IRDEB - Instituto de Radiodifusão Educativa da Bahia
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Papo de Criol@

mai
7

Contra os bôeres da Bahia

Por Jair Nguni

 

Amandla Ngawethu!

Matlha Ke A Rona!

Quero ver negro cantar

Contra os bôeres da Bahia

Que o coral negro é seu canto de redenção

Pra Salvador se encantar com a nossa mais pura resistência

E avante é muntuala, avante avatar

Ashanti da raça negra

Ijexá é pra dançar

Ilê, filho da África sudanesa

Seu canto é um negro encanto sem fim

Canto que me faz chorar e sorrir

Todas as vezes quando te vejo sair do Curuzu

Subindo a ladeira de cabeça erguida.

Para o nosso povo altivo e guerreiro

Ilê és a nossa nova resistência Zulu

Bravo brado, nossa kilombola Curuzu

Mãe Preta, Mãe Hilda, fonte de luz rara

A senhora me ensinou a beber das águas claras

Águas lindas e douradas dessa bela Oxum

É que seu sorriso negro fez esse céu ficar inteiramente azul

Como fez o riso daquela Deusa do Ébano

Céu da antiga resistência bantu

Que o Ilê trouxe lá das Acotirenes de Palmares

Ilê, navegar pelos teus mares

É cantar essa nova resistência zulu

Pra nossa negra gente dos becos

Favelas, vielas e mocambos da América do Sul

E pra essa alegre e triste Soweto

Que hoje chamamos de Salvador

Cantamos e choramos pra te ver feliz

Nessa cidade de tanta dor e grandes pedras brancas

Ainda vejo tranças de crianças e jovens que orgulhosamente e fortemente balançam

Ao som de um baticum dengoso

Vejo o nosso orgulho negro baiano, altivo, soberano e poderoso

Nesse oceano de negritude vamos sempre lutar e persistir

Contra o racismo rude de Salvador

Orgulhosamente negro vou te seduzir

Pois o Ilê existe há tantas primaveras

Para semear escudos de ogum

Apesar de você doutor me oprimir nas favelas, becos e mocambos dessa cidade

E pra quem assiste a Banda Erê batucar

Pra quem não resiste quando vê o Ilê passar

Vou com o povo negro abrindo alas

Vou de mãos dadas e para onde reina tantas Candaces

Vou com você Ilê cantar na linda Senzala

Com tambores em cores de flores

Suor, alegria, lágrimas e dores

Tudo vai virar poder negro se Deus quiser

Vai pra quem também só assiste e nada faz

Venha conosco mudar a face dessa terra

Pois meu canto é de paz, é de guerra

Ilê Aiyê são negros e negras de baobás

Realeza negra, mundo negro de tanta beleza

São filhos da África sudanesa

Esse Ilê Shaka que luta contra os novos bôeres da Bahia

Somos guerreiro de baobás da alegria

Para florir a liberdade de mais liberdade e igualdade

É que o Ilê é nova resistência Zulu

São Ngunis da liberdade

Canta aí meu Curuzu quilombista

Que Dingane canta lá do céu azul

E Bambaata vem no meu peito dizer

Que o Ilê é shosa no meu terreiro kilombola

É nova resistência Zulu

É um orgulho que canta a história da Azânia

Pra não dizer África do sul

Diz o saber do Ilê Aiyê

Canta aí meu Curuzu

Mas levante daí

Que eu vou me levantar daqui

Que Bambaata não foi o último levante

A Liberdade é nosso grande império Zulu!

abr
25

OLODUM, O NEGRO E A HISTÓRIA

Por Jair Silva

Particularmente, as letras e as canções da Banda Reggae Olodum sempre me fascinaram, sobretudo pela maneira simples e inteligente de combater o racismo, resgatando as múltiplas contribuições históricas e culturais dos agentes sociais excluídos pela historiografia eurocêntrica e oficial, do Brasil.

Na verdade, como diz uma das letras musicais do Movimento Negro Olodum – A Força dos Deuses: “Salve Olodum Historiador”. Partindo dessa perspectiva crítica ao afirmar ser conhecedor da história, evidentemente que o Olodum produz para o mundo uma história engajada, cujo objetivo é a recuperação da identidade do negro no Brasil, já que as referências históricas positivas da população negra e mestiça são sistematicamente excluídas da cultura histórica ocidental, pois apagar a memória do nosso povo negro sempre foi uma estratégia cruel e bem sucedida das elites intelectuais eurocentristas e isso acaba sendo, a nosso ver, uma forma ideológica e política de querer dominar a raça negra através de um modelo de educação brancocentrado. Por isso mesmo que o Olodum não aceita ser vítima e faz do sujeito negro protagonista de sua própria história ao se contrapor a certas narrativas alienantes e voltadas para destruir a auto-estima do povo negro. Vejamos o que diz o vulcão africano do pelô: “Simplesmente ensinando consciente\ Abalando a estrutura mundial\ Núbia, Axum, Etiópia resistente\ União poderosa e cultural\ Olodum revela a comunidade\ História que o opressor sempre ocultou\ Menelique II venceu a batalha\ Travada em Adúa, África negra\Expulsando italianos de Axum\ Livrando-a do colonizador.”

Ora, é absolutamente fundamental que as comunidades negras saibam desse fato histórico. Saibam que a história não se faz apenas a partir do olhar etnocêntrico e racista do colonizador e seus apologistas na contemporaneidade, visto que os africanos mesmo lutando em condições adversas durante toda história da escravidão brasileira e mundial, na verdade, sempre praticaram diversas estratégias e variadas formas de lutas e revoltas políticas contra as classes dominantes internas e externas do Brasil. Nas canções do Olodum, também, podemos encontrar referências ao movimento de Canudos em que o negro Antônio  Conselheiro é chamado de Presidente.

