IRDEB - Instituto de Radiodifusão Educativa da Bahia
TV Rádio Notícias Interatividade

Espaço Zumbi

mar
26

Por Jair Silva

Abdias Nascimento

ALMADA, Sandra. Abdias Nascimento. São Paulo: Selo Negro, 2009, 166p.

Convidada pela Editora Selo Negro para contar em uma biografia a vida de um grande e conhecido militante negro que viveu por mais de 90 anos de idade, o que não deixa de ser um imenso e gigantesco desafio para qualquer escritor que se aventure a escrever sobre a trajetória de um ativista e humanista da dimensão histórica e grandeza moral, cultural e intelectual como carregavaAbdias do Nascimento em sua brilhante trajetória de luta contra o racismo no Brasil e no mundo.Para a nossa alegria e felicidade, Sandra Almada aceitou essa tarefa com muita maestria, sensibilidade e competência.  Uma professora universitária negra e pesquisadorapreocupada em reconstruir,valorizar e contar para o grande público a imagem e história dosafro-brasileirosno nosso Brasil, apesar de não ter na sua formação o ofício de historiadora em seu currículo acadêmico. Essa jornalista,também, já nos brindou com o livro Damas Negras-Sucesso,Lutas e Discriminações,uma obra que narra e conta a trajetória de atrizes negras como Léa Garcia, Chica Xavier, Zezé Mota e Ruth de Souza.

Com uma linguagem tipicamente didática e de fácil compreensão, como se quisesse atingir e conquistar o máximo de leitores nesse livro que contém 10 capítulos e 166 páginas. A jornalista Sandra Almada ao dizer que “diferentemente dos relatos historiográficos queapresentam de forma grandiosa os feitos monumentais de homens ligados às elites”(p.20), percebe-se claramente que de imediato ela quer colocar o leitor para conhecer a biografia de um negro oriundo das classes populares e que fez da sua trajetória social uma história de superação e luta contra as adversidades provocadas pelo racismo.É o que podemos perceber já no primeiro capítulo quando há uma transcriçãoda fala de Abdias Nascimento sobre o racismo que o mesmo enfrentou na vida escolar, mostrando que as professoras sempre encontravam formas ofensivas para falar com ele e a revelação triste de um racismo hostil que no ambiente educativo excluía o menino de fazer parte do teatro de fantoches, na escola.

Acreditamos que essa preocupação da escritora em detalhar os difíceis anos da infância e adolescência de Abdias no município de Franca, cidade onde o grande e respeitado ativista negro nasceu sob a condição de filho de uma doceira e cozinheiraque prestava serviços em fazendas da região. A autora revela que o menino Abdias tinha que trabalhar entregando leite e carne na casa de famílias abastadas, com apenas noveanos de idade. Ou trabalhando na condição de faxineiro num consultório de um médico onde teria começado os seus primeiros passos na literatura, entre os seus12 e 13 anos de idade, segundo a autora desta biografia.Na nossa concepção,ao discorrer sobre esse período da sociedade brasileira, mostrando como a população negra foi marginalizada num estado onde a imigração branca-europeia substituiu o negro no mercado de trabalho. Ao fazer esta analise tendo como base a vida familiar e social de Abdias Nascimento a autora revela para os leitores o alto grau de racismo impregnado no comportamento das elites da época,ao mesmo tempo em quenos mostra e faz entender toda uma conjuntura histórica e social naqual a raça negra foi jogada à própria sorte como diria Florestam Fernandes ao analisar a vida do negro na sociedade de classes, durante a chamada sociedade pós-abolicionista nas primeiras décadas do século XX.

Não temos dúvida que essa talvez tenha sido a principal intenção desta pesquisadora ao detalhar para o leitor determinados fatos e aspectos pouco conhecidos da vida de Abdias em Franca,cidade do interior do estado de São Paulo. Entretanto, esta escritora que há 20 anos acompanhava a militância de Abdias Nascimento não fica só no discurso da vitimização, já que a primeira lição de solidariedade racial que teve Abdias foi quando sua genitora impediu uma mulher branca de surrar uma pobre criança negra. Também gostei de ter lido notexto da jornalista Sandra Almada o gosto pelas letras e artes que marcou a adolescência dofuturo escritor e ativista negro. Vejo que esse tipo de informação faz com que o leitor entenda como um negro pobre e discriminado superou a ignorância imposta à população negra pela elite branca e racista da época, ao relatarrelações de amizade  construídas por  Abdias Nascimentoquando o mesmo foi chamado para tomar conta de um consultório de um dentista, onde ele teve a sorte de ter acesso a uma rica biblioteca a qual lhe possibilitou o convívio com leituras de obras clássicas de autores como os Sertões de Euclides da Cunha, A Carne de Júlio Ribeiro, O Ateneu de Raul Pompéia, além dos livros de Monteiro Lobato.

