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O Blog do Tambores da Liberdade coloca na rede a apostila  do Ilê Aiyê para o Carnaval 2013. O tema do Ilê Aiyê para este carnaval será “Guiné Equatorial – da herança pré-colonial a geração atual”.

Caro(a) Compositor(a):

Estamos lhe fornecendo o material de pesquisa do nosso tema para o Carnaval de 2013: Guiné Equatorial – da herança pré-colonial a geração atual.

Nosso propósito é contar a história de Guiné Equatorial, nação situada no Golfo da Guiné, que se divide geograficamente em duas partes. A parte continental que está delimitada ao norte pelo rio Ntem e Camarões, ao leste e ao sul pelo Gabão e a oeste pelo Oceano Atlântico Equatorial. E a parte insular que se distribui entre as ilhas de Bioko e Annobom, enquanto que as ilhas de Corisco, Alobey Grande, Alobey Chico, Mbanhe, Cocoteros e Conga pertencem a região continental do país. A capital, Malabo, está situada na costa norte, na ilha de Bioko.

No século XIII, aproximadamente, os fang e os ndowe expulsaram os pigmeus nativos do sul do Gabão e lá se estabeleceram. Esses povos empreenderam então a colonização das ilhas descritas como densamente povoadas no século XV. Os ndowe começaram a agir como intermediários do tráfico negreiro junto aos holandeses, portugueses e ingleses, enquanto os fang refugiaram-se no interior.

Iremos abordar também um pouco da história pré-colonial do país, expondo as influências que os povos fang, ndowe, bubi, annobonês, bissio e belengue legaram para os habitantes da Guiné Equatorial, na organização social, justiça, religião, metalurgia, medicina, literatura e na culturaem geral. Falaremossobre as circunstâncias e datas históricas anteriores ao começo da colonização portuguesa e espanhola. A colonização europeia, as lutas pela independência do país, as figuras emblemáticas e os heróis de Guiné Equatorial.

No carnaval 2013, como já é costume ao logo desses 38 anos de referência negra e divulgação da cultura afro-brasileira, o Ilê Aiyê vai cantar e contar a negra história desse país que, apesar de ser separado pelo oceano atlântico tem a força da influência africana incutida na literatura, na música, nas artes, na política e em toda a sua história de luta e resistência.

O seu trabalho é de fundamental importância para o Ilê Aiyê que desde a sua fundação tem como objetivo narrar histórias do povo negro, para que através da consciência e educação conheçamos a verdadeira história de nossos irmãos africanos.

Desejamos a todos boas músicas e mais um bom Festival de Música Negra do Ilê Aiyê que ocorrerá nos meses de outubro, novembro e dezembro.

Axé,

Antonio Carlos dos Santos Vovô

 

GUINÉ EQUATORIAL – DA HERANÇA ANCESTRAL A GERAÇÃO ATUAL

Com o nome de Guiné Equatorial se designa a nação situada no Golfo da Guiné, que se divide geograficamente em duas partes. A parte continental que está delimitada ao norte pelo rio Ntem e Camarões, ao leste e ao sul pelo Gabão e a oeste pelo Oceano Atlântico Equatorial. E a parte insular que se distribui entre as ilhas de Bioko e Annobom, enquanto que as ilhas de Corisco, Alobey Grande, Alobey Chico, Mbanhe, Cocoteros e Conga pertencem à região continental do país. A capital, Malabo, está situada na costa norte, na ilha de Bioko. O país tem vários grupos étnicos, alguns grupos do povo Bantu que, procedentes do sul do Sahara, como o conjunto bantu em geral, ocuparam, junto com outros povos, o extremo ocidente do continente africano. Este território foi convencionalmente chamado por seus descobridores de “Território Colonial do Distrito de Biafra”.  Após a partilha da África pelas potências europeias, teve distintas e sucessivas denominações, até que, de forma definitiva, passou a conhecer-se pelo nome de Guiné Equatorial.

Os grupos étnicos que formam parte da população de Guiné Equatorial são: os fang, os ndowes, os bubis, os bissios, os annobonês e os mulengues. Esses povos ocupam uma superfície de 28.051 km2, com uma população de um milhão e quatorze mil habitantes.

Em relação às tribos bantus que povoaram a atual Guiné Equatorial e que procedem do norte e do sul do Sahara, parece que os primeiros a chegar empurrados paulatinamente por outras tribos em direção ao mar, foram os ndowes, que chegaram entre os séculos XII e XIII. Entretanto, os bengas chegaram à costa da Guiné pelos anos de 1700, e encontraram com os traficantes de escravos holandeses que atuavam desde as ilhas do golfo da Guiné.

Segundo a lenda, o continente africano foi nomeado pelo povo Fang, sendo uma apócope de Afiri Kara, como era conhecido um antepassado deste povo. Afiri Kara teve com sua esposa, Nñanggono, quatro filhos, que os chamou respectivamente Fang Afiri, Okak Afiri, Bulu Afiri e Ntumu Afiri e também uma filha chamada Nguee Afiri, esta por sua vez teve um filho que se chamou Owono Nguee que foi o fundador do povo Eondo.

Entretanto, os povos do grupo ndowe, composto pelos bengas, bwicos, balengues, bapucos, banocos, combes e asonga, entre outros, se estabeleceram na Guiné Equatorial entre os séculos XIII e XV. Em seu avanço, empurraram os pigmeus, considerados como os primeiros habitantes do continente africano, que por final se fixaram nos confins do litoral atlântico, conservando seu modo de vida como caçadores e agricultores. Segundo a tradição, os ndowes foram chefiados inicialmente por Masochi, que, sob seu comando, atravessou a floresta tropical, posteriormente foram comandados por Bosendye, com quem alcançaram o Locondye, mas seu chefe mais importante foi Bilangua Mecheba.

A vida do povo Bissio se identifica principalmente com a dos ndowes e em menor medida com a dos fang. O grupo bantu-fang foi o mais numeroso de todos, e sua disseminação, embora mais lenta, foi muito violenta. Entretanto, outras expedições de guerra escravistas surgiram dentre os mesmos negros bantus propiciando uma rápida extensão e ocupação do território que hoje constitui a Guiné Equatorial.

Como consequência de uma derrota militar que o povo fulbés infligiu aos fang de Camarões, Gabão e Guiné, estes fang realizaram diversas expedições de guerra que atingiram os demais povos. As últimas e mais conhecidas dentre elas, foram a Nvele, que aparentemente só aconteceu em Camarões, e a Oban, que atravessou a fronteira por Ntem e Kie, sob o comando dos irmãos Olinga Eco e Ateba Eco e da filha de Ateba Eco, a guerreira Nchama Ateba. Esta última expedição foi dizimada pelo renomado Mbomio Baha Mondomo, da tribo nsomo. A guerra de libertação foi travada na cidade de Mesa, entre os rios Mbelomo e Mengulu.

Depois de terem vencido o povo fulbés, os fang, sob o comando de Olinga Eco e Eteba Eco, ambos da tribo Ebá, e acompanhado de uma das filhas de Ateba Eco, chamada Nchama Ateba, realizaram uma expedição de guerra, com saques e outras ações violentas, para obter escravos para serem vendidos aos europeus. Esta expedição de guerra, conhecida como Oban, ao percorrer o rio Ntem, em direção aos territórios da atual Guiné Equatorial, causou numerosos estragos e empurrou muitos povos para o sul. A triste fama que, com justiça, adquiriu esta expedição, se propagou como um rastro de pólvora, provocando fuga em massa.

Naquelas áreas, vivia um célebre e misterioso patriarca da tribo Nsomo, chamado Mbomio Baha Mondomo e conhecido vulgarmente por Mbo-Baha. Em poucos dias, todo povo Nsomo esperava que seu patriarca lhes desse a segurança necessária, diante da famosa expedição de guerra do povo fang, que estava se aproximando. Conta a lenda que, para se precaver da avalanche de pessoas que se aproximava, Mbo Baha tomou suas precauções e três dias antes da chegada de Olinga e Ateba Eco, deu uma série de instruções e ordens para a salvação de sua família e também de todos que haviam confiado nele, refugiando-se no povoado.

