradicional de dança somente a mulher pode sambar, como resposta ao canto do homem. O samba chula é característico principalmente da região de Santo Amaro da Purificação e era realizado, originalmente, depois das rezas de santos, muito populares no interior baiano. A dança da chula só tem início após a declamação dos cantadores, quando uma pessoa por vez samba no meio da roda ao som dos instrumentos e de palmas. Já o samba de roda corrido, que é o mais popular, acontecia quando acabava o rito da chula e uma nova roda era feita para evitar a saída das pessoas. No samba corrido homens e mulheres podiam sambar e só acabava ao amanhecer.

Sambadores e Sambadeiras do Recôncavo

O Samba de roda da Bahia é composto por uma variedade de mestres e mestras do samba que carregam em si uma grande variedade de estilos como se apresenta o samba de roda do Recôncavo Baiano. Segue abaixo uma relação com os nomes desses mestres e mestras e suas respectivas cidades de origem, locais onde o samba é inerente a sua cultura:

Em Cachoeira: D. Ana, Seu Carlito, D. Dalva, Seu Domingos Preto, Seu Gilson, Seu Fefeco e Mestre Dedão e Lucidalva, in memorian;

Em Conceição de Almeida: D. Fátima;

Em Cruz das Almas: Seu Deodato,  D. Madalena Carolina e D. Julia Ribeiro, in memorian;

Em Maragojipe: Mestre Bibiu, D. Candú, Seu Mané Véio, Seu Roque, e Mestre Barão, Mestre Lucio, Mestre Miguel e Mestre Louro, in memorian;

Em Muritiba: Seu Avelino e Seu Ferrolho;

Em Santo Amaro: Seu João do Boi e Seu Alumínio, D. Nicinha, Seu Primeiro e Mestra Santinha do Beijú;

Em São Felix: Seu Evandro César, Seu Geninho e Mestre Mario;

Em São Francisco do Conde: D. Alva, D. Áurea, Mestre Boião, D. Ilda, Seu Pequeno, Mestre Zeca Afonso e Zé de Lelinha e Mestre Zezinho, in memorian;

Em São Sebastião do Passé: Seu Manoel e Pedro de Maracangalha;

Em Saubara: D. Ana, D. Zelita, João de Iaiá, Seu Pedro, D. Rita da Barquinha e D. Franzina, in memorian;

Em Teodoro Sampaio: D. Fiita, Seu Paião e Mestre Pedro Joaquim, in memorian;

 

Principais personalidades negras do passado 

  • As Tias Baianas.

As chamadas “tias” baianas tiveram um papel preponderante no cenário de surgimento do samba no Rio de Janeiro, no final do século XIX e início do XX. Além de transmissoras da cultura popular trazida da Bahia e sacerdotisas de cultos e ritos de tradição africana, eram grandes quituteiras e festeiras, reunindo em torno de si a comunidade que inundava de música e dança suas celebrações – as festas chegavam a durar dias seguidos. Nessa época, viviam Tia Amélia (mãe de Donga), Tia Prisciliana (mãe de João de Baiana), Tia Viridiana (mãe de Chico da Baiana) e Tia Mônica (mãe de Pendengo e Carmen do Xibuca). Mas a mais famosa de todas foi Tia Ciata, em cuja casa nasceu o samba.

Tia Ciata nasceu em Santo Amaro da Purificação, em 1854. Aos 22 anos, mudou-se para o Rio de Janeiro junto com suas primas Amélia, Prisciliana e Viridiana , no êxodo que ficou conhecido como diáspora baiana. No Rio, formou nova família ao se casar com João Baptista da Silva, funcionário público com quem teve 14 filhos. Como todas as baianas da época, era grande quituteira. Começou a trabalhar colocando o seu tabuleiro na Rua Sete de Setembro, sempre vestida de baiana. Com tino comercial, também alugava roupas típicas para o teatro e para o carnaval.

Mãe de santo respeitada, Hilária foi confirmada no santo como Ciata de Oxum, no terreiro de João Alabá, na Rua Barão de São Felix, onde também ficava a casa de Dom Obá II e o famoso cortiço Cabeça de Porco. Em sua casa, as festas eram famosas. Sempre celebrava seus orixás, sendo as festas de Cosme e Damião e de Nossa Senhora da Conceição as mais prestigiadas. Mas também promovia festas profanas, nas quais se destacavam as rodas de partido-alto. Era nessas rodas que se dançava o miudinho, uma forma de sambar de pés juntos, na qual Ciata era mestra.

Tia Ciata recebia em sua casa um grande número de políticos, boêmios, músicos e batuqueiros que lá iam saborear seus pratos típicos, principalmente sua moqueca. Foi numa destas reuniões que nasceu “Pelo telefone”, música de Donga e Mauro de Almeida que, em 2016, completa 100 anos da gravação desse que foi o primeiro samba gravado.