Já nos capítulos 2 e3, anossa autora convida o leitor a conhecer como Abdias teve contato com a cultura negra no Rio de Janeiro quando morava no morro da Mangueira e na cidade de Duque de Caxias e seu engajamento político com algumas entidades, a exemplo da Frente Negra Brasileiraem São Pauloe Ação Integralista Brasileira. Poderíamos debater e problematizar váriosaspectosrelevantes da vida deste ativista negro a partir das observações destapesquisadora. Poderíamos mostrar, por exemplo, as relações de amizadedo militante negro com o poeta, ator, escritor, teatrólogo e comunista Solano Trindade, assim como daria para descrever também que Abdias conviveu com nomes importantes da cultura negra brasileira como o maestro Abigail Moura, regente da Orquestra Afro-Brasileira e pioneiro na criação de música erudita influenciada por ritmos negros, e sua relação com a comunidade terreiro do babalorixáJoãozinho da Goméia. Mas,como fazer história é fazer escolhas, prefiro me ater a uma parte da história bastante polêmica narrada pela escritora ao entrevistar este pensador e pesquisador da História e culturas africanas e afro-brasileiras. Refiro-me a discussão que o livro traz para o leitor pensar sobre o que levou um negro progressista e libertário a entrar num movimento de inspiração facistae que foi criado por Plínio Salgado em 1932-a AIB.Para a jornalista Abdias foi sensibilizado pelo discurso anti-imperialista e nacionalista fortemente defendidos pelos integrantes da AIB e isto foi o que justificou a adesão do grande militante panafricanista a essa corrente política na época. Curiosamente, o livro na fala do engajamento nacionalista de Abdias na campanha O Petróleo é Nosso, o que não deixa de ser uma pequenafalha da nossa autora, por se tratar de um episódio tão importante da política nacional.

Ainda com base na visão desta escritora a adesão ao integralismo teria sido uma experiência positiva na vida do militante negro,visto que o nosso biografado passou a conviver com personalidades e intelectuais da cultura e política nacionais como Alceu Amoroso Lima, Roland Corbisier, Don Elder Câmara e Adonias filho, apesar de todo o racismo praticado contra a raça negra por membros que faziam parte da Ação Integralista Brasileira. É bom frisar que este preconceito racial o militante negro sentiu na pele, pois, segundo a autora mesmo ele sendo colaborador do jornal O Radical da AIB o secretário de redação não publicava fotos de Abdias ao lado dos entrevistados nas matérias.Entretanto,para este grande teatrólogo afro-brasileiro “o integralismo foi uma grande escola de vida”(p.53), tendo em vista que para um jovem pobre e sem muitas perspectivas de vida, à época, ao participar do movimento integralista ele passou a ter uma visão mais ampla sobre educação, cultura, literatura, artes, economia e sobre os grandes problemas da sociedade brasileira como disse o próprio Abdias do Nascimento ao explicar sua adesão a um movimento tão elitista, conservador e facista, como de fato foi a AIB. Felizmente, Sandra Almada mostra para o leitor que Abdias Nascimento conseguiu se redimir em atitudes e palavras ao relatar que em 1937 este ex-militante do movimento negro deixou a Ação Integralista Brasileira, passando a fazer declarações públicas de repúdio as ideias desse movimentocomo podemos constatar durante a Convenção Política do Negro Brasileiro, que foi presidida por eleem São Paulo, no ano de 1945.

No4º capítulo,Sandra revela um lado aventureiro epouco discutido quando se fala da vida do grande militante que vivia no Rio de Janeiro dividido entre “porres homéricos” e “discussões apaixonadas sobre arte e cultura”(p.62). Ela também nos leva a conhecer a vida de um rapaz que não estava preocupado com interesses nacionalistas e com questões ligadas ao movimento negro. Aqui a obra revela ao leitorumoutro Abdias em sintonia com “aquela coisa de desprezar a lógica, renegar a ordem social e moral” (p.62). Foi pensando dessa forma que ele entrou para um grupo formado por artistas, poetas, jornalistas e escritores– o grupo cultural Santa Hermandad Orquídea,viajando para países como Bolívia, Colômbia, Peru e Argentina.

