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Por Jaime Sodré

Jaime Sodré

Um Bando de Artimanhas

Cena 1 – A habilidade dramática negra vem de longe, embora os senhores de engenho duvidassem de qualquer qualidade talentosa, a realidade demonstrara o contrario. Pinturas rupestres africanas mostram-nos um mascarado, tatuado, em movimentos teatrais, sendo fácil perceber as mais diversas performances nas etnias africanas.

Cena 2 – Vislumbrando uma pintura da época colonial, de um canavial, veremos um grupo de negros, realizando oculto aos senhores, danças e expressões teatrais totêmicas, firmando na lembrança momentos da África distante.

Cena 3 – Veremos também a coreografia teatral do Bumba meu Boi, suportado por um texto mítico, oral. Teremos também encenações do Rei e Rainha do Congado, e ainda as interpretações de Chico Rei. No Recôncavo, maquiados de preto, vestidos de palha, temos no Nego Fugido a teatralizar desafios dos negros escravos, em busca da liberdade.

Cena 4 – Como não atribuir às expressões dos orixás, no Xirê do Candomblé, um exercício religioso, coreográfico e teatral.

Cena 5 – Em tempos carnavalescos, a Embaixada África e os Pândegos da África, esmeravam-se nos seus carros alegóricos, a representação teatral das cortes africanas.

Cena 6 – O TEN – Teatro Experimental do Negro, iniciativa do brilhante Abdias Nascimento, representava um gesto desafiante. A ideia surgiu do encontro com os poetas Efrain Bó, Godofredo Iommi, Raul Young e Napoleão Filho, após assistir a peça O Imperador Jones, de Eugene O’Neill, um ator branco, Hugo D’Evieri, atuava pintado de preto. Preso por protesto contra o racismo, no Presídio de Carandiru Abdias fundou com os presos o Teatro do Sentenciado. Ao deixar a prisão, criou uma companhia com operários e empregadas domesticas que foram alfabetizados para a leitura do texto teatral.

Cena 7 –  No dia 8 de maio de 1940 o TEN se apresentou no Teatro Municipal do Rio, com Agnaldo Camargo, negro, como ator principal. O objetivo era dar ao ator negro a possibilidade de levar ao palco personagens livres de estereótipos.

Epílogo – Dizendo ter orgulho da trajetória do Bando, a estimada diretora teatral Chica Carelli referia-se ao Bando de Teatro Olodum como um ato de coragem, estruturado para a formação de novos autores, atores e diretores. Relata que João Jorge, presidente do Olodum convidou o competente Márcio Meireles para esta empreitada vitoriosa, a meta era a criação de uma proposta teatral com uma linguagem baiana, elementos da cultura afro-brasileira e questões sociais, sem ser um ato folclórico depreciativo e panfletário.

A voz de Jorge Washington ecoa com uma fala do Grupo, manifesto parabéns, para ele “a sensação é de dever comprido”, com a contribuição de atores do Bando na cena nacional, Lázaro Ramos, Érico Braz e Fábio Santos, em Londres.

O Bando de Teatro Olodum, há 25 anos segue fazendo Arte e “Manhas” para vencer as adversidades.

Benção em nome de Mario Gusmão.

 

Jaime Sodré é historiador, escritor, doutorando em Educação e Contemporaneidade e Consultor do Programa Tambores da Liberdade.

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