IRDEB - Instituto de Radiodifusão Educativa da Bahia
TV Rádio Notícias Interatividade

Papo de Criol@

dez
3

Jair Silva

Por Jair Nguni

No Dia Nacional da Consciência Negra brancos empresários são os grandes homenageados pelos Vereadores de Campina Grande

Semana da Consciência Negra é momento para se homenagear quem luta seriamente contra o racismo e de reconhecer o quanto os negros e negras dessa cidade tem feito para descolonizar mentes e corações de uma elite perversa e racista, a qual tenta de todas as formas barrar nossas conquistas em prol do empoderamento da raça negra em Campina Grande. Solicitei ao Vereador Napoleão Maracajá o título de cidadania campinense para o Tata Vicente Mariano, mas nunca fui atendido por ele. Depois dessa recusa fui solicitar esse título de cidadania para o Vereador Anderson Maia do PSB, mas também não fui atendido por esse parlamentar. O interessante é que o gabinete do Vereador Anderson Maia me pediu uma justificativa para conceder essa homenagem para o Tata Vicente Mariano. Aceitei o desafio do seu gabinete, o que me levou a escrever um texto de cunho histórico sobre o racismo enfrentado pelo povo de santo. No entanto, nada disso adiantou. Nem mesmo o documento feito pela Juventude de Terreiro de nossa cidade reforçando a minha luta para que este ano fizéssemos uma bonita homenagem para o candomblecista mais antigo da Paraíba, no dia 20 de novembro.

Esses dois parlamentares, na verdade, trataram com total descaso meu pedido para homenagear esse histórico e respeitado sacerdote do candomblé. Os dois Vereadores deveriam saber que na história de Vicente Mariano de Oxum esse respeitado candomblecista já ganhou diploma de honra ao mérito durante o Centenário de José Américo de Almeida (1887\ 1987), por sua atuação em prol do desenvolvimento cultural brasileiro. Esse diploma foi concedido pelo NELL- Núcleo de Estudos linguísticos e literários da UFPB como podemos encontrar num quadro pendurado no Terreiro desse Tata, localizado na rua Prudente de Morais na Estação Velha. Vicente Mariano foi iniciado aos 16 anos no candomblé de Tradição Nagô e teria nascido no dia 19 de novembro de 1929 no município de Macaparana, Estado de Pernambuco. Só este ano quatro sacerdotes da igreja católica ganharam o título de cidadania campinense numa única sessão, incluindo aí o Bispo de Campina Grande Dom Frei Manoel Delson Pedreira da Cruz. Por que não se faz  com essa mesma dimensão política, reconhecimento  social, religioso e valor simbólico uma  homenagem  para os  representantes do candomblé, umbanda e jurema de Campina Grande?

Enquanto no dia 19 de novembro Napoleão Maracajá criticava os líderes do Movimento Negro de Campina Grande na ausência desses mesmos líderes, dizendo que: “a responsabilidade da mobilização para esta sessão ficou a cargo de alguns representantes do movimento negro”. Infelizmente, parece-me que já virou regra a “Casa de Félix Araújo” fazer homenagens para brancos de classe média, sem que os Vereadores Anderson Maia e Napoleão Maracajá quebrem essa regra injusta, excludente e que reforça claramente o racismo no campo da política.  O parlamento mirim campinense já tinha feito essa injustiça contra a nossa população negra no ano de 2013 quando humilhou de forma pública o Movimento Negro de Campina Grande, cancelando uma sessão especial previamente marcada para debater o Dia Nacional da Consciência Negra. É só olharmos o site da Câmara de Vereadores para  todo mundo perceber que a homenageada foi  a senhora Maria da Penha no ano de 2013. É só olharmos agora para saber quem foi no último dia 20 de novembro o perfil eurodescendente dos homenageados, para percebermos que mais uma vez a elite branca dessa cidade representada por dois empresários brancos foram os grandes homenageados com o título de cidadão campinense.

Com relação a essa sessão especial feita pelos Vereadores para refletir o Dia Nacional da Consciência Negra, no dia 19 de novembro. O Vereador Napoleão Maracajá era para ter aproveitado o momento para dizer a  Secretária de Educação Iolanda Barbosa que o bairro da Liberdade não é um bairro de maioria negra e com altos índices de violência contra jovens negros. Portanto, levar o Parque da Liberdade e o Centro de Iniciação Esportiva para o quintal da classe média branca do bairro da Liberdade é cometer um crime contra a vida dessa mesma juventude negra que vive socialmente abandonada nas periferias de Campina Grande, visto que é nas periferias onde se mata todos os dias jovens negros justamente por falta de equipamentos culturais e esportivos como esses que serão construídos, diga-se de passagem, sem nenhum debate com o movimento negro em toda sua diversidade afro-brasileira e participação do próprio Conselho Municipal de Juventude.

O genocídio da juventude negra vai aumentar na nossa cidade com esse tipo de política pública concentrada em um território longe das periferias. Assim sendo, a Prefeitura com esse tipo de comportamento passa por cima das determinações  sociais do Plano Juventude Viva e isso precisa ser denunciado junto ao Ministério Público, Vereadores e para os movimentos sociais que representam os direitos da juventude de Campina Grande. É por isso que não se montou de forma democrática o Comitê Gestor do Plano Juventude Viva na nossa cidade,  tendo em vista que a Prefeitura no governo do PSDB quer implantar suas políticas sociais sem ouvir o movimento negro e toda sua diversidade afro-brasileira. Infelizmente, diante desse quadro, existe uma certa militância que vive das regalias e esmolas do grupo Cunha Lima e por ter sido aparelhada não pode bater de frente com essa oligarquia, visto que com seus cargos na Prefeitura não pode desagradar ao seu patrão que gasta milhões para fazer festa de São João, mas sem gastar nenhum real se quer para salvar as vidas de nossos jovens negros nas periferias. Essa mesma militância que se diz “séria e honesta” ainda se apropriou vergonhosamente do Plano Juventude Viva como se fosse sua galinha dos ovos de ouro e os debates sobre a juventude negra ficam concentrados entre quatro paredes na Secretaria de Esportes, Juventude e Lazer da Prefeitura Municipal de Campina Grande, negando claramente a participação de diversos outros atores e personagens sociais que lutam diariamente contra o genocídio da juventude negra de Campina Grande e que poderiam contribuir para democratizar esse debate. Entendemos, assim, que qualquer política pública direcionada para combater o genocídio da juventude negra empobrecida e geralmente moradora das periferias e centros urbanos, teriam que passar necessariamente pela aprovação de um Comitê Gestor do Plano Juventude Viva, com a participação plena e ampla da sociedade civil, fato esse que não está acontecendo pelas razões aqui já explicitadas. Cadê o Comitê Gestor do Plano Juventude Viva dessa cidade?

Essa sessão especial voltada para o debate sobre as profundas desigualdades raciais era o momento  ideal para o Vereador Napoleão  também cobrar da Secretária de Educação Iolanda Barbosa o motivo do Prefeito Romero Rodrigues não ter até o presente momento sancionado o projeto de cotas para negros no serviço público municipal. Ademais, ele poderia ter perguntado para a representante da oligarquia Cunha Lima quando é que o Prefeito Romero Rodrigues vai botar em prática as 14 propostas de combate ao racismo da II Marcha Nacional Contra o Genocídio do Povo Negro. Também poderia ter perguntado para a senhora Iolanda Barbosa quando é que a Prefeitura vai colocar em pratica as propostas que foram aprovadas na I Conferência Municipal de Promoção da Igualdade Racial, Conferência essa, que virou um grande estelionato político e histórico, servindo apenas para gerar emprego para uma certa militância cooptada por esse mesmo grupo político.  Gostaria, portanto, de deixar bem claro que nunca me coloquei como líder do movimento negro de nossa cidade, pois faço militância de forma independente e não coordeno nenhum movimento negro organizado. Por outro lado, gostaria de dizer para esse parlamentar que ele precisa dizer agora quem ficou responsável pela organização dessa sessão especial completamente esvaziada, uma sessão que entra para a história do ativismo negro campinense, uma vez que até onde eu sei esse fato triste nunca tinha acontecido nos 29 anos de luta contra o racismo do Movimento Negro de Campina Grande.

Essa sessão especial foi marcada ainda por uma fala da representante do Prefeito Romero Rodrigues como se as portas do poder executivo municipal  estivessem abertas para todos que fazem o movimento negro e sua diversidade afro-brasileira. Ora, o Seminário Agosto Para a Igualdade Racial não recebe nenhum apoio da Secretaria de Educação que tem na pessoa da Senhora Iolanda Barbosa sua atual gestora. Já tentamos esse apoio em outras pastas do governo do PSDB como na Secretaria de Cultura, mas não conseguimos nada de patrocínio do poder público municipal na gestão do Prefeito Romero Rodrigues.  A fala da Secretária Iolanda Barbosa contrasta com a realidade dos fatos no cotidiano de quem luta contra o racismo em Campina Grande. A biblioteca Comunitária do Tambor, por exemplo, sobrevive na garagem do pai do professor e ativista cultural Williams Lima Cabral, já que não tem apoio do poder público municipal para combater esse mesmo genocídio da juventude negra que  a  Prefeitura diz ter políticas públicas de enfretamento. Aqui só tem apoio mesmo o militante que vive de joelhos para o grupo Cunha Lima. Para esse tipo de militância, a Prefeitura tem emprego e ainda convida para fazer parte de todas as atividades pensadas pela Secretaria da Educação para celebrar o Dia Nacional da Consciência Negra.