O mais interessante nessa parte do livro reside num fato que aconteceu na cidade de Lima. Conforme essa autora, foi na capital peruana que ao assistir a peça O Imperador Jones em que o papel principal era protagonizado por um ator branco, que Abdias passou a refletir sobre a exclusão da raça negra no teatro brasileiro. Para que o leitor compreenda o impacto que teve essa cena na cabeça do jovem poeta e ator, Sandra afirma que a peça escrita pelo dramaturgo EugeneO`Neill tinha como personagem central um negro de nome Brutus Jones e tudo isto, obviamente, faz com que possamos  compreender  de forma mais objetiva os motivos que levaram o ativista a criar mais tarde o Teatro Experimental do Negro.

Ao discorrer sobre o capítulo 5, parte mais densa e que mereceu mais atenção daautora, obviamente por se tratar dos grandes embates travados pelos integrantes do TEN, sobretudo pela atuação marcante de sua maior liderança e fundador dessa experiência teatral, cujo objetivo era o combate ao racismo e valorização da História e cultura afro-brasileira. Nesse contexto, percebemos quea sua narrativa nos remete, a nosso ver, as fases mais ricas e produtivas do ponto de vista político e intelectual de Abdias.Não foi por acaso,que essa jornalista dedicou 27 páginaspara relatar ações e lutas antirracistas organizadas pelo Teatro Experimental do Negro durante os anos 40,50 e 60,destacando para nós diversas experiências que surgiram nesse período, a exemplo do jornal Quilombo, umveiculo de comunicação que foi utilizado como uma verdadeira tribuna de luta contra as desigualdades raciais e que contava com a colaboração de escritores e intelectuais do nível de Nelson Rodrigues, Solano Trindade, Carlos Drummond de Andrade, Raquel de Queiroz, Gilberto Freire,etc.Osconcursos de beleza Boneca de Piche e Rainha das Mulatas, pioneiros na valorização da estética da mulher negra brasileira, também são exemplos realçados pela jornalista para que tenhamos uma visão mais ampla e plural do que foram as lutastravadas pelo Teatro Experimental do Negro.

Queremos deixar bem claro que não é pretensão nossa analisar em uma resenha todas as lutas e fatos que Sandra nos oferece em relação a esse teatro produzido por negros e para os negros. Mas, acreditamos que esta obra nos oferece elementos importantes para que possamos compreender o que foi realmente esse movimento cultural negro que marcou as relações raciais no nosso país. Nesse item, podemos afirmar que o livro representa uma boa contribuição no processo de reelaboração da memória do povo negro, tendo em vista que em todos os níveis da educação brasileira poucos são os livros de História que abordam a existência de nomes como do advogado e talentoso ator Aguinaldo Camargo, do pintor Wilson Tibério e do intelectual e crítico de arte Ironides Rodrigues. Particularmente,vejo como extremamente positiva a forma como esta pesquisadora traz para a cena histórica o trabalho de negros e negras marginalizados por essa historiografia racista e ocidentalizada que, a rigor, nos impedi de ver o quanto essa experiência teatral foi importante na compreensão do racismo e na construção do processo de conscientização, luta e organizaçãodos negros daquela época.

Ainda nesse capítulo,concordo com a autora quando mostra que o TEN não estava isolado na sua difícil luta pelo fim da discriminação racial enfrentada nesse tempo pelaraça negra. O livro relata queos membros dessa organização negra mantinham contato comos principais jornais dos afro-americanos, assim como traduziu e divulgou o texto Orfeu Negro de Sartre e ainda reproduziu artigos de um jornal, organizado pelo doutor em ciências sociais Du Bois e a ligação que nutria com o movimento da negritude através da revistaPrésenceAfricaine. Na verdade, o livro é bastante rico em informações sobre o TEN, mas tem uma que merece destaque da nossa parte por se tratar de um debate extremamenteoportuno na educação contemporânea. Falamos da declaração final do I Congresso do Negro Brasileiroque ocorreu em 1950 e que esta escritora discute com clareza no livro. Ora, se hoje as escolas públicas e particulares são obrigadas a ter no seu currículo aulas de História da África e Cultura Afro-Brasileira, não podemos negar que esta foi mais uma das contribuições do TEN para a posteridade e de seu criador Abdias Nascimento, uma vez que neste documento final do Congresso recomendava-se junto ao Estado brasileiro “o estímulo ao estudo das reminiscências africanas no país”(p.88).