Infelizmente, só recentemente para a História é que o Estado brasileiro vem assumindo publicamente que a escola brasileira é racista e que os livros didáticos contribuíram historicamente para criar uma noção conservadora e embranquecedora através de uma imagem racial na qual brancos bonzinhos se cruzavam com negros e índios, de acordo com o mito da Casa Grande e Senzala construído pelo sociólogo Gilberto Freire, mito este, que serviu como ideologia oficial durante toda a vigência da ditadura militar em nosso país para ocultar as relações de exclusão social, violência, pobreza e marginalização enfrentados até hoje pela nossa população negra. Lógico que aquela visão de paraíso e harmonia racial que ainda sobrevive é algo falso e sem fundamentos no discurso dos movimentos negros como nos mostra o Olodum ao cantar a resistência negra durante a chamada Revolta dos Alfaiates, visto que a comunidade negra do Maciel, Pelourinho, aprendeu que quatro negros tiveram que pagar com as suas próprias vidas em busca de liberdade, igualdade e justiça social. Portanto, a luta do Olodum para retirar do anonimato dos livros de História  e do esquecimento da memória nacional personagens dignos como João de Deus, Manuel Faustino, Luís Gonzaga das Virgens e Lucas Dantas para depois fazê-los heróis da Pátria triunfou para  felicidade de todos nós que lutamos contra o racismo no campo da produção do conhecimento histórico, uma vez que no ano passado, depois de muita luta política do Abdias Nascimento e do Deputado Federal Luiz Alberto, o Brasil foi obrigado a reconhecer a importância histórica desse episódio ainda pouco debatido na sociedade e pouco falado nas escolas.

Apesar de ter sido tão “castigante” como diz o Olodum para os quatro negros que foram enforcados no século XVIII em Salvador. Tenho plena certeza que esse exemplo de luta não foi em vão, tendo em vista que numa comunidade pobre e excluída das políticas públicas em muitos aspectos e que teve a sua face transformada pelo trabalho social e edificante desse “pujante lutador e místico movimento negro em Salvador,” onde “negros conscientizados também tocam no pelô”. A comunidade negra do pelourinho orgulha-se do seu filho mais ilustre, justamente por saber que “para obter o reinado é preciso lutar\ Com esforço e dinamismo\ O Olodum vem saudar \ Foi um ato marcante que aconteceu em Salvador\ Foi a Revolta dos Búzios\ João de Deus\ Maciel e pelô”. Ora, esse passado aqui relatado é pura aula de consciência negra, além de ser um grito político de alerta no presente para continuar a resistência negra em busca de uma vida melhor para todos(as) que ali moram. Ou que para ser um pleno cidadão em um bairro onde o Olodum conseguiu unir muitos de seus moradores(as) em laços de confraternidade é ter que conquistar os seus direitos na luta como os quatro negros enforcados da Revolta dos Búzios tentaram conquistar com muita ousadia, coragem e determinação em pleno regime escravista. Salvador tem o pior índice de desemprego entre negros no Brasil e nos shoppings muitos negros e negras só são recrutados para fazer serviços gerais e pra cozinhar.

Portanto, na minha visão de historiador, creio que toda escola era para utilizar esses símbolos de luta que o Olodum sabiamente revela de forma bem didática e objetiva nas suas belas canções. Logo, vejo que é imprescindível para nós educadores e educadoras a busca desse tipo de experiência musical, já que o resgate dessa  literatura crítica e transformadora só tem a contribuir para o desenvolvimento do senso crítico dos nossos alunos e professores, assim como  para positivar a identidade do negro(a) brasileiro. Não foi à toa que o grande e genial poeta, cantor, compositor, jornalista e multi-instrumentista Chico César, disse: “Quando mama sai de casa\  Seus filhos se olodunzam\  Rola maior jazz.”

Trazer o Olodum para a sala de aula, em síntese, pode ajudar e muito a nossa luta para tirar do papel a Lei 11.645\08 e, por conseguinte, colaborar para acabar com essa cultura racista impregnada nas nossas crianças e professores, obviamente repensando toda essa história eurocêntrica que se tornou hegemônica no currículo escolar, pois como diz o Olodum: “O mar  da história é agitado”.

Jair Silva- Historiador e ativista do Movimento Negro de Campina Grande

mar
11

Por Jair Nguni

Jair SilvaCâmara Municipal de Vereadores de Campina Grande mata Zumbi dos Palmares.

Se tem uma pessoa que conhece os erros, as omissões e falta de respeito desse poder legislativo com as reivindicações do movimento negro, acredito  que essa pessoa sou eu. A “Casa de Felix Araújo”, como é conhecida por aqui, carrega um histórico de descaso e desprezo em relação à qualquer iniciativa do MNCG, cujo objetivo seja combater o racismo em nossa sociedade campinense. Posso citar como prova desse descaso  o que aconteceu com o projeto do ex-Vereador Cícero Nascimento  e que não mereceu atenção  na sua execução por parte de nenhum Prefeito, no início dos anos noventa.

Esse projeto instituía, no Município de Campina Grande, a disciplina História do Negro e do Índio, na rede municipal de educação. Entretanto, por falta de fiscalização e cobranças dos Vereadores junto ao poder executivo, essa iniciativa caiu no esquecimento. A mesma coisa aconteceu com o projeto do atual Prefeito de Campina Grande – o senhor Romero Rodrigues, autor do  Projeto de Lei 3.565\07 voltado para a realização da Semana da Consciência Negra nas escolas mantidas pela Prefeitura. O ex-Prefeito Cássio Cunha Lima, na época, nunca quis botar em prática o que seu primo fez e essa  triste constatação me levou a lutar para que essa Lei  não virasse letra morta. Para tanto, chamei o Grupo Abadá Capoeira e o professor de literatura Toni Brito e juntos fizemos em três escolas o Projeto Dias de Consciência Negra, em 1999.

Ainda nesse debate para revelar as hipocrisias e demagogias de um poder conservador e reacionário. Posso registar mais outras três iniciativas voltadas para o reconhecimento do valor do povo  negro em Campina Grande que, a nosso ver, merece uma reflexão diante da rídicula contradição política. A primeira vem do Vereador Olímpio Oliveira, que queria através de um projeto acabar com a matança e sacrifícios de animais em terreiros de umbanda e candomblé, sob a  falsa alegação de querer defender a vida dos animas. Para barrar essa absurdo, foi preciso uma denúncia minha junto à Ouvidoria da SEPPIR e de uma bem sucedida união de esforços entre Moisés Alves do MNCG com o povo de santo para que a Câmara de Vereadores voltasse atrás e retirasse de pauta um projeto intolerante e que reforçava claramente a perseguição, bem como  o racismo contra as religiões de matriz africana.

Falei em contradição porque o referido edil também  é autor de um projeto que resgata a história de João Carga D`água, um importante líder negro  que fez parte da  Revolta dos Quebra Quilos e que dava nome a uma das ruas de Campina Grande na época do nazismo, algo que não agradou a um  morador alemão racista que  retirou a placa da rua, amassando-a com um martelo, segundo a justificativa do Projeto de Lei  4.790, aprovado pelos Vereadores em 2009 e sancionado pelo Prefeito Veneziano Vital do Rêgo.