Antes de ser o que é hoje, o desfile das Escolas de Samba aconteciam sem horário nem percurso fixo, o indispensável era que os grupos passassem pela Praça Onze, pelas casas das “tias” baianas. Elas eram consideradas mães do samba e do carnaval dos pobres. A casa de Tia Ciata era parada obrigatória, pois era a mais famosa e muito respeitada pela comunidade. Até hoje, as tias são representadas e homenageadas nos desfiles, pela ala das baianas das escolas de samba.

  • Besouro de Mangangá

Ao contrário do que a maioria das pessoas pensa, o homem apelidado de besouro mangangá, realmente existiu.  Infelizmente muito pouco se sabe sobre essa figura envolta em lendas e mistérios que permanecem desde seu nascimento até a sua morte e que os mais velhos ainda lembram em suas histórias. Nascido em 1897, em Santo Amaro da Purificação, na Bahia, filho dos ex-escravos João Grosso e Maria Aifa, Manuel Henrique Pereira (seu nome de batismo), teve toda sua vida permeada por muito misticismo. Não se sabe quando, mas iniciou seus primeiros passos na capoeira com Mestre Alípio, também ex-escravo, mais precisamente na Rua do Trapiche de Baixo. Diziam que besouro era um negro alto e muito forte e na capoeira possuía uma agilidade sem igual. O que provavelmente fez com que recebesse o apelido de ”besouro”, ou “besouro mangangá”  (gênero de besouro venenoso). Era exímio jogador de capoeira, assim como no manejo do facão e da navalha. Incluindo o jogo de “santa-maria”. Jogo violento onde os capoeiristas jogavam com uma navalha presa aos pés.

Muitos também afirmam ter algum parentesco com o capoeirista, mas somente um tem isso comprovado. Rafael Alves França, (1917 – 1983) também conhecido como Mestre Cobrinha Verde, era seu primo legítimo. Iniciado na capoeira com seu primo aos 4 anos de idade, sob uma única condição: Nunca ganhar dinheiro com a capoeira. Promessa que foi mantida durante sua vida inteira.

Besouro morreu jovem aos 27 anos de idade, no dia 8 de julho de 1924, mas deixou um legado vivo até hoje. Contam ainda que besouro, após uma briga em outra cidade, mesmo ferido conseguiu fugir de canoa e chegar até a Santa Casa de Misericórdia em Santo Amaro, mas devido ao ferimento não resistiu.

  • André Rebouças

André Pinto Rebouças nasceu em 13 de janeiro de 1838, na cidade de Cachoeira. Filho de Carolina Pinto Rebouças e do jurista e político Antônio Pereira Rebouças, nascido em Maragojipe, Bahia, e irmão de Antonio Rebouças.Aos 16 anos, seguiu com a família para o Rio de Janeiro e matriculou-se, junto com seu irmão Antônio, na antiga Escola Militar, depois Escola Politécnica. Em 1857, tornou-se 2º tenente do corpo de engenheiros e recebeu o grau de bacharel em Ciências Físicas e Matemáticas, em 1859, sendo sempre o primeiro aluno da turma. Em 1860, recebeu o grau de engenheiro militar. Seguiu para a Europa, em 1861, onde fez especialização em engenharia civil.

Retornando ao Brasil, continuou seus estudos como autodidata e dedicou-se à causa abolicionista. Tornou-se, junto com seu irmão Antônio, comissionado do Brasil para vistoriar e trabalhar no aperfeiçoamento de portos e fortificações do litoral. Participou como engenheiro militar na Guerra do Paraguai. Em 1866, retornou ao Rio de Janeiro, onde passou a desenvolver projetos com seu irmão Antônio, para companhias privadas que investiam na modernização do Brasil. Destacam-se, nesta fase, as obras para o abastecimento de água do Rio de Janeiro, as docas Dom Pedro II e as docas da Alfândega.

Ainda na capital do Império, André foi secretário do Instituto Politécnico e redator geral de sua revista, na qual escreveu vários artigos técnicos. Foi responsável pela seção de Máquinas e Aparelhos da Sociedade Auxiliadora da Indústria Nacional. Participava ativamente das discussões sobre o desenvolvimento social e econômico da Nação. Nos anos 1880, engajou-se ativamente na campanha abolicionista e lecionou na Escola Politécnica. Participou da Confederação Abolicionista, da criação da Sociedade Brasileira Contra a Escravidão e redigiu os estatutos da Associação Central Emancipadora.

Em 1892, partiu para Angola, onde trabalhou por 15 meses. Em seguida, estabeleceu-se em Funchal, na Ilha da Madeira. Suicidou-se em 9 de maio de 1898, atirando-se em um penhasco, próximo ao hotel onde vivia. André Rebouças deu grandes contribuições para a construção do Brasil no século 19 e teve participação importante no movimento abolicionista. Introduziu no País, técnicas inovadoras de engenharia, incluindo o uso do concreto armado, utilizado pela primeira vez no Brasil em uma ponte em Piracicaba, construída em 1875, da qual foi o responsável técnico junto com seu irmão Antônio.

