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set
30

Caro (a) Compositor (a):

Estamos lhe fornecendo o material de pesquisa do nosso tema para o Carnaval de 2017 intitulado “Os povos Ewé/Fon. A influência do Jeje para os afrodescendentes”.

Com esse tema, gostaríamos de abordar a história desses povos, no continente africano e a sua chegada aqui no Brasil. Falar sobre as mitologias do povo jeje, o panteão de Sakpata, o panteão de Hevioso e o panteão de Dan e abordar alguns segmentos da religião de nação Jeje. Pretendemos também homenagear alguns Terreiros de Candomblé, pertencentes à nação jeje. A Cacunda de Yayá, que existiu no bairro de Sussuarana, o Zoogodô Gbogun Malê Rundó, mais conhecido como Terreiro do Bogum, no bairro do Engenho Velho da Federação, o Humkpame Kwé Vodum Zô e o Ilê Axé Jitolú, no Curuzu, o Zoogodô Gbogun Male Séjáhùnde, mais conhecido como Roça do Ventura e o Humkpame Ayono Runtoloji, na cidade de Cachoeira são alguns dos terreiros que serão homenageados. Vamos homenagear também a influencia Jeje nas religiões de matriz africana no Estado do Maranhão.

Desejamos a todos boas músicas e mais um bom Festival de Música Negra do Ilê Aiyê que ocorrerá nos meses de outubro, novembro e dezembro.

Axé,

Antonio Carlos dos Santos Vovô

Presidente

 

TEMA DO ILÊ

Os povos Ewé/Fon. A influência dos povos Jeje para os afrodescendentes”.

Introdução

A cidade do Salvador, Capital do Estado da Bahia, o maior Estado das regiões Nordeste do Brasil, tornou-se durante quatro séculos de trafico (séculos XVI a XIX) o mais importante centro comercial brasileiro de homens e mulheres de África. Calcula-se em cinco mil por ano o número de seqüestrados, cifra esta aproximada desde quando não existem dados precisos pela falta absoluta de documentos oficiais sobre o tráfico que, por razões econômico-financeiras, logo decretada a abolição da escravatura no Brasil (13 de maio de 1888), foram totalmente queimados por Decreto de 14 de dezembro de 1890, do Ministro da Fazenda, o baiano, Ruy Barbosa.

O tema do Ilê Aiyê para o carnaval 2017 será “Os povos Ewé/Fon. A influência dos povos jeje para os afrodescendentes”. Com este tópico o mais belo dos belos vai abordar a história desses povos, no continente africano e a sua chegada aqui no Brasil. Falar sobre as mitologias do povo jeje, o panteão de Sakpata, o panteão de Hevioso e o panteão de Dan. O bloco pretende também homenagear alguns Terreiros de Candomblé, pertencentes à nação jeje. O Zoogodô Gbogun Malê Rundó, mais conhecido como Terreiro do Bogum, no bairro da Federação, o Humpame Kwé Vodum Zô e o Ilê Axé Jitolú, no Curuzu, o Zoogodô Gbogun Male Séjáhùnde, mais conhecido como Roça do Ventura e o Humpame Ayono Runtoloji, na cidade de Cachoeira são alguns dos terreiros que serão homenageados. O bloco pretende fazer uma homenagem também à Casa das Minas, templo de candomblé situado na cidade de São Luiz do Maranhão, bem como o Terecô da Cidade de Codó, também no Maranhão.

Em 2017, o Ilê Aiyê irá celebrar as religiões de matriz africana através das contribuições dadas aos afro-brasileiros pelos povos jeje. O que é chamado de nação Jeje é o candomblé formado pelos povos ewé/adja/fons vindo da região de Dahomé e pelos povos mahins, minas, fanti, ashantes dentre outros. O termo “Nação” passou a ser, desse modo, o padrão ideológico e ritual dos terreiros de candomblé da Bahia, estes sim fundados por africanos angolas, congos, jejes, nagôs, sacerdotes iniciados de seus antigos cultos, que souberam dar aos grupos que formaram a norma dos ritos e o corpo doutrinário que se vêm transmitindo através os tempos.

“Informa-nos Nicolau Parés do papel desempenhado pelo Jeje no Candomblé. Relata Félix Ayoh’omidire, em ÀKỌGBÀDÙN – ABC da língua, cultura e civilização iorubanas, que “a tão procurada etimologia do etinônimo ‘jeje’ só sobreviveu aqui no Brasil, onde se usa como uma referência para a tradição de Candomblé ewe-fon”. A palavra ‘jeje’ não vem de ‘àjèjì’, termo iorubano que significa ‘estrangeiro’. O termo ‘jeje’ vem, seguramente, deste oríkì orílè de ìran àjèjè que é uma das linhagens originais que ocuparam a área central da atual República do Benin (antigo Daomé), fruto das primeiras migrações de núcleos iorubanos, que se instalaram no espaço que se estende até Tadô, na atual República de Togo. Segundo ele, os fons foram os últimos a chegar ao espaço geográfico na área que constitui a região central da República de Benin. Além de incorporem a sua língua e cultura, agregaram muitos elementos significativos desenvolvidos pelos seus vizinhos. Ainda explica Félix, que ‘um exemplo disso é a presença de muitos voduns que são os paralelos de alguns orixás iorubás, voduns esses cujos nomes ainda refletem a sua origem iorubá. Por exemplo, o vodum Legba é o mesmo Exù Ẹlégbara; enquanto o Ṣàngó dos iorubanos virou Hevioso’. Quanto ao sistema de adivinhação, embora seja chamado de Ifá entre os iorubanos, ‘é conhecido simplesmente como Fá entre os ewe-fon’. Em relação ao azeite de dendê, elemento fundamental da culinária religiosa, em especial na Bahia, foram os Aresas os introdutores da técnica de extração do dendê naquela região. Quanto aos jeje, afirma o autor, são conhecidos em Cuba como arará, termo cuja origem ainda ‘não foi desvendada pelos historiadores até o momento atual’. Concluindo, afirma Félix: ‘a minha tese a respeito da origem dos jeje é que esse povo estava com maior frequência na sua identidade de ajeje aqui no Brasil, como isso acontece ainda hoje, em meios ioruba-africano… muitas pessoas só preferem citar seu oríle em vez de dar o seu nome próprio ou nome de família’. (Texto de Jaime Sodré)

 

Os povos Ewé/Fon – contexto histórico

O povo Fon e o povo Ewé, são dois dos principais grupos étnicos e linguísticos da África Ocidental. no sul do Benin e sul do Togo, cuja origem mítica está entre os gbe.  Eles possuem como características o uso da língua fongbé, e a maior expressão histórica, política e social desses povos se proclamou no Benin através do Reino de Daomé e na diáspora africana através do vodum.

A palavra DAHOMÉ, tem alguns significados conhecidos: um está relacionado com certo Rei Ramilé que se transformava em serpente e morreu na terra de Dan. Daí ficou “Dan Imé” ou “Dahomé”, ou seja, aquele que morreu na Terra da Serpente. Segundo as pesquisas, o trono desse rei era sustentado por serpentes de cobre cujas cabeças formavam os pés que iam até a terra. Outro significado encontrado é que o local é a terra da serpente sagrada, ou seja, Dan = “serpente sagrada” e Homé = “a terra de”, sendo Dahomé = “a terra da serpente sagrada”.

O complexo cultural expressado tanto pelo vodum como pelo Reino do Daomé possui uma origem mítica na cidade-reino Adjá de Tadô ou Sadô, onde uma filha solteira do rei, ao dirigir-se à floresta sozinha para realizar uma tarefa, encontrou-se com uma pantera encantada. Ao retornar à cidade, descobriu-se grávida e a paternidade da criança foi atribuída à pantera. Como entre os adjá o sangue da mãe também enobrece, esse filho da pantera, kpòvi e seus descendentes, constituíram-se em uma nova linhagem real. Entretanto, o filho da pantera ficou sendo conhecido na posteridade pelo cognome deAgassu, o bastardo, e seus descendentes por isso sempre eram preteridos no sistema sucessório de Adjá-Tadô, ainda que herdassem a bravura e ousadia de seu ancestral animal. Um dia, porém, os kpòvi, mais uma vez excluídos, se revoltaram contra a escolha do sucessor no trono de Adjá–Tadô. Eles e seus partidários se armaram e, após uma violenta batalha, muitos cadáveres tombaram de lado a lado, inclusive o do rei escolhido. O chefe dos kpòvi, Kokpon por esta razão, ficou sendo conhecido como Adjá-hutó, o matador de adjás, e ele junto com seus partidários tiveram que partir para o exílio, uma vez que perpetrou o delito de maior lesa-majestade que é o de amaldiçoar a terra com o derramamento do precioso sangue real.