No terceiro dia, o dia esperado para a chegada da expedição de guerra, o herói deu ordem para que ninguém saísse da aldeia, que todos os homens e mulheres ficassem confiantes e que os homens se reunissem na casa grande, onde as mulheres lhes dariam o que comer, o que realmente aconteceu. Em pesquisa realizada na cidade de Mesa, veio à luz o papel desempenhado na luta entre Mbo Baha e Olinga Eco por dois rios: o rio Mbolomo e o rio Mongulu. No primeiro deles Mbo Baha pediu a uma anciã que lhe trouxesse água em uma cesta de vime (melongo). Com esta água preparou um aquário confeccionado com folhas e peças de um tronco de bananeira. Pediu, também, que lhe trouxesse três enguias secas (ngoo), que, jogadas no aquário, começaram imediatamente a nadar. Quando tocou seu chifre de antílope (abec), três soberbos tucanos vieram do ar, pousaram próximo ao aquário e começaram a banhar-se nele tranquilamente. Finalmente, depois de pegar um pedaço de pedra de quartzo, o dividiu em quatro partes com sua faca, como se fosse um mamão maduro. Satisfeito com o resultado de todos os preparativos para a futura luta, mandou trazer diversos alimentos e, uma vez que foram consumidos, ordenou que as mulheres se trancassem em suas cozinhas, e não saíssem de lá, acontecesse o que acontecesse na vila (nseng).

Verificou-se, à luz dos numerosos testemunhos recolhidos, que as mortes de Olinga Eco e seu irmão Ataba aconteceram no rio Mongulu. Isso quer dizer que, depois de consumir os alimentos e trancar as mulheres, Mbo Baha saiu da aldeia junto com um grupo de homens especialmente escolhidos, se posicionando todos eles em cada uma das margens do rio. Quando o exército exterminador atravessou o rio e chegou à cidade de Mesa ficaram atônitos contemplando o espetáculo do aquário com as enguias e os tucanos, e se esqueceram por completo da pilhagem. Quando os dois líderes do Oban alcançaram o rio Monlugu, com um sinal de Mbo Baha, seus homens terminaram com a vida dos dois temidos irmãos, cujos corpos se perderam nas profundidades do rio. Por este motivo, até hoje as águas do Rio Mongulu não são bebidas e nem usadas pelos vizinhos, já que se acredita que as águas do rio serviram de sepultura para os irmãos exterminadores e escravistas.

Quando a notícia da morte dos irmãos chegou à cidade de Mesa, tanto os habitantes do povoado como os soldados do exército exterminador se encheram de alegria, inclusive os soldados que baixaram suas armas e aclamou o líder Mbo Baha, o grande homem cuja bondade, valentia e altruísmo conseguiu salvar o povo bantu-equatorial.

Quando o grande líder Mbomio Baha Mondomo faleceu, ele foi sepultado entre as raízes de um oveng jovem, a árvore mais importante para o povo fang, árvore que vem conservando e perpetuando sua lembrança desde então. Como resultado dos estragos que aquelas guerras provocaram, é frequente que diante de fatos de abusos, violência ou brutalidade, o povo fang utilize o nome nvele, ou, com idêntico sentido semântico, o de Oban.

Em relação à Guiné Equatorial, os fang ntumu e os fang ocac tomaram direções distintas, tendo como ponto divisório os rios Wele, Woro ou Mbini. Assim, o grupo ntumu ocupou os distritos de Ebebiyin, Nsok Nsomo, Micomeseng, Mogomo, Añizok, Niefang e Bata; o grupo ocac por sua vez formou o distrito de Nsok, Akonibe, Evinayong, Acurenam, Mbini e Cogo. Os ndowes espalharam-se ao largo da costa atlântica. Como os grupos étnicos que hoje habitam a Guiné Equatorial, entraram pelo Norte e pelo Leste atravessando os rios Ntem e Kie, é corrente hoje entre os fang e também entre os ndowes a afirmação de serem procedentes do outro lado do Ntem: Ntemayat.

Em relação do povo Bubi, são várias as versões sobre a sua procedência e seu estabelecimento na Ilha de Bioco. Alguns antropólogos afirmam que, 500 anos antes de Cristo, o Almirante cartaginês Hannón visitou uma ilha na África Ocidental, habitada por uma população indígena selvagem, ilha cuja descrição se fez corresponder posteriormente com a de Bioco.

O mais provável é que, até o século XII, como consequência da expansão de diversos povos e da consequente ocupação geral da África, as tribos pré-bantus, compostas pelos grupos baowere, bacuta, bococo e batanga, que procedia do norte e que seguiram o curso do rio Sangha até o sul de Camarões, penetraram na ilha em diversas ondas e povoadas, criando culturas como a baleopí (de 900 a 1300) e a de balombe (de 1800 a 1900). Num primeiro momento se estabeleceram no litoral, junto ao mar, para posteriormente estender-se até o interior da ilha. Depois de estabelecidos na ilha, adotaram uma determinação comum que os identificavam e os uniam, chamando-se bahobes, quer dizer “homem”. Seus primeiros contatos foram com os pigmeus, considerados os primeiros habitantes da África no geral, e principalmente na África Equatorial. Já com os egípcios e os núbios, tiveram relação no segundo milênio antes de Cristo, data do aparecimento do deneg o “anão dançarino de Deus” nos palácios dos faraós. Com os pigmeus, os bahobes aprenderam a fazer o fogo.

Por último, a quarta onda de imigração bubi, também procedente do continente (Camarões), chegou à ilha, em 1550, depois de ter sido invadida em 1472, pelos portugueses, chamada depois de Formosa. Primeiro os portugueses Fernando Poó e Lope Gonzalez invadiram, em1496, a baía de Biáfra, sendo eles os fundadores de seu território colonial, enquanto o Rei Juan II, de Portugal, que se intitulava “O Senhor da Guiné”. Três anos depois, Santarem e Escobar invadiram a Ilha de Annobón.

 

GRUPOS ETNOCULTURAIS DE GUINÉ EQUATORIAL

É possível resumir da seguinte maneira os seis grupos etnoculturais que hoje habitam a Guiné Equatorial.

O grupo Fang

É considerado o grupo mais importante da Guiné Equatorial do ponto de vista demográfico, pois ocupa, em sua totalidade, do interior até uns escassos cinco quilômetros do mar. Além da Guiné Equatorial, encontramos os fang, em Camarões, Gabão, África Central e Congo.

O povo fang em geral procede das regiões sudanesas do Alto Nilo e sua residência atual na costa ocidental da África (Gabão e Guiné Equatorial) é mais recente. Estabeleceram-se antes ao norte do que é hoje o Camarões e, derrotados pelos fulbés, se instalaram em Yaundé, e, pela chegada de outras tribos, se viram obrigados a abandonar o lugar, por medo de serem separados e divididos, diminuindo seu poder e força. Assim, nessa fuga, chegaram, em diferentes ondas, ao Gabão, Guiné Equatorial e Congo, locais que ocupam até hoje. Os fang eram um povo forte, guerreiro e bem organizado. Para entrar na Guiné Equatorial, eles utilizaram os rios Ntem (campo) pelo norte, o rio Muni pelo sul e o Kye e Ncomo pelo leste.

 

O povo fang reconhece vários grupos e se estabeleceram assim:

  • Em Camarões:

Etón, Bulu, Ewondo, Nvele, Manguisa e Ntumu.

  • No Gabão

Ntumu, Ocac, Mekiemencom, Etón e Nveiñ.

  • Em Guiné Equatorial

Ntumu e Ocac

 

Os grupos Ndowe, Bissio e Molengue

O grupo ndowe, como o mais importante dos três, ocupou a parte costeira do país. Este grupo, pertencente ao bantu congolês, em sua peregrinação, até se estabelecer na Guiné equatorial, sofreu muito e teve o valor de permanecerem unidos, fazendo jus à etimologia que os estudiosos fazem da palavra (nodwe), ou seja, ndo = unidos, agarrados, e we = nós. Etimologicamente, então, a palavra significa: unindo-nos, nos agarrando.