O Vereador Napoleão Maracajá ainda esqueceu de lembrar que no ano passado fizemos uma sessão com  um público considerável e com ampla participação de grupos de capoeira e, ao mesmo tempo, com a presença de uma mulher negra da ONG CENTRAC representando  a luta da mulher afrodescendente  por igualdade racial.  Na sessão especial organizada este ano pelo seu gabinete percebemos que os diversos grupos e associações de capoeiras não estavam no plenário, muito menos como debatedores na tribuna da Câmara de Vereadores no último dia 19 de novembro quando foi debatido mais uma vez a realidade social da nossa população afro-brasileira sem a participação de nenhuma mulher negra, o que revela exclusão e falta de pluralidade política e social no encaminhamento desse evento. Sinceramente, lamento profundamente pela falta de honestidade intelectual e política do Vereador Napoleão Maracajá quando disse que o movimento negro era o responsável pela mobilização dessa sessão esvaziada, sem que ele disesse para o público que ali estava quem ficou responsável de mobilizar a sociedade.

Posso dizer que pelo que conheço da história do Movimento Negro de Campina Grande é fato que essa sessão foi completamente esvaziada pela forma como seu gabinete deve ter encaminhado, pois era pra ter tido uma reunião com todos os integrantes do movimento negro e sua diversidade afro-brasileira.  Digo isto pelo fato de ter que me defender de seus ataques injustos, visto que jamais fui chamado para organizar esse evento, assim como não fui convidado para ser um dos oradores. Desafio, diante desse contexto, o Vereador do PC do B Napoleão Maracajá a dizer quem ficou responsável pela mobilização e peço ao mesmo parlamentar que dê os nomes das pessoas que ficaram encarregadas de fazer essa função de levar público para a Câmara de Vereadores de Campina Grande.

Finalmente, fica a lição para o Vereador Napoleão Maracajá e seu Gabinete excludente. Vocês não me convidaram para organizar e debater as desigualdades raciais em Campina Grande pelos seus interesses inconfessáveis. Também não convidaram Ana Lúcia Sales, integrante com Movimento Negro de Campina Grande com quase 15 anos de atuação em defesa da igualdade racial no nosso município. Portanto, repúdio essa tentativa de querer responsabilizar o esvaziamento aos líderes do Movimento Negro de Campina Grande como se o Jair Nguni tivesse algo a ver com toda essa história. O senhor deveria cobrar isso de quem foi chamado para fazer parte dessa sessão esvaziada, sobretudo de certos oradores que não pertenciam ao movimento negro. Pessoas que não tinham a menor tradição nesse debate por igualdade racial em Campina Grande. Talvez, resida aí a explicação do fracasso dessa sessão especial em matéria de público, já que botar pessoas estranhas as lutas diárias contra o racismo acaba dando nesse tipo de situação vexatória. No mais, saiba que jamais vou aceitar seu ataque injusto e quero ainda lhe dizer que no seu gabinete e no do Vereador Anderson Maia não coloco os meus pés enquanto tiver vida. Se a sua intenção, enfim, era encontrar um culpado pelo fracasso da sessão e, por tabela, ainda posar de democrata e agregador para seus pares e sociedade. Acredito que sua intenção fracassou com a verdade desses esclarecimentos aqui registrados para a posteridade.

 

 

Autor: Jair Nguni- historiador e militante do Movimento Negro de Campina Grande.

jul
1

Por Jaime Sodré

Jaime Sodré

Um Bando de Artimanhas

Cena 1 – A habilidade dramática negra vem de longe, embora os senhores de engenho duvidassem de qualquer qualidade talentosa, a realidade demonstrara o contrario. Pinturas rupestres africanas mostram-nos um mascarado, tatuado, em movimentos teatrais, sendo fácil perceber as mais diversas performances nas etnias africanas.

Cena 2 – Vislumbrando uma pintura da época colonial, de um canavial, veremos um grupo de negros, realizando oculto aos senhores, danças e expressões teatrais totêmicas, firmando na lembrança momentos da África distante.

Cena 3 – Veremos também a coreografia teatral do Bumba meu Boi, suportado por um texto mítico, oral. Teremos também encenações do Rei e Rainha do Congado, e ainda as interpretações de Chico Rei. No Recôncavo, maquiados de preto, vestidos de palha, temos no Nego Fugido a teatralizar desafios dos negros escravos, em busca da liberdade.

Cena 4 – Como não atribuir às expressões dos orixás, no Xirê do Candomblé, um exercício religioso, coreográfico e teatral.

Cena 5 – Em tempos carnavalescos, a Embaixada África e os Pândegos da África, esmeravam-se nos seus carros alegóricos, a representação teatral das cortes africanas.

Cena 6 – O TEN – Teatro Experimental do Negro, iniciativa do brilhante Abdias Nascimento, representava um gesto desafiante. A ideia surgiu do encontro com os poetas Efrain Bó, Godofredo Iommi, Raul Young e Napoleão Filho, após assistir a peça O Imperador Jones, de Eugene O’Neill, um ator branco, Hugo D’Evieri, atuava pintado de preto. Preso por protesto contra o racismo, no Presídio de Carandiru Abdias fundou com os presos o Teatro do Sentenciado. Ao deixar a prisão, criou uma companhia com operários e empregadas domesticas que foram alfabetizados para a leitura do texto teatral.

Cena 7 –  No dia 8 de maio de 1940 o TEN se apresentou no Teatro Municipal do Rio, com Agnaldo Camargo, negro, como ator principal. O objetivo era dar ao ator negro a possibilidade de levar ao palco personagens livres de estereótipos.

Epílogo – Dizendo ter orgulho da trajetória do Bando, a estimada diretora teatral Chica Carelli referia-se ao Bando de Teatro Olodum como um ato de coragem, estruturado para a formação de novos autores, atores e diretores. Relata que João Jorge, presidente do Olodum convidou o competente Márcio Meireles para esta empreitada vitoriosa, a meta era a criação de uma proposta teatral com uma linguagem baiana, elementos da cultura afro-brasileira e questões sociais, sem ser um ato folclórico depreciativo e panfletário.

A voz de Jorge Washington ecoa com uma fala do Grupo, manifesto parabéns, para ele “a sensação é de dever comprido”, com a contribuição de atores do Bando na cena nacional, Lázaro Ramos, Érico Braz e Fábio Santos, em Londres.

O Bando de Teatro Olodum, há 25 anos segue fazendo Arte e “Manhas” para vencer as adversidades.

Benção em nome de Mario Gusmão.

 

Jaime Sodré é historiador, escritor, doutorando em Educação e Contemporaneidade e Consultor do Programa Tambores da Liberdade.

mai
5

Por Jair Nguni

Jair Silva

Vicente Mariano, Candomblé e Intolerância Religiosa.

Segundo dados do IBGE de 2010, a população campinense  possui 58% de pretos e pardos. Logo, entregar um título de cidadania  para o  senhor Vicente Mariano é contribuir para  dar visibilidade e autoestima  ao povo de santo, povo este, que historicamente  vem sendo marginalizado e discriminado em todos os setores da sociedade campinense. Temos, portanto, que reconhecer e perceber que o Tatalorixá Vicente Mariano, fundador do Terreiro Senhor do Bonfim Ilê Oxum Ajamim, é parte  integrante desse  processo de luta e história de resistência do povo negro contra a intolerância religiosa. E que pela sua atuação valorosa e corajosa em  mais de 63 anos de iniciação no candomblé de Nação Nagô ele merece, indubitavelmente, ser reconhecido pelo seu trabalho permanente em defesa das religiões de matriz africana.

O  Tatalorixá Vicente  Mariano foi iniciado no Candomblé de Nação Nagô  aos 16 anos de idade no estado de Pernambuco. Sua Mãe de Santo foi a Yalorixá Zefa Felino da Costa, filha do Babalorixá  Pai Adão e da Yalorixá Lídia Alves. Ao chegar  em  Campina Grande  ele funda na rua Prudente de Morais, localizada na Estação Velha, o Terreiro de  Umbanda  Senhor do Bonfim que foi inaugurado em 1967. Por esse breve histórico da biografia desse pernambucano, podemos considerar  este legítimo representante  das religiões de matriz africana  como  um dos pais fundadores da Umbanda na  Paraíba, fato que, por si só,  já seria o bastante para  lhe conceder qualquer homenagem por parte da Câmara de Vereadores de Campina Grande. Ora, nessa época de grande perseguição e racismo contra os juremeiros e umbandistas o povo de santo era acusado constantemente pelas autoridades policiais e jornalistas de prática ilegal da medicina e de curandeirismo, além de serem rotulados pejorativamente de catimbozeiros e feiticeiros. Vicente Mariano, diga-se a bem da verdade, sobreviveu com sua fé no candomblé a tudo isso e hoje é visto como símbolo de luta pelo respeito aos cultos de matriz africana e afro-ameríndia na Paraíba.

