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29 anos após a morte do cineasta baiano Glauber Rocha, o artista é anistiado por unanimidade

Criador do “Cinema Novo”, o artista foi preso em 1965, sofreu perseguição, exílio e censura. A família recebeu indenização e pedido de desculpas do governo

Por Arlon SouzaGlauber Rocha

Provocador por natureza, Glauber Rocha (1938–1981) era movido por ideais que íam muito além das convicções artísticas. Conhecido pelo famoso conceito “Uma câmera na mão e uma idéia na cabeça”, ele fez do cinema um grande instrumento de contestação política, artística e cultural. Inclusive, incentivava amigos a se engajar politicamente. O poeta e compositor Galvão, ex-integrante do grupo Novos Baianos, foi candidato a deputado, a partir de um encontro casual com o cineasta. Mas, não se elegeu.

Guiado pelo combate à repressão, à censura e à todo sistema ditatorial da época, ele se tornou um dos principais alvos dos militares. Exilado em Cuba e em Nova Iorque, na década de 70, ele foi impedido de trabalhar no Brasil e sofreu prejuízos na produção artística. Filmes, como “Terra em Transe”, de 1967, que ganhou os prêmios Luiz Buñuel e da Federação Internacional de Imprensa Cinematográfica, chegou a ser proibido em todo território nacional, por ser considerado “subversivo e ofensivo à Igreja Católica”. “Cabeças Cortadas”, de 1970, só foi liberado para exibição depois de cortes.

glauber-rochaPor essas e outras razões, a última esposa do artista, Paula Gáitan, recebeu uma indenização de 234 mil e 600 reais retroativos. A entrada no processo, feito pela filha mais velha, Paloma Rocha, foi em 2oo6.  Gáitan também teve direito a uma pensão vitalícia, no valor de 2  mil reais. O ato simbólico do julgamento do processo de anistia, no Teatro Vila Velha, foi marcado pela encenação do Bando de Teatro Olodum.

A família de Glauber, a viúva, os filhos e a mãe, dona Lúcia Rocha, se emociou muito com a cerimônia. Eles acreditam que o cineasta ficaria muito feliz e honrado, se estivesse vivo. Emocionada, a mãe do cineasta foi de poucas palavras.

“Eu acho que é um arrependimento, eles tão pedindo desculpas pelo que fez”, resumiu dona Lúcia.

Contemporâneos do artista, como o cineasta Orlando Senna, o considera um dos precursores do movimento pela anistia.

“Glauber foi um dos maiores lutadores pela anistia, ele falava justamente nesse conceito pela anistia, da necessidade de uma anistia, ampla e irrestrita, mas que ainda não chegou a ampla e irrestrita, mas já vivemos a anistia. E, além disso, eu acho que também é uma homenagem que deve ser feita todos dias, se possível, a um dos maiores gênios de nossa raça, como ele mesmo gostaria de dizer”, prestigia.cabeças

Artistas, amigos e autoridades que estiveram presentes no evento, como o ministro Juca Ferreira, reconheceram que ainda há um longo caminho para a consolidação da democracia.

“Nessa fase que nós estamos vivendo, nós temos grandes desafios para fazer do brasil uma grande sociedade, que a gente possa corrigir as mazelas históricas, a desigualdade social, a barbárie ambiental, a violência, a miséria, todas essas mazelas históricas são enormes. Mas, você não constrói democracia tendo muito recentemente um período autoritário e esquecer esse período, pelo contrário, você tem que trabalhá-lo no sentido que você aprenda com esse período e não permita que ele volte a acontecer”, alertou o ministro.

E aos cineastas, pesquisadores e interessados na sétima arte, fiquem atentos. Roteiros, filmes, desenhos e escritos do artista terão um centro de preservação na Bahia, semelhante à associação Tempo Glauber, no Rio de Janeiro. Com investimento da secretaria de cultura do Estado, logo, logo, todo o acervo do artista vai estar disponível em formato digital.

Toda a emoção do julgamento da anistia de Glauber, você testemunha no Soterópolis desta semana. Quinta-feira, às 19h30. Domingo, às 18h.

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