O êxodo dos kpòvis e seus seguidores, após várias peripécias, deteve-se em Aladá, onde Adjá-hutó Kokpon fundou uma nova dinastia de governantes até que o falecimento um rei, também chamado Kokpon, dá lugar a uma guerra de sucessão entre seus três herdeiros: Medji, Té-Agbanlin e Ahô-Dakodonu. Medji permanece em Aladá e dá continuidade à dinastia local reinante; Té-Agbanlin dirige-se para o leste, onde funda uma nova dinastia em Adjaxé (Porto Novo), enquanto que Dakodonu segue para o norte com seu irmão Ganiehessue. Após algumas peripécias, busca alojar-se com seus ferozes seguidores entre a população de língua yorubá dos iguedê (guedevi) e mata seu rei Agli, dizimando seu povo, escravizando mulheres e crianças, fundando ali uma nova dinastia.

Dakodonu tenta estabelecer-se também em Kana e vai solicitando ao Rei, cujo nome era Dan, locais para alojamento. Um dia, Dan, aborrecido com mais uma solicitação dos adjá-tadonus, declara mordazmente: “Depois de alojar-se em tantos lugares do meu reino, só falta agora a minha barriga para esta gente ficar”. Os adjá-tadonus compreenderam essa declaração como um chamado para a luta e, desta forma, Dakodonu matou e estripou pessoalmente Dan, e disse que cumpriria sua palavra e construiria seu reino sobre a barriga deste, daí a expressão Dan-ho-mé, que era o reino edificado “no ventre de Dan”, outro significado para a origem da palavra Daomé.

Por volta de 1645, os adjás conseguiram dominar os fon. O Reino do Daomé superou as duas outras dinastias adjá-tadonus reinantes em Porto Novo eAllada, governando um poderoso Estado, tendo sua capital em Abomey, fundada por Agassuvi Aho, sobrinho e sucessor de Dakodonu, também chamado de Hwegbadjá que se declarou rei de seu território comum. Tendo estabelecido sua capital em Agbome (ou Abomei), Hwegbajá e seus sucessores conseguiram estabelecer um Estado altamente centralizado com base no culto da realeza estruturado em sacrifícios aos antepassados do monarca. Toda a terra era propriedade direta do rei, que coletava tributos de todas as colheitas obtidas.

Economicamente, entretanto, Hwegbadjá e seus sucessores lucraram principalmente com o tráfico de homens e mulheres e as relações com os escravistas estabelecidos na costa. Como os reis do Daomé envolveram-se em guerras para expandir seu território, e começaram a utilizar rifles e outras armas de fogo compradas dos europeus em troca dos prisioneiros, que foram vendidos para as Américas.

No reinado de Rei Agadjá (1708-1732) o reino conquistou Aladá, de onde a família governante se originou, desse modo ganhando o contato direto com os comerciantes de pessoas, na costa. Não obstante, Agadjá era incapaz de derrotar o reino vizinho de Oyo, principal rival do Daomé no comércio de pessoas e, em 1730, transformou-se num vassalo de Oyo, embora conseguisse ainda manter a independência do Daomé.

Mesmo como um Estado vassalo, o Daomé continuou a expandir e florescer através do comércio escravista e, mais tarde, através da exportação de azeite de dendê produzido em grandes plantações. Pela estrutura econômica do reino, a terra pertencia ao rei, que detinha o monopólio de todo o comércio.

O seu apogeu econômico ocorreu no início do século XIX com a exportação de grande quantidade de pessoas para o Brasil e Cuba, tanto que o litoral era conhecido como Costa dos Escravos. Um dos mais famosos traficantes de pessoas nesta época foi o brasileiro Francisco Félix de Souza, o Chachá de Ouidah, protegido do rei Guezô.

O Daomé foi enfim conquistado pela França em 1892-1894. A maioria das tropas que lutaram contra o Daomé eram compostas por africanos nativos, a isto se acrescentou o sentimento de hostilidade contra o reino, particularmente entre os yorubás, levando à sua derrota final.

Em 1960 a região alcançou a independência como a República de Daomé, que mudou mais tarde seu nome para Benin.

Os Palácios Reais de Abomei, foram consideradas, em 1985, pela UNESCO, Património Mundial.

  • Sucessão real do reino de Daomé
  • Dǎko-Donu (1620-1645)
  • Hwegbadjá (1645-1680)
  • Akabá (1680-1704)
  • Agadjá (1708-1732)
  • Tegbessu (1732-1775)
  • Kpenglá (1775-1789)
  • Agonglô (1789-1797)
  • Adandozan – príncipe regente – (1797 – 1818)
  • Guezô (1818-1858)
  • Glelé (1858-1889)
  • Gbehanzìn (1889-1894)
  • Agoli-Agbô (1894-1900)

As Ahosi 

As Ahosi (ou Mino) eram guerreiras Fon que formavam um dos regimentos militares do Reino do Daomé (atual Benin) até o final do Século XIX. Foram chamadas amazonas por observadores ocidentais e historiadores, devido à sua semelhança com as míticas guerreiras da antiga Anatólia e do Mar Negro.

Hwegbadjá, segundo Rei do Daomé (que governou entre 1645 e1680), teria dado início ao treinamento militar de mulheres ao formar um grupo de caçadoras de elefantes chamado gbeto. Durante o século XVIII algumas das esposas reais foram treinadas para atuar com guarda-costas do rei.

Agadja, filho de Hwegbadjá (rei entre1708 e 1732) transformou as guarda-costas numa milícia, utilizando-as com sucesso na vitória daomeana contra o vizinho Reino de Savi, em 1727. Comerciantes europeus registraram sua presença, bem como de guerreiras semelhantes entre os Ashantis. Nos cem anos seguintes, as Ahosi ganharam reputação de guerreiras destemidas. Embora raramente lutassem, elas geralmente tinham boa desenvoltura no campo de batalha.

O grupo de mulheres guerreiras foi apelidado de Mino – que significa “nossas mães” na língua Fon – pelo exército masculino do Daomé. A partir do reinado do rei Gheô(1818-1858), o Daomé tornou-se cada vez mais militarista. Ghezô atribuiu grande importância às Ahosi, aumentando seu orçamento e formalizando as suas estruturas. Elas foram rigorosamente treinadas, receberam uniformes e foram equipadas com armas dinamarquesas (obtidas através do tráfico de pessoas). Nesta época, o regimento das Ahosi já comportava entre 4.000 e 6.000 mulheres, cerca de um terço de todo o exército do Daomé

As Ahosi eram, inicialmente, recrutadas entre as centenas de esposas reais (daí o nome Ahosi, que significa “esposas do rei”). Com o tempo, mulheres comuns da sociedade Fon passaram a alistar-se voluntariamente, ao passo que outras tantas eram recrutadas à força, bastando para isso que seus pais ou maridos reclamassem ao rei sobre seu comportamento. A adesão às fileiras das mulheres guerreiras tinha como principal finalidade a lapidação de qualquer traço de caráter agressivo para os combates. Durante o período de engajamento, as Ahosi não podiam ter filhos nem a rotina de uma mulher casada. Muitas delas eram virgens. O regimento tinha um status semisagrado, entrelaçado com a crença Fon nos Voduns.

Os treinamentos davam ênfase aos intensos exercícios físicos e à disciplina. Ao final deste elas recebiam oarmamento: rifles Winchester, porretes e facas. As unidades também eram comandadas por mulheres. Seus prisioneiros eram frequentemente decapitados

A invasão europeia na África Ocidental intensificou-se durante a segunda metade do século XIX. Em 1890 o rei Gbehanzìn começou a combater as forças francesas no decurso da primeira guerra franco-daomeana. Segundo o historiador Holmes, muitos dos soldados franceses em combate no Daomé hesitaram antes de abater as Ahosi com tiros ou golpes de baioneta. Esta hesitação resultou em muitas baixas francesas. No entanto, de acordo com pelo menos duas fontes facilmente identificáveis​​, o exército francês perdeu várias batalhas contra elas, não por causa da “hesitação” francesa, mas devido às habilidades das mulheres guerreiras no campo de batalha, “em pé de igualdade com todo o corpo contemporâneo de soldados de elite entre as potências coloniais”.

Finalmente, reforçados pela Legião Estrangeira e utilizando armamento superior, incluindo metralhadoras, bem como a cavalariae a infantaria da Marinha, os franceses infligiram baixas dez vezes piores do lado daomeano. Após várias batalhas, o poderio francês prevaleceu. Os legionários escreveriam mais tarde sobre a “incrível coragem e audácia” das Ahosi. A última Ahosi remanescente do Reino do Daomé morreu em 1979.

 

A saga de Nã Agotimé

A saga de Nã Agotimé é pura magia. Representa a força dos elementos naturais transformando a vida que se transforma em culto.

Desde tempos imemoriais se cultuava os voduns da família real do Daomé, hoje Benim. Um Clã mágico e místico iluminava o continente negro, numa época de uma África conturbada por guerras tribais em busca do poder. Muitos reis passaram e o Daomé, que era apenas uma cidade, tornou-se uma nação.