Devo aqui analizar o comportamento contraditório do Vereador em reparar essa agressão  praticada por esse alemão racista contra a memória da nossa raça negra, pelo fato de não querer morar numa rua com o nome de um negro. Ora, o  erro desse projeto, na minha visão, é  justamente aceitar que se faça a homenagem em outra rua e não na atual Rua Major Belmiro lugar da agressão. No mais, também não aceito essa história de botar o nome dele numa rua escondida lá na periferia como fiquei sabendo, pois aqui em Campina Grande os escravistas tem seus nomes valorizados no centro da cidade. Por que não fazer o mesmo com o nosso povo negro ?

Outro projeto que nunca passa pelo crivo das entidades negras e que foi aprovado pelos Vereadores, no ano de 2009, denominava de Zumbi dos Palmares uma das novas ruas  de Campina Grande. A sua autoria é do ex-Vereador Antonio Pereira Barbosa. Gostaria que a Câmara de Vereadores  dissesse para a sociedade onde fica essa rua, visto que  a nossa comunidade negra e toda sociedade tem o direito de saber, por se tratar de um grande héroi da Pátria. Ao analisar essa ideia de querer botar nomes de personagens negros da nossa história em ruas de Campina Grande, percebe-se a pouca atenção e valorização  que esses dois políticos deram as reinvidicações mais contundentes do movimento negro, visto que esses projetos não tem  maiores consequências para a sociedade e, por conseguinte, não vai contribuir de forma substancial para mudar as profundas desiguadades raciais entre brancos e negros. Raramente, encontramos um trabalhador negro nas lojas e farmácias de Campina Grande onde impera um profundo e violento racismo.Também temos um índice muito alto de crimes contra jovens negros. Por que a “Casa de Felix Áraújo” não faz projetos para  acabar com essa realidade?

Faço essas afirmações e indagações pontuais com base nos embates  que o MNCG tem feito historicamente com esse poder controlado por uma elite contraria aos imteresses do movimento negro. Fazer projetos mais abrangentes e que possa realmente combater o racismo institucional, criando políticas afirmativas como forma de recompensar o negro pelos crimes e danos sociais e psicológicos  oriundos do escravismo, decididamente é algo que a Câmara de Vereadores não tem feito ao longo de sua existência.Tomara que a nova legislatura tenha a coragem e o dever ético de fazer, tendo em vista que nesse poder legislativo há vereadores que conhecem os projetos e  ações do MNCG em defesa da igualdade racial, a exemplo de Marinaldo Cardoso, Miguel Rodrigues e Napoleão Maracajá. Marinaldo Cardoso já participou da consciência negra  na comunidade do Pedregal. O segundo coordenou uma mesa redonda sobre o Dia Internacional de Luta Contra o Racismo no Colégio da Prata. Napoleão esteve presente na abertura do Projeto Agosto Para Igualdade Racial e ainda fez parte da Primeira Jornada de Educação Afro-brasileira e Indígena, evento que foi feito em parceria com o SINTAB.

Em 2009 quando o ex-Vereador João Dantas tentou fazer um projeto antirracista mais amplo e substancial do ponto de vista social e político, acabou sendo barrado pelo conservadorismo reacionário, hipócrita e racista que faz parte da agenda de setores da classe política campinense. Lembro-me que o MNCG fez uma pressão muito forte em cima da “Casa de Felix Araújo,” o que acabou resultando na construção do  Projeto de Lei 264\09, obrigando o poder executivo municipal a fazer a Semana da Consciência Negra enquanto política de  combate ao racismo e voltada para a adoção de políticas afirmativas. Entretanto, quando esse projeto chegou ao Palácio do Bispo foi vetado pelo Prefeito Veneziano Vital do Rêgo.

Na Câmara de Vereadores esse ex-Prefeito de Campina Grande tinha a maioria a seu favor e isso fez com que ele mantivesse o veto. Os chamados representantes do povo esqueceram que o MNCG já tinha feito aproximadamente cinco sessões especiais ao longo de seus quase 30 anos de luta por uma sociedade justa, igualitária e livre de qualquer forma de preconceito e opressão, além de tribunas livres e audiências públicas. Já fizemos sessão especial com a ex-Vereadora Cozete Barbosa, ex- Vereadores João Ricardo, Fernando Carvalho, Antonio Pereira e com o ex- Prefeito Veneziano que também foi Vereador em Campina Grande.

À guisa de conclusão, desafio a Câmara de Vereadores a reapresentar o  projeto do ex-Vereador João Dantas e a torná-lo real na vida da sociedade campinense, instituindo o 20 de novembro como feriado em nossa cidade como estava previsto num outro projeto que o ex-Vereador Antonio Pereira não teve coragem de colocar em pauta para o debate em plenário. Essa nossa luta pelo reconhecimento de Zumbi dos Palmares como heroi da Pátria já foi reconhecida pelo Congresso Nacional e pelo próprio Estado brasileiro. Hoje, o nome de Zumbi é reverenciado  e respeitado  através de feriado estadual como acontece  nos estados do Amazonas, Mato Grosso, Rio Grande do Sul, Amapá, Rio de Janeiro e Alagoas. Nesse sentido, vejo como um grande erro político a não aprovação do projeto do ex-Vereador João Dantas, um erro grave e que merece ser  reparado, questionado e debatido pelos meios de comunicação, movimentos negros e classe política.

Para um movimento social que tem quase 30 anos de luta contra o racismo e que tanto já debateu com os Vereadores as perversidades do racismo na vida da população negra, justamente num município onde nós negros e pardos somos 51% da sociedade campinense, mas que convivemos há décadas com uma cidadania de segunda classe. Ter conquistado apenas dois nomes de ruas que ninguém sabe onde fica é muita medíocridade e mesquinharia diante de tantas dores, sofrimentos e lutas que a raça negra enfrentou para construir a maior parte das riquezas materias e culturais do Brasil.  Por que a “Casa de Félix Araújo” matou  Zumbi dos Palmares da memória do povo campinense ?

 

Jair Nguni- Historiador e ativista do MNCG há 22 anos.

fev
21

Por Jaime Sodré

Jaime SodréOs Ossos do Ofício,

Doutora Teresa Cristina de Souza Mendonça agora é Doutor, explico.

Admirável a sua tese: “Nuances da Vida e da Morte no Cotidiano da Cidade de Salvador da Bahia Seiscentista: A Busca de Evidencias em um Estudo Paleobiológico”, Dissertação de Doutoramento para a obtenção do grau de Doutor em Antropologia, apresentada à Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra, sob a orientação da Dra. Eugenia Cunha. Aprovada. Desço a detalhes.