Portanto, num país onde  no passado muitos  Babalorixás e Yalorixás foram agredidos e humilhados, tendo seus terreiros invadidos pela polícia e objetos sagrados destruídos em muitas cidades do Brasil, visto que de acordo com uma psiquiatria racista  que  imperava na academia brasileira no final  do século XIX e início do século XX o candomblé era visto como uma verdadeira  anomalia e doença mental  de negros e negras. Não foi por acaso, que muitos dos seus praticantes foram presos pela polícia e depois enviados para manicômios no Brasil. O povo de santo, na verdade,  sempre foi alvo da mais dura e cruel perseguição religiosa no Brasil  e, infelizmente, percebemos que  essa   intolerância religiosa que perseguiu em outrora os candomblecistas e umbandistas ainda não acabou, em que pese a Constituição Federal garantir a igualdade de todos perante à lei e a liberdade de culto para todos os brasileiros.

É que no Brasil  nos últimos  9 anos, calcula-se que pelo menos 22 sacerdotes das  religiões de matriz africana foram assassinados. 15 deles só no estado do Amazonas, o que revela um profundo sentimento de intolerância que vem ceifando vidas de seres humanos, que não tem se quer o direito de cultuar os seus deuses e deusas trazidos da África. A Paraíba, lamentavelmente, faz parte desse contexto no qual o racismo que atinge de forma violenta o povo de santo pôde  ser visto na cidade sertaneja de Brejo dos Santos, cidade onde no ano de 2012  um terreiro foi invadido, profanado e destruído totalmente por um grupo de fundamentalistas evangélicos.

Esses dados sobre mortes e assassinatos  de  adeptos do candomblé, por si só, já são suficientes para  qualquer  agente público deixar sua ilha de conforto para notar que não podemos  mais ficar calados diante da intolerância religiosa. Sendo assim,  acreditamos que a concessão do título de cidadão campinense para o senhor Vicente Mariano é uma boa razão para começarmos a pensar em construir políticas públicas, voltadas para garantir o direito à vida  ao povo de santo que vem sendo vítima do racismo desumano e cruel. Pensar em políticas que possam saldar essa dívida social e histórica que o Estado brasileiro tem com segunda maior população negra do mundo, que vive no Brasil historicamente com uma cidadania de segunda classe. Sempre é bom lembrar que Vicente Mariano além de ser candomblecista, é negro. E quem carrega essa marca  na pele já enfrentou ou vai enfrentar algum dia os duros golpes do racismo.

À guisa de conclusão, Campina Grande conta com dezenas de terreiros de umbanda  e candomblé. Entretanto, como já afirmamos nesse texto, por conta do racismo os adeptos das religiões de matriz africana e afro-ameríndia como os juremeiros, vêm sofrendo com vários ataques e agressões, sendo também  constantemente  vítimas do preconceito e da intolerância por parte de outros segmentos religiosos fundamentalistas.  Portanto, reconhecer o trabalho religioso do pernambucano Vicente Mariano é, antes de mais nada, reconhecer sua luta contra essa realidade marcada pela perseguição ao povo de santo, uma vez que o senhor Vicente tem uma vida dedicada  à preservação da Tradição dos Orixás em nosso município, pois se  não fosse o   Tatalorixá Vicente Mariano temos absoluta certeza que  não existiriam outras casas de santo em Campina Grande  como o Ilê de Ogum  Jobioô do Babalorixá Ubirajara Alves lá no bairro do Belo Monte.  Não existiria o Ilê Airá  Bolomim  Lodé do Babalorixá  José Roberto no  bairro das Cidades. Como também não existiriam os Terreiros Ilê Axé Malabí do Pai Chico e Senhor do Bonfim Oyá Gandê da Yalorixá  Mãe Suênia.

Autor: Jair Nguni- historiador e ativista do Movimento Negro de Campina Grande.

mai
5

Por Jaime Sodré

Jaime SodréO QUE É ABLAR?

Sob a sonora ritmia da competente bateria da escola de samba, cantava o intérprete: “Sonhar não custa nada…”. Motivado, exercerei esta possibilidade. O ambiente de convivência em um terreiro de candomblé é um polo gerador de um amplo conhecimento, sobre várias temáticas. Além dos ensinamentos teológicos iniciáticos, testemunha-se uma importante produção literária realizada por fiéis do candomblé, contribuindo para a qualificação e o enriquecimento da produção nacional intelectual, com um material por vezes de caráter científico, romances, contos etc.

Lembro-me do que dizia uma sábia, respeitada e querida Ebomi, quando indignada e atingida por expressões grosseiras, estas emitidas por intolerantes que no auge da sua ira diziam: “esses negros do candomblé são macumbeiros, feiticeiros, analfabetos e ignorantes”. Em defesa do povo de santo ela dizia: “somos negros com orgulho e dignos religiosos, mas não somos analfabetos, dominamos a língua aqui falada, pois sabemos nos comunicar, e mais, para o nosso maior orgulho somos ‘trilíngues’, pois para o exercício religioso devemos dominar as línguas africanas: o yorubá, o quimbundo e o ewe, aplicadas nas rezas, cânticos e invocações. Quanto à ignorância, esta, está em quem fala”.

Sem mencionar o repertório estético, nas danças, nos ritmos, na mitologia, na culinária, na fitoterapia dentre outros, podemos concluir ser o espaço sagrado das expressões de matriz africana uma espécie de Academia. O emérito professor Edivaldo Boaventura define a Academia como “um corpo de pesquisadores que convive para estimular a geração e disseminar o conhecimento”, socializando os resultados. Neste contexto encontramos “conceitos, práticas, instrumentos, saberes, métodos e processos que habilitam a contribuir para a gestão do conhecimento”.

No âmbito da “Academia Candomblé”, localizamos exemplos de intelectuais, iniciados, com importantes contribuições no campo do conhecimento, principalmente sobre esta matriz. Incentivado por esta realidade alvissareira, com o tom de homenagem e bom humor, apresentamos a ABLAR – ACADEMIA BAIANA DE LETRAS AFRO RELIGIOSA. O intuito é listar nomes que primam por este fazer, colocando à disposição dos interessados.

Perdoem, lembro-me de alguns, e deixo espaços para outros que você, leitor, poderá enviar ao blog “Tambores da Liberdade”. Na minha modesta lista temos: Cecília Soares (Iyalorixá do terreiro Maroketu) – Mulher negra na Bahia no século XIX,  Valnízia Pereira Bianch (Iyalorixá do terreiro do Cobre) – Resistência e fé, Aprendo ensinando, Júlio Braga (Babalorixá do Ilê Oyá Tundé) – Jogo de Búzios, Na gamela do feitiço, O antropólogo na encruzilhada, e outros, Vilson Caetano Júnior (Babalorixá do Ilê Obá L´Okê) – Nagô, a nação dos ancestrais itinerantes, Valdina Pinto (Makota do Tanuri Junçara) – Meu Caminhar, meu viver, e a distinta acadêmica Mãe Stella.

Esperamos ampliar esta lista, acrescentando autores e autoras dos mais diversos estágios escolares, que têm como caráter particular, igualmente da sua produção literária dentro dos mais diversos estilos, também a sua filiação na condição de iniciado junto às expressões religiosas de matriz africana.

jan
13

Por Jaime Sodré

Jaime SodréGovernador Ruy “Tomo da cuia de esmoler”

Motivado pelos efeitos positivos da missiva do escritor Jorge Amado, “Tomo da cuia de esmoler”, peça admirável, que resultou na restauração da sede da Irmandade da Boa Morte, descaradamente me faço plagiar aqui alguns trechos, pois a causa merece como verão. “Tomo da cuia de esmoler das mãos de Celina –Celina Maria Salla–, a infatigável, a heróica combatente. De cuia em punho, irei em frente, pedinte obstinado: a sede nova da Irmandade deve ficar pronta a 14 de agosto, dia em que a festa terá início, a procissão deste ano de 1995 deverá sair das casas reconstruídas. Para que assim seja recebo a cuia de esmoler, parto em missão.” O Instituto Cultural Steve Biko constitui-se um espaço sagrado do saber e da oportunidade, promovendo ações afirmativas para a comunidade negra, auxiliando-os para o ingresso principalmente em universidades publicas.  Ativa em seus propósitos de servir, esta Instituição, que tem como meta a inclusão, em  2008 comprometera  em seu planejamento estratégico, juntamente com o coletivo de colaboradores, a criação da Faculdade Steve Biko (FSB) que pretende ser um marco na qualidade da educação inclusiva, uma instituição que concilie: “competência técnica, compromisso político e social com o povo negro e todos os grupos excluídos”.

O Instituto vem desenvolvendo ações preparatórias e estruturais junto ao corpo de colaboradores para o pleno êxito desta iniciativa. Como passo primordial, a Biko desenvolve a reforma da casa cedida pelo Governo Wagner, que necessitava de escoramento emergencial, limpeza, cadastramento do imóvel, e o projeto executivo da obra, contando com apoio técnico dos arquitetos Heron Cordeiro e Islândia Costa, que realizaram a primeira concepção da nova sede (plano de ideias), alem do apoio da Faculdade de Arquitetura da UFBA, a qual fará o projeto executivo definitivo, alem de contar com o apoio da empresa Junior de engenharia da Escola Politécnica da UFBA. A obra, nos informa o Biko, “tem o apoio financeiro da Fundação Coca-Cola” através de doação. O que pode parecer um mar de tranquilidade financeira, revela-se apenas um estágio inicial, se levarmos em conta os diversos aspectos para a conclusão, instalação e o efetivo funcionamento pleno e eficaz desta iniciativa louvável e coletiva. Assim no diz o Biko: “os nossos colaboradores nacionais e internacionais perceberam o potencial, a efetividade e o valor heurístico de nossos projetos sociais e educacionais para a construção de inovações metodológicas e epistemológicas”.