  • Antonio Rebouças

Antônio Pereira Rebouças Filho nasceu em 13 de junho de 1839, na cidade de Cachoeira. Filho do conselheiro do Império, deputado e advogado baiano Antônio Pereira Rebouças. Tinha sete irmãos, incluindo Andre Rebouças. Em 1846, mudou-se com a família para o Rio de Janeiro, onde ingressou na Escola Militar, junto com André. Ambos foram promovidos ao cargo de segundo tenente do Corpo de Engenheiros e complementaram seus estudos na Escola de Aplicação da Praia Vermelha.

Antônio e André foram para a Europa, em 1861, para complementar os estudos, especializando-se em construção de estradas de ferro e portos marítimos. No retorno ao Brasil, trabalhou no comissionamento de portos e fortificações, junto com André. O Tenente do Corpo de Engenheiros Antônio Rebouças foi o responsável por reformas em vários fortes no Sul do País, incluindo a da Fortaleza de Santana da Capital Catarinense, em 1863. Em 1864, Antônio seguiu para Curitiba, onde assumiu o cargo de engenheiro chefe da Estrada da Graciosa, concluída em 1873. Fundou a Companhia Florestal Paranaense, a primeira grande empresa madeireira do Paraná.

Entre suas inúmeras realizações, projetou a estrada de ferro Curitiba-Antonina e a ponte sobre o rio Piracicaba, junto com seu irmão André, a primeira em concreto armado do País. Faleceu ao contrair malária, durante a construção da ponte, em maio de 1874. Foi o idealizador da Ferrovia Curitiba-Paranaguá, um dos marcos da engenharia nacional, e chegou a realizar os primeiros estudos, mas faleceu antes de executá-los, jovem, aos 34 anos.

  • Manuel Faustino dos Santos Lira

Manoel Faustino Santos Lira foi um dos líderes da Revolta dos Búzios, movimento ocorrido em Salvador, também conhecido como Revolta dos Alfaiates. Segundo Braz do Amaral, ele tinha 16 anos durante a conspiração. Nascido escravo de Antonio Francisco de Pinho, em Santo Amaro da Purificação, tornou-se alfaiate, liberto, letrado e morava na casa de seus senhores, D. Maria Francisca da Conceição, cunhada do Secretário de Estado José Pires de Carvalho e Albuquerque, no Terreiro de Jesus. Ainda segundo Braz do Amaral, Manoel Faustino procurou Francisco Muniz Barreto, professor de gramática em Rio de Contas, e passaram a discutir sobre governos republicanos. A partir daí, passou a frequentar reuniões secretas, nas quais se discutiam os ideais da revolução francesa e sua possível aplicação na sociedade brasileira. Consequentemente foi um dos primeiros suspeitos pela autoria de panfletos anônimos que conclamavam a população a defender a “República Bahiense”, em 1798. O fato de atuar na conquista de adeptos para seu grupo, juntamente com outros, foi significativo para a decretação de sua prisão, motivo pelo qual Manoel Faustino traçou um longo caminho de fuga, refugiando-se na residência de José Pires, juntamente com o conjurado Lucas Dantas, na madrugada de 7 de agosto. Depois embarcaram em uma lancha que os conduziu ao engenho Guahiba, onde residia sua mãe. Posteriormente, foi para o engenho da Pedra, onde acabou preso em 14 de setembro de 1798.

  • João de Deus do Nascimento

O mestre alfaiate João de Deus do Nascimento, um dos líderes da Revolta dos Búzios, nasceu na cidade de Cachoeira, em 1762. João de Deus era homem pardo, livre e pobre, filho de uma mulher parda e forra e de pai branco, cujos nomes e origens são desconhecidos. Era casado com Luiza Francisca de Araújo, também parda e livre, com quem teve cinco filhos. João de Deus deixou envolver-se pelos ideais da Revolução Francesa que chegaram à América portuguesa. As ideias revolucionárias de liberdade e igualdade contrastavam com as condições de vida da população, marcada pela pobreza e discriminação. Por isso, passou a participar de reuniões secretas, que discutiam os ideais liberais, ao lado de estudantes, intelectuais, soldados, artesãos e funcionários. O mestre alfaiate, que também era cabo de Esquadra do 2º Regimento de Milícias, tomou parte ativa da conspiração que intentava a emancipação. Passou a divulgar as ideias separatistas e a convidar inúmeras pessoas para participar do levante.

  • João de Obá

Falar em Bembé do Mercado é falar em João de Obá. Este líder religioso reuniu seus filhos e filhas de santo para celebrar a passagem de um ano da abolição. Era uma forma de mostrar resistência diante do aparato formado pelos ex-senhores de escravos contra a abolição, pedindo a revogação da lei. Toda esta manifestação é mantida desde a morte de João de Obá por adeptos do Candomblé como uma forma de preservar a memória desta celebração, da luta pela liberdade e afirmação religiosa.