Na capa, uma foto reveladora de um material osteológico do Sítio da Antiga Igreja da Sé. Realizada por Luis Viva, adaptada do Relatório de Intervenção Arqueológica – Ano 1999, trata-se do esqueleto de um individuo, sepultado com correntes a sua perna, símbolo da terrível escravidão que não liberava nem o corpo morto do infeliz da propriedade do seu algoz. Esta proximidade com a realidade cruel e histórica comoveu-me. Nesta tarefa investigatória cabem louvores, entre outros, aos Drs. Carlos Caroso, Carlos Etchevarne e Carlos Costa.

E por falar em ossos, Veríssimo disseca Ricardo III, cuja ossada fora descoberta em Londres, o pior vilão de Shakespeare, monstro que mata seus sobrinhos para herdar o trono. O exame dos ossos de Ricardo, entende, Veríssimo, nada revelará sobre a sua personalidade, mas a deformidade nas ossadas, revela que ele era corcunda, contribuindo à sua fama de monstro.

Para Dra. Teresa “os esqueletos e os dentes são fontes antropológicas que atuam como registro ou memória das circunstancias que afetaram o indivíduo durante a sua vida”. Estes dados permitem ilações sobre a existência e a morte, neste caso, os inumados no espaço cemiterial da Antiga Igreja da Sé, em Salvador-Bahia, tendo como base as características demográficas e patológicas.

Os enterramentos dos negros eram feitos no adro, e os da elite, no interior da igreja, as disposições dos corpos nestes espaços traduzem o status social dos indivíduos sepultados. A morte é a base do registro “do que foi a vida deste corpo”, que tem uma realidade social, cultural, física e religiosa associada a sua vivencia. O corpo constrói a sua história e “armazena a história que constrói”.

A pergunta norteadora da pesquisa foi: “Que tipo de evidencias sobre o estilo de vida consegue o antropólogo aceder através da leitura dos ossos sepultados na Sé”? Em resposta, a tese se estrutura com a contextualização do tema estudado; apresentação do sitio; perfil biológico dos indivíduos; introdução da paleopatologia e alterações esqueletais e por fim síntese e discussão.

Acompanhei o trabalho da nossa doutora em diálogos, quando o assunto era a presença africana, em especial o trabalho escravo e seus hábitos culturais. Estes sofriam uma alta taxa de mortalidade e baixa fertilidade, constata Dra. Teresa. A minha animação se elevou quando do aparecimento de “contas de colares associados ao universo religioso africano, encontradas juntos aos esqueletos” da Sé, louvores aos pesquisadores, permiti “pensar no peso simbólico que as contas deveriam ter para serem mantidas na hora dos rituais de morte” o sentimento de pertença étnica e religiosa afro manifestam-se, ainda que em um espaço católico. Colares, brincos, anel, cachimbos, crucifixos, fivelas, objetos lúdicos, de costura, de uso domestico, alem de fragmentos de adorno labial indígena e cerâmica tupi-guarani, todos da lavra do competente Dr. Etchevarne.

Nas análises realizadas nos esqueletos foram destacadas as modificações dentarias e o estudo da saúde dos escravos, registraram-se também dentes intencionalmente modificados. Magitot “sublinha o cuidado e a arte com que o negro praticava a mutilação dentaria”, esta mutilação fora identificada em trinta e um individuo o que remete as alterações praticadas pelos povos de Angola, Moçambique, África do Sul e Uganda.

Muito se tem de precioso na brilhante “Tese da Dra. Teresa”, as lesões traumáticas que revelam ou não violência acidental ou intencional, as “praticas cosméticas culturais ou terapêuticas”. A comunidade penhoradamente agradece e aguarda o livro.

jan
2

Jonathan RibeiroPor Jonathan José Alves Ribeiro

Fico refletindo sobre esse comercial produzido por essa empresa publicitária. Vivemos em um país onde por décadas o Movimento Negro, vem tentando introduzir uma imagem negra/preta e fora de esteriótipos racistas na publicidade brasileira. Ora invisibilizados  ora ridicularizados, sabemos que pelo último censo boa parte da população brasileira se declara não branca, mas geralmente essa população negra e mestiça sempre é subrepresentada.

Todos sabemos que a maior parte da população do continente africano é negra, embora alguns utilizem o termo preto, essa população vem em diferentes tonalidades, um exemplo são os sudaneses comparados aos somalis, temos população não brancas até na Asia, a diversidade existe dentro do continente africano, a própria África do norte, chamada por muitos de África branca, possui população negra e mestiça, resumindo a maioria do continente africano é negro, se formos juntar todo o continente, da África.campanha da colorama
Podem argumentar que existem brancos lá, mas a maioria da população do continente é negra. Sempre que no Brasil pensamos no continente pensaremos em povos pretos.
Sabendo do histórico de invisiblização negra no Brasil, a Colorama junto com essa empresa ao produzir o comercial  África poderia ter explorado a imagem de uma modelo negra, pois vi referências da África tradicional na roupa da modelo, fizeram um comercial pra lançar uma linha África, onde não tinha nenhuma negra no comercial, não vi nenhuma mulher com tais atributos e sim um casal branco e em outra cena ela e as amigas também brancas, um comercial que utiliza o continente africano como inspiração e não é capaz de convidar uma negra pra participar, sabendo das dificuldades das modelos negras no mundo da moda brasileira.
Modelos negras sofrem invisibilidade no mercado da moda brasileira e quando fazem um comercial África esquecem delas. Tops negras não possuem o direito de representar nem o continente africano?

As agências brasileiras e residentes no Brasil devem lutar pra que a diversidade, tão propagada no Brasil, seja fielmente representada, não adianta nada falarmos de democracia racial, se as populações socialmente vistas como não brancas, estão subrepresentada. Nos Estados Unidos, país da segregação, vemos negros em publicidades, quer um exemplo lá temos diversos apresentadores negros, conte quantos temos na TV aberta brasileira, principalmente a globo a mais famosa delas.
Outro dado interessante foi o remetimento do continente africano a selvageria,. Por acaso só existem florestas e homens tribais? Até o conceito do que é selvagem deve ser questionado, pois vivemos em um mundo onde o padrão de mundo é determinado pelo mundo euro-norte-americano, dentro do continente africano, antes do período colonial, existiram diversas civilizações, o Egito antigo foi uma delas, cujo o verdadeiro nome é Kemet.  Tivemos os povos do reino do kongo, milhões de grupos étnicos com suas ricas culturas, o reino do mali cujo era um reino onde o rei foi considerado o homem mais rico, tivemos a civilização de kush…
E outra critica. Qual é a função do macaco no comercial?

