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Por Jair Nguni

Jair Silva

Vicente Mariano, Candomblé e Intolerância Religiosa.

Segundo dados do IBGE de 2010, a população campinense  possui 58% de pretos e pardos. Logo, entregar um título de cidadania  para o  senhor Vicente Mariano é contribuir para  dar visibilidade e autoestima  ao povo de santo, povo este, que historicamente  vem sendo marginalizado e discriminado em todos os setores da sociedade campinense. Temos, portanto, que reconhecer e perceber que o Tatalorixá Vicente Mariano, fundador do Terreiro Senhor do Bonfim Ilê Oxum Ajamim, é parte  integrante desse  processo de luta e história de resistência do povo negro contra a intolerância religiosa. E que pela sua atuação valorosa e corajosa em  mais de 63 anos de iniciação no candomblé de Nação Nagô ele merece, indubitavelmente, ser reconhecido pelo seu trabalho permanente em defesa das religiões de matriz africana.

O  Tatalorixá Vicente  Mariano foi iniciado no Candomblé de Nação Nagô  aos 16 anos de idade no estado de Pernambuco. Sua Mãe de Santo foi a Yalorixá Zefa Felino da Costa, filha do Babalorixá  Pai Adão e da Yalorixá Lídia Alves. Ao chegar  em  Campina Grande  ele funda na rua Prudente de Morais, localizada na Estação Velha, o Terreiro de  Umbanda  Senhor do Bonfim que foi inaugurado em 1967. Por esse breve histórico da biografia desse pernambucano, podemos considerar  este legítimo representante  das religiões de matriz africana  como  um dos pais fundadores da Umbanda na  Paraíba, fato que, por si só,  já seria o bastante para  lhe conceder qualquer homenagem por parte da Câmara de Vereadores de Campina Grande. Ora, nessa época de grande perseguição e racismo contra os juremeiros e umbandistas o povo de santo era acusado constantemente pelas autoridades policiais e jornalistas de prática ilegal da medicina e de curandeirismo, além de serem rotulados pejorativamente de catimbozeiros e feiticeiros. Vicente Mariano, diga-se a bem da verdade, sobreviveu com sua fé no candomblé a tudo isso e hoje é visto como símbolo de luta pelo respeito aos cultos de matriz africana e afro-ameríndia na Paraíba.

Portanto, num país onde  no passado muitos  Babalorixás e Yalorixás foram agredidos e humilhados, tendo seus terreiros invadidos pela polícia e objetos sagrados destruídos em muitas cidades do Brasil, visto que de acordo com uma psiquiatria racista  que  imperava na academia brasileira no final  do século XIX e início do século XX o candomblé era visto como uma verdadeira  anomalia e doença mental  de negros e negras. Não foi por acaso, que muitos dos seus praticantes foram presos pela polícia e depois enviados para manicômios no Brasil. O povo de santo, na verdade,  sempre foi alvo da mais dura e cruel perseguição religiosa no Brasil  e, infelizmente, percebemos que  essa   intolerância religiosa que perseguiu em outrora os candomblecistas e umbandistas ainda não acabou, em que pese a Constituição Federal garantir a igualdade de todos perante à lei e a liberdade de culto para todos os brasileiros.

É que no Brasil  nos últimos  9 anos, calcula-se que pelo menos 22 sacerdotes das  religiões de matriz africana foram assassinados. 15 deles só no estado do Amazonas, o que revela um profundo sentimento de intolerância que vem ceifando vidas de seres humanos, que não tem se quer o direito de cultuar os seus deuses e deusas trazidos da África. A Paraíba, lamentavelmente, faz parte desse contexto no qual o racismo que atinge de forma violenta o povo de santo pôde  ser visto na cidade sertaneja de Brejo dos Santos, cidade onde no ano de 2012  um terreiro foi invadido, profanado e destruído totalmente por um grupo de fundamentalistas evangélicos.

Esses dados sobre mortes e assassinatos  de  adeptos do candomblé, por si só, já são suficientes para  qualquer  agente público deixar sua ilha de conforto para notar que não podemos  mais ficar calados diante da intolerância religiosa. Sendo assim,  acreditamos que a concessão do título de cidadão campinense para o senhor Vicente Mariano é uma boa razão para começarmos a pensar em construir políticas públicas, voltadas para garantir o direito à vida  ao povo de santo que vem sendo vítima do racismo desumano e cruel. Pensar em políticas que possam saldar essa dívida social e histórica que o Estado brasileiro tem com segunda maior população negra do mundo, que vive no Brasil historicamente com uma cidadania de segunda classe. Sempre é bom lembrar que Vicente Mariano além de ser candomblecista, é negro. E quem carrega essa marca  na pele já enfrentou ou vai enfrentar algum dia os duros golpes do racismo.

À guisa de conclusão, Campina Grande conta com dezenas de terreiros de umbanda  e candomblé. Entretanto, como já afirmamos nesse texto, por conta do racismo os adeptos das religiões de matriz africana e afro-ameríndia como os juremeiros, vêm sofrendo com vários ataques e agressões, sendo também  constantemente  vítimas do preconceito e da intolerância por parte de outros segmentos religiosos fundamentalistas.  Portanto, reconhecer o trabalho religioso do pernambucano Vicente Mariano é, antes de mais nada, reconhecer sua luta contra essa realidade marcada pela perseguição ao povo de santo, uma vez que o senhor Vicente tem uma vida dedicada  à preservação da Tradição dos Orixás em nosso município, pois se  não fosse o   Tatalorixá Vicente Mariano temos absoluta certeza que  não existiriam outras casas de santo em Campina Grande  como o Ilê de Ogum  Jobioô do Babalorixá Ubirajara Alves lá no bairro do Belo Monte.  Não existiria o Ilê Airá  Bolomim  Lodé do Babalorixá  José Roberto no  bairro das Cidades. Como também não existiriam os Terreiros Ilê Axé Malabí do Pai Chico e Senhor do Bonfim Oyá Gandê da Yalorixá  Mãe Suênia.

Autor: Jair Nguni- historiador e ativista do Movimento Negro de Campina Grande.

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2 Comentários para “Vicente Mariano, Candomblé e Intolerância Religiosa.”

  1. vania disse:

    EU GOSTARIA DE FAZER UM TRABALHO, MAIS NÃO SEI COMO FAÇO PARA FALAR COM VCS,
    E COMO PODERIAMOS COMBINAR.
    SE VCS FAZEM ESSE TIPO DE TRABALHO

    AGUARDO RESPOSTA
    VANIA

  2. Raissa Brito disse:

    Onde encontro o Pai Vicente Mariano?

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