  • Gaiaku Luiza

Luiza Franquelina da Rocha nasceu em 25 de agosto de 1909, em Cachoeira. Gaiaku Luiza que é bisneta de africano e foi nascida e criada dentro do candomblé, chegou a morar dentro da Roça de Ventura. Teve contato com as velhas tias do candomblé que lhe ensinaram muita coisa. Em 1937 Gaiaku Luiza foi iniciada para Oyá na nação kétu, no Ilê Ibecê Alaketu Àse Ògún Medjèdjè. Foi Sinha Abali, segunda Gaiaku a governar a Roça de Ventura, quem viu que Gaiaku Luiza deveria ser iniciada no jeje, nação de toda sua família, e não no Ketu. Assim, encarrega sua irmã de santo Kpòsúsì Rumaninha, de sua inteira confiança, a iniciar Gaiaku Luiza no Terreiro Zòògodò Bogun Malè Hùndo, em Salvador. Em 1944 Gaiaku Luiza é iniciada na nação jeje sendo a terceira a compor um barco de 3 vodunsì. Seu barco foi constituído por uma Osun, um Azansú e uma Oya.

Gaiaku Luiza foi uma das poucas Vodunsì na Bahia que ousaram abrir uma roça de candomblé jeje-mahi. Isso ocorreu em 1952, num período em que não era comum tal prática dentro do culto jeje. Na época, supõe-se que existiam somente dois terreiros jeje-mahi na Bahia, que eram o Zòògodò Bogun Malè Hùndo, em Salvador, e a Roça de Ventura , em Cachoeira. Com a autorização e participação de sua mãe de santo Romaninha, dona Luiza abriu um terreiro jeje-mahi, tornando-se, então, uma Gaiaku. O título Gaiaku é próprio do jeje-mahi, nos terreiros jeje da Bahia, a mãe de santo pode ocupar três cargos: Gaiaku, Doné e Mejitó. Esses cargos estão relacionados com as famílias dos Voduns que compõem o culto.

Em 1952, Gaiaku Luiza inaugurou sua roça. Ela afirmou: “A inauguração foi com muita festa para Azansú (Vodum que corresponde ao orixá Omolú), o dono da casa, e foi muita gente prestigiar. A roça recebeu o nome de Hùnkpámè Ayíonó Hùntóloji”. Este terreiro de candomblé jeje-mahi, fundado por Gaiaku Luiza, desde a sua fundação, está situado em um local chamado Alto da Levada, próximo ao bairro do Caquende, na periferia de Cachoeira. Em 20 de junho de 2005, Luiza Franquelina da Rocha, ou Gaiaku Luiza de Oyá faleceu, aos 96 anos de idade. Considerada uma das mais importantes sacerdotisas do culto afro-religioso jeje-mahi do Brasil e possuidora de uma sabedoria inigualável. Faleceu em Cachoeira, na sua roça, cercada de filhos de santo, amigos e familiares, como ela sempre quis e costumava dizer: “Mãe de santo tem que morrer dentro de sua roça”.

  • Theodoro Sampaio

O baiano Theodoro Sampaio contribuiu de forma importante para o ciclo desenvolvimentista do Brasil da segunda metade do século 19 e início do século 20. Engenheiro civil, geólogo, geógrafo, historiador, político, cartógrafo e urbanista. Autor de importantes trabalhos científicos. Theodoro Fernandes Sampaio nasceu em 7 de janeiro de 1855 no Engenho Canabrava, no município baiano de Teodoro Sampaio, antigo distrito de Santo Amaro, onde iniciou seus estudos. Seus pais eram a escrava Domingas da Paixão do Carmo e, supostamente, o padre Manuel Fernandes Sampaio.

No Rio de Janeiro, estudou humanidades no colégio São Salvador e diplomou-se em engenheiro civil pela Escola Politécnica, em 1876. Ainda estudante, lecionou Matemática, Filosofia, História, Geografia e Latim. Em 1879, fez parte da Comissão Hidráulica do Império. Projetou os melhoramentos do Porto de Santos, estudo publicado em um artigo na Revista de Engenharia no mesmo ano. Em 1883, foi nomeado primeiro engenheiro da Comissão de Melhoramentos do Rio São Francisco.

Em 1886, fez o levantamento para a carta geológica de São Paulo. Em seguida, fez parte de várias outras comissões do Império, visando o desenvolvimento do Brasil. Em 1898, foi nomeado diretor e engenheiro-chefe do Saneamento do Estado de São Paulo, onde permaneceu até 1903. Suas ideias sobre o desenvolvimento urbano das grandes cidades foram contribuições importantes para a época.

Retornou à Bahia, em 1904, onde desenvolveu e publicou vários estudos científicos. Escreveu os livros História da Fundação da Cidade da Bahia e o Tupy na Geografia Nacional, obras que, ainda hoje, são referências bibliográficas importantes em ciências humanas. Foi fundador e presidente do Instituto Geográfico e Histórico da Bahia. Eleito deputado federal, em 1927. Theodoro Sampaio nasceu escravo. Foi alforriado no batismo, pelo seu pai. Em 1877, comprou a alforria de sua mãe e de seus irmãos. Faleceu em 1937 e hoje vive na memória nacional.