Durante a caminhada e entre as muitas versões e tradições dos obstáculos vencidos pelo povo ndowe, se tem, como mais famosa, a da travessia do rio, Locondye para uns, e Sanaga para outros, rio de águas escuras e pela estrutura muito inclinada de suas margens, os ndowes supunham que seria de profundidade descomunal, até que uma mulher recém parida, com grande surpresa viu uma cabra do bosque atravessando o rio tranquilamente. Desde então os ndowe mantém o mito do – rombe – o que, para eles, a cabra do bosque se tornou um animal de salvação e se converteu numa espécie de totem, e os ndowe não comem a sua carne. Atravessando o rio Locondye ou Sanaga, os ndowe, chefiados por Ykelengue, chegaram até os confins das costas do Golfo da Guiné, e cruzando o rio Campo em sua parte interior, saíram por ibati-baata, conhecido hoje por Monte Bata. Desde a sua imigração, sempre esteve muito perto dos bissios, é com eles que, até hoje, vivem em simbioses.

Alguns estudiosos têm tratado do povo bissio como um povo integrante dos ndowe, mas isso parece dever-se a simples apreciações ocasionadas pela eterna proximidade dos dois povos, também por outros fatores de caráter históricos e demográficos. Outros povos que estiveram na mesma situação em relação ao povo ndowe são o povo basec e o povo balengue.

Os bissios eram chamados de mabea pelo povo ndowe, de mecuc pelos fang, mais tarde os colonizadores os chamaram de bujeba. Eles eram unidos com os bacotas e os macas, na zona de Camarões compreendida entre Yaunde, Ebolowa e Lolo, como integrantes do mesmo tronco.

A brutalidade dos fang, em seu avanço pelo leste africano, separou os bacotas e os macas, dos mabeas e o resto dos seus irmãos, os bissios, que ao separar-se foram chamados de mecuc pelos fang. Depois, os mabeas se separaram dos ngumbos por uma nova pressão de outro grupo fang de Ewondo, procedente de Sangha. Assim, uma parte dos bissios se estabeleceu nas zonas costeiras de Kribi, Victoria e rio Campo,em Camarões. Osbissios se estabeleceramem Guiné Equatorialpenetrando pela parte do rio Campo, rio Mombe e o rio Wolo. Pesquisas históricas revelam que a chegada dos bissios a costa posterior ocorreu simultaneamente à chegada dos ndowe, que por este motivo mantiveram várias lutas.

Em seu intento de adentrar o interior da Guiné Equatorial, os bissios se depararam com o avanço exterminador dos fang, e colocado entre os ndowes e os fang, dupla pressão, isso obrigou os bissios a unirem-se aos ndowes, para fazer frente aos fang. Este tipo de situação interveio na estrutura do povo bissio, mudando o seu habitat, e se estabelecendo perto da costa e, quase sempre, em simbiose com os ndowes e os fang, mantendo sempre com este último, relações matrimoniais.

Algo similar ocorreu com o grupo balengue (molengue), também com eles, os ndowe mantiveram relações de casamentos e frequentes enfrentamentos. Sobre este povo, giram muitas circunstâncias que dá a entender sua diferença com o povo ndowe. Essa afirmação de que os ndowes e os balengues são grupos etnoculturais diferentes, é sustentado tanto por uns como pelos outros, ainda que não falte quem sustente que há muito tempo atrás, ambos os grupos tiveram um tronco em comum, do que os balengues se separaram ao entrar no Estuário do Muni, no ano de 1600 (estuário do qual os balengues se atribuem ser os primeiros descobridores) e saíram ao mar pelo atual território do Gabão.

Parece que os balengues se juntaram com os basec, com eles entraram na Guiné e se estabeleceram na costa. Na segunda entrada, os ndowes já encontraram os balengues e respeitaram seus lugares de assentamento. Os Balengues, em sua peregrinação pelas costas da Guiné, tiveram choques com os bissios, mas conseguiram estabelecer a paz. Como os balengues já havia se dado bem com os ndowe anteriormente, serviram de mediadores entre os ndowes e os bissios. Mais tarde, lutaram contra os fang, que os expulsaram dos lugares que iam ocupando.

Os grupos Bubi e Annobonês

Estes grupos são oriundos das ilhas Bioco e Annobón, respectivamente. A primeira delas é a mais importante da Guiné Equatorial, sendo as outras Corisco, Elobey Chico e Elobey Grande pertencentes à região continental.

A maior parte das pesquisas históricas concorda com a afirmação de que o povo bubi é originário de Camarões, pertencente ao grupo bantu da cultura do “ñame”, desenvolvida na antiguidade, nos confins do Lago Tchat, e sua chegada a Ilha de Bioco foi em 1550. Não obstante, também há a versão de que 500 anos antes de Cristo já se encontrava, na referida ilha, uma população de guerreiros nativos, e por 2000 anos, desde a aparição na ilha dos primeiros agricultores neolíticos.

Já sobre o povo annobonês, muito pouco se pode falar sobre a pré-história da Ilha de Annobón, pois pesquisas históricas demonstram que até o ano de 1471 a ilha estava completamente desabitada. Logo, para tratar sobre a Ilha de Annobón, deve-se partir de 1471, ano em que Pedro Escobar e Juan de Santarem, navegantes a serviço do português Fernão Gomez, a descobriram no primeiro dia do ano, ou seja, em 1º de janeiro. Pelas razões das circunstâncias do descobrimento, e por que a ilha não tinha uma definição anterior, os descobridores decidiram por intitulá-la pela data do seu descobrimento: Ano Bom (AnnoBon). Por outro lado, de certo modo, se pode ter a palavra ambo como a tribo e a língua natural dos annobonêses.

Depois de descoberta pelos portugueses, estes a povoaram com povos trazidos de Angola e São Tomé e Príncipe, tendo em vista que a Ilha de São Tomé e Príncipe já havia sido povoada por marginais portugueses e filhos dos judeus convertidos ao cristianismo católico. Como já mencionado anteriormente, sabe-se que algumas ilhas africanas, incluindo a Ilha de Annobón estavam completamente desabitadas quando foram descobertas.

 

AS INVASÕES EUROPEIAS

Alguns antecedentes históricos da invasão europeia na Guiné Equatorial:

  • Em 1452, o Papa Nicolau V, através da bula papal “Dum Diversas” reconhece a Portugal, o direito por toda a África Negra;
  • Em 1454, o mesmo Papa, através da bula papal “Romanus Pontifex”, reafirma o direito de Portugal por toda a África subsaariana;
  • Entre os anos de 1469 e 1474, os navegantes portugueses Fernando Poo e Lopez Gonçalves exploram a baía de Biáfra;
  • Em 1472, O navegador português Fernando Poo “descobre” a Ilha de Formosa, a qual nomeia com seu próprio nome. Continuando com sua incursão, encontra um rio cheio de camarões, intitulando o rio com esse nome, por este motivo, mais tarde, o próprio local e um monte ali existente passou a se chamar Camarões. Porém aquele local era conhecido pelos nativos com o nome de Amboses.
  • Em 1493, o Papa Alexandre VI, através da bula papal “Inter caetera”, também conhecida por “Bula de participação”, repartiu o mundo entre Espanha e Portugal;
  • Em 1500, feitorias portuguesas se estabelecem em Corisco (Mandji);
  • Em 1642, o português Antonio de Massas Carmeiro qualifica a Ilha de Fernando Poo como um povoado de população guerreira que se recusa a negociar escravos e o trato com os portugueses;

O Tratado de San Ildefonso

Em 1º de outubro de 1777, foi assinado, na fazenda de San Idelfonso, um tratado no qual a Espanha devolvia a Portugal os territórios da Ilha de Santa Helena e a colônia de Sacramento, no Rio Grande do sul. Em troca, o reino de Portugal cedeu à Espanha as Ilhas de Pagalu, Fernando Poo e toda Guiné. A cessão de Portugal, além das ilhas, incluía as costas e os portos sob seus domínios, como os portos do rio Ogowe, do Gabão, do rio Muni, do Rio Campo, do rio Camarões, do rio Calabar e do rio Niger.

