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Coisas de um país não preconceituoso

Por Daniel Campos* 

Juíza, Luislinda Dias Valois dos Santos

Em 2003, a juíza Luislinda Dias Valois dos Santos proferiu a primeira sentença brasileira baseada na Lei do Racismo. 

Deu ganho de causa a uma negra acusada de ter roubado um frango e dois sabonetes da principal rede de supermercados da Bahia.  

Declarada a sentença, Luislinda foi ameaçada de morte. Mas isso não era novidade na vida da primeira juíza negra do Brasil.  

Negra, mulher, divorciada, nordestina e de origem pobre, ela costuma dizer que se for morta seu assassino será o racismo. 


Tinha nove anos quando um professor lhe disse que seu lugar era na cozinha de uma branca.  

Ao ser aprovada no concurso público para procuradora, uma Bahia comandada por coronéis brancos mandou-a para Curitiba.  

Para regressar, passou no concurso da Justiça Estadual da Bahia e foi exilada em uma comarca sem luz, telefone e água encanada. De pronto, foi avisada de que, mais dia menos dia, seria morta.  

Fez um curso de justiça célere na Austrália e, ao aplicar esse processo por aqui, quiseram saber o que ela ganhava julgando com rapidez.  

Advogados já pediram cancelamento de audiência ao saber que a juíza não era branca. Muitos ainda se perguntam o que aquela mulher de rastafári vermelho faz sentada na cadeira do juiz.  

Certo dia entrou em um banco e foi chamada e tratada como bandida pelos seguranças. Depois de alguns sustos, passou a ter cuidado com a água que bebe e com o percurso que faz diariamente.  

Foram muitas as intimidações para que ela renunciasse à magistratura.  

Como não conseguiram matá-la fisicamente, fecharam-lhe todas as portas do Judiciário. Sem se intimidar, passou a fazer audiências na periferia, nos alagados, nos quilombos.  

De barco, ônibus ou a pé, a juíza tentou levar justiça à população mais carente.  

Porém, foi duramente censurada. Até mesmo do premiado projeto Balcões de Cidadania, do qual foi idealizadora e coordenadora, foi afastada.  

Mesmo ganhando diversos prêmios e homenagens, Luislinda é tida, dentro do meio, como uma juíza menor.  

Ela tem certeza de que muito do problema do preconceito está dentro do Judiciário, ainda branco e machista.  

No Brasil, pouco mais de 1% dos juízes se declaram negros e a maioria, principalmente nas instâncias superiores, é do sexo masculino.  

Aos 67 anos, a filha de Iansã tem todos os requisitos necessários para se tornar desembargadora.  

Só que Luislinda não precisa jogar búzios, ler cartas ou freqüentar o terreiro de mãe Bebé para saber que ninguém a quer como desembargadora. Como juíza, já incomoda muita gente.  

*Daniel Campos é poeta, escritor, jornalista, pós-graduado em Comunicação Criativa pela ABJL e autor do portal de literatura e poesia www.danielcampos.biz

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4 Comentários para “Coisas de um país não preconceituoso”

  1. MILKA SANTOS disse:

    Esta matéria pode ser usada como TEXTO para interpretação em sala pq, com ele, podermos andar 400 anos atrás, da história do Brasil e através deste, provocar discussões sobre os valores historicamente construídos pelo poder br Q NA ATUALIDADE, AINDA PRODUZ ESTAS E OUTRAS TENTATIVAS DE NEGAR O PODER NEGRO, SUA FORÇA. NOSSOS JOVENS E CRIANÇAS PRECISAM DESTES TEXTOS NAS SUAS AULAS DE PORTUGUES, E PODE SER LIDO TB NAS REUNIÕES DE MÃES, PAIS OU RSPONSÁVEIS.

  2. ivoni gama disse:

    Vou usa-lo nas minhas oficinas de Quesito Cor com os meninos da Fundação Casa. Ótimo!

  3. Eremita Paixão disse:

    Concordo com você milka e como ativista da igualdade em todos os sentidos levarei esse texto e as idéias da nossa grande magistrada para a palestra sobre “resistência da mulher negra”.

  4. maria aparecida chiaradia finamor e silva disse:

    Fiquei impressionada com o depoimento após o capítulo da novela Viver a vida do dia 4 de maio.
    Fui para o computador procurando pela “Primeira Juiza Negra do Brasil” e li todas as informações sobre essa MULHER vencedora.
    É uma história, não digo maravilhosa, mas uma história de vida e de vitórias. Quem dera se existissem outras “Luislindas” pelo mundo afora!
    Gostaria de deixar aqui (não sei se estou sendo audaciosa) um abraço a essa verdadeira cidadã brasileira. Que Deus a conserve lutando por um país mais justo.

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