Principais personalidades de hoje 

  • Dalva Damiana de Freitas

Charuteira, sambadeira, cantora e compositora, D. Dalva Damiana criou e organizou um dos mais tradicionais e elegantes sambas de roda do Recôncavo baiano, o Samba de Roda Suerdieck, na fábrica de charutos Suerdieck, no final da década de 50. Dentre as características deste samba estão seu pioneirismo e a performance das baianas que se apresentam com indumentárias típicas apresentando o “samba no pé” e tocando tabuazinhas de madeira que acompanham os tocadores no ritmo contagiante.

O Samba de Roda Suerdieck juntamente com o Samba de Roda Mirim “Flor do Dia”, integra a Associação Cultural do Samba de Roda “Dalva Damiana de Freitas” que possui uma parceria com a Associação de Pesquisa em Cultura Popular e Música Tradicional do Recôncavo. Ambas associações encaminharam ao Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) a solicitação de registro do Samba de Roda do Recôncavo baiano no livro das Formas de Expressão do Patrimônio Nacional. Em 2004 o Samba de Roda do Recôncavo baiano foi reconhecido como Patrimônio Imaterial do Brasil e em 2005 a Organização das Nações Unidas pra Educação, Ciência e Cultura (UNESCO) conferiu à manifestação o título de Obra Prima do Patrimônio Oral e Imaterial da Humanidade. Em 2012, a UFRB concedeu o título de Dra. Honoris Causa a Dalva Damiana de Freitas, honraria concedida em reconhecimento a personalidades que se destacam nas ciências, nas artes ou nas relações com a sociedade. Dona Dalva é considerada um ícone da cultura do Recôncavo. 

  • Roberto Mendes

Baiano de Santo Amaro da Purificação, terra dos irmãos Caetano Veloso e Maria Bethânia, o cantor e compositor Roberto Mendes é um dos maiores expoentes do samba chula no Brasil. Dedica sua carreira à busca de uma autêntica MPB. Apadrinhado pelos célebres conterrâneos, Mendes iniciou sua carreira em 1972, no grupo Sangue e Raça. Em seguida, teve as músicas “Filosofia Pura” e “Lua” gravadas por Bethânia, no mítico disco “Ciclo”. O primeiro álbum solo, “Flama” viria em 1988. Em 1992 lançaria “Matriz” e em 2001 o elogiado “Tradução”, no qual conta com as participações de Jussara Silveira e Margareth Menezes.

  • Jorge Portugal 

Ele Nasceu em Santo Amaro da Purificação, no dia 5/8/1956 e ali viveu até os 17 anos. Em Salvador, se destacou como professor da língua portuguesa e redação, tendo ensinado em vários colégios e cursos pré-vestibulares. Na condição de poeta- letrista, compositor, cantor, tem sua carreira artística dedicada à tradução das mais genuínas manifestações da cultura brasileira, sem perder a sintonia com o que vai pelo mundo, nem com as influências contemporâneas. O seu trabalho musical tem-se afirmado ao longo desses anos pela singularidade do seu estilo e pela aceitação popular que o mesmo consegue. Hoje suas composições são executadas em várias partes do mundo, ganhando dimensão nas vozes de interpretes consagrados como Maria Betânia, Gilberto Gil, Caetano Veloso, Daniela Mercuri, Margareth Menezes, Tânia Alves, Raimundo Sodré, Roberto Mendes, Fafá de Belém, Sandra de Sá, dentre outros artistas que já o gravaram. Participou de vários Festivais de MPB com destaque para o MPB/80 da Rede Globo de Televisão, quando recebeu a consagração nacional com a música a “MASSA”, e em 1985 defendendo, ao lado de Roberto Mendes, a música “Caribe, Calibre: Amor”, na mesma emissora de TV. Lançou em 1994 o disco “PALAVRA”, no qual cristaliza as suas principais influencias e invenções, tendo nas suas letras o seu ponto alto. Atualmente é Secretário Estadual de Cultura da Bahia.

  • D. Canô

Chamada carinhosamente por “Dona Canô”, a mãe do compositor e cantor Caetano Veloso e da cantora Maria Bethânia, nasceu Claudionor Viana Teles Velloso, em Santo Amaro da Purificação, no dia 16 de setembro de 1907. Ficou conhecida não somente por ser mãe do casal artista famoso, mas pela simpatia, carisma, religiosidade e liderança. Preocupada com a preservação da sua terra natal, Dona Canô lutou para não deixar acabarem eventos como os “Ternos de Reis”, que sempre organizava na sua cidade, bem como a tradicional trezena de Santo Antônio. Ela também era uma ativista do meio ambiente, principalmente reivindicando a despoluição do Rio Subaé.

Ela foi casada 53 anos com José Teles Velloso, o Seu Zeca, funcionário público dos Correios, falecido em 13 de dezembro de 1983, aos 82 anos, sendo que os dois tiveram, além dos já citados, os seguintes filhos: a escritora Mabel Velloso (Maria Isabel), Clara Maria, Rodrigo, Roberto, Irene e a já falecida, Eunice, conhecida por Nicinha, que era filha de criação. Durante toda a sua vida, Dona Canô deu exemplo de educação, cultura e sabedoria aos filhos, metade deste tempo ao lado do marido Zeca. Antes de seu Zeca falecer, na década de 80, o casal podia ser visto pelas ruas de Nazaré, onde residiam em direção ao bairro do Tororó, onde morava a filha Mabel para visitá-la, sempre de mãos dadas, sorrisos e cumplicidade de um par feliz e ciente da boa criação aos filhos.