No palácio Dãxome, reinava Agonglô. O rei tinha como segunda esposa a rainha Agotimé e dois filhos (Adandozan, do primeiro casamento, e Gezo, nascido de Agotimé). No momento de sua morte, o rei elegeu seu segundo filho para sucedê-lo no trono, mas a sua ordem foi desconsiderada e Adandozan assumiu o trono como tutor de Gezo. Abomey tornou-se vítima de um governo tirânico e cruel.

A rainha era conhecida em seu reino pelas histórias que contava sobre seus ancestrais e sobre o culto aos reis mortos. Guardava os segredos do culto a Xelegbatá, a peste. Detentora de tais conhecimentos, o novo rei tratou de mantê-la isolada, acusando-a de feitiçaria, e não hesitou em vendê-la para ser escravizada. Em Uidá, grande porto de venda de homens e mulheres. Agotimé foi jogada nos porões imundos de um navio e trazida para o Brasil. O sofrimento físico da rainha, traída e humilhada, era uma realidade menor, pois o seu espírito continuava liberto e sobre as ondas a rainha liderou um grande cortejo, atravessando o mar.

Desse episódio se forjou um dos elos que une a África ao Brasil. Chegou ao novo continente um corpo escravizado, mas um espírito livre, pronto para cumprir a sua saga e fazer ouvir daqui o som dos tambores Jejes.

Seu primeiro destino foi Itaparica, na Bahia, porto do seu destino e terra santa do conhecimento. Vinda de uma região onde poucos pessoas se destinavam ao Brasil, Agotimé se deparou com muitos irmãos de cor, mas não de credo. No seu encontro com os nagôs teve o seu primeiro contato com os Orixás, e através deles a Rainha escrava teve notícias de seu povo. Por eles soube que sua gente era chamada Negros-Minas e foram levados para São Luís do Maranhão. Fixou sabendo que não tinham local para celebrar o seu culto, pois esperavam um sinal de seus ancestrais. Agotimé logo entendeu por quem esperavam.

Dessa forma a rainha chegou ao Maranhão. Terra da encantaria e de forte representação popular. Os tambores afinados a fogo e tocados com alma por ogãs, inspirados por velhos espíritos africanos, ecoavam por ocasião das festas e pela religião. Foi no Maranhão que Agotimé, trazida ao Brasil para ser escravizada, voltou a ser Rainha. Sob orientação de seu vodum, fundou a “Casa das Minas”, de São Luís do Maranhão, em meados do século XIX.

 

A Criação do Mundo, na visão dos povos Fon/Ewé

Segundo a tradição dos povos Fon/Ewé o mundo foi criado da seguinte maneira: “Nanã Buruku (ou Nanã Buluku) com a ajuda das Serpentes Aido Wedo e Dangbala foi quem criou o mundo e deu vida aos animais, a flora e aos minerais. Após criar o mundo, Nanã deu origem a gêmeos a quem batizou de Mawu-Lisa e deu a eles a tarefa de criar o homem e povoar a Terra.

Com a criação do par Mawu-Lisa, Nanã criou o equilíbrio no mundo e aos seres vivos. Mawu é o princípio feminino, a fertilidade, a suavidade, a compreensão, a ponderação, a reconciliação e o perdão. Lisa é o princípio masculino, o julgador, a impaciência, a força cósmica que castiga os homens errados e os corrige, a seriedade. Ele está sempre atento para que as leis de Mawu sejam cumpridas.

Nanã percebeu que Mawu não conseguia mudar o gênio do irmão Lisa, que castigava sem antes observar direito, resolveu separá-los. Enviou Mawu para a lua para ser a luz que iluminaria a Terra no período noturno, suavizar os sofrimentos dos seres e projetar a fé e o amor sobre o planeta. Enviou Lisa ao sol para que esse pudesse ver com mais clareza os erros dos homens e julgasse bem antes de castigá-los. Ordenou também que Lisa uma vez por ano deveria andar na Terra para conviver com os homens e conhecer de perto suas necessidades, ajudando-os e corrigindo-os. Com essas andanças pela Terra, Lisa deixou aqui alguns descendentes que se tornaram divinizados.

Os Fons dizem que a partir dessa separação, Mawu e Lisa só se encontram quando ocorre um eclipse e nessa ocasião, eles fazem amor, gerando mais Voduns para ajudar os homens.

Antes que essa separação se concretizasse, Mawu e Lisa chamaram seus filhos e os enviaram à Terra como os primeiros habitantes e para que esses os ajudassem a governar a Terra, deram a cada um uma atribuição.

Os filhos mais velhos, os gêmeos Dã Zodji e Nyohwe Ananu, foram habitar as profundezas do mar e regem todas as riquezas minerais da Terra.

Os segundos foram os gêmeos Agbe (Hu) e Naeté, que foram habitar o mar e deveriam levar a paz e o amor para as pessoas.

Aguê, vodum da terra firme. Hevioso foi habitar os vulcões e ficou encarregado de levar a justiça. Gú, seria o responsável por “fazer cumprir” as leis de Mawu. Djó teria que enviar a todos os seres o AR necessário à vida e enviar as chuvas para fertilizar a Terra. Ele é andrógino e representa a atmosfera. Legba por ser o caçula e por suas brincadeiras sem limites foi mantido perto dos pais. Recebeu a incumbência de ser o mensageiro entre os irmãos e Mawu-Lisa. Recebeu o dom de saber todos os idiomas e dialetos para que pudesse escutar tudo no céu e na terra e contasse para seus pais. Ainda segundo o mito, após criar Mawu e Lisa, Nanã criou Ayizan, vodum que vive no tempo, em uma esteira, vendo a eternidade passar.

Em algumas narrativas, o povo Fon atribui exclusivamente a Mawu todas as tarefas de criação, tendo Lisa como seu auxiliar e a Serpente Aido Wedo e Dangbala. Para eles o nome “nanã” designa a sacerdotisa de Mawu.

O povo Ewé tem em Nanã Buruku sua Grande Mãe que rege as leis e a vida na Terra. Em algumas culturas Nanã também é vista como andrógina.

Em qualquer mito Dan foi auxiliar na criação e por isso é o vodum mais reverenciado dentro do culto Vodum.

Os Voduns

 Vodou – Vodoun – Vodum – Voodoo – Voudun – Vodu – Vudu – Hoodoo – etc. A palavra vodou é de origem Ewe/Fon e significa força divina, espírito, força espiritual. É usada pelo povo do oeste da África para designar os deuses e ancestrais divinizados. No século XVIII o rei Agadjá consolidou as crenças de vários clãs e aldeias, formando um “sistema espiritual dos Voduns”. Isso gerou uma enorme variação do termo, devido a quantidade de dialetos usados por esses clãs e aldeias, que somado a influência francesa, passaram a falar como entendiam. Essa diversificação fonética deu-se também por conta dos idiomas de pesquisadores que “invadiram” a África, em busca de conhecimento sobre o Vodou. No Brasil, por exemplo, usamos o fonema Vodum.

Quando foi estabelecido o grande reino de Dahomey, lá não existia o culto de Voduns. Nessa época, o atual rei sentia a necessidade de uma assistência espiritual que o ajudasse a combater os problemas que o atormentava. Mandou chamar um bokono (adivinho) e pediu que esse consultasse os oráculos. A conselho dos oráculos mandou vir de diversas regiões os Voduns e construiu seus templos. Com isso Dahomey passou a sitiar diversos clãs e aldeias de Voduns. No período da escravidão, muitos daomeanos foram levados para o novo mundo e com eles a cultura e o culto dos Voduns. Os Voduns cultuados no Brasil são originários da África, suas práticas e tradições se mantiveram intacta como era no Dahomey (atual Benin) desde o começo dos tempos. A nação Jeje sofreu por alguns anos uma queda em seus cultos, devido à falta de informações.

  • O panteão de Dan

Neste panteão agrupam-se todos os “Voduns Serpentes”, estão ligados diretamente ao movimento, a vida, a renovação e a adivinhação. Alguns voduns Dan: Gbesén, Dangbala, Áidò Wèdò, Frekwen, Dan Ikó, Dan Xwevé, Dan Akasú, Dan Jikún, Gbafono Deká etc.

  • O panteão de Sakpata

Neste panteão se agrupam os voduns da terra e das doenças, da vida e da morte. Azansu é o líder do Panteão. Alguns voduns do Panteão: Azansu (Sakpata), Ewá, Parará, Avimadje, Agué, Loko, Ayizan, Erzuliê, Nanã. Kposu está ligado a Sakpata, embora seja de Hevioso e Avimadje também está relacionado a ambos os panteões.

