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Jair SilvaA TV Paraíba não tem respeito pela população negra paraibana, especialmente pela comunidade negra de Campina Grande, cidade onde nasceu o poeta, compositor, teatrólogo e escritor da literatura afro-brasileira- Arnaldo França Xavier. Estou fazendo essa afirmação pelo fato de ter percebido que o nosso Projeto Agosto da Igualdade, infelizmente, não recebeu a devida atenção por parte dessa emissora de televisão, embora eu tenha mandado vários E-mails pedindo  para que essa empresa fizesse matérias sobre o nosso projeto, além de ter ligado para a redação  duas vezes para obter uma cobertura jornalística. Entretanto, não  fui  feliz nas minhas insistentes solicitações, uma vez que em todos os pedidos acabei sendo ignorado. Eis aí a cara de uma mídia autoritária, antidemocrática e  excludente na sua forma de tratar as demandas do movimento social afro-brasileiro.

Esse repertório de desrespeito e tentativas de invisibilizar as lutas do movimento negro vem acontecendo há bastante tempo. Posso, inclusive, fazer uma lista de eventos, ações e projetos  realizados pela militância negra para mostrar que esse canal de tv, a rigor, sempre excluiu de suas pautas jornalísticas nossas ações de combate ao racismo. Podemos começar, por exemplo, pelos vários encontros estaduais do Movimento Negro Paraibano e que não mereceu  atenção dessa referida emissora de televisão, visto que nesses encontros participei de quatro deles e não vi nenhuma equipe dessa empresa da área de comunicação entrevistar os militantes negros e negras e grupos da cultura afro-paraibana nesses encontros que aconteceram em Campina Grande, Sousa, Catolé do Rocha e João Pessoa.

O  triste exemplo acima mencionado é só a ponta do iceberg da forma como essa tv trata as lutas do Movimento Negro de Campina Grande. Lembro-me que no já extinto Centro de Educação da UEPB fui o responsável pela realização de duas  semanas da consciência negra. Todavia,  a TV Paraíba nunca procurou o Centro Acadêmico de História do qual fui Diretor de Cultura para fazer alguma matéria sobre nossos eventos acadêmicos. Também,  fizemos por 8 anos a consciência negra no Bairro do Pedregal e nessa comunidade de maioria negra e mestiça, considerada pela mídia racista e preconceituosa como um favela perigosa, jamais presenciei essa emissora de tv  num debate  sobre racismo, direitos humanos, cidadania e inclusão social nesses oito anos de luta contra as desigualdades raciais, no Bairro do Pedregal. Felizmente, não aconteceu roubos e mortes nas 8 consciência negra do Bairro do Pedregal, pois a TV Paraíba adoraria que isso tivesse acontecido para mostrar o lado negativo da comunidade. O lado bom e positivo do ponto de vista social e  cultural, pelo visto, não interessa muitas vezes para quem se acostumou a reforçar estigmas e preconceitos sobre um Bairro que já fez dois tributos a Bob Marley nas oito consciência negra. O Pedregal, diga-se de passagem, até hoje é o único bairro de Campina Grande a fazer isso de forma ousada e organizada, mas a emissora aqui citada desprezou a história de luta contra o racismo de uma comunidade, fruto de uma invasão popular ocorrida nos anos 70. Por que a TV Paraíba nunca quis mostrar  esse lado quilombista do Bairro do Pedregal?

Temos  ainda mais outro exemplo para mostrar e reafirmar o quanto essa emissora adora ignorar as lutas do Movimento negro de Campina Grande, que este ano completa 27 anos de luta contra o racismo em nossa sociedade. Refiro-me ao  Projeto de Lei do Vereador  Napoleão Maracajá do PC do B,  projeto este, que institui a Semana de Ação Antirracista e feriado municipal para o dia 20 de novembro- Dia Nacional da Consciência Negra, na cidade de Campina Grande. Já pedi uma matéria jornalística sobre o projeto para que a sociedade possa tomar conhecimento de sua relevância política, pois defendo a ideia de que um projeto como esse tem de ser alvo de um grande debate público, tendo em vista  que se for aprovado em plenário pelos Vereadores vai mexer com a vida social de toda população campinense, formada na sua grande maioria por negros e pardos. Simplesmente, a TV Paraíba prefere até hoje esconder da sociedade que existe um projeto como esse que já foi aprovado pela Comissão de Constituição e Justiça da Câmara de Vereadores de Campina Grande. Pasmem!