Já nos capítulos 6 e 7, o livro traz uma discussão sobre o pan-africanismo, o exílio e como o ativista brasileiro viveu num país onde a segregação racial vigorava de forma ostensiva. A autora informa que Abdias mesmo correndo o risco de ser expulso dos Estados Unidos ele “não deixou de se posicionar a favor da luta dos negros americanos”(p.96). Na Pátria americana,o poeta e artista plástico conviveu com lideranças e organizações negras americanas, além de ter sido convidado para fazer parte de simpósios,palestras, conferências econgressos promovidos por galerias de arte e Universidades. Um dado importante e que merece ser mencionado foi a criação da cadeira de Estudos Africanos no Novo Mundo que esta obra não registra,embora tenha sido uma das conquistas do ativista brasileiro nos Estados Unidos quando ele exerceu a função de professor na Universidade de Nova York. Além desses assuntos, a nossa autora também revela o envolvimento do ator e teatrólogo como pensamento pan africanista em que “Abdias optaria pela vertente nacionalista, encabeçada por Patrice Lumumba, AiméCesaire, Cheikh Anta Diop e Steve Biko”(p.108) , pois não aceitava nem o capitalismo nem o socialismo como alternativas para solucionar a problemática do racismo no mundo, de acordo com os argumentos da jornalista Sandra Almada.

Nocapítulo 8,concordamos mais uma vez com esta autora quando diz que ele foi “o primeiro parlamentar afro-brasileiro a dedicar seu mandato à luta contra o racismo” (p.120). Essa afirmação feita por essa jornalista descreve através das inúmeras lutas políticas que o grande militante negro travaria no Congresso Nacional na qualidade de Deputado Federal e mais tarde como Senador da Republica, para sensibilizar os demais parlamentares da importância de se combater o racismo institucional, objetivando o estabelecimento de políticas afirmativas que pudessem compensar a raça negra pelos séculos de escravidão. Também explicita algumas conquistas e realizações do intelectual depois de voltar do seu exílio dos Estados Unidos. Nesse ponto, podemos perceber que ela abre a discussão falando sobre a criação do Instituto de Pesquisa e Estudos Afro-Brasileiros e como Abdias teve dificuldades para organizar o 3 Congresso de Cultura Negras das Américas por conta das barreiras impostas pelo governo militar,na época.Constatamos nessa parte do livro que o teatrólogo participou da fundação do PDT ao lado de Leonel Brizola, assim como foi o grande responsável pela criação da Secretaria do Movimento Negro deste partido, primeira secretaria de combate ao racismo construída dentro de um partido político na história do Brasil, embora ao ter entrevistado Abdias para fazer esta obra a escritora não tenha observado esse fato histórico. Creio que seria importante, a nosso ver, ela ter registrado essenosso comentário, apenas como forma de reafirmar a relevância da militância do poeta e ativista na história do movimento negro brasileiro.

No capítulo 9, acreditamos que a narrativa do texto destaca aopressão enfrentada pelo candomblé desde os primórdios da colonização no Brasil ena opção religiosa adotada por esse filho de Oxum- o poeta Abdias do Nascimento. Sandra mostra com base em depoimentossuas relações de amizade com a importante sacerdotisa Mãe Senhora e o artista plástico Mestre Didi, ambos integrantes do terreiro  de matriz africana Ilê Axé Opô Afonjá.E, ainda, ressalta a escolha do candomblé na vida do ativista como parte de sua luta contra o racismo e que isto teria surgido em função da discriminação racial praticada historicamente por setores da Igreja Católica.