Em que pese a grandeza da ideia, este desafio necessita-se de colaboradores, por isso atrevi-me a imitar o Amado Jorge e também “tomo da cuia de esmoler” e dirijo-me ao nosso estimado Governador Ruy Costa, estendendo-o esta solicitação colaborativa e respeitoso, atrevo-me, sabendo que por certo encontrarei abrigo, pois conhecemos a solidariedade do Governador, “filho da Liberdade”, bairro da negritude. Assim como Jorge “Não terei vergonha de solicitar o óbolo, a esmola” até termos juntado a quantia necessária.

 Ainda seguindo o ilustre Escritor: “Desavergonhado, pedirei aos que são meus amigos e àqueles que mal conheço. Quem se atreveria a negar à Senhora da Boa Morte? na altura, dizia Jorge”. E para posteridade e júbilo, assim como pensou Jorge, Adenor Gondim fará a fotografia… dos benfeitores reunidos em frente à casa restaurada.(Sede da Faculdade Steve Biko). “FAÇA SUA AÇÃO AFIRMATIVA SEJA SÓCIO DA BIKO”.

dez
22

Por Jair Nguni

Jair SilvaNo dia 17 de junho foi protocolado na Casa de Félix Araújo o Projeto  de Lei de autoria do Vereador Napoleão Maracajá, objetivando a reserva de 20% das vagas para a raça negra em concursos públicos no âmbito da administração municipal. Este projeto, na nossa concepção política, é extremamente  importante e relevante para o desenvolvimento social da nossa população negra, visto que  em Campina Grande o trabalhador negro é a maior vítima do desemprego, violência policial e exclusão social. Quantos negros e negras trabalham nas lojas e farmácias no centro comercial de Campina Grande?

Como exemplo dessa triste realidade em que a população negra tem o seu direito à vida negado, basta apenas dizer que a nossa cidade ocupa atualmente a vigésima sexta posição em assassinatos brutais contra a população jovem negra, segundo pesquisa feita pelo Datasus do Ministério da Saúde. Já os dados  do Mapa da violência revelam que Campina virou um grande campo de concentração para essa mesma juventude negra, pois só no ano de 2010 foram assassinados 122 jovens negros. Em 2011, 107 perderam suas  vidas para a violência urbana, sendo que em 2012 foram assassinados de forma brutal 109 jovens afrodescendentes, mostrando dessa forma como o racismo é cruel e desumano e que essa violência nunca foi  distribuída de maneira democrática entre os grupos étnicos que fazem parte da nossa população. A violência aqui tem cor, território e idade.

Mesmo tendo sido feito um ofício pelo gabinete do Vereador Napoleão Maracajá, endereçado ao ex -Presidente da “Casa de Félix Araújo” Nelson Gomes filho, solicitando que o Projeto de Lei 196\2014 fosse incluído na ordem do dia, conforme o que recomenda o artigo 189do regimento interno. Mesmo assim, a mesa diretora não quis botar para a apreciação e votação o projeto na Semana da Consciência Negra quando fizemos uma sessão especial no dia 20 de novembro, mostrando para os Vereadores que o racismo poderia ser combatido com o estabelecimento de políticas afirmativas através da reserva de vagas para a raça negra no serviço público municipal.

Depois que passou o mês da consciência negra veio o golpe sujo e ridículo. O Projeto de Lei que estabelece cotas foi debatido pelos Vereadores no salão azul na surdina, para que o povo e a sociedade não soubessem o que seria discutido  sobre a aprovação ou não do projeto. Para a nossa surpresa e indignação, ficamos sabendo por intermédio do Vereador Napoleão Maracajá que o  Vereador Antonio Alves Pimentel apresentou de última hora uma emenda como forma de tornar a aprovação do projeto de cotas inviável para este ano. Essa emenda tinha como proposta reservar nos concursos públicos da Prefeitura 10% das vagas para quem mora na zona rural e 10% para os negros quem morassem na zona urbana. Pasmem!

Ora, a maioria da população negra  mora na área urbana. Uma emenda como essa foi feita apenas para que o projeto não fosse votado este ano, o que considero um verdadeiro crime contra  a população negra dessa cidade que espera há décadas por políticas públicas que possam gerar igualdade de oportunidades. Em Salvador, por exemplo, não existe esse tipo de modelo de cotas onde se criou a reserva de 30% de vagas para a raça negra no serviço público municipal.  A mesma coisa  posso falar da cidade de São Paulo onde foi aprovado o percentual de 20%. Também  existem cotas para negros no serviço público estadual no Rio Grande do Sul, Paraná, Rio de Janeiro e Mato Grosso do Sul e não existe o que o Vereador Antonio Alves Pimentel quis apresentar. O próprio projeto de cotas que foi sancionado pela  Presidenta Dilma e aprovado pelo Congresso Nacional também não prever essa forma de acesso ao serviço público federal, como quis o  sábio Vereador  em tela.

Portanto,  posso dizer que foi mais um golpe sujo dado por quem não tem compromisso com a promoção da igualdade racial. Quantos projetos esse Vereador fez para combater o racismo e beneficiar o nosso povo negro? Até hoje desconheço se fez algum. Entretanto, quando é para nos prejudicar não faltam idéias absurdas como essa que o mesmo quis aprovar. A “Casa de Félix Araújo” que aprovou no ano passado a criação da Semana da Consciência Negra e de Ação Antiracista não poderia ter deixado esse fato escandaloso acontecer, pois foi  politicamente vergonhoso não ter aprovado um projeto de cotas que segui fielmente o que determina o projeto de cotas para  a raça negra no serviço público federal. Também é bom lembrar que o STF já garantiu a constitucionalidade das cotas para a nossa população negra nas universidades e no serviço público. Por que os Vereadores de Campina Grande não aprovaram o projeto de cotas para negros este ano?

Depois de seis meses de espera acreditávamos que o projeto poderia ser aprovado na quinta- feira, dia 18 de dezembro, visto que fizemos um ato público na terça -feira como forma de pressionar os Vereadores pela sua aprovação, assim como debatemos na imprensa o quanto era importante para a raça negra que o projeto de cotas fosse imediatamente debatido e aprovado. No entanto,  o projeto foi colocado na ordem do dia e só não foi para o plenário para ser votado e aprovado na sua íntegra por conta dessa  emenda absurda, o que fez com que o Vereador Napoleão Maracajá retirasse o seu projeto de cotas, por entender que essa emenda seria um verdadeiro retrocesso, caso o seu projeto fosse levado à plenário e a emenda ridícula fosse aprovada pelos demais Vereadores da “Casa de Félix Araújo”.

Fica aqui o nosso repúdio e a certeza de que de vamos continuar denunciando as manobras pouco higiênicas de quem   adora repetir os gestos políticos da casa grande, pensando que nós ficaríamos calados diante de mais uma manobra golpista e que entra para a história dessa  cidade como manobra de asno, para não dizer fascista!

Com  a palavra, a “Casa de Félix Araújo” de Campina Grande, cidade que virou um grande campo de concentração para sua juventude negra sob os olhos omissos e complacentes de sua classe política. E como diz o Ilê Aiyê de Salvador: “esse país aqui é feito por nós\ ninguém vai mudar\ nem calar nossa voz\ direito de ir e voltar, cidadão\ levante a bandeira do gueto negão”.

 

Autor: Jair Nguni- historiador e militante do Movimento Negro de Campina Grande.

 

 

out
1

Por Jair Nguni

Jair SilvaInternauta da Mangueira, Suburbia  e  Sexo e  as  Negas: como a Rede Globo gosta de fazer linchamento  da  imagem da mulher negra.

Estamos no centenário da escritora Carolina Maria de Jesus. Até agora não vi a Rede Globo debater em seus telejornais com a sociedade brasileira o valor literário e intelectual de uma mulher negra, favelada e que teve sua obra literária traduzida em 13 países no mundo. Parece-me que esse tipo de narrativa social e cultural da vida de personagens negras, personagens que marcaram de forma indelével nossa formação não tem importância midiática para quem representa tão bem o pensamento da burguesia racista brasileira.  A Rede Globo, na nossa concepção, nunca ofereceu espaço para o brasileiro conhecer nossas  escritoras  negras e seu potencial intelectual. Pelo contrário, o que assistimos sempre na sua grade de programação são apresentadoras euro-descendentes  nos seus  telejornais. São médicas brancas de classe média nos ensinando como cuidar da saúde como podemos encontrar no Programa Bem Estar e ainda várias apresentadoras loiras do tipo da Angélica, Ana Maria Braga e Xuxa.

É raro encontramos nessa empresa uma negra que seja convidada para ser comentarista de economia, política, ciência ou tecnologia, aliás, confesso que nunca vi uma negra fazendo esse papel na qualidade de comentarista.  A Globo poderia explicar esse caso de racismo explicito, visto que tanto nas novelas como nos programas jornalísticos, pode-se perceber claramente as desigualdades raciais nas oportunidades de trabalho oferecidas para a mulher negra nessa empresa de comunicação. Isso é tão  visível  para o senso comum,  que   qualquer pessoa poderá notar que somente a mulher branca pode ser a madame rica nas novelas,  pensadora, escritora, intelectual e empresária bem sucedida, sobrando apenas o espaço da favela, das periferias e carnaval para que essa mulher negra possa mostrar seu corpo e sensualidade. Para essa emissora de televisão, a mulher negra seria apenas um corpo sensual para ser explorado e abusado como se fosse uma mercadoria que se usa e depois é descartada.