O que mais me incomoda nesse debate todo. É saber que antes de fazer o Projeto Agosto da Igualdade-215 Anos da Revolta dos Búzios-Homenagem ao Poeta Arnaldo Xavier. Estive, pessoalmente, na TV Paraíba para  cobrar  a matéria em relação ao projeto do Vereador Napoleão Maracajá. Aproveitei aquele momento, para entregar o livro O Negro na TV Pública e um ótimo material da FENAJ- Federação Nacional dos Jornalistas, material este, que serve como guia para  que jornalistas atuem criticamente no combate a qualquer forma de discriminação que envolva nossas relações de gênero, raça e etnia. Nesse guia, vale ressaltar, há uma nítida preocupação em fazer do jornalista um agente público que tenha compromisso com a equidade de gênero nas suas falas e, por conseguinte, na elaboração de pautas nas quais o fazer jornalístico não crie ou reforce preconceitos, estigmas e estereótipos sobre negros, índios, mulheres, etc. Vejamos o que diz o próprio guia que entreguei para a redação da TV Paraíba: “a mídia brasileira tem sido palco privilegiado para a reprodução de estereótipos de gênero, raça e etnia e invisibilização das populações historicamente discriminadas. Como resultado, atua como um dos principais agentes para a manutenção de crenças, valores, hábitos, comportamentos e atitudes sexistas, racistas e etnocêntricas, promotores de sofrimento e de profundas desigualdades na sociedade.”

Infelizmente, percebo que  o guia não não foi levado à sério pela redação dessa emissora  paraibana,  assim como a bela e categórica  lição quilombista que dei na TV Paraíba há dois anos e que foi publicada através de texto em vários sites e blogs de entidades negras do Brasil, a exemplo dos Tambores da Liberdade, Correio Nagô de Salvador e da ABPN-Associação Brasileira de Pesquisadores Negros. Essa lição, lamentavelmente,  não foi aprendida e assimilada pelos que trabalham na redação dessa emissora de televisão, pelo fato dela ter ignorado  uma  importante  Audiência Pública do Ministério Público da Paraíba em que tivemos as presenças de representantes da UEPB, UFCG, UFPB, SINTAB, ADUEPB  e de vários pesquisadores(as) e estudiosos(as) da história e cultura afro-brasileira preocupados em tirar do papel as Leis 10.639\03 e 11.645\08. Aliás, é bom que se diga que não foi só a TV Paraíba que desprezou esse debate no MP, já que outras emissoras de tv como a Correio, TV Itararé e Borborema  também  não foram fazer a cobertura jornalística dessa Audiência Pública,  cujo objetivo era debater o alto grau de racismo enfrentado pelas crianças negras e adolescentes nas escolas públicas e particulares dos municípios de Lagoa Seca, Boa Vista, Massaranduba e Campina Grande.

Portanto, como sou um militante combativo, sério e compromissado em restaurar em Campina Grande os ideais da Revolta dos Búzios. Não posso aceitar e ficar calado diante desse tratamento desrespeitoso que a TV Paraíba deu ao Projeto Agosto da Igualdade-215 Anos da Revolta dos Búzios- Homenagem ao Poeta Arnaldo Xavier. A população de Campina Grande tinha o direito de saber que aqui existiu um poeta campinense que dedicou sua vida à luta contra o racismo no campo da literatura. Tinha o direito de saber que Arnaldo fez parte do movimento cultural rebelde, por meio do Cine Clube Glauber Rocha e  Movimento Levante nos anos 60, em Campina Grande. Por que a TV Paraíba  ignorou toda essa história?

Com a palavra, a tv que não é da minha Paraíba, pois sonho com uma tv democrática, plural e que valorize com dignidade e respeito personagens da nossa história como merece ser reconhecido pela sociedade o brilhante poeta- Arnaldo França Xavier.

 

Autor: Jair Nguni- Historiador e militante do Movimento Negro de Campina Grande.

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