Finalmente, no capítulo 10, falando sobre as inúmeras homenagens que ele teria recebido em vida, a nossa autora não hesita em afirmar que temas como as políticas de cotas, bem como o próprio debate sobre a implementaçãoda Lei 10.639\03, uma Lei que estabelece o ensino da História e Cultura Afro-brasileira no sistema de ensino seriam mais umas das conquistas das lutaspela igualdade racial do ativista no Brasil, o que concordamos com seu ponto de vista. No mais, temos que reconhecer que esta obra pode e deve fazer parte de qualquer biblioteca,pois ela traz com riqueza de detalhes citações, falas e depoimentos de outros grandes militantes negros do porte de Carlos Moore,Sueli Carneiro, ÉleSemog e Elisa Larkin Nascimento,esposa e companheira de luta do singular e grande pensador das africanidades, comparado a personagens da História mundial como Luther King, Angela Davis eAiméCésaire, diga-se a bem da verdade.Portanto, em síntese, o livro traz uma belacontribuição historiográfica na medida em que esta obra nos oferece o conhecimento de boa parteda história do movimento negro no Brasil e no mundo,tendo como foco central avida do ativista e intelectual Abdias do Nascimento, o qual deve ser visto pelas futuras gerações como o maior ativista negro brasileiro e que contribui com sua luta antirracista para o progresso da humanidade. Logo,ao ler este livro recomendo como leitura obrigatória. É que esta obra faz com que tenhamos que enfrentar as nossaspróprias consciências neste mundo marcado por apatias políticas e por fortes doses de imobilismo em muitos representantes dos excluídos. Eperceber que o seu legado ainda está para ser avaliado em toda sua dimensão histórica e intelectual. Sinceramente, esperamos que outrosmilitantes negros(as), pesquisadores, jornalistas e historiadorestenham a ousadia e coragem de um dia fazer tal empreitada,sob pena de ficarmos eternamente perguntado como entender uma personalidade tão multifacetada e humanista, como foi de fato a de Abdias do Nascimento.

jun
1

Dando continuidade ao nosso Espaço Zumbi. O espaço da literatura negra baiana.  Espaço onde conheceremos os novos atores dessa arte que nos faz viajar sem sair do lugar. Hoje vamos pensar o tempo e toda a sua complexidade,  vamos nos deliciar com a poesia de Sergio São Bernardo, Advogado e militante do Movimento Social Negro, mostrando um pouco de sua vasta veia cultural.

Fiquem com a linda poesia “O Tempo e a Eternidade”.

 

O Tempo e a Eternidade

O tempo é limite.
A eternidade, perfeição.

O limite alimenta a idéia de eternidade:
a perfeição eterna na imperfeição do tempo.
Ao tempo que as paixões olham o tempo com eternidade,
com a serenidade da perfeição,
olho o eterno do tempo da paixão no limite do tempo imperfeito.

Façamos do mundo um tempo que finda.
A eternidade surge no tempo ao tempo que passa…
ficando para depois como algo sagrado!

A temporalidade massacra… a eternidade deleita…
Todo amor não caberia no tempo do mundo;
caberia na eternidade…

Sem palavras e gestos quase tudo se explica.
O tempo que evitamos, oscila e mata!
Mas não se redime – firme no seu caminho…

Entre o que se quer no tempo da vida:
Um desenho de amor na eternidade;
Um perfeito caminho para a paixão;
Um imperfeito caminho para o amor;
Como se não houvesse para a eternidade
o que se originou no tempo;
Como se para a paixão, a razão e a compreensão
fugissem ao tempo;
Como se o amor tivesse que permanecer no tempo.

As paixões! Estas são insustentáveis.
Precisamos do que destina, e convictamente, compactuamos.
Saibamos que o perfeito do eterno é a vigência do tempo.
O tempo preciso e necessário para a noção própria da paixão.

Façamos da paixão uma eternidade terrena…
E do tempo, uma verdade eterna;
Sem desenhos e sem pinturas…

Investimos e cercamos as pessoas
com o afinco lunático da paixão.
O tempo cuida da diluição letal da possibilidade eterna.
O que fica é outra coisa distinta
Não esta coisa cega

Eternamente devemos gozar no tempo os méritos da paixão!
Se se nega tão fácil tão fácil morre-se no tempo…
Se se abre ao universo das paixões
devemos conhecer o tempo e a eternidade!

Por Sérgio São Bernardo

 

mai
30

Inocentes

Dos gritos inocentes e felizes ‘cocoricó’ e ‘ ratinbun’ de Ominirê exala o amor por uma boa história…
(…) E há dias Abdias não me sai do pensamento.

Outras rotas e odisséias quilombistas minha água de sorte percorrerá.