Na programação dessa tv o padrão de  beleza europeu  sempre foi considerado o belo  e  esse modelo estético  foi   imposto para destruir o outro padrão de origem africana. Nesse sentido, a nossa beleza negra aparece diante dos olhos televisivos dos arautos da casa grande como algo que é feio. Portanto, se é feia a nossa estética negra como eles pensam. Essa imagem da mulher negra também  merece  ser  ridicularizada e aparecer na casa dos brasileiros para representar o  grotesco e o lado risível da televisão como podemos deduzir na boca banguela e acompanhada de um negrume extravagante naquele rosto do humorista global, que dizia nos sábados à noite: “eu sou a cara da riqueza”. Era dessa  forma  que  o Programa Zorra Total  fazia  seu linchamento público contra a imagem da mulher negra, através desse  nosso modelo racial  nojento e perverso, ou seja, o de fazer as pessoas  aprenderem  a  ser  racistas de  forma  lúdica, humilhando  o  nosso povo negro por meio de um quadro humorístico  como  esse que só interessava mesmo a  quem  queria  destruir nossa  autoestima.

Confesso, sinceramente, que não gosto de assistir nada do que a Globo faz quando se trata de representar no campo da ficção as mulheres negras, visto que percebemos que as práticas sexuais racistas do colonizador ainda estão por demais impregnadas nas mentalidades dos novelistas e produtores de minisséries, como essa que estamos assistindo agora. Não gosto por razões óbvias, já que a Globo é pródiga em fazer da mulher negra a eterna mucama nas suas novelas onde geralmente atrizes negras de talento, a rigor, sempre são obrigadas a serem as serviçais de madames brancas, bonitas e de classe média.  Léa Garcia, Chica Xavier e Ruth de Souza sabem muito bem de toda essa história de subalternidade na hierarquia racial dos novelistas dessa emissora de televisão. Todavia, a luta para tirar a mulher negra dessa forma de inferioridade social e racial também existe no Brasil, tendo em vista que a atriz Zezé Motta na sua carreira profissional já chegou a recusar papéis em que a mulher negra apareceria de forma negativa e  estereotipada.  Por que as mulheres negras só podem aparecer nas novelas, com a vassoura não mão e  lenço na cabeça?

É verdade que na novela “Da  Cor do Pecado” não vimos essa imagem racista da negra empregada doméstica. Entretanto, a atriz Taís Araújo era pobre e vendedora de raízes medicinais na cidade de São Luiz do Maranhão onde ela conhece um rapaz belo, branco e filho de um empresário carioca o ator Reynaldo Gianecchini, no papel de Paco. O racismo construído nessa representação social da mulher de origem africana é proposital e ainda reproduz o que a sociedade brasileira racista quer perpetuar, já que  na cabeça  do autor dessa novela  não  se pode aceitar  que  Preta, nome  da personagem protagonizada pela atriz Taís Araújo fosse a filha do Afonso Lambertini, um rico empresário interpretado por Lima Duarte e  Reynaldo Gianecchini  fosse o pobre e vendedor de raízes medicinais  de uma feira maranhense.  Assim sendo, o que fica também na cabeça do nosso povo brasileiro para quem assiste uma produção televisiva como essa é a idéia de branqueamento racial, uma vez que para a personagem Preta a solução para crescer socialmente na vida é se apaixonar por um rapaz da elite branca. Como podemos notar,  a Rede Globo já mostra qual o caminho social e racial que as nossas adolescentes e jovens negras pobres devem seguir e ter como horizonte de vida. A felicidade para a raça negra, nas entrelinhas dessa novela, é algo que só podemos encontrar se  for no mundo dos brancos bem sucedidos.

“Ela fugiu de uma infância marcada pela miséria.” Era assim que a Globo destilava o seu repertório de representações racistas e discriminações contra o corpo da mulher negra e sua imagem pública.  Refiro-me aquela minissérie Suburbia  em que  uma jovem negra e pobre, andando  de top e short minúsculos onde trabalhava  num posto de gasolina na cidade grande, chamando  atenção de rapazes pelo seu jeito de mulher gostosona.   A chamada que essa emissora de televisão em tela fazia para que as pessoas vissem a saga dessa personagem negra para obter audiência era horrível.  O pai dela com a cara de sofredor na condição de miserável, ao lado da mãe numa carvoaria. O cenário de desesperança era perfeito na sua intenção racista, já que essa minissérie continha uma grande violência simbólica por defender ideologicamente a noção de que onde há negros não existe progresso e desenvolvimento humanos, restando apenas como alternativa de vida para a menina Conceição virar  dançarina de funk  e depois empregada doméstica para superar  a  sua vida  miserável   como a  minissérie em tela trouxe  para  os telespectadores da Globo.

A  personagem  Suburbia  da  atriz Erika  Januza  poderia estudar de noite. Depois ela poderia trabalhar de dia em alguma grande universidade pública na condição de secretária e ainda terminar uma faculdade com muita luta e determinação como muitas mulheres negras fazem por esse Brasil afora, sem que fosse necessário  caminhar com um short  bem  curtinho enfiado  na bunda  para  dar audiência. Entretanto, a narrativa dignificante mencionada não interessa aos detratores da imagem do nosso povo negro.  Logo, ela é uma construção política minha, assumindo aqui a intenção clara de provocar a emissora para que ela não repita esse tipo de cenário em que a raça negra só pode parecer em papéis já pré determinados  pelo imaginário racista. Sim, Subúrbia  ainda foi na adolescência  presa pela polícia e acusada de roubo, o que lhe fez ganhar uma internação provisória na FEBEM. Por que a mulher negra tem que ter esse tipo de história retratada na televisão?

A personagem  Suburbia  ainda  tem  sua  cópia fiel nesse quesito voltado para a  destruição moral da imagem da mulher negra no Brasil. Quem não se lembra da minissérie  As Cariocas em que a única mulher que fazia bico como digitadora era a Internauta da Mangueira, personagem protagonizada pela atriz Cintia Rosa. Uma mulher negra que  morava no Morro da Mangueira   e  que deixou  de trabalhar para ficar traindo o marido na internet, usando apenas calcinha e sutiã na frente da tela de um computador.  Ora, quando  vi  a  Rede Globo  lançar a  minissérie  Sexo e  as Negas já sabia que o cenário da história tinha que ser parecido com suas últimas programações em que  a mulher negra foi protagonista, a exemplo da Internauta da Mangueira e  da  minissérie Suburbia.

As mulheres negras, na verdade, são sempre  jogadas para espaços urbanos marcados pela pobreza, prostituição, tráfico de drogas, violência sexual, luxúria e muita sensualidade. Logo, não me interessa saber desse tipo de história pobre de imaginação, simplificadora e reducionista da imagem da mulher negra, já que são temáticas entediantes, desumanizadoras  e  geralmente  contadas sob o ponto de vista do homem branco machista, racista e preconceituoso. A  Globo poderia ser mais inteligente e não subestimar a nossa população negra, achando que iríamos ficar calados diante de tamanha agressão racista  e degradação da imagem coletiva da mulher negra no mundo da ficção, visto que esse tipo de ataque a imagem das mulheres negras tem influências extremamente negativas na personalidade de cada cidadão deste país. Faço aqui a minha crítica a esse tipo de programa e, ao mesmo tempo, quero me solidarizar com todas as negras  que  repudiaram essa empresa,  escrevendo textos na internet contra a exibição da minissérie Sexo e as Negas.

Tentando limpar a merda que a emissora fez um cantor foi chamado ao  Programa Encontro  com Fátima Bernardes, para afirmar essa pérola: “nega é um carinho. Não é  preconceito”. Somente o cantor Carlinhos Brown faria esse papel para garantir seus lucros, já que o mesmo faz parte do  The   Voice  Brasil e, assim, tinha que dar  sua colaboração burra para essa classe dominante continuar fazendo esse tipo de minissérie racista, conservadora e machista. Aproveito esse debate, também, para repudiar a atitude da Faculdade Zumbi dos Palmares  que já convidou o  senhor  Miguel  Falabella para fazer parte do Troféu Raça Negra, tendo em vista que uma atitude como essa soa verdadeiramente como um insulto ao movimento de mulheres negras, além de ser  um  grande  desserviço a  todos nós que lutamos com dignidade contra o racismo. Tem muita coisa nebulosa por trás desse convite, uma vez que ele apareceu mesmo no meio das críticas que internautas e ativistas do movimento negro estão fazendo contra a  exibição dessa minissérie.

Assim, diante do exposto, temos que pensar e agir para mudar as relações raciais de opressão, democratizando os meios de comunicação para que as TVs contem histórias positivas da raça negra, incluindo aí nossas pautas de lutas antirracistas do movimento negro para que os operadores da comunicação televisiva, bem como os novelistas e diretores de minisséries de qualquer emissora de TV  possam nos respeitar. Nós negros e negras conscientes dos nossos direitos humanos e constitucionais temos o direito de ver outras narrativas, pois queremos assistir  na televisão brasileira as nossas atrizes negras fazendo o papel de médicas, de advogadas, de engenheiras, de professoras universitárias e de empresárias bem sucedidas também. Ou não existe mulher negra assim no Brasil, seu Miguel  Falabella?