Um ano depois, sob o comando de Don Felipe Jose (Conde de Argelejos), acompanhado por Santos Toro, Freyre Gonzalez de Andrade, Altamirando e Amadeu de Felerie. O Conde de Argelejos tinha como oficiais imediatos, além dos já citados, o Tenente Coronel da Infantaria Joaquim Primo de Rivera e do Capitão de Fragata, Jose Varela Ulloa. A Expedição partiu de Montevidéu composta por uns 150 homens. Essa expedição deveria tomar posse oficial dos novos territórios, em nome do reino espanhol, este ato aconteceu formalmente na Baía de San Carlos, hoje Luba.

A caminho de Annobon, Argelejos morreu e foi sucedido por Joaquim Primo de Rivera na direção da expedição. Em Annobón, o coronel primo Rivera encontrou resistência, pois os africanos escravizados ali existentes haviam se rebelado, assim a expedição espanhola não pode tomar posse daquela ilha. Depois de passar muitas necessidadesem São Tomée Príncipe eem Fernando Poo, a expedição, que de 150 homens só restaram 26 sobreviventes, regressou em 1783, completamente dizimada.

Em virtude de a França ter se estabelecido no Gabão eem Fernando Poo, o governo espanhol decidiu enviar uma nova expedição à Guiné, que consolidaria os direitos que a Espanha havia conseguido por aqueles territórios. A dita expedição foi dirigida por Juan Jose de Lorena, capitão de Fragata, que partiu de Cádiz em 15 de março de 1842, chegando a Fernando Poo em maio do mesmo ano. Retoma Fernando Poo em nome de Sua Majestade Izabel II. Também retoma Annobón, nomeio o Inglês John Beecrof como Governador da Guiné. A ele se deve o “descobrimento” de Corisco, de onde recebeu grandes homenagens do chefe Benga Boncoro I, a quem designou governador dos bengas bapucus, buicos, macoma, masongos, combes, balengues, mogandas, asonga, etc. Mudou o nome inglês de Clarence, pelo de Santa Isabel, em honra a Isabel II da Espanha.

Quando regressou a Espanha, em 1843, levou dois nativos crumanes; Quir e Yague, que ao chegar, em 1º de maio de 1844, foram batizados pelo padre Antonio Maria Claret, na capela do Palácio Real recebendo os nomes de Felipe e Santiago, respectivamente. A comunidade benga expressou seu desejo de ser súditos dos espanhóis e jurou fidelidades a coroa espanhola publicamente.

 

A OCUPAÇÃO ESPANHOLA

Pode-se afirmar que a ação colonizadora espanhola em Guiné Equatorial começou em 1900. Antes da colonização espanhola, a Espanha atormentada, envergonhada e incentivada pelo humilhante espólio que, para ela, significou o tratado de Paris, em que dos 314.000 km2 que lhe foram cedidos por Portugal ficou apenas com 28.000 km2 perdendo o restante para a França em virtude da falta da presença física nos territórios a ela cedidos.

A ocupação da Guiné Equatorial pela Espanha não foi tarefa fácil, porque encontrou sérias dificuldades para penetrar tanto no interior das ilhas quanto no interior do continente. Em Fernando Poo, o povo bubi chegou inclusive a envenenar as águas dos rios utilizados pelos colonos espanhóis. Os colonos só tiveram facilidades na parte litoral, onde foram aceitos sem prejuízos. Do ponto de vista do povo bubi, a penetração europeia para a implementação do colonialismo também não foi uma tarefa fácil. Um dos exemplos dessa revolta bubi foi a enérgica rejeição do imperador bubi Moca, que se opôs aos decretos coloniais de 1910, provocando uma insurreição que foi esmagada em 22 de junho do mesmo ano por uma brigada militar espanhola formada por 125 homens, apoiada por uma pesada artilharia, impondo, ao povo bubi, o trabalho forçado e obrigatório nas fazendas europeias, assim como a obrigatoriedade do ensino do espanhol aos mais jovens.

Uma das provas da oposição do povo bubi à colonização, aconteceu em 1810, quando seis soldados ingleses, após desembarcar na Ilha de Bioco, foram mortos pelos bubis. Em 1904 morre no cárcere, o chefe bubi de Balacha e grande anticolonialista, Sae Ebuera, e é coroado como novo chefe Malabo, irmão mais velho de Moca como Botuco Moriche. Em 1917 os bubis foram desarmados pelo governo colonial.

Nas guerras entre os brancos e os fang, sobressaíram as tribos fang: Esamengón sob a liderança de Mbogo Sogo, do povo Alum; Esacunan, liderados por Esono Aburu, do povoado de Cam; os Nsomo, dirigidos por Metú Meye, do povoado Mbe. Em 1885, na foz do rio Muni, pelo menos dois povoados fang foram queimados pelos espanhóis em represália, apresentando como causa um pretenso roubo de mercadorias destinados às feitorias de Hatton Cookson, em Alobey.

A situação dos negros de Guiné Equatorial nos primeiros anos da colonização espanhola, assim como muito tempo depois, era de total sofrimento, o nativo não merecia nenhum tratamento que reconhecesse seus valores de direitos e liberdades, apenas manteve seus direitos e liberdades naturais que constituíam sua moral. O nativo era considerado um objeto humano, praticamente sem vontade ante o branco colonizador por estar sempre subjulgado ao maltrato e a humilhação. Como em toda colônia ibérica, o negro africano era tratado como coisa e totalmente discriminado. O direito existe quando há conhecimento que dá direito a opção procedente da capacidade de decidir pelo exercício da liberdade. Isso significa que a capacidade de exigir o direito, tem relação direta com a liberdade, situações nas que não se encontrou o nativo da Guiné Equatorial em nenhum momento do colonialismo.

 

A DESCOLONIZAÇÃO DA GUINÉ EQUATORIAL E SUA TRANSFORMAÇÃOEM PROVÍNCIA DE ESPANHA

O descontentamento e inconformidade que produziu a falsa consideração da colônia em província e a desconsideração dos direitos dos negros equatoguineanos frente aos brancos espanhóis fizeram com que se criasse o movimento nacionalista clandestino denominado “Cruzada Nacional de Libertação” composto por um nacionalismo radical que tratou de enviar uma nota de protesto à ONU, a qual, interceptada pela guarda civil, o ocasionou muitas prisões. Muitos foram livrados do fuzilamento e prisões graças à intervenção do Bispo Francisco Marijuan. A partir desse momento muitos nacionalistas e dirigentes políticos decidiram se exilar nos países vizinhos, a exemplo de Camarões e Gabão. Quando novamente alguns nacionalistas da Cruzada Nacional de Libertação foram presos pela Polícia do Governo Federal, o Secretário Jose Maria dela Guardiãe Oya adotou uma nova estratégia que consistia em não prender mais ninguém, e sim manter reuniões com homens do povo bubi e os do povo fernandino. Como consequência dessas reuniões entre a guarda e as minorias étnicas, causou o confronto dessa minoria, especialmente os bubis, com a maioria fang, desfazendo a união que existia entre os povos de Guiné Equatorial, na luta contra o branco colonizador. A rivalidade surgida entre os grupos étnicos praticamente acabou com o radicalismo político que se havia implantado no país. Então os grupos étnicos minoritários se puseram frente aos fang, o grupo majoritário. Com o fim da Cruzada Nacional de Libertação, a Espanha acabou com sua preocupação em relação à província e deu lugar a uma absoluta política de desprezo a Guiné, tomando a decisão de não conceder a independência impondo o argumento de que a guiné não tinha capacidade para governar-se. Mas a Espanha já tinha em mente que a independência da Guiné já estava por acontecer e se dependesse da política de Fernando Maria Castella, o país já seria independente, pois isso favorecia a Espanha internacionalmente e ainda a ajudaria na posse do Estreito de Gibraltar, mas essa independência não acontecia em virtude da política de Carrero Blanco que tinha obsessão pela posse da colônia.