  • O panteão de Heviosso

Nesta família agrupam-se os Voduns Kavionos, ligados ao fogo, à justiça, e ao raio, e também os voduns do oceano (Tòvodum) que mantêm estreitas ligações com os Voduns Kavionos. O Panteão é liderado pelo vodum Sogbo. Alguns voduns do Panteão, os Voduns Kavionos: Sògbò, Gbadé, Acrolombé, Adeen, Kposu, Averekete, Lissá. Os Tòvoduns: Agbe Hou, Naeté, Aziri Tobosi, Aziri Kaiá, Goheji, Abê, Sayô.

Alguns segmentos da Nação Jeje

  • Jeje Mahi: Os Povos Mahi eram camponeses, tinham seu culto voltado, principalmente a Dan Gbésén (Bessém, este termo significa “adorar a vida” e dan gbésén significa “serpente que adora a vida”) e aos voduns de sua família, e também aos voduns da família de Hevioso ou Kaviono, e os voduns da família de Sakpata. Voduns reais e eguns não são cultuados. Tem influências nagôs e em seu panteão adotou-se alguns Orixás, formando a família Nagô-Vodun, formada principalmente por Ogun ou Gú, Odé, Oyá, Òsún e Yemanjá. O culto trazido pela africana conhecida como Ludovina Pessoa, natural de Mahi, iniciada para o vodun nagô Ogun, que foi escolhida pelos voduns para fundar três templos na Bahia. Ela fundou o “Zoogodo Bogun Malé Hundo”, mais conhecido como “Terreiro do Bogun”, consagrado a Hevioso e o “Zoogodo Bogun Sejá Hundê”, mais conhecido como “Kwê Sejá Hundê”, consagrado a Bessém. O templo que seria consagrado a Azansú Sakpata não chegou a ser fundado.
  • Jeje Savalu: Os Savalus ou Savalunos, como também são chamados, chegaram ao Brasil escravizados em meados do século XVII, juntamente com outras etnias, entre outros os falantes das línguas akan, língua ewe, língua fon, língua mina, língua fanti e língua ashanti. O Jeje Savalu é o culto dos Vodun provenientes da região do antigo Reino Savalu. Esse Reino é hoje parte da República do Benin, e essa região é uma cidade que mantém esse nome, localizada a uns 70 quilômetros da cidade de Dassa-Zoumé onde existe o Templo Dassa-Zoumé dedicado a Nanã Buruku. O termo Saluvá ou Savalu, vem de Savé ou Savi que era o local onde se cultuava Nanã. Nanã é a denominação de uma localidade situada na rota para a cidade de Savé, a parte norte do Benin. Nanã é uma das origens das quais seria Bariba, uma antiga dinastia originária de um filho de Oduduá, que é o fundador de Savé, é uma parada na rota para o norte é a cidade de Savé. É um lugar muito especial e de grande tradição religiosa, desprendida das misteriosas formações rochosas, algumas de caráter sagrado e a alma do povo Fon, a perceber-se por toda parte, principalmente pelo culto ao Vodun Sakpata. Alguns estudiosos associam a Cultura Ewe-Fon a uma subdivisão na hierarquia do Panteão Ioruba, no que tange principalmente a identidade cultural. Nesse sentido alguns pontos polêmicos merecem destaque, como por exemplo, a presença de Nanã, seguramente uma divindade de origem Fon, na cultura ioruba. Antes da abolição da escravatura, em 1888, os negros fugidos das fazendas, reuniam-se em lugares afastados nas florestas em agrupamentos ou comunidades chamadas quilombos, depois da libertação, os africanos libertos reuniam-se em comunidades nas cidades que passaram a chamar de candomblé. Sakpata era rei da cidade Savalu na África, segundo alguns historiadores, Sakpata foi o único rei que preferiu o exílio a se render aos conquistadores do Daomé. Os Savalus falam um dialeto que mistura a língua dos Ewe e dos Fon. 
  • Jeje Dahomey: é a forma de culto estabelecida pelos povos adjas, seu culto baseia-se principalmente na reverência aos Voduns Reais (dirigentes do Dahomey), Voduns da família de Hevioso (voduns do trovão, juntamente com os tòvoduns ou voduns aquáticos) e Voduns da família de Dan (serpentes). Orixás não são cultuados nesta ramificação. O terreiro que representa esta nação é o Terreiro do Pinho (Hunkpame Dahomey) situado em Maragojipe na Bahia. As línguas faladas são o adjagbé e o ewegbé.
  • Jeje Mina:tem seu culto voltado à adoração real dos voduns de Abomey. Isso porque a fundadora deste culto (presente unicamente na Casa das Minas, pois nas demais casas de Tambor de Mina, o culto é Mina Jeje-Nagô, com influências iorubas) era a Rainha Nã Agontimé. Pesquisas realizadas por Pierre Verger sugerem que Nã Agontimé teria sido enviada, como escravizada, a São Luís do Maranhão, onde foi renomeada como Maria Jesuína e seria a fundadora da célebre Casa das Minas. Pierre Verger ainda cita: “A Casa das Minas teria sido fundada pela rainha Nã Agontime, viúva do Rei Agonglô (1789-1797), vendida como escrava por Adondozã (1797-1818), que governou o Dahomey após o falecimento do pai e foi destronado pelo meio irmão, Ghezo, filho da rainha (1818-1858). Ghezo chegou a organizar uma embaixada às Américas para procurar a sua mãe, que não foi encontrada”. A Casa das Minas cultua os Voduns dirigentes e nobres do Dahomey, inclusive Zomadonu, que é chefe da Casa da Minas, juntamente com Nochê Naé, a ancestral mítica da família Real.

 

Principais Terreiros de nação Jeje 

  • Cacunda de Yayá

O terreiro Cacunda de Yayá foi fundado em Salvador por Mãe Tança Jaoci. Em sua peregrinação, o Terreiro passou pelos bairros da Liberdade, Cidade Baixa até se fixar no bairro de Sussuarana. Segundo o Doté Amilton de Adaen, o nome “Cacunda de Yayá” tem origem por causa de um cajueiro com tronco em formato de corcunda que existia no local onde foi assentado esse terreiro. Yayá era a forma carinhosa como Mãe Tança era chamada pelo seu marido, Seu Sinfrônio, e foi ele quem deu o apelido àquele Terreiro. A última representante da Cacunda de Yayá foi a Ialorixá Maria de Lourdes Buana (Iyá Ominibu Kafae foobá), filha de Mãe Tança Jaoci. Dentre os filhos de Santo de Mãe Tança, estão Mãe Hilda Jitolu, fundadora do Ilê Axé Jitolú, no bairro do Curuzu e Doté Amilton de Adaem, que ainda hoje segue a luta pela preservação da tradição Jeje Savalu à frente do Kwe Vodun Zo, também no bairro do Curuzu.

  • Ilê Axé Jitolú

Descendente direto da Cacunda de Iaiá, O Ilê Axé Jitolú foi fundado pela mãe de santo Hilda Jitolú em 1952, o terreiro da Nação Jeje Savalu, é um dos mais tradicionais de Salvador. Foi no Ilê Axé Jitolu que aconteceram as primeiras reuniões que, em 1974, deram origem ao bloco afro Ilê Aiyê, comandado pelo filho da matriarca, Antonio Carlos dos Santos Vovô. O Terreiro também serviu de espaço para abrigar a Escola Mãe Hilda e o Projeto de Extensão Pedagógica do Ilê Aiyê. Falecida em 2009, o terreiro é hoje comandado pela sua filha, Mãe Hildelice Benta.

  • Humpame Kwé Vodum Zô (Templo do Deus/Espírito do Fogo)

Também descendente direto da Cacunda de Iaiá, o terreiro Hunkpame Savalu Vodun Zo Xwe ou Vodun Zo, se localiza na Rua Direta do Curuzu, Bairro da Liberdade. Há mais de 40 anos a casa ocupa esse espaço, no entanto, ela existe faz mais de 100 anos.  Sua nação é a Jeje Savalu e tem atualmente como sacerdote o Doté Amilton de Adaem. O Vodun Zo é conhecido como mancha verde, pois a região possui a única área verde preservada do bairro com maior população negra da cidade. De 12 mil m² de área, restaram ao terreiro apenas 2 mil m². Ao longo de 40 anos em que o Doté Amilton está no local, houve invasões com derrubada de árvores, depredação da fonte, problemas com especulação imobiliária e dificuldade de manutenção das instalações – motivos que foram elencados no ofício para formalizar o pedido de tombamento protocolado e documentado pela Associação Brasileira de Preservação da Cultura Afro Ameríndia (AFA). O Vodum Zo foi o primeiro Terreiro de Candomblé a ser tombado pelo município de Salvador. Como um dos poucos da nação Jeje Savalu, o Vodun Zo  preserva os ritos originais da linhagem, bem como o dialeto africano ewe-fon, nos cânticos, rezas e no cotidiano da comunidade do Curuzu, no bairro da Liberdade.