Com toda musicalidade da infância, Dona Canô criou os filhos desta forma, pois costumava cantar para todos e afirmava para eles que a música é a melhor coisa do mundo. Desta forma, toda a família tem um pé na arte e literatura, pois os oitos filhos tocavam um instrumento musical, sendo que dois dos netos também são compositores e cantores, Jota Velloso e Belô Velloso. Considerada por muitos a “embaixatriz” de Santo Amaro por sua atuação em defesa da cidade e por sempre se envolver em mobilizações para o bem estar da população, D. Canô angariou fundos para reforma da principal igreja de Santo Amaro, mobilizou a população em apoio aos pescadores locais e em prol do Rio Subaé. D.Canô veio a falecer, aos 105 anos, no dia de natal de 2012, em sua residência na cidade de Santo Amaro da Purificação.

  • Maria Eunice Martins Luz (Nicinha do Samba)

Mais conhecida como “Nicinha do Samba”, na cidade de Santo Amaro do Recôncavo baiano, ela  é uma das mais importantes personagens da história de Santo Amaro e do samba de roda, principalmente pela sua personalidade alegre, descontraída e brincalhona. Nicinha transita desde pequena nos universos da cultura afro-baiana, típicos do Recôncavo: nos terreiros de Candomblé, na Capoeira, no Maculelê, e preferencialmente no Samba de Roda, onde ela se exibe como exímia sambadeira, dona de um requebrado inigualável. Nicinha é a matriarca responsável pela manutenção do grupo de samba de roda Raízes de Santo Amaro, que conta com uma quantidade impressionante de sambadeiras, todas senhoras negras com roupas lindíssimas ao estilo das baianas do candomblé e com aquele sapateado miudinho e o requebrado na cintura que só elas.

D. Nicinha, continua vivendo uma vida humilde, pé no chão, na comunidade do Pilar, sabe preservar as amizades de muitos tempos com pessoas ilustres da cultura de Santo Amaro, como a família Veloso, dentre outros. D. Nicinha teve a oportunidade de levar a cultura popular de matriz africana do Recôncavo para diversos lugares do Brasil e do exterior, tendo realizado apresentações na Europa e nos Estados Unidos ao longo de mais de três décadas.

  • Emanoel Araujo

Emanoel Araujo, artista plástico baiano, nasceu numa tradicional família de ourives, aprendeu marcenaria, linotipia e estudou composição gráfica na Imprensa Oficial de Santo Amaro da Purificação. Em 1959 realizou sua primeira exposição individual ainda em sua terra natal. Mudou-se para Salvador na década de 1960 e ingressou na Escola de Belas Artes da Bahia (UFBA), onde estudou gravura. Foi premiado com medalha de ouro na 3ª Bienal Gráfica de Florença, Itália, em 1972. No ano seguinte recebeu o prêmio provindo da Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA) de melhor gravador, e, em 1983, o de melhor escultor. Foi diretor do Museu de Arte da Bahia (1981-1983). Lecionou artes gráficas e escultura no Arts College, na The City University of New York (1988).

Expôs em várias galerias e mostras nacionais e internacionais, somando cerca de 50 exposições individuais e mais de 150 coletivas. Foi diretor da Pinacoteca do Estado de São Paulo (1992-2002) e fundador do Museu Afro Brasil (2004), onde é Diretor Curador. Em 2005, exerceu o cargo de Secretário Municipal de Cultura. Em 2007 foi homenageado pelo Instituto Tomie Ohtake com a exposição Autobiografia do Gesto, que reuniu obras de 45 anos de carreira.

  • Rosildo Moreira do Rosário

A experiência de Rosildo em trabalhos voltados à cultura popular se mostra consistente. O mesmo foi Presidente da Associação Chegança Fragata Brasileira (entre os anos de 2002 e 2005), atuou como articulador da participação da Marujada no Palácio do Governo em Brasília, no “I seminário da pesca”, em 2003, foi Secretário de Educação do Município de Saubara por dois anos consecutivos (2005/2006), assumiu o cargo de Coordenador Geral da Associação dos Sambadores e Sambadeiras do Estado da Bahia, entre os anos de 2005 e 2011, foi Coordenador Executivo do Projeto Circuito do Samba da Bahia, no ano de 2006, atuou, internacionalmente, como articulador da participação do Samba de Roda no I Festival de Patrimônio Imaterial na China, em 2007 e do intercâmbio Casa do Samba e Escola de Música da Guiana Francesa, em 2009, presidiu o Conselho Municipal de Educação do Município de Saubara, entre 2007 e 2009, foi Diretor do Centro Educacional Municipal de Acupe, em 2009 e atuou como Coordenador Executivo dos Projetos I e II Séries de CD´s Casa do Samba, em 2011 e 2013, dentre muitos outros trabalhos importantes de articulação, coordenação e direção, o que o torna, não apenas apto, mas fundamental, para compor o quadro da Comissão de avaliação do Edital Mestres das Culturas Populares Tradicionais da Bahia.