 

ALGUNS PERSONAGENS CONTRÁRIOS A OCUPAÇÃO ESPANHOLA

  • Mbogo Nsogo

Originário de Camarões. Depois que foram derrotados pelos povos bulus, benvele e flubés, grande parte dos fang decidiu abandonar Camarões, cruzando o rio Ntem com seus familiares e seguidores. Conta a tradição que ao ter que perigosas dificuldades para cruzar o grande rio, as águas deste se contiveram deixando um espaço pelo qual Mbogo Nsogo passou com seu povo. O lugar por onde passou Mbogo Nsogo é o atual porto de Nñabedyan, no que, desde então não houve nenhum acidente mortal de navegação. Por te rum reconhecido exército de guerreiros, durante sua odisseia de fuga de Camarões, já depois de ter ultrapassado as fronteiras da Guiné, foi muito perseguido por alemães e ingleses. Já em território guineano, em viagem de reconhecimento pelas proximidades de Mbini, Nsogo se encontrou com Uganda-Santiago. Os dois não se conheciam, mas suas figuras e personalidades lhes chamaram muita atenção. Como estrangeiro, Nsogo fez algumas observações comparando os brancos alemães e ingleses que ele havia deixado em Camarões com os brancos espanhóis, os quais qualificou de falsos, maliciosos, interessados apenas nas pessoas que lhes obteriam algum benefício. Por causa do comportamento dos espanhóis contra os equatoguineanos, Mbogo Nsogo começou a organizar saques às feitorias dos brancos, levando tudo o que encontrava pelo caminho, chegando inclusive a agredir, na cidade de Bata, os brancos que se opunham aos seus saques. Causou tanto pânico e preocupação nos europeus, sobretudo nos comerciantes, que provocou sua difícil prisão. Por fim, tomou o poder, o saber e a posse. Mbogo Nsogo, dizem, foi conduzido à prisão de Micomiseng, de onde, condenado a ser fuzilado, nenhum dos tiros disparados o atingiu. Então ele foi amarrado, amordaçado e enterrado vivo. Essa foi uma das maiores atrocidades cometidas pelo malvado e desumano Tenente Ayala.

  • Esono Aburu

Dentre as grandes e reconhecidas personalidades que se opuseram ao regime colonial da Espanha, figura Esono Aburu. Ele era filho de Esono Nsogo Obiang, da tribo Esacunan do povoado de Cam. Segundo testemunhas, o pai de Esono Aburu, no seu leito de morte, deixou uma proibição que se não fosse cumprida traria grande desgraça para a comunidade. A proibição consistia em que os “albinos”, referindo-se aos europeus que estavam infestando a Guiné, não pisassem em seu povoado, de modo que aqueles que ousassem chegar ali deveriam morrer, pois se não, a comunidade sofreria todas as más consequências.

Durante a perseguição ao líder Mbogo Nsogo, o exercito colonial espanhol, composto por soldados bulus, ganeses, senegaleses e alguns fang chegou ao povoado de Mameni. Os habitantes de Mameni, para desviar os espanhóis da perseguição a Nsogo, os enganaram dizendo que o fugitivo se encontrava no povoado de Cam.

Enquanto o exercito colonial descansava, antes de invadir o povoado de Cam, foi enviado um emissário que se dirigiu ao povoado Cam para lhes prevenir sobre o que iria acontecer. Conhecida a situação e sabendo da proibição que pesava sobre sua comunidade em relação à presença do branco, Esono Aburu reuniu todos os presentes e anunciou que estava próxima a violação da proibição imposta por seu pai, pois o branco estava próximo de pisar nas suas terras, porque procurava uma pessoa que não estava lá. Como sabia que saindo de Mameni para chegar a Cam só existia um caminho, o de Ncomecoc, Esono posicionou seus guerreiros nos lados da estrada, quando o exército colonial passou pela estrada, a um sinal de Esono, seus guerreiros atacaram esse exercito quase os levando ao extermínio. O chefe do exercito colonial, junto com os que conseguiram sobreviver, regressaram a cidade de Bata para buscar reforços. Ao voltar para o povoado de Cam, decidiram mudar a rota, optaram por passar por Micomiseng, entrando por Mbam-Esamengón, para sair por Ebengoan-Esamengón. O povo de Ebengoan também enviou um emissário para prevenir Esono. Novamente, ele preparou-se para a chegada do exército colonizador e infligiu uma nova derrota a esses militares. Na terceira vez, o exercito voltou muito mais reforçado, e como o povo de Cam se viu já em inferioridade numérica e sem condições de fazer frente ao inimigo, decidiram queimar todo o povoado e escapar. Na perseguição ao povo de Cam, o exército colonizador alcançou seu objetivo prendendo Mbogo Nsogo.

Depois de terminada a caçada em busca de Mbogo Nsogo, a autoridade colonial buscou novos pretextos para prender o guerreiro Esono Aburu. Ao não conseguir encontrá-lo, como estratégia ofereceu-lhe sua amizade e enviou-lhe frequentes presentes. Quando acreditou já ter conseguido sua amizade e confiança, o convidou para ir a Micomiseng para ser condecorado como chefe de sua redondeza, mas devia levar consigo todas as armas e munições que dispunham os povoados de sua redondeza; Mameni, Acam, Cam, etc. Esono Aburu, completamente iludido, ao chegar a Micomiseng acompanhado de seu povo, foi preso, encarcerado e torturado. Ele, longe de se intimidar, valentemente os chamou de falsos e disse que essa falsidade lhes traria grandes problemas e dificuldades no futuro.

A autoridade colonial, talvez influenciada pelo sentimento de culpa, longe de condenar o guerreiro Esono Aburu, que tanto lhes enfrentou com reconhecidas vitórias, o soltou, deu-lhe a liberdade e o respeitou como chefe de seu povo, assim, o grande Esono Aburu morreu, em 1945, entre os seus, em seu povoado de Cam-Esacunam-Micomiseng.

 

A PROVINCIALIZAÇÃO DA GUINÉ EQUATORIAL

Como os ventos da independência que sopraram ao final da década de 50 não retrocediam, uma resolução da ONU, em 1957 obrigou a Espanha a descolonizar a Guiné Equatorial. Daí que, por um decreto do governo espanhol de 10 de outubro de 1958 acabou formalmente com o período colonial suprimindo a denominação “Territórios Espanhóis do Golfo da Guiné”, para passar a chamar-se “Província Equatorial”. E posteriormente, vendo os inconvenientes que encerravam o reconhecimento e consideração da Guiné como apenas uma província, pois isso dificultaria as tendências separatistas, por isso que pela lei de 30 de junho de1959, aprovíncia unitária de Guiné, se dividia em duas: a província de Fernando Poo, com capitalem Santa Isabel, e a província de Rio Muni, com capital em Bata.

Cabe pontuar que, uma vez dividida a unitária Província Equatorial em dois, a de Fernando Poo e a do Rio Muni, os colonialistas começaram a política de divisão dos nativos, orientando-os a diferentes direções, dando qualidades deferentes em relação aos diferentes grupos étnicos. Tentaram impedir que os fang se relacionassem com os bubis e ndowes, dizendo aos bubis e aos ndowes que eles não deviam se relacionar com os fang, pois estes eram selvagens, brutos e canibais. Em sua humilhante e vergonhosa política de “dividir para vencer” o colonialista, ao mesmo tempo em que exaltava a fortaleza física dos fang, elogiava as etnias minoritárias dizendo que, como eram civilizados, não deveriam se relacionar com os fang que eram bastante ignorantes.

A intenção política do governo espanhol estava determinada a retardar a independência de Guiné Equatorial, por isso seu primeiro impulso para confundir a opinião internacional, sobretudo a ONU, da qual ela fazia parte, foi o reconhecimento da Guiné como província da Espanha, e os equatoguineanos teriam os mesmos direitos que os espanhóis da metrópole. Afirmação que não passou de uma falácia como outras tantas do programa político para o atraso da Guiné Equatorial.

Alguns personagens que reivindicaram a independência da Espanha

  • Enrique Nvo Okenve

Um dos fundadores do IPGE – Ideia Popular de Guiné Equatorial, primeiro e grande articulador para a independência de Guiné Equatorial.