Autor: Jair Nguni- historiador e ativista do Movimento Negro de Campina Grande-PB.

set
12

Por Jair Nguni

Jair SilvaDa “Conferência” de Promoção da Igualdade Racial  aos  150 anos de Campina Grande: desconstruindo um grande estelionato histórico e político.

Depois de muita luta junto à Secretaria de Educação de Campina Grande consegui obter informações valiosas sobre o relatório dessa  pseudo Conferência, que até hoje não trouxe igualdade racial por se tratar de um grande estelionato político vendido para a sociedade campinense. Eu já tinha ido umas três vezes atrás desse documento e sempre recebia uma desculpa esfarrapada  por  parte  da  SEDUC  para não ter acesso ao relatório. Mas, enfim, depois de tanto insistir com o poder público municipal acabei recebendo por  E- mail, o que o movimento negro independente e muitas pessoas já sabiam: a nossa população negra foi vítima de um grande estelionato histórico. Para chegar a essa constatação, tive que fazer uma leitura de certas propostas aprovadas  a toque de caixa por pessoas que estavam muito mais interessadas em barganhar vantagens pessoais do que propriamente em lutar por uma Campina Grande afirmativa e livre das desigualdades raciais.

Em primeiro lugar, nunca houve reunião preparatória com todo o conjunto do movimento negro, envolvendo aí umbandistas, candomblecistas, capoeiristas e outros segmentos da cultura afro campinense para se debater a realização da  I “Conferência” de Promoção da Igualdade Racial de Campina Grande. Por isso mesmo não podemos aceitar o que está até hoje no site da Prefeitura, dizendo que essa “Conferência” “teve o apoio do Movimento Negro de Campina Grande”. Na verdade, ela contou com o apoio de pessoas que interessavam politicamente para a oligarquia Cunha Lima e seus asseclas de plantão. Por outro lado, a pseudo Conferência também contou com a chancela vergonhosa de pessoas ligadas a um certo núcleo acadêmico da UEPB, um núcleo que ignorou  nosso movimento de luta contra o racismo do porte da  II Marcha Internacional Contra o Genocídio do Povo Negro, pois não vimos a presença de nenhum professor(a) universitário desse mesmo núcleo nessa  atividade em defesa da vida de nossa juventude negra. Como todo mundo sabe, Campina Grande é o vigésimo sexto município onde se mata mais jovens negros no Brasil, segundo o  Datasus do Ministério da Saúde. Cadê os integrantes do NEABÍ da Universidade Estadual da Paraíba  na marcha do  dia  22 de agosto?

Essa idéia de pegar o discurso acadêmico tinha um propósito bem definido. Foi mais uma estratégia politiqueira dos organizadores para dizer que ali estava acontecendo algo sério e com qualidade pedagógica. Assim sendo, temos por dever ético revelar a verdade e como integrante do ativismo negro independente defendo que não podemos de maneira alguma ficar calados diante das manobras sujas, que foram feitas para excluir quem poderia de fato fazer uma Conferência comprometida com as bandeiras de luta do Movimento Negro de Campina Grande e de toda a diversidade afro-brasileira. Eu e Ana Lúcia que representamos o real ativismo do movimento negro, sério, organizado e comprometido com a justiça social para nossa população negra não recebemos convite para fazer parte da comissão de organização ou de grupos de trabalho da I “Conferência” de Promoção da Igualdade Racial de Campina Grande. Qual o motivo dessa exclusão?

Sabemos perfeitamente qual o motivo dessa manobra excludente e carcomida feita pelos organizadores dessa grande farsa política, que foi protagonizada pela oligarquia Cunha Lima que administra a Prefeitura de nossa cidade, mas que contou com o apoio de quem  hoje faz parte do Comitê do Juventude Viva, comitê este, que foi montado de forma sorrateira pelo fato de ter sido imposto de forma autoritária  e sem nenhum debate com a sociedade civil, sobretudo com os movimentos juvenis da nossa cidade. O genocídio da juventude negra não pode servir de  moeda política para quem quer emprego público. Mas, infelizmente, é isso que vem acontecendo no seio de boa parte da militância do movimento negro em vários estados e municípios do Brasil.

Nós do movimento negro independente não iríamos aceitar barganhas nebulosas com o poder público municipal para fazer  parte do Comitê do Juventude Viva de Campina Grande. Também jamais iríamos fazer uma “Conferência” com meia dúzia de pessoas, comprometidas  na  sua   grande maioria com o projeto político do governo  do  PSDB. A União  dos  Capoeiras  do Planalto da Borborema, por exemplo, é uma entidade cooptada e que tem feito o jogo da omissão vergonhosa nesse cenário, visto que sua direção não cobra da  Prefeitura as  propostas que foram aprovadas na pseudo Conferência, além de ignorar  várias ações de combate ao racismo pensadas pelo  movimento negro independente. No entanto, cabe perguntarmos o que essa entidade tem feito para  combater o descumprimento das Leis 10.639\03  e 11.645\08 no município? O que essa instituição tem feito para tirar do papel as propostas, que foram aprovadas na  pseudo Conferência de Promoção da Igualdade Racial ?

Depois de mais de um  ano  de realização dessa “Conferência” que foi realizada na surdina e de forma sorrateira, percebe-se que ela  não trouxe nenhum  avanço em termos de desenvolvimento social, cultural e econômico  para a nossa população negra, apesar de toda propaganda mirabolante, enganosa e muito bem articulada pela Secretaria de Educação para dizer que tal evento traria  a redenção para nosso povo negro em matéria de políticas afirmativas.  Essa mesma  Secretaria  no ano passado, diga-se de passagem, já tinha tratado com total indiferença e descaso o Agosto Negro de Campina Grande, pois passei meses lutando para que o Projeto Agosto Para a Igualdade Racial recebesse o devido apoio  por parte da Prefeitura. Entretanto, a SEDUC  que andou  na imprensa com a promessa de efetivar a Lei 10.639\03 e que não cumpriu com sua palavra, também não quis contratar a professora e Diretora do Instituto de Pesquisas e Estudos Afro brasileiros  Elisa Larkin Nascimento para palestrar no  Agosto  Para a Igualdade Racial. Detalhe: todo esse boicote imundo organizado pela Prefeitura contou com o apoio pouco higiênico de representantes de um certo tipo de ativismo negro cooptado, geralmente ávido para ganhar as migalhas do grupo Cunha Lima, atual grupo político que domina a Prefeitura de Campina Grande  e  que vem tentando  de todas as formas destruir o Agosto Negro de nossa cidade. Este ano não tivemos apoio da SEJEL- Secretaria de Esportes, Juventude e Lazer e ainda fomos tratados com descaso pela Secretaria de Cultura dessa mesma Prefeitura. O que todo esse boicote tem a ver com as propostas aprovadas nessa “Conferência”?

Quando  você vai  ler  as  propostas  que foram debatidas e aprovadas pelo poder público municipal, bem como pelos integrantes da I “Conferência” de Promoção da Igualdade Racial, tem uma que propõe ao poder público apoiar entidades que lutam no campo da educação contra o racismo. Vou reproduzir literalmente o que diz a proposta do relatório:  “assegurar apoio institucional as entidades que desenvolvem projetos em educação étnico-racial no município de Campina Grande.” É exatamente isso que temos que denominar de estelionato histórico e político, tendo em vista que essa proposta como diversas outras não vem sendo cumpridas. Podemos citar várias outras propostas que jamais saíram do papel, tais como: a Secretaria ou Coordenadoria de Promoção da Igualdade Racial de Campina Grande, construção de programas de atenção a saúde da população negra na questão do combate à anemia falciforme e ainda a promoção de campanhas permanentes contra o preconceito e discriminação racial, além da construção  de  políticas públicas voltadas para a inclusão social das mulheres negras e empoderamento da juventude negra  nas periferias. Até hoje, a sociedade campinense, bem como a  população negra explorada, oprimida e marginalizada esperam ansiosamente pela concretização de tais propostas que foram aprovadas, mas que não estão sendo executadas por pura falta de vontade política.

Esse estelionato histórico e político fica  mais evidente quando analisamos as investidas da Prefeitura contra a realização do  Agosto Negro de Campina Grande, tendo em vista que o único Seminário da nossa cidade que vem debatendo anualmente fora das instituições acadêmicas as Leis 10.639\03 e 11.645\08, assim como o genocídio do povo negro é o Agosto Para a Igualdade Racial. Por esse seminário já passaram personalidades negras de renome nacional, a exemplo da educadora do Ilê Aiyê e Doutora em Educação Ana Célia da Silva e do Presidente do Olodum João Jorge Santos Rodrigues. A quem interessa destruir um projeto como esse? Só interessa mesmo a quem vem boicotando e fazendo de tudo para que essa experiência  quilombista deixe de existir. No entanto, saibam que nós do movimento negro independe não vamos deixar isso acontecer, uma vez que temos aliados e aliadas fortes nessa luta contra o racismo e contamos ainda com a solidariedade de instituições do movimento negro que tem respeito pela nossa digna, corajosa e ousada história de luta contra o racismo. A vinda para Campina Grande da professora e histórica militante do movimento negro do Mato Grosso do Sul  Raimunda Luzia de Brito, tem que ser vista  como uma demonstração de nossa capacidade de mobilização, articulação e força política. Como também a presença iluminada da extraordinária estudiosa das africanidades Elisa Larkin Nascimento, na terceira edição do Agosto Para a Igualdade Racial deste ano.