  • Zoogodô Gbogun Malê Rundó ou Terreiro do Bogum

O Terreiro de Bogum, candomblé de tradição Jeje Mahin, tem muitas diferenças em relação aos outros terreiros de Salvador. A principal diferença é a língua falada nos rituais, o jeje. A maioria dos candomblés baianos é de tradição nagô e utiliza como língua o iorubá. Com uma área total de mil m² e 600m² de área construída, o Terreiro guarda uma estrutura arquitetônica ancestral, possui mais de duzentos anos de fundado e a atual sacerdotisa é Zaildes de Mello ou Mãe Índia. O Terreiro do Bogum é um dos mais antigos e tradicionais terreiros de nação Jeje de Salvador. O termo “bogum” significa lugar do povo fon. Diferentemente dos terreiros de nação kêtu-nagô, neste terreiro não se cultua orixás, mas voduns. O culto também é falado em língua fongbé, com tradição ligada ao Benin, e não o iorubá dos nagôs.

  • A participação do Terreiro do Bogun, na Revolta dos Malês

O Bogun teve papel importante em uma das mais famosas revoltas negra da Bahia, a Revolta dos Malês, ocorrida em 1835. Lá foram recolhidos os donativos que permitiram a insurreição. Os malês sabiam ler e escrever na língua árabe, tinham grande poder de organização e articulação e pretendiam fundar um “reino africano” em terras brasileiras, mas foram traídos, e o movimento descoberto. Um dos líderes da revolta, Joaquim Jêje, pertencia a essa comunidade.

  • Zoogodô Gbogun Male Séjáhùnde ou Roça dos Ventura

A ocupação histórica do Terreiro da Roça do Ventura, remonta ao ano de 1858. É depositário e responsável pela preservação de umas das tradições religiosas de matriz africana, mais particularmente da liturgia do Candomblé de nação Jeje-Mahi, originaria nos cultos às divindades chamadas Vodum. O Seja Unde tem fundamental importância na conformação da rede de terreiros do Recôncavo Baiano e sobretudo para a formação histórica do Candomblé como uma instituição religiosa.

  • Roça de Cima

Por volta de 1858, tem-se informações orais sobre um candomblé situado na estrada que vai para Belém, chamado Roça de Cima, liderado por Ludovina Pessoa de Ogum e Tio Xareme de Azansú. Lá foi assentado, ao pé da jaqueira, o dono do terreiro, o Vodun Azansú Azongoroji, fato confirmado no jornal Alabama, em várias notícias publicadas entre 1866 e 1869. Ludovina era africana, nascida em Mahi, por volta de 1854, iniciada para o Vodun Age (Amã Egebemiló). Mulher de forte personalidade, mantinha negócios, viajava periodicamente para África e mantinha estreitas relações com o Bogum, em Salvador. Iniciou e fez obrigações, nessa roça, para mulheres que, mais tarde, iriam tornar-se grandes mães do Jeje, como Maria Ogorensi Ahunsi Misimi (Maria Luiza Gonzaga de Souza – 1820-1923) e Sinhá Abale (Maria Epifania Dionísia do Sacramento – 1860-1950), além de Mãe Hunyo (Maria Valentina dos Anjos – 1877-1975), Gaiaku Emiliana (Maria Emiliana da Piedade – 1854-1946) e Kposusi Romaninha (Maria Romana Moreira – 1867-1956), todas três do Bogum. A fama de Ludovina Pessoa era grande e ela tinha apoio de pessoas de destaque da elite negra cachoeirense, em particular de Zé de Brechó, líder de associações e irmandades, profundo conhecedor da tradição Jeje e que, como dignitário do candomblé, chegou a dirigir o terreiro, após o falecimento de Tio Xareme e Ludovina, acabando por comprar a Roça de Cima, em 1882. Com a morte de Zé de Brechó, em 16 de abril de 1902, o candomblé da Roça de Cima foi extinto.

É comum o povo de candomblé, quando passa pela Fazenda Altamira (antigo Sítio Xarem) e cruza com uma frondosa e antiga jaqueira, saudar “trocando língua” e, por vezes, batendo a cabeça na própria árvore. A Fazenda Altamira foi vendida várias vezes, passando por vários donos. Por coincidência, ou não, todos os donos que, na época tinham boa situação financeira, acabavam perdendo tudo que possuíam, terminando na miséria.

  • Roça de Baixo

Por volta de 1880, começou a expansão das casas de culto nagô (nome dado pelo povo do Daomé aos yorubás originários da Nigéria e do Benin) nas cidades de Cachoeira e de São Félix, enquanto a Roça de Cima se dividia. Manoel Ventura Esteves, companheiro de Maria Ogorensi Ahunsi Misimi (Maria Luisa Gonzaga de Souza), comprou uma roça vizinha à Fazenda Altamira, onde estava localizado o antigo candomblé do Bitedô, que fazia fronteira com o Engenho do Rosário. Era uma roça muito grande e com muitas árvores frutíferas. O poço da Mãe-d’água, onde se fazia obrigação para Osun, pertencia a esta roça, que fazia divisa com as terras chamadas Malaquias. Maria Luisa Gonzaga de Souza, filha de santo de Ludovina Pessoa, iniciada para o Vodun Besen, deixou a Roça de Cima, desceu para as terras compradas por Manoel Ventura, e fundou o candomblé Jeje Mahin denominado Sejá Hundé. Ali tomou posse do título (cargo) de Gaiaku, e passou a ser conhecida como Gaiaku Maria Ogorensi.

O terreiro Sejá Hundé pertence ao Vodun Gbésen, o rei da nação Jeje Mahin, e o barracão, que eles chamam de Agbasá, pertence ao Vodun Azansú, talvez em homenagem ao dono da roça onde Maria Ogorensi foi iniciada. Podemos supor que a tradução do nome do terreiro Xwé Seja Hundé seja: “Aqui, neste lugar, há uma casa onde se adora um Vodun representado por uma cobra de ferro”. Segundo Gaiaku Luiza, na Roça de Cima praticavam o Jeje Mundubi (começam as obrigações com Egun e terminam com Egun.), enquanto no Sejá Hundé, intitulada por Maria Ogorensi como Jeje Mahin, as obrigações começam com Ayisan e terminam com o Vodun Aziri-Tobosi. Uma das quizilas do Jeje Mahin é a presença de casa de Egun em sua roça.

Os dois terreiros, Roça e Cima e Roça de Baixo, vizinhos, chegaram a funcionar paralelamente, ambos realizando a festa do Gboitá. Com o tempo, a Roça de Cima começou a decair, devido ao falecimento de seus filhos. Por volta de 1902, com a morte de Zé de Brechó, os dois candomblés foram unidos, e os membros da Roça de Cima desceram para o terreiro Sejá Hundé, onde se juntaram a Maria Ogorensi na administração da casa e na realização das duas principais festas, que são o Gboitá e a fogueira dos Voduns Gbade e Sogbo. O Sejá Hundé prosperou, iniciando muitas ahamas (barcos) de Vodunsi.

Após muita luta da sua comunidade, o Seja Hundé, passou a ser considerado, no dia 04 de dezembro de 2014, Patrimônio Cultural do Brasil. Ele foi tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). O Roça do Ventura foi o sétimo terreiro no Brasil e o sexto na Bahia a receber o reconhecimento e, a partir daquela data, está sob proteção legal.

  • Humpame Ayono Runtoloji

O Humpame Ayono Huntoloji, terreiro de “Nação” Jeje mahi, foi fundado em 1952, na cidade de Salvador, no local denominado Variante do Cabrito, dentro do Parque São Bartolomeu, no bairro do Lobato. Fundado por Luiza Franquelina da Rocha, a Gaiaku Luiza. Este terreiro tem como regente ou “cumeeira” a divindade Azansú. Em 1963, Gaiaku Luiza comprou, da Indústria Tororó, um sítio, no bairro do Caquende, na cidade de Cachoeira, para onde o Humpame foi transferido, permanecendo até a presente data.

Gaiaku Luiza dirigiu a Casa até o seu falecimento aos 96 anos, em junho de 2005. O Rumkpame Ayono Runtólogi foi o primeiro terreiro de candomblé de Cachoeira, terra fortemente marcada pela influência das religiões de matriz africana, a ser inscrito no livro de tombo do Estado da Bahia. Desde dezembro de 2006 o terreiro é tombado como bem cultural pelo Instituto do Patrimônio Artístico e Cultural (IPAC), o Ayono Runtoloji é um dos poucos terreiros de candomblé que seguem a tradição jeje-mahi no Brasil. Esse espaço religioso está localizado no Alto da Levada, nº 22, no bairro do Caquende, numa área com árvores sagradas e por onde passa um riacho perene, possui uma casa residencial e um barracão de chão batido para as celebrações do culto, como manda a tradição jeje mahi. A sucessora da Gaiaku Luiza, Regina Maria da Rocha, é enfermeira aposentada, formada pela Universidade Federal da Bahia, e sobrinha da fundadora do terreiro.