  • Carmelo Nguema Ndong Asumu

Filho de Ndong Asumu, da tribo Esambé e de Nfono Nveme da tribo Nsomo. Foi considerado o mais notável mobilizador, orientador e iniciador do movimento nacionalista com a intenção de conseguir a independência nacional da Guiné Equatorial.

  • Acácio Mañe Ela

Depois de ter passado por situações em que sofreu extrema discriminação racial, passou a ser um grande companheiro e assessor de Enrique Nvo Okenve na sua luta pela independência de Guiné Equatorial.

  • Santiago Uganda

Filho de Ekimo e de Ngola, pertencentes à tribo Gabengue de Lembe,em Corisco. Coma morte do Rei Utimbo Fernando, de Corisco, Uganda sobe ao trono, em 1900 proclamado pelos ndowe. Uganda, junto com Mbogo Nsogo foram os responsáveis pelo acordo com os espanhóis para que deixassem através do “Acordo da Ceiba”, que nunca foi cumprido. Uganda como única personalidade jurídica exigia respeito e bons tratos aos nativos do local. O almirante espanhol Carreiro, em viagem a cidade de Bata, propôs a Uganda a concessão e reconhecimento de um status especial de emancipação para o povo ndowe-benga. Uganda recusou e declinou o injusto e separatista oferecimento, pois, para ele, todos os grupos etnoculturais de Guiné Equatorial tinham os mesmos direitos políticos. O conceito de unidade nacional de Uganda Santiago lhe concedeu respeito e consideração dos grupos étnicos de Guiné Equatorial, principalmente entre os fang, que sempre foi repelido pelo branco espanhol, por este motivo que o líder político Enrique Nvo Okenve sempre manteve contato com ele.

A AUTONOMIA DE GUINÉ EQUATORIAL

A apreciação da gravidade desta nova falsidade espanhola (a província), através do perverso Carrero Blanco, o paladino da opressão de Guiné Equatorial, provocou que os nacionalistas exilados aumentaram suas queixas e denúncias diante da opinião pública internacional e diante da ONU. Por isso cresceram as pressões internacionais sobre a política do Governo de Madrid. Diante de tudo isso, começou a soar na rádio macuto a frase “Autonomia para Guiné Equatorial”. Já em outubro de 1962, aproveitando a visita de Carrero Blanco à Guiné Equatorial com a intenção de sufocar a campanha internacional dos nacionalistas equatoguineanos. Nessa viagem, Carrero afirmava e prometia que a Espanha não se oporia jamais a conceder a independência à Guiné, se houvesse chegado o momento e se estivesse convencido que o país tinha consciência de sua capacidade e autêntico desejo da independência, e não fosse vítima das possíveis ambições de um grupo inteligente e apenas com pretensões pessoais de cargo. Quando voltou a Espanha, propôs uma comissão de juristas que levasse a cabo o estudo de um projeto de lei para o processo de autonomia da Guiné Equatorial. Quando em 9 de agosto de 1963, a Espanha anuncia oficialmente que iria conceder a autonomia a Guiné Equatorial, se multiplicam as atividades dos movimentos políticos pré-independência porque ao alimentar os egoísmos pessoais  e coletivos dos grupos, vão diminuindo-se paulatinamente sua impetuosidade. Essa situação trouxe a necessidade de se aglutinar todas as concepções políticas em um só movimento que escolheu as aspirações e tendências dos movimentos existentes, de onde nasceu o Movimento de União Nacional de Guiné Equatorial – MUNGE, de corte espanholista, produzindo uma suspeita geral. Para a elaboração da lei das possíveis bases para a autonomia, uma comissão formada pelos representantes de todos os distritos de Guiné Equatorial foi a Madrid e em28 de novembro do mesmo ano a lei de bases foi apresentada e aprovada pela Corte Espanhola, e em 20 de dezembro o ditador espanhol Franco assinou a dita lei proclamando a autonomia da Guiné Equatorial. Imediatamente depois de proclamada a Autonomia de Guiné Equatorial, muitos exilados políticos regressaram ao país, dentre eles, Bonifácio Ondo Edu.

 

ORGANIZAÇÃO DO GOVERNO AUTÔNOMO

Aprovada a Lei de Bases do Governo Autônomo, sancionada e assinada por Franco, se procedeu a formação do Conselho do Governo Autônomo para a criação do Estatuto da Autonomia. Foram convocadas eleições com a finalidade de renovação de todas as instituições, com disputas nas províncias, nas corporações municipais, assim como nos conselhos dos bairros do território nacional. Mais tarde se constituiu a primeira Assembleia Geral composta por 08 deputados da província de Fernando Poo, dentre eles 01 branco, e 10 deputados pela província do Rio Muni, dentre eles 02 brancos. Depois da constituição da Assembléia Geral, procedeu a eleição e votação dos presidentes das disputas provinciais. Por Fernando Poo foi eleito Enrique Gori Molubela, e por Rio Muni, Federico Ngomo Nnandong. A presidência das sessões da Assembléia Geral era rotatória entre os dois representantes das províncias e a primeira assembléia foi presidida pelo representante de Fernando Poo.

Em 13 de maio de 1964, reunidos os deputados das duas províncias, sob a presidência de Enrique Gori Molubela, deu-se procedimento a eleição do Presidente do Conselho do Governo Autônomo. O resultado foi que Francisco Macías Nguema obteve 17 votos e Bonifácio Ondo Edu obteve 16 votos. Pelo decreto número 1615/1964 datado de 27 de maio, Franco nomeou Bonifácio Ondo Edu, como Presidente do Conselho do Governo Autônomo de Guiné Equatorial. Cabe ressaltar que Macías aceitou amargamente a humilhação e injustiça infligida a sua pessoa pela Espanha, ao mudar o resultado das eleições que ele havia ganhado, relegando-lhe a Vice-presidência e o Conselho de Obras Públicas. Vale ressaltar que mesmo com a autonomia de Guiné, isso não significou a sua independência, visto o Conselho da Defesa do país ficou a cargo de um Comissário Espanhol. A ação e atuação do Governo Autônomo estiveram sempre submissas à autoridade espanhola, por isso o regime autônomo não tomava nenhuma decisão importante, pois sua ação era sempre travada pela autoridade espanhola.

ENFIM A INDEPENDÊNCIA

Após várias pressões da opinião pública internacional, principalmente da ONU e da Organização da Unidade Africana – OUA, a Espanha foi obrigada a dar seguimento aos processos de independência da Guiné Equatorial. Em setembro de 1962, na Conferência de Libreville, a OUA recomendou a ONU acentuar as pressões a Espanha sobre a cauda da independência de Guiné. Aceitada a proposta da ONU sobre a Independência da Guiné Equatorial na Conferência de Argel, em junho de 1966, na mesma conferência o embaixador espanhol, Jaime Piniés, ao mesmo tempo em que anunciava a decisão da Espanha de conceder a Independência de Guiné Equatorial, também afirmava a postura de enviar para o país africano o Comitê dos Vinte Quatro, para comprovar o estado do país, essa comissão visitou o país em 1967. No retorno dessa comissão, a Espanha anunciou a convocação de uma conferência para redigir a Constituição de Guiné Equatorial e a eleição do Presidente do país. Como já era comum acontecer, quando se aventava a possibilidade de independência de Guiné Equatorial, o representante espanhol na Guiné, Carrero Blanco, junto com os empresários espanhóis que exploravam a Guiné, não era a favor dessa independência e fizeram de tudo para que isso não acontecesse. Dessa vez eles incentivaram o povo bubi, representado por Edmundo Bosio Dioco, a lutar pela divisão do país, eles queriam a Província de Fernando Poo fosse separada da província do Rio Muni. Eles diziam que, independente dos300 kmde mar que separavam as províncias, entre ambas as províncias não existiam nada em comum, aliás, a única coisa em comum fora a colonização espanhola. Os bubis, incitados por Carrero Blanco, diziam que a província do Rio Muniu representava prejuízo econômico, social e cultural à Ilha de Fernando Poo. Porém nem todos na província de Fernando Poo eram favoráveis à separação. O maior opositor era o pastor Toraho, presidente do MONALIGE, para ele, os fang do Rio Muni eram menos perigosos do que os 60 mil imigrantes nigerianos que infestavam a Ilha, sobre os 16 mil que compunham a população total dos bubis. Salomé Jones, que representava a minoria fernandina, também era contra a separação, denunciando os capitalistas espanhóis que ameaçavam os que fossem contra a separação. Ademais Toraho argumentou que o povo bubi não manifestou a sua intenção de separação ao Comitê dos Vinte Quatro, quando estes visitaram o país.