 

Sabemos, é claro, o quanto sofremos e o quanto foi duro e gratificante para nós que fazemos  militância com dignidade política fazer o III Agosto Para a Igualdade Racial. Sabemos, sim, ainda nesse contexto de luta e resistência negra na diáspora que pudemos contar com a coragem guerreira, espírito de abnegação e comportamento exemplar de luta anti-racista de Ana Lúcia Sales, que foi e tem sido ao longo da existência social do Movimento Negro de Campina Grande uma  Nzinga  na realização do Agosto Para a igualdade Racial e da própria II Marcha Internacional Contra o Genocídio do Povo Negro. Sem o trabalho de Ana Lúcia, em síntese, jamais teríamos o Agosto Negro  com essa dimensão cultural e intelectual.

Portanto, o Agosto Negro é realmente  uma realização inovadora para combater quem não inovou nada nas relações raciais por aqui. Nesse sentido, o nosso Black August de inspiração negra americana aparece como modelo de luta para descolonizar  a cultura política  de uma cidade onde impera a vontade coronelista  de quem acha que pode deixar o povo negro sem vez e voz, além de historicamente invisíveis. Temos, sim, um propósito muito claro nessa luta contra o racismo por aqui, ou seja, de acabar com o genocídio da juventude negra nas periferias e ainda lutar por um lugar social de dignidade na história do nosso município, já que não queremos ser meros expectadores das comemorações  em torno dos 150 anos  de  emancipação política  de Campina Grande como pretende a elite política e racista  dessa cidade.  A estratégia política de não incluir a raça negra e seus representantes como protagonistas nesse debate em torno do sesquicentenário,  apenas  foi mais uma ação equivocada  de  quem administra o poder por aqui   para  reatualizar  o  processo histórico de exclusão e marginalização  da população negra como fizeram  no ano de 64, ano do Centenário  de emancipação política de Campina Grande. Logo essa  comissão montada  pelo Prefeito Romero Rodrigues não pode  ter  legitimidade para o movimento negro, visto que quem quer  debater e propor projetos em comemoração ao Sesquicentenário de Campina Grande não poderia reforçar as desigualdades raciais no plano das subjetividades. Só  que a  Comissão do Sesquicentenário e suas  sub comissões assumiram essa posição neo colonialista, pois elas  não tem a voz dos movimentos negros e de toda sua diversidade afro-brasileira  para  debater com a sociedade a nossa própria história e contribuições sociais, culturais e históricas  da raça negra  para o desenvolvimento da  nossa cidade,  o que é inaceitável sob o ponto de vista da ética, visto que somos mais de 54% da população campinense juntando negros e pardos. Como fazer uma comissão sem a maioria de seu povo? Não seria  essa  exclusão mais uma forma de  invisibilizar  a raça negra na construção histórica  da cidade?

O  monumento “Pioneiros da Borborema” foi construído para preservar  a memória dos índios  e dos tropeiros da Borborema, segundo o blog Retalhos Históricos de Campina Grande. É absolutamente repugnante perceber que hoje  a Prefeitura municipal repete os erros racistas do passado de quem pensou em organizar o Centenário de Campina, já que no ano de 1964 nossa cidade completava 100 anos de emancipação política e como presente a raça negra,  notadamente o africano foi esquecido deliberadamente  na construção do monumento dedicado aos “Pioneiros da Borborema.” Esse racismo no campo simbólico também pode ser notado na composição do Hino de Campina Grande, pois  na  sua letra musical  aparece  termos como “ilustres varões” e “índios valentes”, mas nenhuma referência é feita para homenagear os negros que lutaram contra a escravidão no Levante dos Escravos, Ronco da Abelha e Revolta do Quebra – Quilos, no século XIX.

Agora, a elite  supostamente branca dessa cidade quer pensar por nós negros e negras, criando um monumento arquitetônico para homenagear a raça negra e sua participação nos 150 anos de emancipação política  do nosso  município.  Quem disse que precisamos de monumento? Fazer isso pensando por nós e subestimar a nossa capacidade intelectual de influenciar nos rumos da vida social e cultural do nosso povo negro, pois, até hoje nunca fomos ouvidos  para dizer se queremos  um monumento para marcar a nossa presença na paisagem urbana, arquitetônica e racista de Campina. E, por outro lado, ainda  penso  que essa atitude da comissão só reforça o racismo institucional e essa mania que a elite branca desse país tem de impedir o negro de ser sujeito de sua própria  história. Até o local de construção do monumento já pensaram,  já que tem gente do poder público dizendo por aí que poderá ser no Parque  Bodocongó  ou numa praça em frente ao prédio da FIEP- Federação  das Indústrias da Paraíba. Entretanto, já que querem impor ao povo negro a construção de um monumento arquitetônico sem nos ouvir. Deixo aqui como proposta a construção de  um monumento que saia das mãos de um artista negro ou negra.  Que esse monumento seja erguido para fazer uma digna e honrosa homenagem para o poeta, escritor, teatrólogo e compositor negro Arnaldo França Xavier  pelo fato desse intelectual  campinense  ter  doado boa parte de sua vida à  luta contra o racismo, mas que nunca conseguiu em vida receber reconhecimento da sociedade campinense, de sua classe política, intelectual ou de algum  integrante dessa tal “comissão de notáveis” do Sesquicentenário de Campina Grande. Será que vão acatar essa minha proposta?

Se querem “cuidar” de nossa memória histórica, o poder público precisa deixar de hipocrisia, demagogia, de vender tantas mentiras políticas para a sociedade e  começar de fato a trabalhar e agir logo em defesa da memória da população negra daqui. No pós  abolição, a nossa sociedade conheceu o processo de resistência cultural negra através do Clube dos Cabindas  no qual os negros Manoel Maria, Chico Congo e José Congo construíram seus espaços de sociabilidade para brincar no carnaval ao som de ganzás e bombos. Também encontramos  no bairro do Alto Branco um lugar de resistência afro-campinense, criado no dia 13 de maio de 1926,   como espaço de lazer para a raça negra, uma vez que nos clubes da elite branca e racista de Campina Grande não podíamos brincar nos bailes, a exemplo do Campinense Clube fundado no ano de 1915. Certamente, outra prova histórica de que esse clube social nasce no seio da comunidade afro-campinense, pode ser vista através de uma fotografia do time de futebol do Ypiranga no blog Retalhos Históricos de Campina Grande onde podemos notar  claramente a presença de muitos jogadores  pretos. Essa foto do ano de 1933, vale frisar, que ela vem acompanhada de uma entrevista do ex- goleiro Lula, dizendo que o Ypiranga era conhecido como o “time dos negros”, formado  na sua grande maioria por  agricultores e mecânicos.

Como proposta comecem a fazer projetos no campo da educação patrimonial para  contar ao  nosso povo toda essa história acima mencionada. Comecem a trabalhar para restaurar o Clube Ypiranga, visto que esse verdadeiro patrimônio  de mais de 88 anos está deteriorado, precisando urgentemente ser tombado pelo IPHAEP e ser preservado  e  divulgado como patrimônio cultural e histórico do nosso povo negro.  A orquestra de negros que tocava nos anos 50 nessa entidade negra, com certeza, surge como uma marca singular no campo histórico do nosso poder de resistência para ter direito ao lazer e cultura. Acreditamos que a sociedade campinense não sabe dessa memória negra e seu povo negro também. Assim, toda essa história de resistência cultural fica esquecida e ocultada como o racismo quer e deseja, quando, na verdade, deveria ser preservada e contada em livros e cartilhas, não só para os alunos e alunas da Rede Municipal de ensino, bem como para que a comunidade negra possa ter referências positivas de sua história e a sociedade uma compreensão mais ampla da dinâmica de luta contra o racismo do negro por aqui. Por que a comissão do Sesquicentenário não pensou em trazer toda essa memória do negro para as escolas, ruas, praças públicas e bairros da periferia de Campina Grande?

Mais do que monumento de pedra, concreto ou de metal Campina Grande precisa é de cidadania plena para sua raça negra, visto que  na nossa “Rainha da Borborema” a violência  tem cor, idade e território como demonstra o Mapa da Violência de 2014: em nossa cidade, no ano de 2010,  122 jovens negros foram brutalmente assassinados.  No ano de 2011, foram mortos 107 jovens negros, sendo que em 2012, 109  jovens  negros perderam suas vidas. Precisamos, diante desse quadro alarmante, salvar as vidas de jovens negros que morrem  nas periferias justamente por falta de emprego, educação de qualidade e  lazer. Só que na terra onde reina a oligarquia Cunha Lima não se gasta absolutamente nada para  salvar essas  vidas  de  nossa juventude negra  empobrecida e marginalizada, visto que a prioridade  tem sido a construção de um memorial em  homenagem aos 150 ano de emancipação política de nossa cidade  e  que vai custar um milhão e trezentos mil reais, com recursos próprios da Prefeitura.  Se o poder público municipal  quer  fazer alguma  reparação histórica  para que a sociedade reconheça o valor social e histórico da raça negra. Ora é só botar no calendário oficial  de eventos o Agosto Para a Igualdade Racial e começar a colocar em prática as 14 propostas que o comitê da II Marcha Internacional Contra o Genocídio do Povo Negro lhe entregou por meio de um documento.