 

Fonte: Afrodescendentes

set
21

Por Jaime Sodré

Firme nos 70

Estamos em tempo de comemorações, todas justas, 100 anos de Jorge Amado, 100 anos de Luiz Gonzaga, 100 de Edson Carneiro, 190 da Independência do Brasil, 70 anos de Caetano e Gil, 70 de Paulinho da Viola, mas a Bahia orgulha-se de incluir nesta robusta contabilidade do tempo, um merecido artista. Quem adivinhar ganhará “uma mariola e um cigarro Iolanda”, mesmo sem tocar na Banda. Manterei (than, than, than, than!), o suspense, apesar da sugestão contida no título.

Nosso personagem ganhou a minha admiração, por isso sou o seu eterno fã, quando na condição de pioneiro, me parece, gravou Sambas de roda. Nascido a 1º de setembro de 1942, no bairro negro da Liberdade, preto e pobre, com as dificuldades históricas que esta população tem que enfrentar, porém orgulhoso da sua ascendência. Cedo escolhera o trabalho, aos 13 anos começara a sua luta como engraxate, vendeu refrigerantes e bombons em cinemas de Salvador, foi cobrador de ônibus, servente de pedreiro. Era uma vida dura que ele amenizava cantarolando.

Quando o tempo lhe favorecia, premiava os moradores do seu bairro apresentando-se em programas de calouros do serviço de alto-falantes, já era uma voz que prometia. Mas a sobrevivência lhe exigia, e em 1962 fizera parte do quadro de funcionários das Forças Armadas, no Forte de São Pedro, por 12 anos e ainda alimentava o sonho de ser cantor.

A noite baiana ouvira a sua bela voz, foi no Pigalli Dancing, Rumba, Metrô, Tabaris e em clubes sociais, a exemplo de Palmeira da Barra, Associação Atlética, Yate Club e o Campomar. Noites de admiração de um já sólido “fã clube”.

Esta atividade, amadora, dera cancha para ser um profissional, foi assim que vencendo o Concurso “A VOZ DE OURO ABC”, em 1964, na Rádio Excelsior, fora contratado para o “cast”, juntando-se a grandes artistas, este contrato durou seis anos e a sua atuação se realizava no auditório da rádio ou na Concha Acústica do Teatro Castro Alves.

Acredito que os conhecedores da vida artística de Salvador já devem estar sabendo a quem me refiro, em especial, o grande conhecedor Perfilino Neto, mas guardo o suspense, à moda dos noticiários da TV que sempre nos prende na tela para uma revelação ao final.

Caminhemos, em 1969 tem a sua grande oportunidade no programa “A GRANDE CHANCE”, no Teatro Castro Alves, das emissoras de televisão Itapoan e Tupy. Enfrentando uns qualificados, e às vezes maus humorados, jurados na apresentação rígida de Flávio Cavalcante, classificando-se em 1º lugar. Na grande final, no Rio, ganha como prêmio o seu primeiro contrato na MUSIDISC, mas por motivos alheios a sua vontade, não se concretiza.

Em 1970, Carlos Imperial realiza na TV Itapoan o programa “EM BUSCA DE UMA VOZ”, o nosso ídolo foi mais uma vez o vencedor, à frente de 300 concorrentes, e assina contrato pela gravadora Continental. É nesta oportunidade que ele lança a sua grande marca diferencial, “um pout-pourri de Samba de Roda”, do agrado de muitos, me incluo, e vende quase 100 mil cópias.

Ancorado neste sucesso muda-se para o Rio por 12 anos, trabalha em casas famosas como Sambão e Sinhá, Boite Katacomb, hotéis Nacional e Glória, clubes sociais e emissoras de TV. Em virtude do seu sucesso o empresário Miercio Askanasse e o baiano “Camisa Roxa” o levaram para uma temporada na Europa com o grupo “BRASIL TROPICAL”, atuando por quatro anos em vários países.

De volta ao Brasil, o Sr. Mamede e a gravadora Copacabana o contratam para lançá-lo no mercado como o 1º CANTOR A DIFUNDIR O SAMBA DE RODA, esta seria “sua praia”. “Moinho da Bahia queimou”, “Quem é de boa noite” etc. fizeram sucesso em vários shows.

Comemorou os 50 anos de carreira com uma festa show. Pelos seus feitos em favor da música baiana, recebe a Medalha Zumbi dos Palmares. Voltou ao Rio, realizando espetáculos no Pavilhão de São Cristovão e temporada na Suíça com Magary Lord, Jau e Raimundo Sodré.

Quem é ele: para FIRMINO DE ITAPOAN, 70 anos, o “Moinha da Bahia” nunca queimará, e continuará fulgurante em nome da boa música baiana. Da nossa parte, MUITO OBRIGADO. Esperamos um show comemorativo no TCA.

set
3

Por Jair Nguni

Boicote criminoso contra o Projeto Agosto Para Igualdade Racial

Não é de hoje que determinados órgãos de comunicação trata com desprezo as ações e projetos do Movimento Negro de Campina Grande. Lembro-me que no ano passado fui o responsável pela vinda do professor Carlos Moore a Campina Grande, mas a TV Itararé, através do Programa Diversidade, ao fazer a entrevista com o professor Moore não citou o meu nome e preferiu esconder esse fato pra sociedade paraibana.Vejam o vídeo com a entrevista feita pela jornalista Carla Batista para logo  perceber que esse boicote vem se transformando em algo sistemático .

Já este mês convidamos as TVs Borborema, Itararé e Correio para fazer a cobertura jornalística do Projeto Agosto Para Igualdade Racial e não obtivemos êxito. Somente a TV Paraíba mostrou realmente ter respeito com o povo paraibano, pois essa emissora fez uma bonita e digna cobertura jornalística do Projeto Agosto Para Igualdade Racial. Muitos acadêmicos, também,  simplesmente preferiram ignorar os debates sobre o genocídio da juventude negra. Já o  jornalismo de mercado, sujo e mentiroso  TENTA A TODO CUSTO apagar a minha digna história de luta por uma sociedade justa, igualitária e livre do racismo. Um  certo vídeo  postado na internet continua me ofendendo e essa ofensa moral faz parte das retaliações que venho sofrendo por ter mostrado que a Câmara de Vereadores de Campina Grande não fez nada para promover a igualdade racial. Teve, inclusive, um jornalista do Correio da Manhã, Moribe Macedo, que no dia 3 de Agosto aplaudiu  a  atitude coronelista do Vereador Pimentel e ainda pediu ao povo de Campina Grande para não ir ao Projeto Agosto Para Igualdade Racial. O povo não deu a mínima para este cidadão que não  foi assistir os Mestres e Doutores palestrarem para uma platéia lotada na abertura e no encerramento do nosso belo Projeto Agosto Para Igualdade Racial.