O povo ndowe também não defendeu a separação, argumentou as razões de segurança na união com os fang, pois mantinha eterna harmonia com esse povo desde a invasão espanhola. O povo corisquenho, não só se opôs a separação, como considerou ridícula, infundada e injusta a postura bubi em relação aos fang do Rio Muni, pois apesar da sua insignificância numérica, quase comparte todas as representações de igual para igual com o Rio Muni. O povo annobonês também se opôs a separação, pois, para eles, desde que o destino uniu as suas histórias eles se sentiam em um só povo, diziam também que a segurança da Guiné Equatorial estava no povo fang, que eles consideravam os mais altruístas. Após passar por todos estes problemas causados por Carrero Blanco, finalmente o país consegui a sua independência política da Espanha, sem a divisão almejada pelo povo bubi, sobre influência de Carrero.

Em 22 de junho de1968, aConferência Constitucional convoca eleições presidenciais e se apresentam os seguintes candidatos: Bonifácio Ondo Edu, Atanásio Ndong Miyono, Edmundo Bosio Dioco e Francisco Macías Nguema.

No primeiro turno Francisco Macías Nguema recebeu mais de 36 mil votos e Bonifácio Ondo Edu recebeu quase 32 mil votos. Indo estes dois candidatos para o segundo turno.

No dia 29 de setembro de 1968, o povo de Guiné Equatorial foi as urnas para eleger o seu primeiro presidente. Após a apuração dos votos se obteve o seguinte resultado: Francisco Macías Nguema obteve 68.310 votos, já Bonifácio Ondo Edu obteve 41.254 votos. Sendo assim, no dia 3 de outubro de 1968 Macías foi reconhecido e proclamado o primeiro presidente eleito da República de Guiné Equatorial. Assim, em 9 de outubro de 1968, através do decreto 2467/1968, o Governo da Espanha concede Independência à Guiné Equatorial. Com este decreto a Espanha deixa de explorar aquele país africano após 191 anos de presença espanholaem Guiné Equatorial.

Francisco Macías Nguema

Para chegar ao poder, Macías não se importava em mentir, enganar, pisar e matar, ele fazia o necessário para conseguir seus objetivos. Assim, enquanto os demais confiavam nos meios para alcançar seus objetivos, Macías adotou a campanha de conversas com todos. Assim ele dialogou com pessoas de todos os grupos étnicos do país, com promessas e mentiras, sem escrúpulos nem compromissos. Tinha um programa sociopolítico cheio de atrativos e de esperanças, contudo, não faltaram ameaças. Para Macías não importavam os meios para conseguir o seu objetivo, aos trabalhadores prometia salários maiores, aos estudantes prometiam fardamentos, aos agricultores prometia créditos e bons preços, ou seja, a cada casta social fazia uma promessa diferente. Efetivamente este era Macías, carente de uma consciência responsável, não lhe importava enganar para ganhar, para ele qualquer meio, qualquer caminho era de rosas, contanto que lhe dirigisse aos seus objetivos. Ele era um verdadeiro estrategista, embora fosse a maldade o seu meio mais empregado, embora empregando boas palavras no fundo ele estivessem sustentadas pelo mal. Macías era um grande mobilizador das massas, as quais ele tinha facilidade e capacidade de vencer e atrair para seus fins, ele tinha o dom da penetração nas massas e fazia com elas o que queria. Essas importantes virtudes que, se empregadas para o bem, poderia ser benéficas para a comunidade, postas em Macías, o levaram a vitória, ao poder, para a desgraça das comunidades, que, crendo em suas promessas, confiaram nele e o escolheu, para a perdição do povo de Guiné Equatorial.

Já em 1968, Após ganhar a eleição para presidente do país, Macías colocou no governo todos os que o ajudaram a se eleger, porém Bonifácio Ondo Edu, que disputou com ele a presidência do país, como já conhecia o comportamento rancoroso e odioso de Macías, resolver se exilar no Gabão, porém Ondo Edu cometeu o erro de retornar ao seu país. A esse retorno existem duas versões: a primeira versão diz que Edu foi chamado por Macías a retornar ao país, com a garantia de que não atentaria contra a sua vida; a outra versão diz que o presidente do Gabão o enviou para Macías. Tanto numa como na outra versão Ondo Edu cometeu o erro de voltar, e como consequência de seu retorno ele foi traiçoeiramente assassinado, na prisão de Santa Isabel.

Desde o principio, Macías se preocupou em festejar com seu povo a independência de seu país, mas os excessos dos seus partidários chegavam a roubos e saques sustentados com intimidações. Como dito anteriormente, Macías cumpriu responsavelmente com todas as pessoas que o ajudaram a chegar à presidência do país, não importante a etnia a que essa pessoa pertencesse, ainda que, depois ele iria eliminá-los paulatinamente. No início, ele tinha uma relação muito amistosa com a Espanha, porém com o passar do tempo e a falta de apoio econômico, ele começou a atacar a Espanha chegando até a expulsar do país embaixadores espanhóis.

Durante seu governo Macías perseguiu, prendeu e assassinou todas as pessoas que ele achava ser perigosa, bastava a pessoa ser respeitada em seu povoado que ele prendia, torturava e assassinava, alguns exemplos da sanha assassina de Macías foram Mariano Mbá Micha e Antonio Ndong Engonga

Com a ascensão de Macías ao poder, tornou-se frequentes os ataques aos espanhóis residentesem Guiné Equatorialcausando pânico entre os espanhóis, sobretudo os empresários capitalistas. Em um pronunciamento ao país, Macías disse que se as empresas madeireiras, assim como todos os empresários não se submetessem ao Governo e a política do país, todos os seus bens seriam confiscados e nacionalizados.

Em 1972, Macias se autoproclamou presidente vitalício do país, sob sua ditadura nunca se celebraram eleições livres. Naquele ano, decidiu assumir, além da presidência vitalícia, os cargos de primeiro-ministro e de ministro do Exército, Justiça e Finanças. Durante sua presidência, a Guiné Equatorial recebeu o desafortunado apelido de Auschwitz (campo de concentração) africano, e se destacou pelas execuções políticas. Reprimiu com grande dureza tanto a oposição conservadora como a de esquerdas, e se tornou bastante autoritário e duro na hora de impor as reformas que tinha em mente. As contínuas violações dos Direitos Humanos cometidas pelo regime de Macías provocaram o exílio para os países vizinhos (Camarões e Gabão) ou para a Europa (Espanha e França) de mais de um terço da população total da Guiné Equatorial. Todo o aparato repressivo do estado da Guiné Equatorial (exército e guarda presidencial) era controlado de modo absoluto pela família e parentes de Francisco Macías e por outros membros de seu clã. O número de mortos sob a ditadura de Macías se estima entre 50.000 e 80.000, de uma população de umas 300.000 pessoas. Entre as muitas ações paranóicas do presidente há que assinalar a proibição do uso da palavra intelectual ou a destruição das embarcações, pois ele havia proibido a pesca. Em 1976, Macias africanizou seu nome passando a se chamar Masie Nguema Biyogo Ñegue Ndong,  depois exigiu o mesmo do resto da população. As condições chegaram a ser tão nefastas que até sua própria esposa fugiu do país. Macías desenvolveu um extremado culto da personalidade. Atribuiu a si títulos como o de “milagre único” e “imperador”

Em agosto de 1979Teodoro Obiang Nguema Mbasogo organizou, com a ajuda de parte do exército, um golpe de estado que derrubou Francisco Macías. Este se refugiou em um bunker na selva, e ali destruiu as reservas financeiras do país. Por causa disso, o país teve que enfrentar uma gravíssima crise monetária. Entretanto, Macías não conseguiu reunir em torno de si recursos necessários para se opor a Obiang e foi capturado pelos rebeldes pouco tempo depois. Teodoro Obiang o submeteu a um julgamento sumaríssimo diante de um Tribunal Militar, no qual Macías foi acusado, entre outras coisas, de genocídio, deportações em massa e apropriações indevidas. Foi condenado a morte em setembro de 1979 e fuzilado imediatamente. O temor que ele despertava entre os nativos era tão grande que nenhum soldado da Guiné Equatorial se atreveu a formar parte do pelotão de execução, por isto foram soldados marroquinos que dispararam. Segundo os equatoguineanos, Macías utilizava a magia para atemorizar a população.