 

Particularidades entre o Terreiro do Bogum e a Roça de Cima

O ‘Jeje’, é assim que o povo se refere, com carinho e reconhecimento, ao Zoogodô Bogum Malê Rundó, instalado no ‘fim de linha’ do Engenho Velho da Federação. Parés testemunha o dinamismo de seus sacerdotes e sacerdotisas, no enriquecimento do patrimônio cultural religioso negro. Atores da resistência deste ‘modo particular de rezar’, adoçavam este ‘bom combate’ com atos de dignidade. A comunidade do Bogum expõe a sua particularidade dizendo-se único, embora haja a consciência de íntimas ligações com o jeje-mahim de Cachoeira, a Roça de Cima.

Esta Roça seria a continuidade do Candomblé do Bitedô ou Oba Têdô, localizada na Recuada. Ligado a este templo estaria o sacerdote Kixareme ou Tixarene e a venerável sacerdotisa Ludovina Pessoa, da Irmandade da Boa Morte, o elo entre Cachoeira e Bogum. D. Ludovina seria a iniciadora do clã feminino do Bogum, através da realização dos processos iniciáticos de Maria Emiliana da Piedade, mãe carnal de Maria Luisa Piedade, a venerável Maria Ogorensi ou Angorensi, fundadora do Seja Hundé em Cachoeira, Terreiro contemporâneo da Roça de Cima onde, segundo comenta-se, reduto de concentração jeje, após a extinção da Roça de Cima. Maria Romana Moreira, iniciada por Ogorensi, conhecida como Romaninha de Possu Betá Poji, desempenhou importante papel tanto em Cachoeira quanto no Bogum, onde assumira o papel de Deré, o segundo cargo jeje mais elevado, tendo apenas como superior o cargo de Doné, no Bogum, ou Gaiaku, em Cachoeira. A ocupação deste posto se efetivou antes da ascensão de Maria Valentina dos Anjos, a sempre lembrada Doné Runhó, na direção máxima do Bogum. Este vínculo entre o Bogum e os terreiros jeje-mahim de Cachoeira recebe, por vezes, contestações, dividindo opiniões. Alguns mencionam o fato de Ludovina Pessoa ter sido a primeira mãe-de-santo do jeje-marrim, fato que alguns do Bogum contestam, alegando que esta era apenas uma das antigas amigas da Casa. Lidamos com a falta de registros seguros, o que nos impede de uma posição consolidada, mas podemos optar que, provavelmente, Ludovina seria fundadora da Roça de Cima, em 1860, e teria ligações com o Bogum, no mínimo, como uma figura relevante, ou seja, muito mais que ‘uma amiga da casa’. Alguns mantêm a opinião que ela fora ‘uma antiga Mãe de santo jeje’. Ao que parece, após o tempo de Ludovina, houvera uma marcante interrupção nas atividades do Terreiro, surgindo na memória coletiva o prenome Valentina e a identificação do seu vodum Adaen, como autoridade máxima, dissera certa feita Doné Runhó a pesquisadores do CEAO. 

Povo Jêje do Maranhão

Palavras de Pai Euclides Menezes Ferreira Talabyan – Balaborixá da Casa Fanti Ashanti no Maranhão

É bonito se ver no presente o envelhecimento e a dignidade dos Terreiros antigos, conservando a tradição com a casa das Minas, a casa de Nagô, o Terreiro da Turquia, o Terreiro de Justino, este situado no lugarejo Santo Antonio de Monte alegre.  (E. M. F. TALABIAN, 1997)

Em 1985 o Babalorixá Euclides registrou que existiam aproximadamente 500 Terreiros de Mina (em São Luís) no Maranhão. Ele complementa que estes Terreiros trouxeram seus sentimentos, seus costumes, seus folguedos, suas músicas, crenças, principalmente. Segundo Pai Euclides Talabian:

“Minha antiga Mãe de Santo me contou que os primeiros a se estabelecerem em São Luís foram Xangô Ogodô e Oiyá Aborimessã o que leva a crer na versão de Mãe Dudu, que a matrix do Tambor de Mina é a Casa de Nagô. (TALABIAN, 1985)”.

Ainda falou Pai Euclides Talabian:

“Tive a oportunidade de ver em Codó, município do Maranhão, alguns voduns bastante conhecidos em São Luís: Toi Bade; Zomadonu; Doçu; Agbé; Averekete; Dava Rie, Kapanã”.

Nesta época não existiam facilidades para que essa gente fizesse um intercâmbio de Codó a São Luís, pois as viagens eram de trem e tinha poucas condições financeiras para tais passeios, principalmente as mulheres, que eram voltadas para sua vida cotidiana. Como iriam saber da existência desses voduns?

  • A Religião Mina-Jêje

A Religião Mina–Jêje é uma escola de modos de vida, modos de pensar no plano cultural e social, econômico, político das populações. Mina-Jêje é resistência e afirmação de Identidade Cultural.

As sobrevivências das religiões africanas na América Latina e no Caribe asseguram a permanência de contribuições aos mais diversos processos desenvolvimento, à compreensão dos contextos nos quais se situam a culturas e religiões africanas, suas funções espiritual, sociocultural, política e religiosa.

  • A Estrutura dos Terreiros de Mina

Há uma hierarquia que garante a existência e sobrevivência dos Terreiros.

O zelador(a) Pai ou Mãe de Santo

O guia ou Mãe Pequena

Os Vodunsis – filhos(as) de Santo

Os subgrupos segundo o pertencimento das pessoas

Os abatazeiros

  • Escolha da Hierarquia pelos Voduns

A escolha da hierarquia é assentada sobre critérios, saberes, conhecer, relação com a ancestralidade, tempo de pertencimento, desempenho dentro do Terreiro, capacidade de compartilhar com outras Vodunsis, o tempo de iniciação.

  • Principais Nações Africanas no Tambor de Mina do Maranhão
  • Nagôs, Yorubás de Abeokutá na Casa de Nagô
  • Ibadan na Casa de Justino
  • Tapa ou Nupê na Casa de Turquia e Casa de Nagô
  • Cabindas; Cachéus – Terreiros de Codó
  • Jêje ou Fon na Casa das Minas
  • Felupes; Bijagós; Grumsci; Fanti; Ashanti
  • Principais Símbolos Rituais
  • Palavras
  • Gestos rituais
  • Ritmos
  • Cantigas
  • Alimentos
  • Instrumentos musicais
  • Pontos
  • Doutrinas
  • Toadas
  • Vestimentas – a cor varia segundo as entidades celebradas
  • Panteão das entidades da Religião Afro-Brasileira no Maranhão e suas mesclas e recriações
  • Voduns Mina – Jêje – divindade dahomeana – entidades espirituais cultuadas na África – posição superior;
  • Caboclos – família. Rei da Turquia e Légua Bujiá – entidades espirituais recebidas nos “toques” de Mina que não são reconhecidas como Voduns;
  • Encantados;
  • Gentis (Nobres) Fidalgos;
  • Reis, Rainhas, Princesas;
  • Caboclos Kardecistas;
  • Légua Bují manifesta-se ora com Vodum, ora como fidalgo;
  • As Linhas da Mina
  • Linha de Água Salgada;
  • Linha da Mata
  • Linha da Água Doce – batedores de maracá
  • Linha do Astral

(Entidades caboclos – Voduns ou Gentios)

  • A Posição na cabeça dos Filhos de Santo no Terreiro
  • Os donos da cabeça – senhor ou senhora;
  • As Tobôssis – meninas – filhas do dono da cabeça
  • Guia – chefe ou guia – primeira entidade cabocla a incorporar na cabela da filha ou filho de santo.

A Casa das Minas, ou Querebentã de Zomadônu

À rua de São Pantaleão, nº 857, localiza-se a Casa das Minas. Dois casarões de taipa, geminados, seguidos por um terreno murado em cada rua, ocupando uma área aproximadamente de 1500 m2, situado em bairro populoso, próximo ao Centro da Cidade. A Casa das Minas, ou Querebentã de Zomadônu, é a mais antiga casa de religião afro-brasileira do Maranhão e uma das mais antigas do Brasil. Foi, provavelmente, fundada em meados do século XIX por negros jeje oriundos do sul de Benin (antigo Daomé).

A memória oral, transmitida entre as gerações, conta que a Casa das Minas foi fundada por Maria Jesuína – que adorava Zomadônu e que teria passado pelo ritual para se tornar mãe ainda na África. Poucas informações sobre a fundadora da casa foram repassadas pelas integrantes mais velhas às mais jovens, entretanto há a possibilidade de Maria Jesuína ter sido a Rainha Nã Agotimé, ou ter sido filha de santo dela, apesar do nome da rainha não ser reconhecido pelas filhas da casa. (FERRETTI, 1996, p. 59).