Com relação a esse   vídeo fabricado por esse jornalista campinense, Lenildo Ferreira, vejo apenas como uma armação sórdida e que revela o lado podre e cruel   de dois Vereadores  que foram escolhidos pelos seus pares para serem os defensores pontuais dos  novos senhores de engenho, na cidade de Campina Grande. Por outro lado, tenho que dizer que este vídeo inescrupuloso e criminoso sob o ponto de vista da ética jornalística foi feito exclusivamente para fazer linchamento contra a minha digna, ousada e corajosa história de luta contra o racismo. Foi feito a toque de caixa e   para mostrar o quanto Lenildo Ferreira   se incomoda com a minha militância quilombista, socialista e popular, uma vez que sempre estive ao lado dos excluídos  na Paraíba como todo mundo sabe. Fui execrado publicamente pelo Correio da Manhã na voz de dois jornalistas que prestaram um grande desserviço à sociedade, já que tentaram em vão esvaziar um projeto que foi  como toda a sociedade paraibana sabe maravilhoso, belo e bem organizado e que contou com a ampla participação de muitos(as) professores, educadores, estudantes e estudiosos da história e cultura afro-brasileira. Contou com o apoio do Olodum, Ilê Aiyê, CENTRAC, SINTAB, GAV, Poeta Silas Silva da Paraíba, ADUEPB, Escolas de Capoeira Afro Nagô e Mukanbu Angola Paraíba, Prefeitura Municipal, Governo do Estado e Federal.

A canalhice, portanto, não poderia vencer os herdeiros das lutas de Abdias Nascimento, Malcom X, Patrice Lumumba, de Gungunhana da etnia nguni, Felakuti, SamoraMachel, Josina Muthemba, Marcus Garvey, Nzinga, Lélia Gonzalez, Nkruma, Angela Davis, Steve Biko e Nelson Mandela. Não poderia vencer, obviamente, quem vive historicamente do lado dos ideais  dos negros que organizaram a Revolta dos Búzios em Salvador. Boicote, na verdade, deve ficar pra quem é pequeno espiritualmente  e mesquinho politicamente. Deve ficar  pra quem não pensou nos jovens negros que morrem todos os dias sob os olhos omissos do Governo estadual e da classe política paraibana, bem como de muitos acadêmicos de Campina Grande. Ou sob os olhos de quem me insultou na Câmara de Vereadores de Campina Grande.
Lamento, por  saber que existem jornalistas que perdem tanto tempo e energias com mentiras e que gostam de me atacar  de forma covarde e desrespeitosa como podemos perceber nas matérias que estão sendo divulgadas por Édson Pereira, Onias Xavier e pelo próprio Lenildo Ferreira, tendo em vista que  nos Blogs desses 3 jornalistas sou sempre exposto de maneira negativa e ainda sou chamado de “suposto ativista” do Movimento Negro de Campina Grande.

Finalmente, sempre é bom registrar para a posteridade que os Vereadores e uma Vereadora da “Casa de Felix Araújo” não foram PARTICIPAR do Projeto Agosto Para  Igualdade Racial e não fizeram nada para acabar com as desigualdades raciais durante os seus mandatos.Venho denunciando a omissão de um poder legislativo CONSERVADOR, AUTORITÁRIO E BURGUÊS  que adora me insultar e espalhar mentiras  para me desqualificar diante da sociedade paraibana. Mas, Luther King certa vez, disse: “a verdade oprimida na terra levantar-se-á novamente e nenhuma mentira poderá viver para sempre”. É justamente nos ensinamentos deste grande pacifista americano que eu acredito e que a sociedade paraibana também vai acreditar, pois  quem conhece a minha história quilombista sabe que venho há quase 22 anos lutando com muita seriedade, compromisso e dignidade para restaurar os ideais de Zumbi dos Palmares na nossa cidade, apesar de tantos insultos, calúnias e difamações que venho recebendo ao longo do tempo. O Projeto Agosto Para Igualdade Racial, felizmente, mostrou um pouco do que sou capaz, para dizer que a canalhice que tanto me persegue não  vai destruir o que o Afro Olodum me deu como grande lição de vida e cidadania: “Olodum do pelourinho sempre contra a opressão\ Busca paz e liberdade\ Quer o mundo em união.”
Mojubá!

Segue abaixo os vídeos citados no texto
http://youtu.be/0VlVYRo2G3s

http://youtu.be/zTITgaY1xsc

 

 

 

ago
23

Por Jaime Sodré

Perfeitos Iconoclastas

Em síntese, cessado o “padroado” nasce outra noção de Estado, agora laico. Logo, não cabe a este, em detrimento de outras, adotar vinculações preferenciais a um determinado grupo sócio-religioso, nem mesmo como prática dos seus dirigentes, porém isso não inibe ações que garantam o exercício da cidadania no campo religioso, no sentido da preservação do patrimônio material significativo destes cultos, como veremos.

Permita-me seguir este texto em “feitio de oração” e agradecimentos ao antropólogo Gilberto Velho, seguindo os passos do seu artigo: Patrimônio, negociação e conflito, que chegou às minhas mãos pela generosidade da Professora Márcia Santana, no intuito de iluminar. Dele valho-me, pois examina a problemática do patrimônio cultural focalizando o tombamento do Terreiro da Casa Branca.

O Professor Velho era membro do Conselho do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, na ocasião relator do tombamento do Terreiro da Casa Branca em 1984, seria a primeira oportunidade para que a tradição afro-brasileira obtivesse o reconhecimento oficial do Estado Nacional. Para esse mister valeu o empenho do Dr. Marcos Vinicius Vilaça que presidia o Conselho da SPHAN. Era um Colegiado que estava dividido, alguns “consideravam desproposital e equivocado tombar um pedaço de terra desprovido de construções que justificassem tal iniciativa”, o estatuto do tombamento vinha sendo aplicado em edificações religiosas, militares e civis da tradição luso-brasileira.

O Terreiro da Casa Branca representava na oportunidade uma tradição de mais de 150 anos e desempenhava, como hoje, um papel importante na simbologia, no imaginário e na devoção do povo brasileiro e, em especial, aquele vinculado aos cultos de matriz africana.