 

Teodoro Obiang Nguema Mbasogo

Nascido no seio do clã Esangui em Acoacán, Teodoro Obiang juntou-se aos militares durante o período colonial, tendo freqüentado a Academia Militar de Saragoça, na Espanha. Alcançou o posto de tenente após a eleição de Francisco Macías Nguema. Sob a liderança de Macías, Obiang ocupou vários cargos, incluindo os de governador de Bioko, chefe da prisão da Praia Negra e líder da Guarda Nacional.

Depôs Francisco Macías em 3 de Agosto de 1979 num golpe de estado.  Macías foi levado a julgamento pelas suas atividades ao longo da década anterior e condenado à morte. Entre suas atrocidades incluíram o genocídio dos bubis. Foi executado a 29 de Setembro de 1979 por fuzilamento. Obiang declarou que o novo governo iria trazer um novo começo em contraste com as medidas repressivas tomadas pela administração de Macías. Obiang herdou um país com um tesouro vazio e uma população que havia decaído para um terço do que tinha em 1968, tendo 50% dos seus anteriores 1,2 milhões de habitantes emigrado para Espanha, para os seus vizinhos africanos ou mortos durante a ditadura de Macías. A presidência foi assumida oficialmente em Outubro de 1979. Uma nova constituição foi adotada em 1982. Ao mesmo tempo, Obiang foi eleito para um mandato de sete anos como presidente. Foi reeleito em 1989, sendo candidato único. Após a legalização de outros partidos, foi eleito em 1996 e 2002.

Sobre o presidente Obiang, colocaremos a seguir uma parte do livro da pesquisadora Carmela Oyono Ayingono, que escreveu um livro sobre a vida do atual presidente de Guiné Equatorial:

“Efetivamente o Golpe de Liberdade marca um grande rito, não só na história de Guiné Equatorial como, em geral, na história da humanidade. Não foi um simples golpe militar, como tantos outros na África, e sim uma verdadeira metamorfose social. O país a época do então Tenente Coronel Obiang, assistiu a partir daquele momento uma mudança determinante nas estruturas sociais que permitiu um novo momento histórico, político e culturalem Guiné Equatorial.é a partir de 1987 que, com a criação do Partido Democrático de Guiné Equatorial, são geridos novos suportes mecânicos e técnicos numa sociedade de novos valores, conseqüência das mudanças políticas produzidas que trouxe  as evoluções posteriores.”

 

A CULTURA DE GUINÉ EQUATORIAL

  • Religião tradicional na cultura Fang

Para o povo fang, o meio mais propício para se comunicar com o poder absoluto, abstrato e indescritível era por meio de seus antepassados, os mortos, e faziam isso através de 3 rezas, que são elas: Melan,  Abira e Ndomba.

O Melan era convocado quando um mal muito grande e de caráter geral ameaçava a comunidade, como por exemplo a não procriação das mulheres, a falta de peixes para a pesca ou a falta de caças e a falta de incorporação de novas esposas na comunidade

O Ndomba, também conhecido como Aboc-Misem, era celebrado quando um mal se localizava na comunidade ou em uma determinada família, manifestado através de doenças graves, como epilepsia, sarampo abortos prematuros e outros.

A Abira se celebrava como purificação do povo, com relação a certar dúvidas sobre a normalidade, ou quando o povo, com vistas a certas celebrações importantes, queria dissipar a proximidade de algum mal.

Nzama – designação do Deus criador. Esse nome aparece em uma lenda fang, que falava sobre um homem lendário, virtuoso e poderoso, representação da perfeição, poder, virtude, bondade, retidão, riqueza do povo fang, chamado Nzama Ye Mebegue, ele era o perfil ideal do patriarca fang. Protegido de todo mal procedente da bruxaria do evú (mau). Com o aparecimento do cristianismo, o colonizador aproveitou a crença em Nzama para evangelizar o povo fang, dizendo que Nzama era o Deus todo poderoso e pai de Jesus.

Para o povo fang os conceitos de céu, inferno, santo, pecado e diabo não existiam. O fim único do bem e do mau era a pessoa humana. O mau não tinha nenhuma relação com o pecado ou ofensa a Deus.

  • A religião tradicional nas outras etnias de Guiné

Para o povo ndowe, o homem não terminava com a morte, eles acreditavam que existia um mundo pós morte, formado pelos espíritos e forças dos mortos, chamado idimo. O idimo não morria jamais, vivia eternamente, podia reencarnar e podia ajudar aos seus que ainda viviam no plano material. Acreditavam que a reencarnação do idimo estava relacionada com a qualidade e orientação da pessoa por suas obras quando era vivo.

Na religião tradicional do povo bubi existiam mais de cem espíritos, cada um com capacidades, forças e poderes independentes, atributos que não necessitava da intervenção de outros espíritos conhecidos ou com invocações ou chamados atribuídos a esses espíritos. A seguir listamos alguns espíritos principais do povo bubi:

Bapatórimo – espírito da terra;                                 Barimo – espírito dos antepassados;

Bisila – espírito mãe do universo;                            Botéribo – espírito da criação;

Bapari – espírito que curava a desinteira;   Basosolo – espírito dos pescadores;

Basocoari – espírito que castigava pelo mal ou roubo praticado;

O povo annobonês, como todo povo bantu, não conhecia, nem se dirigia a um Deus do céu, ensinado pelo catolicismo, o povo annobonês, em suas necessidades, se dirigia a uma força que, no fundo não podia descrever, identificar ou situar no espaço. A essa força e esse poder eles chamavam de nasiol.

 

A DANÇA PARA O POVO FANG

A dança para o povo fang nunca foi uma mera manifestação de alegria ou consolo da alma. Todas as danças e cada uma delas cumpriam uma tarefa social, como por exemplos: treinamento, rezas, entretenimento, recomendação. Tanto é assim que a dança fang, na maioria das vezes, cumpria uma exigência social. A maior parte dos ritos de transição social fang, se realizavam através da dança, para dar-lhes maior solenidade, maior publicidade, maior expressividade e maior impregnação social, porque uma das funções da dança era a de aumentar a importância social de algo que se considerava valioso dentro da sociedade.

As danças originais ancestrais reconhecidas no povo fang foram as seguintes: Endondom, Ndomba, Mendyang, Mvet, Mbatua, Megan e Acomamba.

 

GLOSSÁRIO

Abec – chifre de antílope

Bahobes – homem, em bubi

Baleopí e balombe – tipos de culturas do povo bubi

Deneg – anão dançarino de Deus

Evú – mau

Idimo – espíritos e forças dos mortos

Kie – o nome de um rio de Guiné Equatorial

Melongo – um tipo de vime

Ñame – cultura desenvolvida na antiguidade, nos confins do Lago Tchat

Ngoo – enguia seca

Nseng – vila, rua

Ntem – o nome de um rio de Guiné Equatorial

Ntemayat – o outro lado do rio ntem

Nvele – uma das expedições de guerra do povo fang

Oban – uma das expedições de guerra do povo fang

Oveng – árvore mais importante para o povo fang

Rombe – cabra, animal sagrado para o povo ndowe

 

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Um Comentário para “Apostila do tema do Ilê Aiyê para o Carnaval 2013”

  1. Débora Soares disse:

    A inciativa só reforça as diretrizes para o carnaval 2013. A preservação de algumas tradições deveriam ser temática em diversos lugares do país.

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