A casa possui duas portas e seis janelas. Segue-se a ampla varanda com piso de terra e peitoril de meio muro, abrindo para um grande terreno cheio de árvores e plantas. A construção com um pátio central possui semelhanças com a arquitetura colonial da Nigéria e do Dahomé – do Benin. Há um corredor com quartos à direita e outros à esquerda. A casa não é forrada, mostra madeira antiga, coberta de telhas coloniais. Os fundadores da casa foram negros africanos Jêjes trazidos escravizados para o Maranhão, Gente Mina.

A Casa das Minas Jêje foi a grande nação de Mãe Andresa. Ela diz:

“A casa foi assentada por contrabando, gente Mina Jêje (Ewé/Fon) vinda da África que trouxe até o peji consigo”.

Os voduns da Casa das Minas agrupam-se em três famílias principais e duas menores.

  • Família Real de Abomey: Toi Zomadonu – chefe do clã de Device – dono da casa e filho de um antigo Rei do Dahomé. É o Vodum protetor das Mães que fundaram a Casa – as primeiras Mães Africanas que organizaram a comunidade e assentaram a casa.
  • A segunda Família a achegar: Heviosso. Eles controlam os ares, os astros, os raios, os astros, as tempestades, as chuvas, e as águas:

São chefiados por: Noche Sobô (Yansã) e Badé heviosso (Xangô).

  • A terceira família a chegar: Dambirá – constitui o planeta terra ou de odá, chefiada por Toi Acossi Sakpatá. São pobres e poderosos. São reis caboclos, combatem as doenças e as peste.

Existem ainda na Casa: Voduns

  • Voduns da Família Savaluno, chefiados por Toi Agongono – não são Jêje – são amigos do povo de Davice, tornaram-se hóspedes de Zomadonu.
  • Voduns de Alandanu chefiados por Toi Ajautó, hóspedes dos Voduns de Heviosso e amigos do povo de Dambirá.

Na Casa das Minas é proibido o culto de Elegbará (Exu). A pesquisadora Maria Amália Barreto constatou que a casa mais fechada às influências é a Casa das Minas.

Pai Euclides “Talabian” Ferreira e sua Casa Fanti Ashanti

Pai Euclides abriu o seu terreiro em 1958, no sítio do Igapara, com o nome de Tenda São Jorge Jardim de Oeira da Nação Fanti Ashanti popularmente conhecida por Casa Fanti Ashanti, de acordo com o Estatuto do terreiro, transcrito em um dos seus livros publicados (FERREIRA, 1987, p.121). Apesar de a Casa ter recebido uma denominação semelhante à de muitos terreiros de Umbanda ou de caboclo, já teria nascido identificada com a nação Fanti-Ashanti.

Em 1963, a Casa Fanti-Ashanti foi transferida para o bairro do Cruzeiro do Anil. Cinco anos depois era realizada ali a primeira iniciação completa de filho da Casa – o paraense João Albino de Aquino, adotando características que fugiam do modelo da Mina do Maranhão e a aproximavam do Candomblé da Bahia. Mas, na época, Pai Euclides se apresentava como babalorixá de inkice Talabian de Urumilá, como foi registrado no certificado conferido àquele filho-de-santo. Em 1974, Pai Euclides se apresentou à pesquisadora Maria Amália Barretto como filho de To Alabi Oxanaim  de Urumilá e de Oxum Apará (BARRETTO, 1977, p.121).

A quarta ligação de Pai Euclides com entidade associada a Lissá ocorreu 8 anos após a iniciação de João Albino e cerca de 10 anos após o falecimento de sua mãe-de-santo, quando ele recebeu Orixá Oguiã, no Xangô de Recife. Em 1980, depois de “tirar a mão de vumbe” em Recife, oficializou, na Casa Fanti-Ashanti, o Candomblé que, segundo declara, já vinha sendo adotando desde 1976 (FERREIRA, 1984, p.11), passando a entrar em transe no Candomblé principalmente com Oxalá e a receber Mãe Maria como Oxum.

A partir daí o seu terreiro, que já vinha em expansão, cresceu bastante, passou a ser mais apresentado e conhecido como de Oxalá e sua nação passou a ser definida mais como jeje-nagô do que como fanti-ashanti. No 30º aniversário do terreiro, Pai Euclides se refere a ele como “Casa Branca Fanti-Ashanti” e como “Casa de Oxalá”.

Com a “mudança de nação” da Casa Fanti-Ashanti, Pai Euclides reelaborou sua identidade jeje e passou a apresentar-se como ligado ao jeje-mahi, nação em que seu pai-de-santo Severino Ramos, o Raminho de Oxossi, recebeu parte do seu axé (FERREIRA, 1987, p.98). Mas, mesmo “mudando de nação”, ele continuou alimentando o sonho de se ligar diretamente a um sacerdote africano do Gana ou do Benin (FERRETTI, M, 2000, p. 180), o que implicaria numa retomada de suas ligações com o Terreiro do Egito e com o vodum Lissá, na Casa das Minas.

No certificado preparado para o paraense João Albino de Aquino, a Casa era apresentada como “Abassá Olissa de Urumilá”, do babalorixá de inkice Talabian de Urumilá. A relação de Pai Euclides com Urumila já foi por ele lembrada para justificar a realização em sua Casa da Festa do Espírito Santo, tradicional no Maranhão, considerando-se que no sincretismo afro-brasileiro os dois são associados.

O terreiro, Tenda São Jorge Jardim de Oeira, da Nação Fanthi-Ashanthi, foi inaugurado no dia 01 de janeiro de 1958 no sítio do Igapara às margens do rio bacanga em um lugarejo de São Luis, posteriormente a Casa Fanthi-Ashanthi transferiu-se para a Rua Militar, nº 1158, no bairro do Cruzeiro do Anil em São Luis-MA, no dia 01 de Janeiro de 1964, onde permanece até os dias atuais, um local estratégico e fácil de chegar.

Não somente como pioneiro a implantar o candomblé no estado do Maranhão, precisamente em São Luis, mas também como cultuador do tradicional Tambor-de-Mina e outros ritos, Pai Euclides se manteve bastante coerente no trato das questões religiosas considerando com muito cuidado as práticas que a casa difunde, para que não houvesse choque entre a ancestralidade e a comunidade. 

Principais zeladores do candomblé de nação Jeje 

  • Gaiaku Satu
  • Mãe Tança Jaoci
  • Mãe Hilda Jitolu
  • Gaiaku Luiza
  • Pai Euclides Talabyan
  • Doté Amilton de Adaem
  • Mãe Hildelice Benta
  • Gaiaku Regina
  • Mãe Índia

Os Agudás

Eles não falam português, mas quando estão juntos trocam o bonjour (francês é a língua oficial do Benin) por bom dia. Nos dias de festa, cantam músicas em português. Ao receberem convidados em casa, preparam o que chamam de feijoadá ou kousido.

Representando entre 5% e 10% da população do Benin, os agudás, descendentes de escravizados ou comerciantes baianos que emigraram para o Golfo do Benin no século 18, guardam ainda, com muito orgulho, traços que os ligam ao Brasil. Os agudás são muito orgulhosos por ter a um pouco da cultura brasileira no Benin. Mantém os costumes nas roupas, na comida e também no samba, através de uma manifestação cultural chamada “burrinha”, uma forma arcaica de bumba-meu-boi. Os traços, no entanto, estão ligados ao Brasil colonial.

Entre os agudás mais conhecidos no Benin, estão os integrantes da família Souza. Tudo começou quando Francisco Félix de Souza, um baiano, comerciante de negros, se transferiu para o Benin, levando com ele um grupo de negras e negros libertos. Souza, que recebeu o título de Chachá, conseguiu grande destaque no comércio de envio de negros para o Brasil e, devido às suas ligações com o rei de Abomey, da qual a cidade de Uidá fazia parte, acabou recebendo o título de vice-rei da Uidá, dinastia que os Souza mantêm até hoje.

O último descendente do primeiro vice-rei de Uidá foi empossado em 1995, após a morte de Jérôme Anastácio de Souza. O Chachá 8º, Sr. Mitô Honorê Feliciano de Souza, desde que chegou ao trono, vem tentando aumentar as ligações entre o Brasil e o Benin. De acordo com levantamento feito pelo antropólogo e fotógrafo brasileiro Milton Guran, autor do livro Agudás, os brasileiros do Benin, há cerca de 400 sobrenomes luso-brasileiros hoje em dia no país. São Silvas, Souzas, Freitas, Domingos, entre outros, vivendo em sua grande maioria no sul do país, em cidades como Porto Novo, Uidá e Cotonou. Mas, segundo Milton, esse número de descendentes pode ser ainda maior, já que muitas mulheres perdem o sobrenome quando se casam, e os filhos recebem o sobrenome do pai. 