O Recôncavo e as Religiões de Matriz Africana

O Recôncavo baiano concentra um número significativo de terreiros de candomblé das diversas nações, com predominância para as casas de axé de nação Jeje e também de nação Ketu. Há também uma grande concentração de centros de caboclos e umbanda. Recentemente dez terreiros das cidades de Cachoeira e São Feliz foram registrados no “Livro de Registro Especial dos Espaços destinados a Práticas Culturais Coletivas”, são eles: Aganju Didê Viva Deus, Lobanekum, Lobanekum Filha, Ogodô Dey, Ilê Axé Itaylê, Hùnkpámè Ayíonó Hùntóloji, Dendezeiro Nkossi Muncumbi (Cachoeira), Raiz de Airá e Ilê Axé Ogunjá (São Felix). Além desses terreiros, existem também inúmeras casas de axé em cidades como Muritiba, Nazaré das Farinhas, Santo Amaro da Purificação, Maragojipe, São Sebastião do Passé e outros. A presença esmagadora de manifestações culturais negras se dá em cidades onde há um grande número de terreiros de religiões de matriz africana.

O Recôncavo Baiano e as Lyras Negras

O Recôncavo Baiano se tornou famoso também por causa das grandes Filarmônicas, formadas por músicos negros que tanto tocavam de ouvido quanto lendo as partituras, criando, assim, Escolas de Formação de Jovens, através das famosas Liras Filarmônicas, na maioria das cidades do Recôncavo. As cidades pioneiras foram Cachoeira, Nazaré, Santo Amaro e Maragojipe, a partir de 1930, essas liras se espalharam para o Recôncavo Sul, a exemplo das cidades de Castro Alves, Amargosa, Muritiba e outras. Vale ressaltar que a primeira orquestra criada no recôncavo baiano foi a Filarmônica Erato Nazareno, em 1863, depois a Filarmônica 2 de julho e a Lira Siciliana de Cachoeira liderou a festa de libertação dos negros escravizados, em 1888. Outras filarmônicas conhecidas são Minerva Cachoerana, Lyra dos artistas, Filho do Apolo (Santo Amaro), Grupo São João, Meninos Desvalidos, Lyra Guarani, de Cruz das Almas dentre outras. Haviam fervorosas disputas musicais nos coretos das praças, abrilhantando as festas religiosas, cortejos marítimo e as festas profanas.

Quando a delegação do Ilê Aiyê esteve no Benin (África), em 1987, encontrou várias manifestações culturais oriundas do Recôncavo Baiano, a exemplo da Burrinha, Pau de sebo, caruru de São Cosme e Damião (esmola cantada com estandarte, como ainda é feito em algumas cidades do Recôncavo) e Filarmônicas acompanhando estes cortejos.

O amor do Jonatas Conceição pela sua querida Saubara

“Mesmo tendo nascido em Salvador, Jônatas Conceição da Silva, “Nato” ou “Natinho” para os mais íntimos, teve sua gênese familiar oriunda em Saubara, em virtude do seu pai Tertulino Sales da Silva ser saubarense. Durante os períodos de suas férias trabalhistas, Jônatas sozinho ou acompanhado dos seus familiares ou de alguma pessoa próxima, costumava desfrutá-las em Saubara, onde muitas vezes encontrava inspiração para escrever e procurava descansar dos seus labores de professor, de radialista, de pesquisador e de ferrenho militante dos movimentos negros. Incentivador e apaixonado pelas manifestações culturais, “Natinho” não media sacrifícios de se deslocar de onde estivesse até Saubara, a fim de assistir aos folguedos das “Caretas” por ocasião dos festejos alusivos ao célebre 2 de Julho de 1823, atinentes à participação dos saubarenses nas lutas em favor da Independência do Brasil, na Bahia; aos espetáculos das danças lascivas proporcionadas pelas “Cheganças dos marujos e mouros”; as encenações teatrais da “Xácara do Zé do Vale” e concertos da Filarmônica São Domingos, que se apresentam quando das celebrações religiosas em louvor e reverência ao orago Domingos de Gusmão – “Padroeiro de Saubara”;  performances dos “Ternos de Reis”, “Comédias” e “Bailes pastoris”, durante as celebrações natalinas”. (Betinho D’Saubara)

Segundo o poeta José Carlos Limeira, um dos grandes amigos de Jônatas e companheiro nas letras, “Jônatas era um poeta profundamente ligado às suas raízes em Saubara. Eu sempre disse que ele vivia ‘saubariando’ a vida“. Uma das suas maiores alegrias acontecia nas temporadas de festas, quando os grupos de samba de roda desfilavam pela cidade. A festança era maior quando o Samba de Santa Mazorra colocava em seu itinerário a casa da família de Jônatas. Houve certa vez em que Mãe Hilda participou desses festejos, na casa de Jônatas, ao som do Samba de Santa Mazorra, “foi um dia de muita festa e alegria”, relata Vivaldo Benvindo, diretor do Ilê Aiyê e um grande amigo de Jônatas Conceição.