O Agosto Negro, caso essa proposta fosse consolidada, seria uma ação política extremamente positiva para livrar  essa  sociedade do  racismo desumano e cruel, assim como poderia servir muito bem para africanizar Campina, tornando- a  mais inclusiva, justa, humana, democrática e  empoderada  do ponto de vista cultural para quem mora nas periferias, como é o caso da nossa juventude negra, geralmente  esquecida por quem administra o poder público. Por que Campina Grande não faz um parque da criança no bairro do Jeremias nos 150 anos de nossa cidade? Por que nossa cidade não constrói um parque da juventude negra no bairro da Ramadinha, com teatros, cinemas, museus, bibliotecas públicas e equipamentos culturais e esportivos de qualidade?

Finalmente, avisamos para os detratores da nossa história e maculadores da nossa imagem que qualquer tentativa de querer destruir os ideais civilizatórios africanos que plantamos  nessa cidade de maioria negra e parda. Acredito eu  que será em vão. Até porque, quem carrega o escudo de Ogum e o martelo da justiça de Xangô sabe o quanto vale apena lutar contra o racismo em Campina Grande, sem jamais vender sua história de luta verdadeiramente  Pan africanista aos podres poderes dessa cidade, chamada  mentirosamente de “cidade da inovação” pelo grupo político Cunha Lima. Saberá, enfim, que não vamos desistir tão fácil de manter com altivez o Agosto Para a Igualdade Racial orgulhosamente de pé!

 

 

Autor: Jair Nguni- historiador e  militante do  Movimento Negro de Campina Grande.

jun
6

Por Marcos Resende

marcos resendePorque ocupar Brasília no dia 10 de junho.

Todos os dias, quando um dos nossos é agredido por “filho do capeta”, nós morremos. Em cada ação arquivada nos Juizados Especiais Brasil à fora, quando juízes ou conciliadores não reconhecem a intolerância religiosa contra nossos ancestrais como violação a um direito fundamental, nós morremos. Todos os dias, quando traficantes proíbem que usemos nossos fios de contas e guias nas favelas e periferias, nós morremos. Mas, mesmo esta morte simbólica, ainda parece muito pouco. 

Conforme vocês poderão conferir, nas reportagens anexadas a esta carta, vinte e dois sacerdotes de matriz afro-brasileira foram assassinados nos últimos nove anos. 15 deles apenas no estado do Amazonas. Pode parecer um número pequeno, mas se considerarmos que, segundo o Censo 2000, os candomblecistas e umbandistas somam 0,8% da população brasileira, a impressão que temos é que algo de muito ruim está acontecendo conosco. Quando pensamos que esses casos são os únicos que conseguimos ter acesso, porque publicados pela imprensa, ficamos com a sensação de que eles podem ser muito mais… Principalmente porque crimes de intolerância religiosa sequer são notificados como tal – seja pelas Polícias ou pelo Poder Judiciário. Para o Brasil, candomblecistas e umbandistas são invisíveis… tanto que um magistrado, sem nenhum prurido, se recusou a liberar uma medida liminar pedida pelo Ministério Público Federal porque não nos considera como religião.

Realmente somos muito poucos. Alguns pesquisadores mais otimistas, ao incluírem os espíritas na contagem do Censo, chegam a 1,7% do total de cidadãos deste país. Isso, transformado em números não soma mais de dois milhões de pessoas. Assistimos todos os dias um dos nossos perder um emprego, sofrer uma violência verbal, ter o terreiro incendiado, perder a guarda de um filho na Justiça… tudo porque o Candomblé e a Umbanda são religiões minoritárias, que jamais foram curral eleitoral de políticos, e que atuam sob a lógica da ancestralidade – que nos permite pensar uma unicidade diversa.

Por todos esses motivos, e por mais alguns que nos escapam – sabemos que as escolas expulsam nossas crianças, os hospitais não atendem nossos filhos e até mesmo nossos vizinhos se sentem incomodados com os sons dos nossos atabaques (mesmo que toquemos de dia, respeitando a Lei do Silêncio) – é que precisamos mostrar ao Brasil quem somos.

Ocupar a Praça dos Três Poderes em 10 de junho não é pedir clemência, muito menos favor aos deputados, senadores e ministros. É exigir que o Estado brasileiro cumpra os acordos internacionais de proteção aos povos de matrizes africanas e que nos garanta os direitos constitucionais previstos como cláusulas pétreas de livre expressão religiosa e de direitos invioláveis como de crença e de consciência.

Estaremos todos juntos com o povo da Casa Branca, do Tumba Junsara, do Bogum, do Gantois, do Oxumarê, do Alaketu, do Tumba Junsara, do Omiojuaro, do Opo Afonjá, Bogun, Opo Afonjá, do Movimento Umbanda do Amanhã e de tantos outros que virão. Ir à Brasília para ocupar o Congresso Nacional é dever de todo aquele que carrega um adoso ou que foi confirmado para servir os nossos ancestrais.

 

Nós somos povo do santo, somos religiosos do Candomblé e da Umbanda, somos afro-brasileiros.

mai
29

Por Jaime Sodré

Jaime SodréVozes D’África

A África clama por um novo olhar. “Mulheres Africanas – A Rede Invisível” é um filme de Carlos Nascimbeni, que aborda 5 mulheres marcantes na história deste continente: Luiza Diogo ressalta a presença feminina na definição da agenda nacional; Graça Machel ex-ministra da Educação de Moçambique, destaca que a presença feminina já atingiu a uma massa crítica, faltando visibilidade; Sara Masasi conta como saiu da invisibilidade na Tanzânia mulçumana como empresária de sucesso; Leymam Gbowee Prêmio Nobel, atuante pela paz na guerra civil da Libéria; Nadine Gordimer escritora, vencedora do Nobel, argumenta da impossibilidade de falar de uma cultura africana única.

Luiza Diogo primeira-ministra entre 2004 a 2010 diz que a mulher luta principalmente pela segurança alimentar, o trabalho da mulher africana na zona rural é extremamente duro, “imagine uma mulher de vários braços”, comenta. Para Luiza a mulher está a construir uma agenda do desenvolvimento do país, por isso investir nas mulheres é importante.

Graça Machel, ministra da Educação e Cultura entre 1975 a 1989 em Moçambique, chama a atenção para as transformações que as mulheres africanas têm revelado: “já há uma massa crítica no ambiente das mulheres africanas, em particular as jovens, altamente qualificadas, que exercem funções de grande responsabilidade, mas não tem havido um sistema que lhe permita ter visibilidade”.

Sara Masasi da Tanzânia, é líder empresarial, e diz: “quando se tem um negócio você precisa pensar, por que você não quer perder”; deve-se desfilar na avenida do sucesso que não se chega sem planejar. “Adoro trabalhar, os desafios me tornou a pessoa que sou”, era a única africana a frequentar  uma escola europeia. Atua no mercado de placas para automóveis.

Carmeliza Rosário é antropóloga de Moçambique e assim se manifesta: “Não creio que a humanidade tenha se desenvolvido sem a existência da mulher… são elas que ficam grávidas, geram os filhos”, mas chama a atenção de que todos são importantes de alguma maneira. Alega que é preciso ter respeito pela África, afinal “somos o berço da humanidade”.

Nadine Gordimer, da África do Sul, branca, com Prêmio Nobel de Literatura, ressalta que o continente africano é enorme, sendo impossível falar a respeito de uma cultura unificada, porém as mulheres desempenharam um papel subjetivo, até os dias de hoje há problemas de lidar com pessoas que vendem suas filhas de 14 ou 15 anos para homens mais velhos. A mulher negra tem que lutar contra isso, conclama.

Para Graça Machel nos últimos dez anos o continente africano fez progresso quanto ao acesso das “raparigas” à educação, muitas no primário, mas o desafio é a passagem do primário para o secundário e ainda maior deste para o “terciário”. Lembra que existe uma grave evasão da terceira para a quarta, quando a comunidade acredita que a menina está pronta para casar, ela afirma que as tradições não são estáticas e acredita em mudanças.

Leymam Gbowee é uma personagem carismática, nascida na Libéria, Prêmio Nobel da Paz. A guerra civil na Libéria matou cerca de 200 mil pessoas, foram cometidas atrocidades por soldados de ambos os lados, milhares fugiram e Gbowee viveu em campos de refugiados  em Gana. De 1909 a 2003 foram os anos mais cruéis, grupos inteiros foram dizimados, mulheres estupradas e alguns soldados diziam que suas genitálias eram boas demais para violentar as mulheres, por isso usavam facões na genitália feminina.

Quando vieram as conversações de paz elas tiveram grande esperança, mas as discussões   giravam em torno de quem iria controlar as minas de diamantes,  em revolta Gbowee e suas amigas bloquearam a saída do prédio, o segurança quis prendê-la, mas ela ameaçou tirar a roupa e disse: “a minha nudez será em protesto contra a miséria”, duas semanas depois o acordo de paz foi assinado.

Luiza Diogo afirmou que “o substrato do funcionamento deste continente está nas mãos das mulheres, é aquele ditado que diz, a mulher sustenta metade do céu… mas se um dia ela largar, tudo rui”. Que continuem a sustentar!

 

Jaime Sodré é historiador, escritor, doutorando em História Social, PhD em História da Cultura Negra, professor da Universidade do Estado da Bahia (UNEB) e do Centro Federal de Educação Tecnológica da Bahia (CEFET/BA).

 

Governo da Bahia               ©2017 | IRDEB - Instituto de Radiodifusão Educativa da Bahia. SECOM - Secretaria de Comunicação Social