O Professor Gilberto valorizara a importância da contribuição das tradições afro-brasileiras para o Brasil, incluindo as manifestações materiais e imateriais, expressas em crenças e valores, reconhecendo a importância dessas manifestações culturais oriundas das camadas populares, reconhecendo o Candomblé como “um sistema fundamental à constituição da identidade de significativa parcela da sociedade brasileira”. O Professor conclui recomendando o tombamento total da área, com suas edificações, árvores e principais objetos sagrados.

Entendia ainda, o competente antropólogo, que “a vida da cidade de Salvador não poderia ser compreendia sem essa percepção”. Não fora fácil a aprovação, na votação final registraram-se três votos a favor, outro pelo adiamento, duas abstenções e um voto contra.

Na opinião do eminente intelectual: “o tombamento da Casa Branca significava afirmação de uma visão da sociedade brasileira como multiétnica, constituída e caracterizada pelo pluralismo sociocultural”. Apesar de alguns conselheiros argumentarem que não se podia “tombar uma religião”, certamente, digo em acordo como Mestre, que estes entendiam que o tombamento de centenas de igrejas e monumentos católicos teria sido apenas por razões artístico-arquitetônicas.

Interesses outros, em função da localização privilegiada do terreno deve ter aguçado visões capitalistas. Finalmente “tombou-se” a Casa Branca.

Tombamentos desastrosos, no sentido literal, houvera em Salvador: a Igreja da Sé, local marcado pela excelente escultura de Mário Cravo e o Terreiro de Mãe Rosa no Imbui, o Oyá Unipó Neto, cuja destruição realizada pela Prefeitura, traumática e dolorosa, ocorreu justamente no momento em que a comunidade de terreiro reivindicava melhorias físicas. Ao que parece, em função da mobilização do povo-de-santo teria havido a reconstrução deste espaço, inviolável e sagrado. Estamos em período eleitoral, e queremos saber.

O Fórum de Entidades Negras realiza um debate com os candidatos a prefeito, cabe aqui uma questão para os ilustres pretendentes: Estimado Candidato. Levando em conta a importância do patrimônio sócio-histórico e cultural dos Terreiros de Candomblé, onde muitos necessitam de uma ação concreta em favor da conservação do seu patrimônio físico, qual a sua proposta para o enfrentamento deste problema?

Que o panteão afro-religioso o ilumine.

 

jul
24

Por Roberto Rodrigues

O Candomblé no Brasil

Nas religiões de matrizes africanas, no Candomblé especialmente, a transmissão do conhecimento religioso ocorre através da oralidade, embora nos dias atuais exista uma vasta produção escrita por membros integrantes da academia. O Candomblé no Brasil surgiu através da diáspora negra, ou seja, com tráfico de escravos negros oriundos de diversas cidades Africanas. O candomblé como conhecemos hoje no Brasil não existe em outros países, pois devido a união de diversos escravos de diferentes regiões numa mesma senzala criou-se miscigenação de fundamentos dando origem ao nosso Candomblé. No Brasil uma roça de candomblé cultua vários orixás. Na África cada região cultua um determinado orixá, ou seja, cada região africana cultua um orixá e só inicia elegun ou pessoa daquele orixá. Portanto, a palavra Candomblé foi uma forma de denominar as reuniões feitas pelos escravos, para cultuar seus deuses, porque também era comum chamar de Candomblé toda festa ou reunião de negros no Brasil. Por esse motivo, antigos Babalorixás e Yalorixás evitavam chamar o “culto dos orixás” de Candomblé. Eles não queriam, com isso, serem confundidos com estas festas. Mas, com o passar do tempo a palavra Candomblé foi aceita e passou a definir um conjunto de cultos vindo de diversas regiões africanas.

O culto aos orixás teve origem na África e foi trazida para o Brasil pelos negros iorubas. Seus deuses são os Orixás, apenas  alguns são cultuados no nosso país: Essú, Ògun, Osossì, Osanyin, Obalúaye, Òsúmàré, Nàná Buruku, Sàngó, Oya, Oba, Ewa, Osun, Yemanjá, Logun Ede, Oságuian e Osàlufan. Hoje, A palavra Candomblé possui 2 (dois) significados entre os pesquisadores: Candomblé seria uma modificação fonética de “Candonbé”, um tipo de atabaque usado pelos negros de Angola; ou ainda, viria de “Candonbidé”, que quer dizer “ato de louvar, pedir por alguém ou por alguma coisa”. A palavra Candomblé define, no Brasil, o que chamamos de culto afro-brasileiro, ou seja: “Uma Cultura Africana em Solo Brasileiro”. A palavra Candomblé também é usada para definir o modelo de cada tribo ou região africana, conforme alguns exemplos seguir:

Os grupos que falavam a língua yorubá entre eles os de Oyó, Abeokutá, Ijexá, Ebá e Benin vieram constituir uma forma de culto denominada de Candomblé da Nação Ketu. Ketu era uma cidade igual as demais, mas no Brasil passou a designar o culto de Candomblé da Nação Ketu ou Alaketu.

A palavra “Nação” entra aí não para definir uma nação política, pois Nação Jeje não existia em termos políticos. O que é chamado de Nação Jeje é o Candomblé formado pelos povos vindos da região do Dahomé e formado pelos povos Mahin.

Os Candomblés da Nação Angola e Congo foram desenvolvidos no Brasil com a chegada desses africanos vindos de Angola e Congo.

O candomblé na África é totalmente patriarcal. No Brasil esta religião tornou-se matriarcal com várias mães de santo na frente do conhecimento. Foram através do pulso forte destas mães que se constituiu o candomblé brasileiro, preservando tradições africanas. A história mostra que nas primeiras casas de candomblé no Brasil, homens eram proibidos de entrar no xiré (roda de dança para os orixás).

Ilê Axé Iya Nassô Oká / Terreiro da Casa Branca
No período da escravidão no Brasil, os negros formavam suas comunidades nos engenhos de cana. Na Bahia, princesas, na condição de escravas, vindas de Oyó e Keto , fundaram um centro num engenho de cana. Depois se agruparam na Barroquinha em Salvador, onde fundaram uma comunidade de Nagô , que segundo historiadores, remonta mais ou menos 300 anos de existência. Sabe-se que esta comunidade fora fundada por três negras africanas cujos nomes são: Adetá ou Iya Detá, Iya Kalá e Iya Nassô . Não se tem certeza de quem plantou o Axé , porém o Engenho Velho se chama Ilé Iya Nassô Oká . O Ilé Iya Nassô funcionava numa Roça na Barroquinha, dentro do perímetro urbano de Salvador. Os africanos que se encontravam alí, lugar deserto naquela época, porém próximo ao Palácio de sua Real Magestade tiveram receio da intervenção das autoridades no seu Culto, daí, Iya Nassô resolveu arrendar terras do Engenho Velho do Rio Vermelho de Baixo, no trecho chamado Joaquim dos Couros, lugar onde se encontra até hoje, estabelecendo aí o primeiro Terreiro de Culto Africano na Bahia.