GLOSSÁRIO DAS RELIGIÕES DO POVO GÊGE

  • Abatazeiro – aquele que toca abata no Terreiro de Mina
  • Assentamento – ritual para implantação de um Terreiro
  • Axé – força abastecedora dos Terreiros
  • Baboromina – preceito, força, entidade, obrigações – o visual, o transcendental
  • Bancada – mesmo que arrambam
  • Banto – etnias angola e Congo
  • Borobobó – termo usado por Mãe Dudu para designar velha africana
  • Cabo da Volga – está no comando
  • Cura – é um ritual que se caracteriza pelo uso de maracá, palmas, pandeiro, matraca, tipo pajelança onde se dá passagem para várias entidades que cantam, dançam, ensinam e fazem remédios que cura.
  • Encantados – invisível, orixá, vodum, entidade, caboclos.
  • Fundamento – palavra de duplo sentido na religião. Conjunto de preceitos ´para aprofundar o conhecimento da religião.
  • Guma – Terreiro, local de dançar no Tambor de Mina. Local de celebrar rituais de Mina.
  • Imbarabô – canto de abertura usado nas casas de linha nagô. Pedido de licença para afastar maces e dar passagem às entidades.
  • Mina – strictu sensu – negros da nação Fanti – Asanti. Africanos escravizados, embarcados no Forte de São Jorge da Mina: Mina Jeje, Mina – Nagô.
  • Nação – unidade racial, pessoas da mesma raça, da mesma etnia.
  • Panteão – conjunto de divindades organizadas hierarquicamente.
  • Pejí – o santuário, lugar onde estão os objetos sagrados e os segredos.
  • Querebentar – a Casa Grande das Negras Minas.
  • Queviosso – vodum chefe das três famílias dos voduns da Casa das Minas.
  • Rosário – guia, colar sagrado.
  • Rumpli – Tambor menor da Casa das Minas
  • Run – Tambor maior
  • Runtó – tocador de atabaques da Casa das Minas
  • Savalumu – uma região próximo Abomey
  • Tá – tambor nos Terreiros de Mina
  • Tambor de Mina – designa no Maranhão, a casa da religião é a própria religião original africana.
  • Tambor de xôro – ritual mortuário.
  • Terecô – mesmo que Tambor de Mina especificamente em Codó e baixo Moreira. Também chamado de badé.
  • Terreiros de raízes – casas de religião tradicionais, fundadas por africanas (nagô, tapa, cabada)
  • Tobossi – menina, sinhasinhas, parte da nobreza, princesas, fidalgas.
  • Tobossis – entidades infantis, tipo princesas – representam um grau maior de iniciação.
  • Toi – Pai
  • Tóquen – guia que antecede os Voduns em sua visitas aos filhos.
  • Turquia – casa centenária da nação tapa, cuja linha principal é chefiada por turcos.
  • Umbanda – praticas religiosas originarias de: catolicismo, cardecismo, indígena.
  • Vadança – quem recebe vodum com uma certa experiência
  • Vandecosme – lugar sagrado – quarto de segredo.
  • Vidente – faculdades de prever, mediunidade
  • Zomadomu – o principal Vodun cultuado na Casa das Minas, um Tohossous da família real Abomey.

Referências

Gaiaku Luiza e a Trajetória do Jeje-Mahi na Bahia, por Marcos Carvalho

 

jun
17

Festival Ilê AiyêEstão abertas, desde o último dia 13, as inscrições para o 43º Festival de Música Negra da Ilê Aiyê. Nesse primeiro momento, apenas as músicas da categoria poesia estão sendo inscritas. O Festival de Música Negra do Ilê Aiyê tem por objetivo principal a preservação e a expansão da música de tradição africana, missão que o Ilê se propôs desde 1974. O Festival também  dá oportunidade para que os compositores possam expressar os seus sentimentos de auto-estima.

Os compositores interessados, devem se inscrever na sede do Ilê Aiyê, a Senzala do Barro Preto, e, no ato da inscrição, devem entregar um CD com a música gravada e 10 cópias da letra dessa música. Para quem quiser fazer a inscrição online pode enviar a letra e a música, no formato mp3, juntamente com a ficha de inscrição, que se encontra no site ileaiyeoficial.com, para o email festivaldemusicaileaiye@gmail.com.

As inscrições irão até o dia 15 de julho de 2016. As Eliminatórias da categoria poesia irão acontecer nos dias 03, 10 e 17 de agosto de 2016.

nov
3

Terças pretasNo mês de novembro, o Bando de Teatro Olodum se associa a artistas, grupos e movimentos de valorização da cultura afro-brasileira, trazendo ao palco do Teatro Vila Velha a diversidade de linguagens que compõem a performance negra, é a VI edição do Festival de Arte Negra A Cena Tá Preta. Em 2015, o Festival contará com shows musicais, exibição de filmes, debate sobre o teatro negro e a estreia de Erê, espetáculo que marca os 25 anos de criação da mais importante companhia de teatro negro do Brasil.
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out
13

imagem tema IlêAtenção Compositores!

Estão abertas as inscrições para o 42° Festival de Música Negra do Ilê Aiyê, na categoria Tema. Os compositores interessados devem comparecer à Senzala do Barro Preto, em horário comercial, acompanhado de um CD com a música gravada e dez cópias da letra dessa música.

A novidade é que agora o compositor também pode fazer a sua inscrição online. Baixe  a ficha de inscrição e o Regulamento do Festival aqui  e envie para o e-mail: festivaldemusicaileaiye@gmail.com, anexando a música gravada em MP3 e a letra dessa música.

As eliminatórias da Categoria Tema será presencial nos dias 11 e 18 de novembro, na Senzala do Barro Preto.

O Tema do Ilê Aiyê para o Carnaval 2016 será “O Recôncavo Baiano é Afrobrasileiro – Cara Preta”. A pesquisa realizada para dar mais subsídios aos compositores está a disposição dos interessados aqui.

Boa sorte a todos!

 

set
28

imagem festivalO Blog do Tambores da Liberdade disponibiliza para os interessados a pesquisa sobre o tema do Ilê Aiyê para o carnaval 2016, intitulado “O Recôncavo Baiano é Afrodescendente – Cara Preta”. 
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jul
10

artigo jamile 01A Associação Cultural Birro Preto em parceria com a Secretaria Municipal de Assistência e Integração Social de Sapeaçu promovem concurso para mulheres negras, concurso intitulado “As Deusas Negras do Recôncavo Baiano.”
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jul
7

FESTA BLACK OR WHITEO Idearium será palco de uma mistura de ritmos brasileiros com a música pop eletrônica. No dia 17, sexta-feira, em uma noite open bar e trajando looks Preto ou Branco obrigatório, os fãs da música eletrônica vão cair na pista com muita alegria ao som do axé, rock, funk, R&B, soul, bass, pagode, tecnobrega, entre outros, comandados pelo DJ Sankofa, ganense radicado na Bahia, que dá sua pitada africana ao seu estilo musical inconfundível.
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jan
14

ensaio do IlêPara animar a noite do segundo ensaio pré-carnavalesco do Ilê Aiyê neste ano, o bloco convida o cantor e compositor Neto Bala e as integrantes da última edição do The Voice Brasil, Vanessa Borges e Kall Medrado. O show acontece a partir das 22h, na Senzala do Barro Preto e os ingressos custam R$ 30 (pista) e R$ 60 (camarote).
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dez
16

Tema do ilê 2015Dentre 16 músicas selecionadas, seis sairão vencedoras em noite que recebe Juliana Ribeiro e Savannah Lima como convidadas. A festa já seria grandiosa somente por revelar as seis canções vencedoras do 41º Festival de Música Negra do Ilê Aiyê, que tem 16 finalistas com o tema do ano: “Diáspora Africana – Jamaica – Afrodescendentes”. Mas a noite ainda conta com shows da anfitriã Band’Aiyê e das cantoras convidadas Juliana Ribeiro, sempre muito aplaudida quando leva sua graça e repertório para palco da Senzala do Barro Preto, e Savanah Lima, que promete um belo show de black music.
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jul
17

Brasil NigériaO 1º Seminário para Preservação do Patrimônio Cultural Compartilhado entre o Brasil e a Nigéria é resultado da articulação dos cinco terreiros de tradição nagô, tombados como patrimônio nacional do Brasil, o Ilé Àse Iyá Nassó Okà (Casa Branca do Engenho Velho), Ilé Àse Opo Àfonjá, Ilé Iyá Omi Àse Iyamassé (Terreiro do Gantois), Ilé Maroialaji (Terreiro Alaketu) e Ilé Osùmàré Arákà Àse Ogodó (Casa de Oxumarê), com apoio do Ministério da Cultura, Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional – IPHAN e Governo do Estado da Bahia, para o incentivo e promoção da interlocução acerca da preservação e salvaguarda de seus bens culturais.
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