O seu amor pela cidade de Saubara se eternizou em um dos seus mais lindos poemas “As Saubaras Invisíveis”, como vêem abaixo:

AS SAUBARAS INVISÍVEIS

Chega-se a Saubara pelo caminho do mar.

Às velas, barcas velhas velejam rumo à baía.

Viagem de gentes, trapos, mercadorias,

Odores repelentes que recendem tumbeiros

Travessia de longínquas noites

(“Aquela viagem era uma eternidade!”)

que ao vento cabia a tarefa de um porto feliz.

Chega-se a Saubara por via de muitos rios

Do rio para o mangue, do mangue-rio para o mar.

Caminhos do leva-e-traz mercantil

Ao porto de amaros negócios

Percurso de antigos navegantes

Fundadores do eterno dar-se saubarense

Desbravadores de restos da flora e fauna do lugar.

Chega-se, finalmente, a Saubara pelo primado da fé.

Seus marujos e rezadeiras procuram, há muito,

o caminho da salvação.

Seus filhos e netos, há pouco, descobriram outros caminhos…

Procuram, pela novidade alheia, desesperadamente,

outra cidade inventar.

Os perseguidores da fé a tudo ver, oram, choram

(A São Domingos que é de Gusmão que nos vele)

as chamas das velas revelam.

Conclusão

A ampla mistura de povos deixou marcas na cultura, na culinária e na paisagem natural e artificial do Recôncavo Baiano, que hoje abriga uma população formada por 80% de negros, segundo o último senso étnico racial divulgado pelo IBGE. Como resultado, suas cidades são marcadas por manifestações da cultura negra e por um poderoso sincretismo religioso, no qual a cultura dos negros influencia a dos brancos.

Um dos primeiros pedaços de terra pisados pelos portugueses, o Recôncavo teve um papel relevante na produção agrícola do estado da Bahia até o início do século XX. Por lá se instituiu um significativo comércio de açúcar, de fumo e de outros produtos oriundos de diversas localidades, que foram levados a Portugal e a outros países da Europa. O embarque dos produtos e o desembarque dos escravos foram facilitados devido à proximidade do Recôncavo com Salvador, primeira capital do país. Durante esse processo, os colonizadores portugueses dizimaram aldeias tupinambás, e o Recôncavo se estabeleceu como um dos principais destinos da diáspora africana.

Como vimos, o Recôncavo é o berço do cortejo Lindroamor em São Francisco Conde; Nego Fugido, Samba de Nicinha e Maculelê, em Santo Amaro; Festa dos Reis em Cabaceira do Paraguaçu e as Caretas de Saubara. A região também é do Maculelê, da Marujada, da arte barroca e do tradicional Samba de Roda e da Capoeira, considerados Patrimônio Cultural e Imaterial da Humanidade.

O conjunto de cidades localizadas no entorno da Baía de Todos os Santos também ganham relevância quando o assunto é sua contribuição para a formação do candomblé como uma instituição religiosa. Isso graças à atuação dos terreiros de candomblé presentes em diversas cidades. Contribuição esta que teve reconhecimento ano passado, quando dez terreiros de Candomblé, localizados nas cidades de Cachoeira e de São Felix passaram a ser protegidos via tombamento. Os terreiros foram os primeiros do país a receber o Registro Especial de Patrimônio Cultural Imaterial, que inclui também as manifestações populares, os conhecimentos e as heranças simbólicas das suas matrizes culturais.

Fontes

Textos sobre o município de Saubara (escritos por Betinho d`Saubara)

Texto “Jônatas Conceição: saubarense de boa cepa” de Betinho d`Saubara

Informações sobre a cidade de Sapeaçú – Associação Cultural Birro Preto ACBP

http://evooafrica.blogspot.com.br/2012/08/reconcavo-baiano-legado-afro-brasileiro.html

http://peroladoreconcavo.blogspot.com.br/p/nossa-cultura.html

http://www.saofranciscodoconde.ba.gov.br/?page_id=16

http://www.sambadenicinha.com/

http://povodoaxe.blogspot.com.br/2009/04/gaiaku-luiza.html

http://www.bahia-turismo.com/historia

http://narradoresdoreconcavo.com.br/

http://www2.tv.ufba.br/video/526-especial-tv-ufba-samba-chula

http://www.museuafrobrasil.org.br/o-museu/emanoel-araujo

http://antigo.acordacultura.org.br/herois/heroi/tiaciata

http://www.gicult.com.br/colunas/santo-amaro-da-purificao-histria-festas-e-terra-da-cultura–4138/

http://www.oocities.org/br/familialmeida2000/SantaM.htm

Herois Negros do Brasil, Cartilha Revolta dos Búzios. Fundação Pedro Calmon, Governo da Bahia – http://bit.ly/1gUAKHJ

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