A apresentarei ao super herói do Nascimento e renascimento da Negra esperança por um Negro poder;
Um herói sem poderes sobre-humanos ou exóticos –

Suas armas letais?

O pensamento
A fala precisa e direta
O saber
A honestidade
A ética
A grandeza de caráter
A longevidade das ideias
Seu quilombismo moderno de Exú a Oxalá
de Zumbi e Luiza Mahin aos dias de Abdias.

Do coração florestal nos chega um Código de fumaça, derrubada, queimada e anistia de criminosos ecológicos

Omin reclama, grita, se agita, se irrita

Abdias
Abdias
Abdias

O calor do sol quilombola recebe em Palmares tuas Negras cinzas guerreiras transformadas em pemba da coragem…

Pemba da coragem

Pemba da coragem Negra

Que o vento de Oyá as espalhe
E o destemor de Abdias do Nascimento nos abençoará

Nada de contemporizar com branco babaca!
Com tantos cracks, oxys – infância preta perdida na florestal cidade do Crucificado, não há o que negociar…

Abdias, recebido por Zumbi
Esperança renovada
Honra lavada
Negros sonhos renascidos

Minha água de irê, após tantas fortes narrativas,
ainda inocente, inteligente, perguntará:

-Papai, com quantos Zumbis e Abdias se faz um Negro Poder? Quantas Akotirenes e Lélias são necessárias para gestar esse sonho há tanto imponderável, e, pela esquerda, postergado?

Pedirei calma

Ela repetirá as palavras daquela Estrela de Oxossi que sempre repito em nosso cafofo:

“Meu tempo é agora, não dá mais pra engatinhar, meu babá!”

A verei ganhando as ruas
Com uma juventude Preta que não se deixa escravizar por lideranças brancas,

Construindo e reconstruindo novos Abdias, novas Akotirenes, Kwame Nkrumahs , Zumbis, Dandaras, Mahins, para além da cartilha eurocêntrica de um Marx que não questionou o escravismo- como nos diz, sabiamente, Depelchin, o primeiro crime contra a humanidade…

A verei ganhando as ruas,
Tendo em seus dias, Abdias
A nossa história
A negra História

Reescrevendo-a sem pagar pau pra branquesias de direita ou esquerda…

Abdias
O reNascimento da civilização Negra brasileira
Honrada
Altiva
Valorizada
Ocupando espaços de poder, de decisão, de escolhas

Sem revanchismos e sem subalternização…

Candomblé ensina a nossas almas o culto a inclusão
Candomblé ensina a nossas almas o culto a inclusão
Candomblé ensina a nossas almas o culto a inclusão

Abdias, Lélias, Agostinhos, Akotirenes, Cândidos, Mahins, Licutans, Beatrizes, Solanos, e tantas outras histórias pretas… Luangos, Kayodês, Dandaras, Marias, Israelis, Cauês, Nifés, Senghors, Akanis, Kiluanges, Omins, e Zum…

 

Por Guellwaar Adún

mai
24

A partir de hoje, vamos estrear o nosso Espaço Zumbi. O espaço da literatura negra baiana. Aqui  vamos conhecer os novos atores dessa arte que nos faz viajar sem sair do lugar. Toda semana iremos postar aqui uma prosa ou uma poesia dos mestres da literatura negra do nosso estado.  Para começar vamos entrar na mente de Ronaldo, o personagem do surpreendente conto “Uma rapidinha”, de autoria do nosso parceiro e precursor desse espaço Guellwaar Adún, que certamente estará conosco aqui muito mais vezes.

 

Uma rapidinha

Logo após tomar o depoimento do rapaz, o delegado o dispensara por entender que houve excesso e preconceito dos policiais responsáveis por aquela prisão.

Chegando àquela sala ultra refrigerada da Deltur (Delegacia de Proteção ao Turista), Ronaldo fora encaminhado a outra sala, também refrigerada, a do delegado.

Diferente dos filmes hollywoodianos, nos quais os ambientes policialescos necessariamente são impregnados pelo perfume de cigarros baratos, gerando uma atmosfera bolorenta e pesada, ali se respirava o éter dos Deuses. Mas, sentia frio, muito frio mesmo, quando o delegado chegou.