Mas, o motivo principal desta reunião era estabelecer um culto africanista no Brasil, pois viram essas mulheres, que se alguma coisa não fosse feita aos seus irmãos negros e descendentes, nada teriam para preservar o “culto de orixá”, já que os negros que aqui chegavam eram batizados na Igreja Católica e obrigados a praticarem assim a religião católica.

Este culto, no Brasil, teria que ser similar ao culto praticado na África, em que o principal quesito para se ingressar em seus mistérios seria a iniciação. Enquanto na África a iniciação é feita muitas vezes em plena floresta, no Brasil foi estabelecida uma mini-África, ou seja, a casa de culto teria todos os orixás africanos juntos. Ao contrário da África, onde cada orixá está ligado a uma aldeia, ou cidade; por exemplo: Xangô em Oyó, Oxum em Ijexá e assim por diante.

Outras casas tem referência histórica na Bahia a exemplo de: Terreiro do Gantois e oIlê Axé Opó Afonjá, este último fundado por Mãe Eugênia Anna dos Santos, em 1910, ambos intimamente vinculados ao Terreiro da Casa Branca do Engenho Velho. Além destes, existem outros entre os quais, Zoogodô Bogum Malê Rundó(Terreiro do Bogum). Bate Folha, na Mata Escura.

VIVA OLORUM!

 

 

Roberto Rodrigues – Aluno do Curso de extensão de Filosofia.

rodriguesrober@gmail.com

Fontes:

http://www.ileode.com.br/historia

http://cantodoaprendiz.wordpress.com/2008

jul
17

Por Jaime Sodré

Manoel Soledade… Cadê você?

Ecos do 2 de Julho, lembro-me que era assim, pontificava na ladeira do Convento dos Perdões o garboso desfile, estávamos estrategicamente alocados, como tocaia, no melhor local e queríamos de tudo ver.  Chamava-me a atenção os retratos dos heróis em uma espécie de cartolina rígida, fixada no bastão, Maria Quitéria, General Labatut, e entre eles a dolorida imagem de Sóror Joana Angélica, que nos comovia as lágrimas, exagero, enquanto vítima sangrenta dos tiranos lusitanos.

Mas tarde em faze adulta, no mesmo local tradicional como cadeira cativa, verificamos um acréscimo importante, a inclusão da afro-descendente Maria Felipe heroína de Itaparica entre brados e sobrados. Esta valorosa lutadora negra exigia uma revisão das aulas de história da adolescência, e viria também a registrar este feito histórico, como o afinco da luta de muitos outros personagens. Mas outros viram?

Agora estamos no excelente programa Tambores da Liberdade do Ilê Aiye, na radio Educadora, a falar sobre o 2 de Julho e lancei um desafio a Sandro Teles, produtor do programa; diga-me jovem produtor… Qual o personagem das batalhas do 2 de julho, que remete a nome deste programa? Enquanto ele recorria, numa espécie de vicio moderno, ao computador, teria tempo para contar uma história.

Contemplava comovido, como sempre o faço, o quadro de temática histórica da batalha do 2 de Julho, idealizado por Antonio Parreira, localizado na Câmara de Vereadores de Salvador. Parreira retrata o episódio acontecido em Cachoeira, bombardeada por uma escuna canhoneira, após a proclamação do Príncipe Dom Pedro de Alcântara como “Defensor Perpétuo do Brasil”.

Em seu quadro “Primeiro Passo para a Independência do Brasil”, este pintor fluminense expõe a situação trágica sofrida por um soldado negro do Regimento de Milícias ferido e ensanguentado. Madeira de Melo mandara a escuna que deslizava nas águas do Paraguaçu, atacar Cachoeira e um tiro de canhão oriundo deste vaso, mata o tocador de tambor da tropa na atual Praça da Aclamação. Após este incidente o povo, em estado de revolta, toma a embarcação e aprisiona os portugueses.

A cena imaginada por Parreira no dia 25 de junho de 1822 é comovente, o soldado negro, moribundo, valente tocador de tambor tendo ao seu lado este instrumento estimulador da coragem, está sendo amparado, em sua angustia, por um outro soldado branco graduado.

O nome deste herói, há tempo para mim, permanecera no anonimato, quem seria? As aulas da escola na juventude sobre a 2 de Julho não registrara a figura e o incidente mortal que teria como personagem este soldado negro, tocador de tambor, levou a minha imaginação a extrapolar, desobediente, sugeria ser o músico-soldado, estando na Cidade Heróica reduto do povo gege-nagô, um soldado negro, que pagara com sangue a possibilidade de liberdade, fora por certo um exímio tocador dos tambores sagrados dos terreiros ocultos de Cachoeira?

Mas busquei seu nome, enquanto isso Sandro esmerava-se nas dádivas da internet em busca de um nome que eu já sabia.

Lembrei também do corneteiro Lopes e a sua notória e divulgada façanha com o clarim, uma sonora melodia a serviço da vitória, no código de “AVANÇAR E DEGOLAR”, tão do conhecimento do inimigo e difundido nas minhas aulas. Faltava saber quem era o mestre dos ritmos, vitimado.

Temos nítido na obra de Parreira, a face da vítima e o seu socorrista, como temos na representação de Maria Quitéria, realizada por Domenico Failitti, que repousa no Museu Paulista, inspirador da estátua no Largo da Soledade.

Uma pista importante inspirou-me ao achado, o nome do mais novo herói afrodescendente teria como sobrenome SOLEDADE.

Sandro vibrava pela busca vitoriosa no computador e nós anunciávamos o nome, que já sabíamos, do herói que carregava o “Tambor da Liberdade”, vitimado. Era MANOEL SOLEDADE.

No próximo ano estarei no local de sempre, aguardando o seu retrato em cartolina a desfilar pela ladeira dos Perdões. Manoel Soledade, disse Sandro em resposta, como se estivesse contando uma novidade. Que rufem os tambores!!

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