Para sua surpresa, em menos de uma hora estava livre. O delegado parecia conhecer na pele, os critérios de abordagens e prisões que temperavam as práticas de seus colegas, nas ruas da cidade do Crucificado, especialmente durante o carnaval.

De volta às ruas, Ronaldo só pensava em reencontrar Hercília e tirar satisfações; afinal de contas, o que uma moça de família estava fazendo aquela hora na rua, em pleno carnaval? E ainda por cima vestida com o abadá do Olodum? Não era ela quem nutria ojeriza por festas, multidões e vida noturna?

– Ah, ela vai ter que se explicar direitinho. – Pensava, enquanto adiantava os passos em direção ao ponto onde imaginava estar o Olodum.

Curiosamente, ao longo do caminho, o cheiro de urina não predominava entre os odores vários e misturados daquelas ruas, era como se os Filhos de Gandhy houvessem acabado de passar e incensado tudo com seu perfume etéreo e mágico. O frio era cada vez mais intenso, ele sabia que, alcançando o Faraônico bloco, se aqueceria, porém não sem antes romper com Hercília. Ela não era mais digna de sua confiança.

Qual nada. Bastou cruzar os olhos com ela, que para sua surpresa, sem esboçar palavra, o agarrou, dando-lhe um beijo daqueles, um beijo molhado, demorado. Aquele tipo de beijo que não se pode, nem se deseja evitar… Desarmou-se.

O bloco já estava no Forte de São Pedro quando se encontraram. Oliovaldo, seu amigo, entregou-lhe seu abadá, sugerindo um cantinho na Ladeira da Concha para vestir-se; Porém, de súbito:

– Oli, obrigado! Valeu, por pegar minha ‘parada’ na sede, mas perdi o tesão pra carnaval hoje. – Ronaldo não teve tempo de digerir a decepção com Hercília, mesmo depois do beijo.

-Colé, veio? O que tá havendo? Tô te estranhando, mano. – retrucou, tentando demover a indisposição do amigo.

– Depois te explico preto, depois te explico, tá fixe? – E voltando-se para Hercília – Você vai ficar?

– Não, vou com você. Só não queria ir pra casa sem antes a gente conversar. Eu sei que estraguei seu carnaval, mas posso explicar. Você deixa? Aliás, nós dois nos devemos explicações um ao outro. Pelo que eu saiba você deveria estar no interior agora, não era? – Hercília foi letal ao indagar.

Ele desejava ser forte e dispensá-la ali mesmo. Ela traiu sua confiança, mas ao lembrar que ele também havia cruzado o sinal vermelho, pensou: ‘Fudeu!’

A sugestão de irem para o Porto da Farra foi dela. Ficaram nas pedras, conversando, se explicando. O tempo estava gelado, e ficar perto das ondas não foi tão boa idéia. Mas, era o único lugar deserto que encontraram para discutirem em paz, sem precisarem controlar seus próprios decibéis, mixados pela raiva, em parte dissipada, com a caminhada que fizeram até ali.

Lá ao longe, Vander Lee cantava e o vento gelado trazia sua voz

“(…) Cada dia que passo sem sua presença…

Sou um presidiário cumprindo sentença

Sou um velho diário jogado na areia

esperando que você me leia

Sou pista vazia…esperando aviões(…)”

Certamente foi convidado por Brown ou Daniela, pensou ele. Mas, que incrível, aquele era o tema deles dois, foi ao som daquela música que deram seu primeiro beijo. Olhava para Hercília e ela estava ainda mais bela do que no primeiro dia que a viu, toda imponente adentrar a padaria onde ele trabalhava.

Seu cabelo trançado, sua pele, tez da noite, refletindo o prateado da lua e das ondas iluminadas, suas coxas macias e carnudas (…). Para que discutir? Uma rapidinha com Hercília, no meio daquelas pedras úmidas, até que não seria ruim. Pensava, ele. –Se beijaram. Tentava, naquele beijo, esquecer o frio; a dificuldade de transporte que enfrentara para se locomover entre seu bairro e o centro da cidade; seu Joaquim, seu patrão, com sua avareza desenfreada que não o liberara mais cedo, naquela sexta de carnaval; a batida policial que sofrera logo ao chegar próximo a saída do seu bloco; sua surpresa ao ver Hercília, em pleno carnaval, a despeito dela sempre dizer não gostar de multidões, muito menos do período momesco. Enfim, era um saco de problemas que ele acumulou como bagagem naquele dia, precisava relaxar e esquecer.

Já tinha os mamilos duros, arrepiados e pontiagudos de sua namorada em sua boca, lambia-os como um desesperado. As ondas temperavam com sal aquele par de peitos, eram deliciosos. Sua língua se demorava e percorria a trilha de arrepio que se agigantava e se estendia por todo seu colo, até o pé do umbigo. Ele seguia aquele caminho, mordiscando, lambendo, beijando. Lambia e mordiscava aquela pele macia, enquanto ela buscava seu membro com as mãos, com as pernas, com a boca e devorava o sexo de seu homem, como poucas vezes o fez. O engolia por inteiro, mas não sem antes lamber vagarosamente a glande daquele pau que se agigantava ainda mais a cada devorada. Estavam loucos de tesão. Ela estava encharcada e cheia de vontade de ser penetrada por Ronron, ali mesmo. O cantor mineiro continuava sua cantoria, a febre dos dois aumentava, estremeciam. O mar deveria cheirar a sexo quando ele se pôs entre as coxas dela e, milimetricamente, deslizava a ponta de sua língua ao redor daquela sinetinha molhada. Sorvia aquele clitóris intumescido como se fosse a última coisa a fazer, antes do fim do mundo. Algumas vezes, de forma vigorosa, noutras nem tanto, de vez em quando parava de chupá-la para beijar suas coxas, seu monte de Vênus, as dobrinhas daquelas margens vaginais, e ali mordia gostosamente sem vontade de parar. Ela com as mãos e as pernas, sem esboçar palavra, num gemido intermitente, o empurrava para sua zona molhada e ele a surpreendia começando e parando, o compasso era assimétrico e arrítmico.

Vander Lee era uma vez mais o tema deles, naquele mágico momento. Ela prendia a cabeça de Ronaldo e puxava sua cabeça, sufocando-o dentro dela. Entre morder suas coxas, interrompendo momentaneamente suas lambidas, beijos e mordiscadas com os lábios e com a ponta dos dentes, ele passava seu nariz e face por entre aquela fenda umedecida e respirava o cheiro de sua fêmea. Ela dizia que queria senti-lo dentro dela, inteiro, pulsando. Era tudo o que Ronaldo mais queria naquele momento. Foi penetrando-a e ao afastar, com seu membro enrijecido, lentamente, seus pequenos lábios, depois seus grandes lábios encharcados de tesão… Despertou!

Aquela área do HGE parecia um açougue, um cheiro intenso e ruim invadia suas narinas com dificuldade de respirar. Há quanto tempo estaria ali? Por quê?

Seu pulso algemado à cama o deixara ainda mais confuso. Olhava para todos os lados em busca de respostas. Um policial se aproximou. Conversaram.

Ele fora tão brutalmente espancado pelos policiais naquela sexta de carnaval, que ficou inconsciente durante três dias seguidos. Os policiais justificaram aquela violência, argumentando que Ronaldo resistiu a prisão e tentara fugir, agredindo-os fisicamente. Para contê-lo usaram de força física, “aparentemente”, acima do suportável. Na verdade Ronaldo ao ver Hercília em pleno carnaval, ruminou uma angústia tão profunda que surtou.

Ele se descontrolara, ao ponto de gritar e se debater para chamar atenção da moça, que aos poucos se afastava indo na direção do Olodum. A esse descontrole histérico, os policiais responderam com choques, pontapés, chutes na boca, murros na barriga, na cara, na moral, na boca, na alma, na identidade e em todas as áreas representantes de ameaça. Eram seis policiais gorduchos, compactos e raivosos.

“(…) Cada dia que passo sem sua presença…

Sou um presidiário cumprindo sentença

Sou um velho diário jogado na areia

esperando que você me leia

Sou pista vazia…esperando aviões(…)”

O policial responsável por sua guarda no hospital se afastou para atender seu celular.

Uma enfermeira se aproximou, deslizou em sua boca uma bola de algodão umedecida e depois foi embora. Ronaldo a olhava, cheio de interesse.

– Ao menos ela é gostosa, né? – Pensou consigo mesmo e voltou a dormir anestesiado.

 

Por Guellwaar Adún

 

Governo da Bahia               ©2017 | IRDEB - Instituto de Radiodifusão Educativa da Bahia. SECOM - Secretaria de Comunicação Social